Parte 9 - Jenepy-Urso *

Não sei exatamente em que momento isso aconteceu. Não faço a menor ideia. Se foi quando a gente fez a curva ali na floresta, seguindo o Catarino... Se foi antes, se foi depois... A impressão é que de repente a gente não está mais na floresta, a gente está no Grand Canyon. Ou melhor, num Grand Canyon alienígena, já que aquele céu maluco está logo ali em cima zombando de nós.

Bella me cutuca espantada. Nem precisava uma olhada rápida pra eu perceber que está todo mundo besta com isso.

- Uau... - Ela fala finalmente.

- Teletransporte. - Jardel comenta e desfaz a cara de espantado.

A gente continua andando, claro! A gente continua, até porque nem o Catarino nem os cogumelos pararam não.

E o céu... Cara, o céu! As linhas vibram como se fossem formas de vida! Formas de vida luminosas. Ou sei lá o que é aquilo. De repente bateu um frio.

- E o céu é porque a gente se teleportou pra outro planeta. - o Jardel fala, com segurança. - Que nem aquela série Star Safari.

Puxa vida... Devia ter feito faculdade de psicologia... Essa zona aqui era um prato cheio. O carinha ainda está com cara de besta e simplesmente não fala mais nada, só olha para os lados, sendo levado pelo grupo, como a gente andando pra onde não quer em um show, só porque o povo ao nosso redor tá com vontade de ir naquela direção, sabe?

Pensando bem, acho que psicólogo não resolvia. Tinha que ter um psiquiatra logo! E acho que também vou precisar de um, quando voltar. Se é que a gente volta.

A terra parece terra normal, pedras normais avermelhadas. Estamos num deserto e até onde se pode ver, continua deserto por um bom tempo. Deserto de esculturas feitas por erosão. Um Grand Canyon louco.

Esse céu verde e laranja...

- Mario?

- Fala, Bella.

- Nada não.

- ...

- Eu ia perguntar se você está vendo o que eu estou vendo - tudo isso -, mas acho que não preciso mais.

- É, Bella, acho que todo mundo está vendo isso...

- E o galho que o Vistafera te deu?

- Caiu.

Bella sorri como quem diz "É, eu vi". Ela olha o chão enquanto caminhamos.

- Eu sei porque você não segurou.

- ...

- As coisas daqui são muito diferentes das coisas do nosso mundo. Lembra quando chegamos aqui? Ontem? As plantas parecem ser de metal!

- É verdade, Bella. Era como se o galho estivesse vivo, vibrando e pesado. Simplesmente não dá pra segurar.

- Acho que entendi onde estamos.

- ...

- Lembra que o Catarino falou de um tal de "mundo dentro do nosso mundo"?

- Lembro sim.

- Acho que é onde estamos. Devemos estar do lado de dentro da Terra.

- Como assim, Bella?

- É! Você já viu na TV quando falam de peixes do abismo? Eles são muito fortes e feios. Tudo lá é diferente por causa de... Da pressão atmosférica, né? Então por isso também que aqui deve ser diferente...

O que ela quer dizer com isso? Não sei, mas continuamos em nosso caminho. Ela continua de cabeça abaixada, acho que está procurando galhos secos, já que eu não consegui segurar o que o Vistafera me deu. Aqui não tem muita coisa, mas ainda tem alguns galhos secos pelo chão. Talvez seja uma das poucas provas de que estivemos há pouco tempo dentro de uma floresta, sabe? Que não chegamos aqui por causa de teletransporte nenhum.

- Caraca, meu! - Jardel grita e aponta pra frente.

Há um estreito muito emprensado entre a montanha de pedras e o despenhadeiro. A passagem é muito pequena e não dá para uma pessoa, nem se arrastando. E ainda está obstruída por pedras enormes. Catarino para e olha em nossa direção, mas não diz palavra.

A estrada em nossa frente começa a se torcer e logo temos de novo um caminho.

Todos se olham tentando entender como é que foi isso. Simplesmente agora temos um caminho por onde seguir. Catarino faz sinal de confirmação com a cabeça e se vira novamente para continuar a nos guiar. Acho que ele se comunicou com os cogumelos de algum jeito.

- Acho que foram os cogumelos. - Deixo escapar.

A Bella levanta o rosto e olha pra mim com olhar estranho. Então começa a rir descontroladamente.

- Deve ter sido mesmo!

- O quê?

- Hahahahah! Os cogumelos, ué! Cogumelos costumam fazer essas coisas. Hahahahha!

- Como assim, Bella?

- Fazer a gente ver essas cosias estranhas... Hahahahahah!

Ela olha para baixo ainda rindo. O chão não é mais pedra. É como se estivéssemos caminhando em uma enorme poça de lama. Meus calçados afundam um pouco. Um barro talvez, ou uma camada de areia movediça.

- Cara, esse planeta é estranho! - Jardel grita lá de trás com a voz alterada. - Não faço mais outra viagem dessas. Se vierem pra cá de novo, não me chamem. Prefiro ficar em casa na Terra mesmo.

Bella me dá um sorriso de cumplicidade. Pelo "segredo" que ela descobriu, eu acho. Aquilo de estarmos dentro da Terra.

No fundo isso não é segredo. O Catarino falou que estávamos no... Intramundo. O curioso é que a gente chegou aqui nesse tal de Intramundo de um jeito que pareceu teletransporte. Será que isso existe mesmo dentro da Terra? A gente não chegou cavando. Sabe, podemos também estar num tipo de mundo espiritual, não sei...

Bella me cutuca com o cotovelo. O que será que ela...

- Bella!?

O galho parece se mexer um pouco.

- Ei, anda! - Jardel me empurra e todos continuamos a caminhar.

- Você viu isso? - Ela me pergunta baixinho e tenho que responder que sim com a cabeça. - Consegui fazer de novo!

- Incrível.

- Será que é algum poder especial?

- Não sei.

- Nunca fiz isso na vida. Deve ser influência desse lugar.

- Será?

- Deve ser! Tenta você também! Vai que você também consegue!

- Acho que não.

- Vamos! Olha ali! Tenta aquele!

- E como é que você faz?

- Eu não sei, eu só sinto alguma coisa nele e tento mexer. É como se tivesse um "espírito do galho".

- Não, Bella, não sei como testar isso.

- Testa, vai! Você consegue!

Vamos lá então. Pra mim aquele galho é só um galho seco de uma planta estranha, de uma forma de vida que eu nunca vi antes, apesar de visualmente parecer com as plantas que tem na Terra.

Pronto, passamos pelo galho e nada.

- Ah, Bella, consigo não.

- Você nem tentou! Tem que sentir o galho. Tente se comunicar com o espírito do galho!

- Não sei como você faz.

- Tem que sentir a natureza, ó!

- Não sabia que você era tão natureba assim.

- Nunca fui, mas a daqui parece diferente. Mais viva! É como se a gente estivesse no coração do mundo, na terra dos deuses!

- Pode ser, pra mim é só uma terra muito muito estranha, sabe?

- Tá, deixa eu mostrar.

Há mais alguns galhos ali, perto do despenhadeiro. Bella estende a mão para eles e um começa a tremer, logo cai.

- Viu?

- Vi! -Alguém fala animado perto de Bella, nos dando um belo susto.

- Vista!!

- Parece que você tem mesmo um poder de mover coisas, mas coisas muito pequenas, pelo jeito. Ou um poder muito pequeno talvez.

- Como é  esse poder?

- Eu não sei! Você é que tem ele! Espera.

Vistafera voa para perto do Catarinno.

- Talvez haja alguma armadilha por aqui.

- Você achou algo?

- Não, mas talvez haja.

- Claro, Vistafera. Por isso pedi para você procurar.

- É, eu sei! Vi alguns movimentos estranhos lá na frente.

- Huxacs?

- Talvez, mas não tenho certeza. Talvez sejam hocauros.

- Hmmm... Eles não teriam um jeito fácil de chegar aqui, não acha?

- É, acho que não. De qualquer forma estou dizendo o que eu acho e não o que eu vi. Ainda não vi nada com clareza, mas talvez eles estejam planejando uma armadilha ou uma emboscada.

- Dá uma olhada lá na frente então.

- Ok, vou indo. Estejam atentos a qualquer coisa.

Ao invés de ir para a frente, Vistafera volta até nós dois.

- Ei, vou ali dar outra olhada e venho já. Ah, talvez você tenha poder sobre coisas se decompondo! Venho já. Fui!

E vai embora voando rápido, sob um olhar de reprovação do Catarino.

- Se decompondo? O que você acha, Mário?

- Muito estranho. E você ouviu a conversa dos dois?

- Ouvi... Será que eu só tenho poder sobre coisas mortas?! Isso é bem macabro!

- Hmmm... Você ouviu falar sobre poderes de telecinese que só funcionam em um tipo de coisa?

- Acho que não. Como é isso?

- É, gente que só tem poder sobre um elemento químico. Sobre o ouro ou sobre o plástico, essas coisas.

-Não, nunca ouvi falar não.

- É como se fosse telecinese, mas que não funiona em tudo, só quando...

- Acho que foi a Bariomap.

- O quê?!

- Uma parada nova que trouxeram pra mim.

Mais uma droga. Por que ela não se corrige?

- Talvez seja ela. Dizem que tem coisa do tipo que faz uns efeitos mais malucos. Quer dizer, será que isso tudo aqui não é por causa dela também?

- Não, Bella, não é.

- E se for? É que tá tudo parecendo tão real, eu me sinto tão viva, mas de um jeito normal, sem tanta bagunça na minha cabeça... E... E se isso tudo estiver passando só dentro da minha cabeça?

- Bella...

- É, pode ser... Mas deixa pra lá.

- Por que você não para?

- De quê?

- Dessas drogas.

- Não dá mais, Mário.

- Sabe uma coisa que não entendo? Por que você não para? E como você consegue manter esse... Esse vício?

- Vício? Mário, você não viu nada. Eu luto todo dia pra não afundar. Conheci muita gente muito pior do que eu. Eu tenho sorte. Agora vamos mudar de assunto que esse papo me deixa deprê.

- Pelo menos agora você parece bem.

- É, tou em paz, eu acho. Haha! Tá vendo que isso parece uma viagem estranha? Como num sonho e você é a minha consciência!

Jardel passa no meio da gente e pega o ombro do Catarino, que já estava parando.

- Peraí, já deu! Pra onde é que a gente tá indo? Preciso saber pra onde a gente tá indo, cara! Essa confusão já deu mesmo!

- Já expliquei sobre Cenu e Tolt.

- Já, já sim, mas ainda não explicou o que que a gente tem a ver com isso, caramba!

- Vocês, nada. O único que tem a ver com isso é ele. - E o Catarino aponta para o bandido, que está todo assustado perto dos cogumelos.

- Tá, eu lembro que você falou alguma coisa sobre chave, mas o que isso quer dizer?

O Catarino respira fundo. A essa altura todos já pararam para ver a cena. O clima é tenso, mas apesar de tudo o Catarino parece tranquilo. Então ele fala.

- É óbvio para todos nós daqui do Intramundo. Ele possui a aura que é a chave. Eu falei para vocês sobre o Canal de Vida. Pois ele é a chave que garantirá que a próxima criatura será de Cenu e não de Tolt.

- Tá, e como ele faz isso? Você vai colocar ele numa porta gigante e girar?

- Ele precisa ser sacrificado.

- O quê!? - O carinha grita lá atrás e tenta correr, mas para diante do cogumelo marrom. - O que você fez?!

Os pés dele estão presos ao chão. É, parece que os cogumelos transmutaram a terra de novo, dessa vez pra impedir que o figura fugisse.

- Sacrifício?

- É, podemos continuar agora?

- Cara, isso é loucura! Pensei que esse seu Cenu fosse o do bem e esse Tolt o do mal. Agora tou confuso.

- Se eles conseguirem o que querem, não haverá lá em cima a vida como vocês conhecem. Isso inclui vocês também. Precisamos fazer tudo o que estiver a nosso alcance para impedir que aconteça. O sacrifício é por vocês.

- Ah, droga! Me deixa sair daqui! Eu quero ir embora!

O sujeito começa a arranhar as próprias pernas desesperado, tentando se soltar da armadilha que o cogumelo fez. Ele cai e se levanta de novo com dificuldade. E os pés dele ainda estão colados no chão.

- Cara, na boa - Jardel fala com o Catarino. - Que maluquice da porra é essa? Como é que matar um figura lá que vocês nunca viram antes vai fazer o seu deus do bem lhe ajudar? Isso não faz nenhum sentido!

- Como eu disse, basta olhar para ele para percebermos que ele é a chave. É totalmente claro para nós daqui. Vocês é que são incapazes de perceber isso.

Os cogumelos confirmam com um sinal de cabeça.

- Isso tá parecendo crendice de fanático religioso, como aqueles terroristas que explodem bombas por aí.

Bombas... Sei muito bem como é isso. Lembro quando recebi  a notícia da morte do meu pai. Ele era uma boa pessoa. O ódio faz seres humanos parecerem monstros e atacarem com tanta crueldade... Minha mãe também era programadora e ficou com medo de ser a próxima na lista daquele grupo, o tal de Unabomber na Bahia. Então, mudamos de cidade pra tentar escapar. Não adiantou.

- Mario? Você tá legal?

- Tou sim, Bella. Só lembranças... Lembranças ruins.

- Eu entendo, Mario. Vamos andando?

- O que houve com essa história toda?

- O Catarino falou só sobre essa tal da profecia e pronto.

O sujeito que estava preso no chão está agora debaixo do braço de um dos cogumelos, o que tem um chapéu preto.

- Dá pra acreditar nisso!? Ah, cara, devia ter ficado em casa ontem! Eu não tinha me metido nessa enrascada maluca!

O Jardel fala visivelmente contrariado e passa a caminhar conosco.

- Dá pra acreditar nesse cara?

- Quê?

- Esse... Esse Catarino! Isso deve ser parte de um grupo terrorista interplanetário, só pode.

- Jardel...

- Quê?

- Ejens!

O Catarino aponta a parede ao nosso lado. Antes que possamos entender o que ele quer dizer com isso, a parede se deforma. Parte da parede estranhamente se derrete e escorre, abrindo uma passagem. Não uma passagem, um túnel.

Olho pra trás e... Ah, eu sabia! Só podia ser coisa dos cogumelos mesmo!

- O que eles estão fazendo? - Bella pergunta ao Catarino.

- Um esconderijo.

- Do que temos que nos esconder?

- Não questionem. É para a segurança de vocês.

- Está feito. - O cogumelo marrom fala para o Catarino, que gesticula pra que todos entremos lá.

- Como é que é!? - Jardel, para variar - Você quer que a gente fique aqui dentro?

- Me solta! Eu não vou entrar aí não!

Ele não tem escolha. O cogumelo leva o carinha até dentro da caverna e o prende no chão. Daquele mesmo jeito anterior, fazendo o chão abraçar as suas pernas.

- Tenha calma.

- Calma uma porra! Você não tá vendo!? Você ouviu? Eles querem me matar!

- Ah, meu, na boa. - Jardel chega. - Você vive de quê? É um bandido dos infernos! Já devia estar acostumado a viver na beira da morte.

- Ei!

- Que foi, Mario?

Eu aponto e todos veem a luz indo embora aos poucos. Os cogumelos fecharam a parede.

- Não acredito que fizeram isso com a gente!

- Calma, Jardel, é pro nosso bem.

- Que nosso bem, maluca! Eles nos trancaram aqui! Se bem que é até bom por um lado, sabia? Podemos conversar sem eles ouvirem.

- Eu tenho que sair daqui.

- Seus pés?

- Ainda estão presos, droga!

- É o seguinte: certamente a gente tá em outro planeta, ok? Vocês acreditam nessa conversa toda de um mundo dentro do outro? Vocês viram o céu. Se a gente estivesse dentro da terra, a gente estaria... Ah, droga, assim! Agora a gente está dentro da terra, no escuro! Mas de outra terra, de outro planeta! Vocês estão vendo isso, né?

Vendo o quê? Eu mesmo já cansei de tentar adivinhar o que está acontecendo. Apenas espero a reação dos outros dois, já prevendo o que vão dizer.

- Quem se importa onde a gente está! Eu tenho que dar um jeito de fugir! Vocês tem que me ajudar a me soltar!

- Peraí, deixa eu ver... - Jardel parece que vai tentar.

- Olha, vocês deviam acreditar no Catarino. Se ele fosse de mentir, ele não diria que tinha que sacrificar ele, né?

Faz sentido.

- Você que se engana! Ele deve estar querendo matar a gente tambem! Ele disse que era só o carinha pra gente não dar muito valor. Já vi uma coisa assim num filme de nazismo, tá ligada? Aquela história antiga de guerra.

- Eu acredito no Catarino.

- Claro que acredita: você é a cachorrinha dele! É só ele chegar perto que fica aí abanando o rabinho!

- Dá pra me soltarem?

- Meu, eu estou tentando ver aqui. Isso aqui é pedra pura! Só se eu tivesse um martelo. Quem tem martelo aqui?

- Tem que ter um jeito. Você tá com o celular? De repente...

- Espera. Que barulho é esse?

- Parecem animais brigando.

- Espera.

O barulho é estranho. Parecem... Não sei, animais ferozes.

- Devem ser ursos.

- Ursos, Jardel!?

- Claro! Vocês ouviram o nome do lugar que a gente tá. Não sei o quê do urso.

- Eu vou morrer... - O figura se senta no chão em puro desespero.

- Isso não parece urso...

- E é, sabichão? Você já viu algum urso dessa terra esquisita por acaso?

- Podem ficar quietos um pouco!? - Bella fala com sua expressão espantada.

É um espanto bonito, quase teatral. Todo mundo se cala por um tempo. Menos o carinha, que fica ali choramingando.

Dá pra entender a dele, claro. Quem ficaria feliz com essa história de "sinto muito, mas você tem que morrer pra salvar o mundo"?

- Ainda acho que devem ser ursos.

- Quieto.

- Todo mundo sabe o que fazer se for um urso, não é? É só deitar no chão e se fingir de morto.

- Você podia começar agora calando a boca!

#11

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