Parte 8 - Cruzada

- Vocês? - É a voz estridente de Vistafera. - Já terminou a reunião.

Bella continua séria ali, do mesmo jeito. Por quantos minutos ficamos aqui parados vendo esse galho se mover, no meio dessa plantação de cogumelos? Cadê o povo? Os dois continuam ali conversando. Devem estar discutindo se estão ou não em outro planeta... Haja paciência.

Ali! Ali está o Catarino! Encostado numa árvore olhando pra gente, pensativo. Será que viu a Bella movendo o galho? Ela parece tão distraída ainda...

O Catarino se desencosta da árvore e vem caminhando devagar. Se aproxima de nós e diz.

- Amanhã de manhã partiremos.

- Oi! Pra onde? - Bella desperta do transe e responde, com um sorriso no rosto.

- Vocês descobrirão.

- Tá.

Nem discuto mais. Sério. Ainda bem que o meu lance com a Bella é só amizade mesmo. Senão eu tava morrendo de ciúmes desse cara até hoje! Nunca vi uma mulher ficar tão entregue... Tão... E ele parece que nem nota. Deve ter muitas preocupações em mente pra perceber essas coisas... Se é que o cara é humano mesmo. Nesse mundo cheio de gente estranha, e ainda chamaram ele de... Penedo, acho. Sei não...

Ele se afasta e a Bella fica suspirando.

- Parece um sonho esse mundo...

- Como assim, Bella?

- Um mundo tão diferente... - Ela fala, feliz. - O Catarino por perto o tempo todo... Cogumelos caminhando... Uma abelhinha que fala... É uma viagem muito doida, Mário! Fico só pensando que hora é que eu vou acordar.

- É mesmo...

- Mas queria acordar logo não.

O carinha dá uma gargalhada, assim do nada mesmo.

- Isso não é real! É claro que não é!

Os dois parecem estar mesmo em crise. E eu começo a pensar que eu também estou. Todos estamos. Bella se sentindo a Cinderela, os dois sem aceitar o que estão vendo, como esquisofrênicos ou sei lá o quê. E eu aqui, sem saber o que pensar, analisando a reação dos outros o tempo todo, talvez até mesmo pra não ter que pensar com profundidade no assunto... Vai saber...

- Tá brincando... Claro que tá acontecendo, não tá vendo? - Jardel - Nós não entendemos porque isso está além da nossa compreensão. Estamos em território alienígena.

Ele não deixa de ter razão, mas estamos em um mundo dentro do nosso mundo, pelo que entendi.

É, e eu fico aqui nessa de pseudocientista, como se dizer "estamos em um mundo dentro de outro mundo" fosse uma explicação suficiente pra gente não endoidar...

- Cadê ele? - Bella pergunta, de repente.

Olho à volta. Verdade... O Catarino parece que sumiu.

- Ele volta amanhã cedo. - Vistafera voa para perto de nós e fala isso. - Vamos todos descansar, ok?

- Ah, velho, estou com fome! - O carinha reclama.

Realmente, não parece haver comida ou nada parecido por aqui. E os cogumelos estão parando. Talvez estejam começando a tentar dormir.

- Tá legal, a gente come o quê? - Pergunto para o Vistafera. Estou começando a ficar com fome também. Muito mais fome do que sono, pra ser mais exato.

- Assim não dá! - Jardel grita ao ver a expressão indiferente de Vistafera. - Que merda de recepção é essa? A gente traz o cara aqui...

- Calma, Jardel! - Bella se aproxima, tentando contê-lo.

- Não, olha só! O cara vem, a gente que traz ele até aqui, dá carona, e o sujeito some e deixa a gente aqui morrendo de fome! Que consideração ele tem por nós!? Filho da puta ele!

- Não fala assim dele. - Bella protesta.

- Falo sim! Ele é filho da puta!

- Calma, gente. - Vistafera aparece no meio dos dois. - Não sei bem como é isso que vocês estão falando, mas vocês querem se nutrir, não é isso?

- É claro! E a gente vai morrer de fome aqui?

- Calma. Eu posso dar um jeito. Esperem um pouco. Venho já.

- Que bom que alguém tem um mínimo de preocupação com a gente. Pelo menos o abelhinho é gente boa. - Jardel finalmente se senta.

Todos ficam em silêncio. A essa altura, os cogumelos estão da forma que estavam quando chegamos. Todos parados, como se fossem apenas cogumelos gigantes, sem mostrar olhos, braços ou qualquer sinal de locomoção.

Não demora muito, Vistafera reaparece trazendo uma folha muito maior que ele. Voando. O sujeito parece uma abelha gigante e que fala, mas é bem forte pelo jeito. A folha estã toda enrolada como um trapo, um saco de pano cheio de não sei o quê.

- Pronto. Podem comer.

Ele coloca a folha no chão e ela se abre mostrando o conteúdo. É uma massa estranha, meio alaranjada, meio dourada. Será que é mel?

Jardel chega antes para provar, e logo grita.

- Que bosta! Parece papelão com água! Mermão, que droga foi essa que você trouxe?!

O cheiro não é conhecido. Estranho, lembra poça de barro ou algo assim. Experimento um pouco... É... Jardel definiu muito bem o gosto dessa gosma...

- Quero comida de gente!

- Desculpe, pessoal, mas isso é tão bom! Por que não experimentam? Ó! - Vistafera vai comer um pouco, como se fôssemos crianças e não tivéssemos provado dessa massa.

- Vá se lascar! Onde a gente arruma comida aqui? Sanduíche eu sei que não rola, mas...

- Haha! -- O carinha se senta, rindo do Jardel.

- ...Mas fruta, carne, qualquer coisa!

- Não sei o que posso trazer para vocês... - Vistafera fala triste. - Isso é o melhor que eu conheço. E que não tem risco de fazer mal a vocês todos...

- Ah, mermão! Tá doido? Eu lá tenho cara de traça!? Não vou comer essa gororoba de jeito nenhum!

Um cogumelo está se aproximando, só agora eu percebo. É um cogumelo de chapéu grande, marrom. Vem com uma expressão não muito boa.

- E você? Quer o quê? A gente tá com um problema de comida aqui. Se tiver como arrumar um pouco pra nós, massa, se não...

O cogumelo estende os braços e um pó estranho sai de seu chapéu e envolve a gente...


Abro os olhos com um pouco de dor de cabeça. Está todo mundo dormindo. Que foi que houve afinal... Já está tudo claro. Acho que amanheceu ou coisa parecida. Puts! Aquele cogumelo nos drogou!?

Hahahahahhahaha!!! Nos drogou! Cogumelo nos drogou! Hahahahaha!!!

- Que tá havendo aqui, porra?! - O Jardel acorda gritando e eu não consigo parar de rir.

- O cogumelo!

- Que cogumelo?

- O cogumelo drogou a gente! Hahahahaaa!!

- Você tá doido, Mario?

Pô, por que só eu acho isso engraçado? Aposto como a Bella riria se tivesse acordada também.

- Dor de cabeça miserável...

- Haha!

- Que foi que houve afinal?

- O cogumelo! Aquele grande! Drogou a gente! Hahaha! Lembra não? Hahahahaha!

- Ah... É verdade! O cogumelo... Hahaha! É, agora entendi... Ai...

Eu me sento e espero passar essa dor de cabeça maldita. Mesmo sendo forte, ela não parece teimar muito em ir embora. Que bom que é assim.

- Mario? Como você está?

- Oi, Bella... Acordei com a cabeça doendo, mas estou melhorando...

- Que bom que não sou só eu. Quero água! Quero comer! Será que ainda tem papelão?

E ela sai meio cambaleando depois de um sorriso enigmático. É uma figura essa menina.

Não demora e todos estamos de pé. O jeito é comer aquela porcaria mesmo. O Vistafera traz mais. Papelão com água fresquinho! Não há perspectiva de encontrarmos nada melhor e Vistafera diz que essa jornada vai demorar um bocado. Então é o jeito.

- Estão prontos? - É ele mesmo que vem voando, quando ainda estamos comendo o restante da gosma.

- Catarino! - A Isabella corre. E eu nem tinha visto o sujeito vindo ao longe, atrás do Vistafera. Os cogumelos começam a se mexer. Uns se aproximam.

- Devemos partir.

- Pra onde? Ainda nessa?! - Jardel reclama com Catarino. Começo a pensar se isso não é pessoal. Até agora, por hoje pelo menos, ele ainda não havia surtado.

- Estamos numa missão importante e perigosa.

- Eu vi os lobisomens...

- Viu o quê? Você não viu nada ainda.

Essa novidade foi pesada.

- Vamos! Estão todos prontos? - Ele se vira para as outras criaturas. - Vistafera, junte os humanos. Vuan Vi-Dyez! Ap'Lot Zat! Kean Hiunc-Wi Ox! Vamos?

Três cogumelos vêm em nossa direção e um deles... Bem, um deles...

- Esse será nosso grupo.

- Ah, não, velho! Tu?

O cogumelo olha com uma expressão misteriosa e penetrante, quase como um quadro surreal. A propósito, isso aqui tudo é um quadro surreal mesmo. E, sim, um dos três é justamente o cogumelo que drogou a gente. E é dele que estou falando.

Os outros dois são um de chapéu vermelho e curto e outro de chapéu preto pra cima, curto também. Só esse marrom que tem um chapeusão desengonçado, quase um sombreiro mexicano. A gente parte.

É um sujeito desengonçado esse cogumelo marrom. Ele vai atrás de nós, bem perto... Lá na frente o Catarino vai com o Vistafera. A Bella e eu logo depois. Aí vem o Jardel e o bandido, o cogumelo marrom sozinho, que ele é grandão, e os outros dois cogumelos atrás dele.

Sabe, mundo estranho esse... Não falo desse aqui que a gente tá agora, por incrível que pareça. Falo do mundo inteiro! Eu não acreditava em criaturas de outros planetas, mas acreditava nesses cogumelos. E eu agora não sei se coisas de outro planeta existem ou não, mas eu queria conhecer esse povo estranho da Terra e aqui estou, numa fila com uma abelha gigante que fala e cogumelos que caminham. É muito louco! Eu fico pensando... Será que tem a ver com eu querer tanto ver esses seres? Será? Se tiver, o quanto tem a ver?

Não sei... O Destino sabe o que a gente quer e dá um jeito? Ou o quê então? Será que tem uma possibilidade de isso tudo simplesmente não existir e só existir agora porque eu queria ver? Isso seria ainda mais assustador! Uma alucinação coletiva? Ou uma união de desejos... A Bella também queria muito ver o Catarino de novo, afinal de contas. E os dois ali? Acho que não faz sentido essa teoria, senão a gente teria visto extraterrestres também, já que o Jardel acredita nessas paradas.

É, acredita, mas não sei se queria ver algum. Além do mais, sei lá... Talvez eles não tenham tanta criatividade como nós dois! Hahahaha!

Pensando melhor, deixa pra lá... Deixa senão eu começo mesmo a acreditar nessa teoria esquisita.

Os dois aqui atrás estão muito desconfiados com o cogumelo marrom. O Jardel não para de olhar pra trás. É um negócio sério!

- Para com isso! Cara chato! - O carinha finalmente grita com o Jardel.

- O quê|?

- Para de ficar olhando pra trás! Você não ia querer uma criatura diferente de você olhando pra você o tempo todo.

- E é?

- É!

- Pois se eu tivesse drogado essa criatura diferente eu que me lascasse!

- Pois então olhe! Depois não diga que não avisei...

- O que?

- O que o quê?

- O que você sabe?

- Eu sei muita coisa.

O carinha lá sabe muita coisa? Como assim?

- Sabe nada!

- Sei sim. Eles estão aqui para nos levar até a ponte dos espíritos...

- Onde?!

- A ponte dos...

- Do desenho do Jax?

- Silêncio! Eles vão nos ouvir!

- Cara, você não está legal...

- Eles são agentes do governo chinês disfarçados...

É, o cara pirou mesmo pelo jeito...

- Oh puxa...

É a Bella que fala. Olhando para cima...

- Oh puxa...

O céu... O céu não é normal... Finalmente chegamos num lugar com árvores em falta o suficiente pra gente poder enxergar... Aquilo...

Imagine uma sopa de legumes fervilhando na panela... Tá, não tá fervilhando... É mais como... Ondas retas. Ondas retas. Em tonalidades de verde e laranja.

Não há Sol, mas precisa? Tem umas linhas final laranjas que se movimentam de um jeito estranho pelo céu, e que brilham. Não se movimentam como algo vivo, nem como ondas ou como qualquer coisa natural.

Estamos em uma clareira. Uma criatura enorme passa voando lá no alto. Não faço ideia do que era e a essa altura não tenho o menor interesse de descobrir.

Um baque e olho para trás. O bandido parece que caiu.

- O que ele tem? - O Catarino pergunta, voltando.

- Desmaiou. - Jardel responde. - Foi só olhar pro céu e... Poft! Tá vendo no que dá essa idiotisse toda?! Vamos embora pra casa!

- Não ainda. - O Catarino fala. - Vamos esperar ele acordar. Vista-Fera? Pode fazer alguma coisa a respeito?

- Acho que não, só esperar mesmo, não é?

- Tudo bem. Então vamos esperar.

- A gente podia deixar esse idiota aqui pra isso acabar logo. - Jardel fala baixo, meio em desabafo.

- Não podemos. Ele é a chave.

- Como assim? Do que você está falando afinal?

Um suspiro e um olhar para a Bella e para os cogumelos. Parece que o Catarino vai finalmente abrir o jogo.

- Ele é a chave. Temos que levá-lo ao templo antes que seja tarde demais.

- Chave de quê, cara?

- Tá, acho que temos algum tempo... - Catarino fala pouco depois de olhar pro bandido, caído no chão, e pouco antes de se sentar ali pelo caminho. O restante de nós o acompanha. - Vocês não vão entender. Antes de mais nada, temos muita pressa. Se ele se acordar antes de eu concluir, não reclamem: partiremos imediatamente.

- Tudo bem... - O Jardel fala. Parece compreensivo com a situação, certamente ansioso por conhecer a história toda. E quem não está? Eu também estou e, sabe? Dá pra ver os olhos da Bella brilhando.

- Vivemos uma guerra desde muito tempo. Desde tanto tempo quanto podemos contar. Uma guerra entre Cenu e Tolt. Cenu e Tolt são, bem... Como eu diria... Acho que vocês não vão entender, mas o mais perto do que eles são na cultura de vocês seriam deuses.

- Deuses? O que são deuses? - Vistafera pergunta, curioso.

- Calma, Vistafera... Isso é para que eles entendam a situação. Como você já entende a situação e temos pouco tempo, vamos prosseguir. - Ele encara o Vistafera e os demais. Olha um pouco à frente. Os cogumelos se espalharam, formando um triângulo conosco no centro. Os três estão olhando para fora, como se estivessem em formação, vigiando pra prevenir qualquer perigo.

Então, ele prossegue.

- As criaturas aqui são soldados de um dos dois. Vocês viram, quando chegaram, os Huxacs. Eles são de Tolt, assim como muitos outros. Nós somos criaturas de Cenu. Cenu protege a vida aqui e o segredo desse nosso mundo. Pois Cenu quer preservar toda a vida lá de cima, que inclui vocês. Tolt quer destruir tudo lá em cima, para que haja apenas o nosso mundo aqui e para que o nosso mundo aqui possa crescer e tomar o mundo lá de cima.

- Espera. - Jardel atrapalha. - Isso está confuso. Você quer dizer que esse tal de Cenu é um deus que protege a gente e esse tal de Tolt é um deus que quer matar a gente? É isso?

- Mais ou menos isso, embora a questão envolva muitas outras coisas além dessa.

- Tá, e você quer mesmo que a gente acredite nessa história maluca?

- Jardel... - Bella fala, de jeito doce. - Olhe ao seu redor... Nós estamos dentro dessa história maluca. Que tipo de prova você quer mais pra acreditar no Catarino?

Ela tem razão. Não há o que discutir. Mas será que nós podemos...

- E acontece que de tempos em tempos um canal se abre aqui no Intramundo, um canal de vida. E esse canal se fecha depois de alguns dias, quando finalmente uma nova espécie surge. E essa nova espécie ninguém sabe de quem é, se é de Tolt, de Cenu ou se é neutra.

Isso está ficando cada vez mais confuso...

- Temos que aproveitar que o canal de vida está aberto e levá-lo até o templo.

- Como assim? Pra quê? - Jardel se levanta.

- Jax...

- Ele acordou!

- Vamos continuar - Jardel se levanta, seguidos por nós todos. Jardel vai apoiando o figura no ombro, de qualquer forma.

Se o Catarino falou essas coisas na intenção de esclarecer a história pra nós, acho que ele falhou. Há dois deuses... Um quer preservar o nosso mundo e outro quer destruir... É a velha história do bem contra o mal. Se encaramos desta forma, até aqui tudo bem, não é? E onde é que a gente entra nessa história?! Uma nova criatura a cada duzentos anos? Canal aberto? Do que ele estava falando?

- Mario?

- Diga, Bella...

- O que você acha que era?

- O quê?

- O galho...

- Você não disse que tinha sido você?

- Sim, mas é estranho... Eu não conseguia mover mesmo o galho.

- Me explica.

- Olha, eu vejo na TV o povo falando disso de paranormal. Não é assim. É como se eu tivesse que mover só parte do galho e outra parte não quisesse ir junto.

- Talvez você não tenha desenvolvido ainda esse dom direito, não é?

- Talvez... Mas só funcionou naquele galho.

- Você conseguiu mover um galho?! - A gente se vira e vê Vistafera voando perto de nós e entrando na conversa.

- Foi... Um galho seco.

- A gente tem que testar umas coisas...

- O quê?

- Você pode ter um poder de mover coisas.

- Eu sei disso.

- Mas se for assim mesmo, a gente tinha que descobrir que tipo de coisa você pode mover.

- Faz sentido.

Vistafera se vira pra mim.

- Vocês lá em cima costumam ter poder de mover coisas?

- Não exatamente, mas há algumas pessoas que têm.

- Interessante... Aqui não me lembro de alguém com poder de mover nada.

- Não?

- Quer dizer... Só os ejens, que transformam pedra em lama.

- Como?! E o que é isso?

- Ejens! Eles! - O Vistafera aponta para algo lá atrás.

- Os... Cogumelos?!

- É! São os ejens! Eles transformam pedra em lama!

Não tem jeito mesmo... Quando a gente está se acostumando com as loucuras desse mundo, convencendo nossa mente a aceitar os absurdos, aparece uma loucura ainda mais louca, só para o nosso juízo não ter mesmo descanso...

- Transformar pedra em lama? Colocando alguma substância nas pedras?

- Não, com as mãos.

Deve colocar alguma subtância saindo das mãos então...

- Eles simplesmente transformam pedra em lama, sem nem tocar.

Agora pronto.

- E pra que eles fazem isso?

- Aí depende da necessidade...

- Não, qual a utilidade de eles fazerem isso?

- Ah, são poderes de Cenu! Eles simplesmente podem fazer isso.

Cenu é o deus deles, sabe? Então, certo.

- Você devia - ele vira para a Bella, que prestava atenção na conversa quietinha. - testar seu dom. Tentar mover coisas por aí. Se bem que esse pode ser um dom diário.

Não aguento mais... Como será que está a fila pra ficar louco? Eu vou entrar nessa fila também!

- Cada um de nós tem pelo menos um dom diário, um poder, vocês podem entender assim, que só pode ser utilizado uma vez por dia.

- Então você acha que pode ser que eu só consiga mover as coisas uma vez por dia?

- É possível, sabe? Só você testando pra ver! Porque se a gente tenta usar um dom diário mais de uma vez, não explode nem nada parecido. A única coisa que acontece é que ele não funciona. Assim, você devia testar, não é?

- É, eu poderia...

- Espere um pouco.

Ele voa entre as árvores e continuamos caminhando pela floresta. Logo ele volta, trazendo dois galhos.

- Pronto. Ei, você! - Vem pra perto de mim. - Abra a mão.

Eu obedeço.

- Ah, não. Não vai funcionar... - Ele diz de repente. - Esperem mais um pouco.

Volta a sumir entre as árvores.

- O que ele quer fazer, Mario?

- Um jeito de você testar sua telecinese, acho.

- Mas caminhando mesmo?

Ela olha o Catarino mais à frente, concentrado em guiar o grupo. Pouco depois, Vistafera volta, com uma folha enorme e um galho seco pequeno em cima da folha.

- Vá, tente.

- Como eu faço isso?

- Do mesmo jeito que fez antes!

- Eu não sei como foi.

- Mas não foi você que moveu o galho? Então?

- Mas não é assim!

- Vistafera? - O Catarino fala, lá da frente, e o abelhinha vai até ele saber o que quer. E então volta.

- Olha, gente, vou dar uma olhada porque estamos entrando em um terreno mais perigoso. Fique tentando mexer esse galho aí, tá? - Ele solta o galho em minhas mãos, mas cara, não consigo segurar. O galho despenca.

- Isso é feito de quê?

- De árvore, de que mais?

- É, mas...

- Olha, tenho que dar uma geral. Tentem com eles no caminho, mas tomem cuidado, volto já. - Ele dispara para longe, enquanto ficamos Bella e eu com cara de besta.

- Ei! Ei! - Jardel me empurra um pouco. - Anda, pô! A fila tá andando!

Nem percebemos que paramos de caminhar por causa do galho. A gente se apressa e vai para mais perto do Catarino. O carinha está abraçando os próprios braços, como se estivesse com frio ou sei lá o quê. Jardel está nervoso, ainda, e com expressâo de desânimo. Sabe? Um misto de frustração com desânimo e irritação.

- Mario?

- Diga, Bella.

- Você não conseguiu mesmo segurar o galho?

- Não.

- Nossa...

Lá na frente o Catarino segue, sem nem ao menos olhar para trás. A gente continua por esse caminho. Bella abaixa a cabeça pensativa. Lá atrás, bem lá atrás, dá pra ouvir os cogumelos conversando qualquer cosa. O quê? Não sei, mas dá pra ouvir a voz deles.

Sabe? Já estou cansando disso aqui. Quero ir pra... Espera. O Catarino parou.

- Silêncio a partir de agora.

- O que é que há? - Jardel pergunta.

- Estamos deixando a nossa terra segura e entrando em Jenepy-Urso.

- Em quê?

- Muito cuidado. Estejam perto e silêncio! E fiquem perto das pedras.

Ele encara cada um de nós como quem se certifica de que todo mundo entendeu direitinho a mensagem. Então, se vira e continua caminhando. Nós vamos atrás.

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