Parte 6 - Desconhecido

O Sol nem nasceu ainda e já vamos embora. Lembrança dos velhos tempos... Tinha vezes que a gente viajava essa hora, saindo das farras, mas pô, era outro pessoal, outro tempo... E a gente nem tinha muita noção de nada naquela hora. Como se agora a gente tivesse! Tá, mas agora é diferente.

A gente sai da cidade desse jeito. O Catarino com certeza não está confortável, mas continua calado. Parece muito tenso.

- Legal! Faz tempo que a gente não faz uma viagem dessas, né Mário?

- Ô! - que a Bella fale por si só. Eu mesmo acabei de vir de Melodia... Mas é sempre bom viajar assim. Nossa, o que é que eu estou pensando?! Perdi minha casa e a gente tá indo sabe-se lá pra onde! É que, bem, a Bella está tão alegrinha aqui que até contagia a gente e a gente esquece a verdade por trás de tudo isso.

É, não sei qual é a verdade por trás de tudo isso. Mas não gostei do pouco que vi dessa tal de verdade.

O carinha do meu lado tá com uma cara de caixão que só vendo...

- Gente, que climinha é esse?! Vamos falar alguma coisa?!

A Bella tentando animar o grupo. Parece criança! É legal ver ela contente assim, mas pô, tá todo mundo sério por alguma razão, né? Eu respondo com um sorriso sem muito esforço de parecer feliz. Ela entende, se aquieta e fica olhando pela janela.

Só paisagem com árvores ao redor, naquela quase escuridão. O Sol quase nascendo, e tudo quase claro.

- Bom, a gente tá indo pra onde? - Jardel pergunta agora ao Catarino. - Dá pra dizer agora?

- Quando chegar a hora eu digo.

- Como é que é?! Peraí, cara, eu tenho que saber! Eu tou dirigindo!

O Catarino responde com cara de quem diz "E daí?".

- Eu tenho que planejar pra abastecer o carro e coisa assim! Pô, que custa dizer: a gente tá indo pra Petrolina, pra Fortaleza, pra Aracaju, pra Vitória, pra França! Só tou pedindo pra você me dizer pra onde droga a gente tá indo. É pedir demais?!

- Não se preocupe. Estamos perto.

- Perto quanto? Quantos quilômetros.

O Catarino olha de novo com a mesma cara. O Jardel também parece que não entende... É muito bom ele fazer essa pergunta. Também quero saber pra onde estamos indo, claro! Mas o Catarino parece nem ter costume de andar de carro. Será que ele sabe medir distância em quilômetros? Sei lá, era melhor ter falado em horas...

Mas sei não... O Catarino é estranho e pronto. Não sei o que o Jardel tá pensando do assunto agora. Ele tinha falado que o Catarino devia ser do Governo ou algo assim.

- Ah, Jardel, liga não. Se está perto já, já a gente chega. - A Bella fala, tirando a atenção da janela e mostrando um sorriso confortante.

O Jardel aceita a resposta, mais por não ter opção do que por se sentir confortável ao saber que "já, já chegam". E vamos adiante, pela estrada quase amanhecendo...

Ah, o figura tá dormindo! Com o bocão aberto e a cabeça jogada pra trás. Por isso que não fez nenhum comentário sarcástico, desses que tem feito só pra aumentar a confusão.

E assim vamos nós, na estrada. Quase de manhã, parecendo um grupo de gente que volta da farra da pesada mesmo, dessa que esgota a gente... Ou como um monte de gente que não fez boa coisa. Ou sei lá como. Um bando de gente calada, sem um pio.

O Catarino tenso, sem nem mexer o pescoço. O Jardel, dirigindo frustrado, às vezes olha pro Catarino, com uma cara indecifrável que até dá pena, e volta a olhar a estrada. O Zé, dormindo. E a Bella meio aérea, olhando pela janela e vendo o céu mudar de cor aos poucos. E eu? Pensando na vida por aqui mesmo, né? Ou seja: silêncio total.

Sabe? É tão estranho esse silêncio... Tipo, lembra Melodia, mas de um jeito diferente... Lá em Melodia era um silêncio de tédio. Aqui o significado é outro.

É como se o silêncio pudesse ser usado pra dizer várias coisas diferentes. Aqui acho que está todo mundo cansado de tentar quebrar o gelo do Catarino. Mas é como se a gente estivesse indo, sei lá, pro abatedouro!

Eu acho que entendo um bocado de silêncio... Já estive com ele muitas vezes. Às vezes é um bom companheiro, que ajuda a escrever. Outras horas irrita. Tem vezes que parece que rasga a gente e dá vontade de fazer barulho pra se defender. É por isso que às vezes eu ligava a TV só pra ficar passando de canal... Pra esconder esse silêncio irritante.

E eles não falam nada mesmo. Agora a Bella olhou de novo com um sorriso consolador. O que será que se passa na cabeça dessa maluquinha nesse silêncio todo? Ela com certeza não parece que está indo pra um abatedouro. Parece, muito pelo contrário, alguém que está deixando uma prisão triste indo pra uma vida melhor.

Jardel parece atento ao volante, mas sei que por dentro está cansado disso tudo e ao mesmo tempo curioso. Não sei como uma pessoa pode estar desses dois jeitos ao mesmo tempo, mas acho que ele está.

Talvez um dia eu escreva sobre isso de silêncio e essa loucura toda, se é que alguém daria atenção. Por falar em escrever, nunca mais escrevi uma poesia... Acho que minha inspiração está de férias...

- Tudo bem, não quer dizer pra onde a gente está indo, não posso fazer nada. - O Jardel começa a tentar puxar conversa de novo. E o Catarino nem se mexe em resposta.

Olhando bem, é incrível esse controle. Conseguir levar um bando de gente pra ninguém sabe onde pra fazer não sei o quê, meio contra a vontade de todo mundo. Como ele consegue?

- Mas você tem que me explicar que negócio foi aquele lá em Mossoró?

Sem respostas do Catarino.

- Era uma Anaconda, não era?

O Catarino vira o rosto pro Jardel com um olhar estranho. Não sei se está com raiva pela insisência das perguntas, se "não está autorizado" a falar nada sobre o assunto, se está decepcionado ou o quê.

- Tá, eu sei que era uma! Eu vi num filme! Era daquele jeito mesmo! - O Jardel olha pra frente, falando mais para si mesmo que para quem está no carro com ele.

Ou está desafiando o Catarino ao dizer isso? Quer saber, quem já cansou fui eu! Ô povo complicado esse! Desisto de tentar adivinhar o que estão pensando e sentindo. Está muito difícil assim. Se pelo menos eles levantassem uma plaquinha dizendo o que estão realmente pensando, as mensagens de rodapé, seria mais fácil.

- É, aquilo era mesmo uma Anaconda! - Ainda é o Jardel falando. - Mas e aquilo que você fez com ela? Soltou um raio no bicho! Que arma era aquela, droga! Nunca ouvi falar de uma arma assim! Cara, abre o jogo pra nós... Você é das forças armadas dos Estados Unidos, né não?

O Catarino usa o mesmo olhar estranho de antes, só que dessa vez dura pouco tempo antes de voltar a olhar para a frente, ainda sério e aparentemente pensativo.

O Jardel volta sua atenção mais uma vez para a estrada, dessa vez com um sorriso meio sem graça no rosto. E quero nem saber no que está pensando a essa altura...

Sobre a tal da anaconda... Eu não acreditaria se não tivesse visto. Aquele monstrão correndo atrás da gente no posto de gasolina... Com certeza não era ilusão, pois todo mundo viu. Agora o que era exatamente aquilo é que não sei.

Pode ser uma criatura extra-natural. Aquele lance lá de cogumelo andando... Dizem que existe uns bichos desses por aí, não sei. Uns que aparecem do nada pelos cantos. Uns bichos cheios de força. Realmente aquela tal da anaconda pode ser um desses, se esse negócio existir mesmo.

Engraçado é que ninguém parece acreditar em criaturas assim. Preferem acreditar em extra-terrestres, que vêm dentro de disco voador e tudo. Acho que ia ser meio difícil a anaconda ser extra-terrestre. O que ela estaria fazendo aqui? E como ela viria pra cá? Dirigindo um disco voador?! Como apertaria os botõezinhos? Acho bem mais fácil ela ser extra-natural.

Lembro que antigamente, quando a gente viu sobre criaturas assim, foi a maior piada. Ninguém acreditava. Lembro da história de cogumelos andando. Acho que foi a Bella, que tava por perto e disse que seria ótimo conhecer um cogumelo desses, que devia dar um "chá muito doido". Aquela pirada! Mas aquilo lá não precisa ser do além, não. Pode até ser uma cobra que cresceu demais, ou um robô. Esse negócio de tecnologia sempre perseguiu minha família mesmo...

É engraçado como a gente escolhe as coisas em que a gente acredita... Tinha uns amigos que morriam de medo de voltar pra casa sozinhos, de noite. Uns tinham medo de lobisomem, outros de vampiro. Tinha até o Obvaldo, que disse que já foi atacado por um quando voltava de uma festa bem tarde. E mostrava um corte cicatrizado no braço. Claro, todo mundo dizia que ele tinha caído e não se lembrava onde se cortou, mas ele insistia na idéia.

Depois de ver essa tal de anaconda, fico pensando em quanto dessas coisas é mentira e quanto é verdade mesmo.

Esse negócio de lobisomem mesmo o povo fala desde muito tempo. Acho que desde quando a Terra era quadrada. Quem me garante que todo mundo que disse ter visto um ou estava bêbado ou só queria chamar atenção ou o medo é que fez ver coisa que não existe?

Sabe o que acalma um pouco nessa história toda? Mesmo tendo perdido a minha chance de mudar de vida? Que eu vivo num mundo normal e descobri que existe aquela tal de Anaconda e outras coisas. O que significa uma Anaconda para o mundo normal? Qual o valor do mundo normal se existe coisas na realidade que não deveriam existir no mundo normal? Sei, isso dá um nó na cabeça da gente. Até na minha, que eu que estou tendo a idéia, dá nó! O mais assustador é que a distância do mundo normal pro mundo real não deve ser só uma Anaconda...

- Ah, vou parar ali, quero nem saber. - Jardel fala com ar de desafio, logo que vê um posto de gasolina logo mais à frente. O Catarino não demonstra qualquer reação.

O carro segue e reduz a velocidade. Jardel ainda encara o Catarino algumas vezes enquanto se dirige ao posto. Então pára com ar triunfante.

- Enche o tanque!

Nessa hora o figura acorda e começa a olhar ao redor pra ter noção de onde se encontra. Então deita a cabeça de novo para trás.

- Meu, faz isso não, tá ligado? - O carinha mal encostou a cabeça e se levanta de novo, logo na hora exata que o Jardel liga o rádio. - Mermão, cê tá num posto de gasolina.

- E eu com isso?

- Se quer explodir, se exploda sozinho, meu!

Não sei porque esse escândalo, deve ser porque o som no carro do jardel fica bem no ouvido dele, sei lá... Ele tava com a cabeça deitada, né? Deve ter levado um susto.

Jardel nem responde mais. Está pensando com suas caras estranhas que eu não quero mais tentar decifrar.

A música que toca é um rock antigo, já ouvi outras vezes, eu acho. Dá pra ouvir... Tipo, já ouvi muita coisa nessas farras por aí afora. Mas eu queria era uma música que falasse disso que a gente tá passando agora, quem sabe me dá uma luz. Não uma música que fala de um robô numa caverna, coisa idiota!

- Pronto, aí, cara, vamo embora agora, falei! Pode seguir viagem. - É o figura. O Jardel acabou de pagar e acho que o bandido tá tentando se vingar daquele lance do rádio.

- Tá com pressa? Dane-se! - Jardel responde e prontamente o Catarino o encara com jeito severo. - Que foi? É complô isso é? Tá bom, vamo embora, né? Pra quê que eu quero ficar num posto no meio da estrada? Agora lembrem que eu que tou dirigindo e que o carro é meu. Se não me respeitarem, mando todo mundo tomar e vou embora sozinho, entenderam?

O carro parte novamente ao som do robô idiota numa caverna. O carinha tá com uma raiva que acho que daria um murro em quem aparecesse na frente. Em outras circunstâncias.

- Tá vendo? Você dizendo que a gente estava perto... Até agora nada! Nem sinal! - Jardel continua com seu ar provocativo.

E para variar, o Catarino não responde. Já está ficando repetitivo esse olhar de censura... Mas também já está ficando repetitiva essa insistência do Jardel. Parece que não desiste...

- Vamos acabar é voltando pra Mossoró. É isso é? É pra lá que a gente está indo?! Pô, fala logo! Quanto tempo até a gente chega? Custa dizer? A gente está quase chegando no São Francisco!

- Ah, meu, cala essa boca, vai! Já basta essa bosta que você botou pra gente ouvir a pulso! - É, parece que o carinha se estressou também com esse chove e não molha dos dois...

- Gente, calma aí! Que é isso!? - É a Bella tentando acalmar os ânimos. - Somos pessoas civilizadas, né? Precisa isso não! Jardel, sua preocupação não era com o tanque do carro? Você não já encheu? Então vamos embora, né, em paz?

Ele parece que não gostou muito da resposta, bate no volante de leve como quem procura palavras pra responder e não encontra.

- Além do mais o Catarino disse que a gente está perto. Custa ter paciência? Vamos aproveitar a paisagem, né? Olha que bonito!

- Que paisagem coisa nenhuma! Quero saber pronde é que a gente está indo. Você disse que o Catarino disse que a gente está perto, mas foi lá atrás, de lá pra cá não disse foi nada! Se a gente já tiver passado do ponto, nem vou achar estranho, sabia?

O silêncio volta. É verdade, o céu está bonito com algumas nuvens iluminadas no início da manhã. Aquela paisagem surreal, misturando dia com noite, sabe? Pois é... Bonito mesmo. Ninguém responde mais e parece que o Jardel deu essa resposta pra Bella mais pra não ficar sem resposta. Acho que ele se acalmou mais com o que a Bella disse. E o Catarino continua lá na frente, todo sério como antes.

As árvores continuam passando dos dois lados. O carinha está olhando pela janela com sua cara de triunfante, de quem ganhou uma discussão agora. Sei que o Jardel está nervoso, mas até que tem sentido se preocupar, né? A gente está bem perto de Sergipe já e já faz algumas horas que saímos de Alagoinhas. Se a gente estiver voltando pro Rio Grande do Norte sei nem o que é que eu faço. Pô, a Anaconda explodiu, não foi? Sei lá, vai que o bicho sobreviveu e está vindo atrás da gente... Daqui a pouco chega aqui e a gente acaba é batendo com ele no caminho.

Bater de novo com aquilo lá não dá, tou fora. Espero que o Catarino não esteja levando a gente pra lá. Mas sei lá, né? Ele disse que a gente estava perto. De repente vale a pena dar uma chance pra ele.

- Mário?

- O que é, Bella?

- Como está o livro?

- Que livro?

- Aquele que você ia escrever, lembra?

- Hmmm...

Verdade... Eu fui pra Melodia pra escrever um livro. Já tinha me esquecido disso!

- É, né? Nada bom...

- Ah, Mário, é assim mesmo, liga não! Você foi pra lá há tão pouco tempo... Ainda estava se adaptando à cidade, né?

- É, vai ver é isso. - A Bella é mesmo uma pessoa...

- Escreveu alguma poesia nova ou não saiu nada?

- Nada.

- Liga não que depois elas aparecem.

Ela tem um sorriso tão reconfortante! Ela é uma pessoa ótima, entusiasmada, meio maluca às vezes mas tem muito juízo em certas horas. Tenho que dizer de novo que essa de agora não é a Bella que eu conheço não. Já vi a Bella assim tão feliz e preocupada com os outros antes, mas muito poucas vezes. A maioria das vezes eu é que tinha que ficar no pé dela pra aconselhar, e muitas vezes eu nem podia fazer isso...

Não quero dizer que a Bella não se preocupe com os outros, nada disso. Mas ela está muito diferente desde ontem...

- Era sobre o que mesmo seu livro? Digo, vai falar de quê? O primeiro foi de bar, né? Mas falava de outras coisas também...

- É. Sabe, não tinha parado pra pensar no livro ainda depois dessa confusão toda... Não sei se vai dar pra eu escrever depois disso tudo...

- Ah, mas tudo vai acabar bem! Você volta pra casa e escreve! Se quiser passar uns dias lá depois... - Ela pára de repente. Acho que se deu conta de que o pessoal do carro pode pensar besteira, né?

Nem sei como o Jardel não fez mais um daqueles comentários implicantes. Mas acho que a preocupação dela não é com o que o Jardel vai pensar, mas sim com o Catarino. Afinal, acho que a essa altura não é segredo nenhum que ela tá afim dele. Talvez seja só pro Catarino, que parece que não quer ver.

É, a Bella ficou toda sem jeito... Sei como é. É uma grande besteira isso dela, mas nesse caso se torna algo importante, sabe? O Catarino já parece que não dá muita bola pra ela, vendo isso pode pensar que ela e eu já temos um caso e ficar mais na dele ainda. Tenho que ajudar a menina...

- Obrigado, Bella, mas não tenho a mínima idéia do que vai acontecer. Não queria fazer planos... Mas acho que se voltar eu estou devendo uma visita à Pat. Que eu tinha prometido pra ela, sabe? - Pisco pra ela, mas ela sabe sim. Entendeu bem que essa história toda foi pra livrá-la da situação. Sei lá se consegui! Sou péssimos nessas coisas! Mas pelo menos tentei...

- A Pat... Nem sei o que teve que ela não ligou mais. Tava tão preocupada com você...

- É, eu soube...

- Vocês estão namorando? Você estava morando lá perto dela, né?

- Não, a gente só ficou junto de novo. Também nem faz tanto tempo que eu fui pra lá, né?

- É mesmo... Menos de um mês... Mas sei lá, vocês podiam estar namorando, né?

- Nada, dá certo não. Ela é de família rica. Brincadeira até rola, mas acha que os pais dela iam querer que eu fosse casar com ela um dia?

- Ah, Mário, você gosta dela, né? E ela também tá preocupada com você.

- Não, não ia dar certo... Somos só amigos mesmo.

Nem contei a ela os detalhes. Foi tão bom só nós dois lá aqueles dias... A Pat é muito boa, delicada, atenciosa... Teve um dia até que ela falou de eu deixar Melodia pra lá e ela deixava a casa dos pais dela e a gente fugia pra nem lembro onde... Era Palmas? Ah, não, a gente ia decidir...

Claro, na cabeça dela. Essas coisas que se fala de brincadeira nem se deve levar a sério, né? Imagina se ela ia querer fugir mesmo do conforto que ela tá acostumada...

- Para lá.

O Catarino finalmente fala, apontando para a direita. Estamos perto de atravessar o Rio São Francisco quando ele apontou. Então vamos mudar um pouco o caminho, né? Já é dia mesmo, está tudo claro.

- Está vendo? Já, já a gente chega! - É a Bella animada.

É, talvez a gente chegue logo, logo mesmo. Só quero saber onde exatamente é que a gente vai chegar.

E se o Catarino for de alguma máfia aí do crime organizado e estiver levando a gente pra uma queima de arquivo no esconderijo da gangue dele? Seja lá qual for o nosso destino, a gente descobre daqui a pouco...

Sabe, isso me lembro um tempo atrás... Teve um dia que a gente veio passar um carnaval aqui perto do São Francisco. Nem lembro pra que lado era exatamente, só sei que era perto do rio. Numa fazenda da família do namorado da Débora, uma amiga minha de lá de Salvador. Foi muito louco aquilo. Maior bagunça, umas minas legais. Tipo, deu pra pegar umas mas não era muito liberado não lá. Sabe como é... Mais da metade do povo já era o casal de namorados certos... Mas foi legal. Acho que faz uns dois anos isso... O cara prometeu que chamava a gente de novo, mas aí nem soube mais dele. A última vez que encontrei a Débora eles tinham terminado...

Pois é, nem me lembro mais do nome do sujeito, mas foi até bom não ter decorado, né? Ele e a Débora terminaram mesmo, além do mais ele não era lá boa coisa não. Arrumava confusão por qualquer besteira e... O Catarino apontou de novo para a direita. Está um pouco longe da estrada, mas a estrada para a direita de que ele fala é logo ali.

Acho que nunca passei por aqui. Bom, pelo menos não vamos pro Rio São Francisco mesmo, né? Dizem que lá é cheio de piranha... Piranha é um peixe muito brabo que ataca qualquer coisa que se mexa perto deles, e até mesmo o que não se mexe. Se o Catarino leva a gente pro rio com sua gangue lá e resolvem nos jogar pras piranhas? Não ia ser uma boa coisa, com certeza...

O pessoal continua todo calado. Mas também essa história de gangue do Catarino nem sei se tem muito a ver. Temos que esperar os acontecimentos acontecerem pra ver no que é que dá essa história toda. Quem sabe eu tenho sorte e consigo entender alguma coisa disso tudo...

- Já amanheceu, olha o céu como está bonito, azul... Com aquelas nuvens ali. Vocês não acham lindo?! - É a Bella de novo.

- É...

Pois é, difícil acreditar. Foi o Catarino que respondeu. Estamos entrando agora na estrada.

- Você já andou em tanto país diferente, né? Como é o céu por lá?

- Igual. Mas há onde o céu é muito diferente.

De onde será que ele está falando... Não entendo nada. Da Lua que o céu é diferente?

- Sei...

Mais uma vez o silêncio. Dessa vez traz mais calma, eu acho.

A Bella está lá olhando a janela distraída. Mais à frente, um lago e umas árvores.

- Aqui? - é o Jardel.

- Sim.

- Numa reserva florestal!?

- É, vamos descer.

O Jardel encosta o carro e descemos todos. O que é que a gente veio fazer no meio de um monte de árvores? Acho que não posso descartar aquela idéia das piranhas... Isso é bem preocupante.

- Ei! - É o carinha. O Catarino chega arrastando ele pelo braço.

- Sigam-me por aqui.

- Mas o que é que está havendo, droga! - É o Jardel em outro ataque. - Quando é que a gente vai saber o que está acontecendo? O que a gente veio fazer nesse fim de mundo.

- Quer saber o que está havendo? Então nos acompanhe.

- Eu não quero saber - É o carinha.

- Você não tem escolha. Vamos? - Não espera a resposta, segue por entre o mato crescido entre as árvores. A Bella me puxa e vamos logo em seguida, com o Jardel vindo depois.

Caminhamos por entre as árvores sem nada de diferente, apesar de a caminhada demorar pelo menos dez minutos. O carinha tentava se soltar às vezes, mas simplesmente não conseguia. Jardel nos acompanhou. Foi até que chegamos a uma clareira.

- Aqui. - O Catarino pára de repente.

Uma clareira no meio de árvores? Que diabos ele está querendo!? Ele passa diante de cada um de nós, nos dando a cada um um objeto... Uma pequena semente.

- Você está louco!? Não acredito... - Jardel acaba de jogar a semente fora e começa a caminhar pra longe, mas pára e volta. - Meu, você trouxe a gente aqui pra dar semente!? Quer o quê? Que a gente plante aqui pra não ter mais clareira daqui a dez anos!? Você é doente!

Vai embora, seguido pela Bella, enquanto o Catarino calmamente caminha na direção onde o Jardel jogou a semente. Abaixa-se e pega. Sempre arrastando o outro sujeito pelo braço.

Realmente impressionante como ele conseguiu encontrar precisamente onde estava o que o Jardel jogou. Ora, essa semente é minúscula! Pelo menos no meio de folhas e mato.

Bem, lá vem o Jardel de novo...

- Olha, vou te dar só mais essa chance porque simplesmente não sei o que aconteceu antes com a Anaconda.

O Catarino estende mais uma vez a semente para o Jardel. A Bella pisca de lá. É, acho que foi ela que o lembrou desses mistérios todos pra ver se ele não desistia agora.

Sei que eu mesmo devia estar achando tudo muito estranho, mas sabe? Estou meio anestesiado com isso tudo...

- Agora fechem os olhos. - O Catarino. Faz uma pausa.

Sabe como é andar de elevador, né? De repente veio uma sensação assim, um frio na espinha... Um frio no corpo também.

- Você me perguntou o que fazíamos nesse fim de mundo. Pois é exatamente no fim de um mundo que outro mundo começa...

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