Parte 5 - Alagoinhas

Bem, aqui estamos de volta ao meu antigo lugar. As mesmas praças, os mesmos bares, as mesmas casas... Nada parece ter mudado nos últimos dias, nem se podia esperar muitas mudanças. Afinal, é uma cidade antiga e bem média. As cidades grandes mudam, as perfeitas também. Às vezes as pequenas também mudam, mas nunca as médias. Não mudanças grandes em pouco tempo, pelo menos.

A gente deveria ter pensado em alguma coisa assim antes! Graças àquela brincadeira do Jardel, conseguimos passar por tantas cidades e chegar rápido a Alagoinhas. E quase nos esquecemos de todos os tantos problemas que nos envolvem.

Indico ao Jardel as direções necessárias para chegarmos à casa da Bella. Ela não mora sozinha, divide uma casa com uma amiga. De onde tira o sustento? Eu antigamente tinha uns amigos ricaços e era meio um parasita, sabe? Mas a Bella não faz isso não. Ela mora com uma amiga e recebe uma mesada da família. A família dela certamente não gosta que ela seja drogada, mas não quer se expor e fica empurrando com a barriga, dando dinheiro pra ela todo mês. Acho que ela ajuda um pouco na casa e gasta o resto com drogas.

Enfim, chegamos.

- É aqui a casa da sua mina?

- Jardel... - Quantas vezes tenho que dizer a ele que somos apenas amigos!? - A casa da Bella é aqui. Vamos descer.

A casa dela não é lá tão boa assim. Com seu muro verde, é estreita e tem uma sala apertada, dois quartos, um banheiro e uma cozinha. Há um troço lá atrás que querem chamar de quintal, mas francamente... Dois metros por três!

Eu desço e vou até a porta: está aberta. Entro e os dois me seguem. Lá está ela.

- Bella!

- Mário! Que saudade! Como você pôde me deixar só tanto tempo!?

A gente se abraça. Tanta saudade dessa mina maluquinha!

- Você está linda!

- Obrigada! Você... está um bagaço! Nossa, essa viagem foi uma barra, né?

- Olá. - uma voz grave vem da porta e quase nos mata do coração. Sim, é ele. O Catarino está aqui. Não sei como ainda consigo me surpreender com isso depois de tudo o que a gente passou ultimamente...

- Ei, cara, agora você vai ter que explicar umas coisas... - o Jardel fala pra ele, com cara de raiva. - Como é que você está aqui se ontem você estava lá em Mossoró? A gente nem dormiu direito e veio voando pela estrada, quase sofrendo um acidente ou capotando, numa pressa só pra chegar aqui essa hora e você chegou na mesma hora. Agora cê vai ter que me explicar o que está acontecendo.

- Calma, Jardel. - Bella fala. - Ele não chegou junto com vocês não!

- Ele está aqui desde cedo. Quando acordei, ele estava ali, no sofá. ...e a Bonnie quase morre do coração, tadinha...

- Quem vai acabar tendo um ataque aqui sou eu! Como é que você chegou de manhã se ontem, dez da noite, você estava em Mossoró!?

- Eu vim andando. - Depois se vira para Bella - Isabella, já preparou os colchões e a roupa como lhe pedi?

- Já, fofo, mas já disse pra me chamar só de Bella...

- Vocês três tomem banho e descansem: há muito trabalho pela frente e vocês mal se agüentam em pé. Vou voltar pro posto.

Antes que qualquer um possa falar qualquer coisa ele some e nos deixa lá sem saber o que fazer.

- Posto?! Que posto?! - o Jardel começa a gritar. Nunca o vi tão nervoso assim, parece até que está sofrendo um ataque. - Fazer o quê num posto?!

- Encher a cara é que não é... - o carinha responde. Está assustado ainda com tudo isso, mas já parece começar a se preocupar.

- Mário! - A Bella vem do quarto com uma toalha e roupas. Espere, eu conheço essas roupas... - Você deixou aqui outro dia. Terminou servindo pra alguma coisa, né? Olha, vá tomar banho logo pra dormir que cê tá muito cansado.

- Tá. Obrigado, Bella. - Eu lhe dou um beijo no rosto. Ela é mesmo um doce de pessoa. Agora não está sob efeito de droga. Deve ser a presença do Catarino...

Opa, o Jardel vai pegar no meu pé de novo... Olhando bem, acho difícil. Esse lance do Catarino deixou ele meio lelé. Não deve estar conseguindo pensar em outra coisa. Bom, vou tomar banho então. Estou mesmo cansado.

O banheiro é pequeno como o resto da casa mas, assim como o resto da casa, parece aconchegante. Tiro a roupa e entro no chuveiro.

Nem disse como estava a Bella, não é mesmo? Com o cabelo solto, de camisa branca simples, short e, mais importante, sem cara de louca que ela fica às vezes. Sabe como é, com esse negócio de droga...

A sala é pequena. Tem só um sofá de dois e outro de um lugar, além da televisão, é claro. Não mudou muito.

Quanto àquilo do Andarilho, tudo bem que é esquisito, mas o Jardel também... Ora, mas o qué que eu tou falando? Eu já tinha presenciado as esquisitices do Catarino - ou quase isso - pelo menos duas vezes! É incompreensível sim e pra um cara que tem todas as verdades cuidadosamente arrumadas na cabeça, é uma tragédia. Posso até estar enganado, mas acho que foi o que aconteceu.

E o bandido do carinha? Esqueci de perguntar o nome do miserável. Deixa pra lá, depois pergunto. Agora, o que tenho que fazer - e pelo jeito só depois de dormir um pouco - é ter uma conversa com o Catarino. E nem precisa me explicar esse lance de sumir num canto e aparecer no outro. Pelo menos não é o mais importante agora. O que eu quero saber é a troco de quê eu perdi meus pertences e minha chance de mudar de vida.

Talvez pareça estranho eu não querer dar tanta importância às bruxarias do Catarino, mas se eu ligasse tanto pra isso talvez estivesse agora como o Jardel, a um passo da loucura.

Bom, acho que acabei o banho... E, sabe? Além de eu estar com sono tem mais dois esperando o banheiro. Melhor sair logo.

Olha só que demais! Outra jaqueta! Que sorte, hein? Deve ter ficado escondida em algum buraco por aí da última vez que vim passar um tempo com a Bella. Eu visto a roupa, depois de me enxugar, e saio.

Lá estão os dois... Quase dormindo no sofá.

- Próximo!

- Ôpa! - o carinha salta e entra no banheiro com uma pressa que só vendo... O Jardel permanece no sofá, segurando uma roupa que a Bella deve ter lhe dado.

- Descobri! - ele grita, de um salto.

- Descobriu o quê, homem?

- Descobri o mistério do Catarino!

- É? E o que foi que houve?

- Ele é um agente do governo de algum país!

- Ah, meu, fala sério...

- Olha só! Olha só! É mesmo! Saca só: ele tem armamento desconhecido que é capaz de criar relâmpagos; ele é bem do tipo agente secreto e tem o maior segredo dos cientistas de hoje: o teletransporte!

- Cara, quer um conselho? Esquece isso, tá?

- Não, mais é sério!

- É? Peraí... Ah, lembrei! Um agente secreto tem medo de entrar em um carro?

- Não, mas deve ter uma explicação!

- Com certeza. Olha, vou dormir e depois você me fala qualqer coisa, certo?

- Tá bem, tá bem.

- Ei, gente! - A Bella chega com uns pacotes de pipoca. - Cês tão com fome?

- Eu não tou não, Bella, obrigado. - respondo - Estou só com sono.

- Então venha. Você dorme na cama da Bonnie. Vocês podem dormir naquele quarto ali, tá Jardel? Vou deixar a pipoca aqui. ...ah, vou levar uma pra mim, né?

Jardel faz sinal de positivo e continua com sua cara mudada. Não sei se parece mais alguém sério e pensativo ou um Zé no vaso com o trabalho preso, se é que cê entende o que eu digo...

- E aí? Como foi? - A Bella pergunta, já se deitando na cama ao lado com as pipocas. A cama é a dela mesmo. Eu vou pra cama da Bonnie. Ela deve estar trabalhando e não vai achar ruim não, pelo que conheço dela.

- O quê?

- Ah, como foi a viagem? O que aconteceu por lá?

- Foi meio... Sabe? É... O Catarino não lhe contou nada?

- Não, ele mal falou comigo e saiu... - Ela muda a expressão e uma lágrima cai de seu olho esquerdo. - Eu acho que nem dá bola pra mim...

- Ah, Bella... Por quê que cê diz isso? - Eu seguro sua mão. Ela estava tão feliz e de uma hora pra outra ficou toda triste assim... - Fala assim não, Bella... Você não sabe os problemas que ele tem que resolver...

- E você sabe?

- Não... Mas ele não disse que ia pra um posto lá?

- Mário, seu bestão, ele foi pra vigiar algum canto, não é posto assim lugar não! - Que alívio, já voltou a sorrir. - Não é de gasolina nem vacina não! Mas deixa pra lá. - Ela fala tirando a lágrima do queixo e enxugando o rosto com a mão. - Vou lá pra sala falar com o Jardel que eu tou te atrapalhando. Você precisa dormir. Sonha com os anjos, tá?

- Obrigado, Bella. Boa noite.

- Boa noite?!

- Não! Quero dizer, até a noite.

- Até mais tarde, Mário.

É... Ainda bem que ela não voltou a tocar no assunto da viagem. Não sei por que razão o Catarino não falou nada pra ela, mas como ele fez isso, deve ter alguma razão. Quer dizer que ele está vigiando algum canto... Ô cara esquisito, não? Esquisito demais até pra que a gente possa falar alguma coisa dele com relação à Bella. Ele devia dar mais atenção a ela, já que ele é a única coisa, da Terra ou do além, que mantém a Bella longe das drogas. É incrível! Não entendo isso. Basta a presença dele!

Quanto à Bonnie, só vi umas duas vezes. É uma garota bem bonita, mas não é nenhum avião. A Bella, a Pat e a Cíntia são muito mais gatas que ela, mas tudo bem... Continuando: ela tem cabelo preto, longo e liso e é branca, mas daquele branco mesmo que só se vê em alguns lugares da Europa. Quem nunca viu gente albina pensa que ela é albina. Mas não é por isso que eu disse que ela não é tão bonita não... É que o rosto dela é muito magro e fino e ela também não tem muito peito nem bunda. Mas ela é amiga da Bella e a gente tem que respeitar. Parece também muito séria, sabe? Bom, mas não agüento mais um segundo acordado não. O sono está forte e, sabe como é, quando a gente...


Ah... Que horas? Sete! Puxa!

- Mário? - A Bella está sentada na cama ao lado riscando alguma coisa. - Já acordou?

- É, acho que já... Tá fazendo o quê?

- Nada não. - Ela esconde os papéis. Depois, com um sorriso envergonhado mostra rapidamente: corações para o Catarino.

- Certo... E a sua amiga? Já chegou? Estou atrapalhando aqui...

- Nada! Ela está é lá na sala conversando com o Jardel e o outro lá. Só falta mesmo o Catarino chegar pra gente jantar. Tá todo mundo aqui. ...fora o Catarino.

- E ela não achou ruim tanta gente aqui e eu na cama dela? - Eu pergunto, falando um pouco baixo.

- A Bonnie?! Você nem imagina... Devia ter visto a cara dela quando entrou. "Quem tá aqui? Você viu o carro que tá lá fora, Bella?" De lá pra cá não larga mais o pé do Jardel.

- E ele? Dormiu não?

- Dormiu sim! Mas só dez minutos e aí ficou acordado pensando todo esquisito. Ele cheirou alguma coisa?

- Não, Bella! Mas acho que ele viu mais coisas do que agüentava...

- Então foi verdade mesmo?

- O quê?

- Ele contou umas coisas estranhas...

- Que tipo de coisa? - Isso está começando a me preocupar. Afinal, o Catarino não queria que ela soubesse, ao menos agora, deve haver uma razão. Ela é mesmo uma garota bem frágil...

- Sobre uma anaconda que ele viu e sobre um raio que o Catarino fez... Então eu fiz bem em falar com ele...

Que surpresa! A Bella está me assustando com essa tranqüilidade toda...

- Ele quem?

- O Jardel, Mário! O Jardel! Cê tá prestando atenção em mim ou tá viajando?

- Claro que estou!

- Que tá o quê?

- Que tou prestando atenção em você, Bella, mas... Que foi que cê disse pra ele?

- Nada demais, cara, só disse que aquilo tudo tinha um sentido, mas que ele não se preocupasse. Disse que tudo isso faz sentido mas que é escondido das pessoas e ele não tem informação pra desvendar esse mistério todo...

- Caramba! Então você sabe mais do que eu imaginava! Sabe muito mais que eu! O que cê sabe dessa história toda, Bella?

- O Catarino me falou uma coisa e eu acreditei. Não é nada demais não, fofo, ele só disse que eu não achasse que as coisas do mundo são como elas são, porque nunca são.

- Agora eu viagei...

- É que eu não ficasse achando que o mundo é assim ou de outro jeito porque na verdade ele não é. Que as coisas não são assim tipo que a gente possa entender, sabe Mário?

- É... Acho que estou entendendo... E se entendi direito, ou isso é muito sábio e filosófico ou é a maior besteira que alguém já disse.

- E o que você acha depois do que aconteceu com vocês?

- Digo que está mais pra primeira opção.

- É... O Catarino é tão inteligente, né?

A Bella está mesmo caidinha por ele, não? E o cara deve ser meio místico mesmo. Sei que já disse isso um montão de vezes, mas não deixa de me espantar o jeito como a Bella fica livre de drogas quando o cara tá por perto.

- Por falar nele, o Catarino já veio?

- Não, só falta ele pra gente jantar.

- E o Jardel? ...ah, desculpa, você já disse, né? Ele está conversando com a Bonnie lá na sala, né?

- É, isso mesmo. Pelo menos ele se distrai, né Mário?

- É sim. Vou lá ver como estão as coisas.

Muito esperto o Catarino, não? Não disse nada pra Bella e ao mesmo tempo preparou pra ela receber qualquer notícia desse tipo. Eu fico pensando se ele pretendia ou não dizer a ela o que aconteceu mais tarde. No fundo, acho que ele já esperava que a gente dissesse... Isso é mau, pois cada vez parece ligar menos pra Bella.

Lá estão os três conversando. É sobre...

- Se esse tal de Silvano tivesse ido lá, ela teria encontrado o Caetano com as coisas dela, aí...

- Sim, mas ela não podia ir lá porque tinha um encontro marcado com o Laerton e...

Não tenha a menor idéia de quem são esses aí que eles tão falando e eu poderia arriscar que se trata de uma novela. Até o carinha lá se envolveu no papo! Ele não assiste essas coisas não, pelo modo como fala... É, tem horas que se precisa fazer qualquer coisa pra matar o tédio e a ansiedade.

- Oi, Bonnie!

- Oi, Mário! ...E a prima dela, a Samanta, tinha tentado se matar na semana passada.

Esse papo não dá pra mim não... Vou lá fora ver o movimento na rua. Aqui não é muito longe do Bar do Chileno... Eu podia dar um pulo lá pra ver os amigos, sabe? Daqui a pouco eu volto... Mas será que... É melhor eu dizer pra Bella pra não se preocupar... Pensando bem, é rápido. E se eu digo a ela é capaz de não querer me deixar ir. Ela disse que só faltava o Catarino pro jantar. Se eu for lá e o Catarino aparecer, vai ficar todo mundo me procurando e quando eu disser que fui lá é que vão ficar com raiva.

Mas é rápido! Eu vou lá só rever os amigos e volto! Bem, então er vou lá mesmo.

A rua está meio vazia de pessoas e vez ou outra passa um carro. Está tudo escuro e, é claro que está escuro mesmo, não é noite? Tem poste aceso, mas são poucos. A cidade não mudou nada nesse tempo que passei for.a Continua parada e um tanto hostil como toda cidade dos nossos dias.

Alguém me disse, e não lembro quando, que antigamente as cidades não eram assim tão hostis. As pessoas conversvam e eram bem agradáveis, principalmente aqui no Nordeste. Mas sei lá, sabe? Nem sei se isso é verdade mesmo. A única coisa que sei é que a tecnologia é um traço perigoso e a gente conseguiu se afastar dela, mas não nos livramos dela não. Estão aparecendo pessoas como o Jardel, que acreditam que a tecnologia é boa e quando começarem a chegar coisas tecnológicas vai ser um só golpe. Logo todo mundo estará andando com bagulho implantado no coração pra ser controlado pelos poderosos, do mesmo jeito que eu vi num livro.

Não que eu tenha lido mesmo esse livro. Eu olhei atrás dele, sabe? No texto que explica do que se trata.

Como será que está a galera? O Gilson de vez em quando passava lá no bar... Tem tanta gente... É, minha vida é aqui mesmo, não em Melodia. Talvez isso tudo tenha acontecido pro meu bem. A Pat sabia tanto quanto eu que ali estava um saco. Não dá pra viver assim não, cara! Sem amigos, sem cerveja... Sozinho numa cidade perfeitamente chata.

Tô até começando a achar que foi uma grande besteira eu querer mudar minha vida. Minha vida é massa aqui, é sim! Foi o lance lá com o livro que me fez ficar querendo ser diferente. A gente tem que aceitar ser como a gente é. Além do mais, não foi o "Mário certinho da cidade" que fez o livro, foi o "Mário do Bar do Chileno". Em Melodia, não escrevi porcaria nenhuma.

Bem, estou chegando... O Bar do Chileno fica em três ruas. Não que ele fique instalado em três ruas ao mesmo tempo, mas faltam três ruas pra eu chegar lá. Como é bom estar de volta...

- Mário.

- Que é que foi? - É ele sim, o Catarino. Que merda ele faz aqui?

- Vamos pra casa da Isabella agora.

- Por quê? Eu só vou dar um pulo ali pra rever uns amigos!

- Não. Você vai pra casa da Isabella. Não são os amigos o que você quer ver.

- Como não! Olha, cara, eu vim até aqui de lá da casa da Bella. Já estou quase lá e não vou voltar antes de rever meus amigos não.

- Pra casa da Isabella. Precisamos conversar. Depois você decide se vai voltar ou não.

- Como assim? E pára de chamar de Isabella. Ela gosta que chamem de Bella!

- Eu pedi pra me chamarem de Catarino? Vamos.

- Está bem, está bem! Mas depois dessa conversa eu venho aqui de novo e não quero nem saber.

- Vamos, estão nos esperando.

Está bem... Fazer o quê? Tenho que ir lá mesmo, né? Mas continuo dizendo que vou lá no Bar do Chileno depois. É bom ter essa reunião que só assim eu pergunto porque que ele me botou nessa história maluca e perigosa.

Nós seguimos de volta à casa da Bella. Lá chegando, ncontramos os quatro lá na sala conversando alguma coisa.

- Mário! Catarino! - A Bella se levanta. - Finalmente vocês chegaram!

- Bem, temos assuntos a tratar.

- Mas primeiro, vamos todos jantar. - A Bella sai meio dançando para a cozinha.

O Catarino faz uma cara que só vendo. Não dá pra entender se ele ficou com raiva da Bella por tê-lo feito esperar mais pela reunião ou se achou a cena tão engraçada quanto eu achei. É o seguinte: o Catarino ficou só arrumando desculpa pra nao dizer o que está havendo. Quando a gente perguntava qualquer coisa ele vinha com esse papo de "tempo oportuno". Agora, parece-me que ele levou uma dessas da Bella, pois queria fazer a reunião agora, mas a Bella veio com essa de jantar.

O jantar não é lá um jantar importante, é um jantar bem simples como em qualquer casa de classe média baixa: só comida naquelas conservas industrializadas. A gente colocou num preparador e pronto. A comida não tem gosto assim, mas dá pra engolir.

- Mário, esqueci de dizer: a Pat ligou. Estava preocupada com você.

- E o que foi que cês falaram?

- Eu disse pra ela não se preocupar que cê tava bem.

- Certo... Foi quando?

- Quando cê tava dormindo. Cê não vai comer não, Catarino?

- Não.

- Cê não come? Tem que comer pra ficar forte!

- Não preciso, Bella. Já estou satisfeito.

- Mas ninguém vive sem comer!

- O que lhe disse sobre...

- Eu sei, eu sei. As coisas não são como são. Você comu lá fora? - Ele não responde. - Ele comeu lá fora.

A Bella falou pra todos. Espera um pouco! O Catarino chamou de Bella! Isso talvez seja um bom sinal.

Já quanto aos dois lá no canto - Jardel e Bonnie - parece que está rolando um clima. Os dois até que se combinam: ele parece americano e ela parece franceza ou sei lá o quê. Os dois parecem gente de filme. O carinha está lá também. Estão conversando desde cedo. Falando de televisão. Não sabia que o Jardel era tão ligado assim em TV.

Mas logo a gente acaba a refeição e o Catarino resolve aproveitar a mesa e conversar ali mesmo.

- Vou ser breve e, por favor, não falem nada do que for discutido aqui para terceiros. - Ele pára um pouco e olha para a Bonnie com ar sério. Está mais que claro que ele não quer que ela faça parte da reunião.

- Deixa, fofo, ela é minha amiga, não fala pra ninguém não!

- Está bem, mas não se atreva a conversar fora da reunião sobre o que aqui se passar.

Não sei se isso é jogo para valorizar o que ele vai dizer ou se é tão importante assim, mas ele está fazendo uma preparação para falar que está deixando todo mundo cada vez mais curioso. Vamos ouvir o que ele tem a dizer.

- Estou em uma missão cujas conseqüências atingirão um nível que vocês nem mesmo têm como imaginar. Partirei ao amanhecer e todo o perigo que vocês - aponta para nós três, que chegamos hoje - viveram nem de longe parecem com os que devemos passar. É uma missão perigosa com todas as letras e mais algumas.

- Eu não quero ir, mano! - é o carinha que fala. - Já perdi tempo demais nesse troço aí.

- Eu não lhe dei o direito de escolher: você faz parte da missão. A todos os demais presentes é concedido o direito de decidir se vão ou ficam. Não precisam falar agora, em uma hora eu volto.

- Espera aí, cara! - Eu falo quando ele se levanta. - Mas que droga de missão é essa?! Diga mais alguma coisa que está muito vago!

- Isso era tudo o que eu podia dizer. Decidam-se baseados nisso.

Ele sai. O que vamos fazer agora? Bem, ele não disse quase nada!

- O que vocês acham? - Eu pergunto, depois de um tempo.

- Eu vou. - a Bella responde, feliz.

- Você está louca? Fazer o quê? - Bonnie responde. - Isso não em a ver com ninguém, só com eles!

- Mas eu vou, porque quero ir e ele disse que ia deixar a gente decidir. Não disse isso? Pois eu decido ir!

- Ah, tá! Você é uma maluca, isso sim!

- Pois vá você! Eu não quero ir. - o carinha se levanta, parece bastante irritado. - Quem sabe vocês se arrumam e têm um "Catareco" lá no meio do mato ou seja lá onde for!

- Vai pra onde? - Eu pergunto.

- Vou embora enquanto é tempo!

- Ei! Espera aí! - Jardel se levanta. - Isso tudo que a gente passou foi por causa de você. Acha que o Catarino vai deixar você em paz?

- Se eu fosse de ficar "achando" eu ainda estava no Rio. Vou fazer algo que dê mais resultado.

Ele se dirige à porta, mas o Jardel fala de novo.

- Você já esqueceu que ele soltou um raio? Ele é perigoso, eu acho que você não devia desafiá-lo.

- É? Você acha? Pois eu acho que você devia cuidar da sua vida. E todo mundo também, esse bando de bunda mole.

Ele sai mesmo e a Bonnie fala:

- Esse era o único de juízo dos três. - depois se vira para a Bella. - Eu ainda não estou acreditando que você quer mesmo ir. Você está maluca, por acaso?

- Ah, Bonnie, deixa de ser porre! O que é que tem demais?

- O que é que tem?! Tem tudo! Isso sim! Você não tem nada a ver com nada e pelo jeito que ele falou isso é bronca, Bella!

- Deixa, pelo menos eu fico perto dele.

- Eu não acredito... - O Jardel fala, em voz baixa.

- O quê, Jardel?

- Ahn... Nada! Estou só pensando.

Saco! E agora o que é que eu faço, droga! Já estraguei a minha vida e não posso voltar pra Melodia. Mas eu posso ficar por aqui mesmo ou até ir pra casa da Pat... E o Jardel? Será que o cara vai? Outras horas ele não ia não, mas o bicho está ficando tão doido que é bem capaz de ele querer ir.

É, eu fico por aqui mesmo. As duas ainda estão discutindo. É engraçado isso, sabe? A Bonnie está totalmente irritada gritando e agitando os braços enquanto a Bella responde sempre calma e meiga que vai porque vai. Parece até que está sob efeito de...

Não, o que é que estou dizendo?! Nada químico deixa a Bella assim. Com umas drogas lá ela ficava meio besta e às vezes irritada. Sem elas era como quem está no mundo esperando o dia de morrer, toda séria, deprimida e às vezes mal de saúde. Mas ela nunca ficava muito tempo assim não, ia atrás de mais e voltava a ficar besta e irritada...

Apesar disso, as horas boas para falar com ela eram justamente quando estava falando que ia morrer e tal. Pelo menos as conversas eram mais inteligentes e, sabe? Não posso falar muita coisa não que eu também ficava bêbado muitas vezes e só descobria as besteiras que tinha feito dias depois.

Pensando bem, essa Bella de agora parece bastante a Bella que eu conheci, só que agora parece mais madura. Eu sei, eu sei, é esquisito sim. Até eu estou achando estranho chamar aquela maluquinha de madura, mas ela parece mais decidida, digamos assim. Tudo isso por causa do Catarino, com certeza. O cara não pode ser desse mundo. Eu já tentei de tudo que é jeito tirar a Bella das drogas e basta a presença dele pra Bella se livrar das porcarias. Não sei quanto a você, mas eu acho incrível.

Talvez você comece a pensar como o Jardel, que eu tenho uma queda pela Bella, mas não é bem assim. Garota que eu gosto é como a Pat, por exemplo. Gosto pra ficar. Mas ainda está pra nascer mina pra me prender. Tudo bem, tudo bem, desculpe, eu me empolguei. Estava falando da Bella. É que eu sou muito amigo dela e ela com todos os problemas que tem... Sabe? Eu me sinto meio um protetor dela e, depois de ficar tanto tempo fora e tê-la deixado aqui com a Bonnie, eu estou preocupado.

Ah, e ela quer ir! Já tinha me esquecido!

- Bella, você quer ir mesmo? Faz isso não, mina...

- Ouviu, Bella? Ouça o seu amigo aí já que não me dá mais bola!

- Ou, Bonnie... Você é uma graça... É, Mário, eu vou sim. Venha também! Vai ser divertido!

- Bella, Bella...

- E você ainda vai ficar longe das loiras!

- É, preferia ter ficado lá em Melodia.

- Então volta pra lá.

- Não dá, o Catarino me queimou feio.

- Vamos então...

- Isabella Siqueira, a senhorita devia ficar.

- Sr. Mário Dantes... Venha também! Vamos! Vai ser legal!

- Ah, Mário, já tentei, mas essa maluca quer se acabar na briga dos outros. Não tem jeito...

- Ah, Bonnie, deixa de ser quadrada!

- Quadrada!? Eu!? Ora...

Pronto, as duas voltam a discutir. Acho que a Bella faz isso só pra ver a Bonnie irritada.

É, se a Bella for acho que vou também pra cuidar dela, sabe?

- Jardel?

- Oi! Mário!?

- Oi! Aqui! Você não tá no telefone não? O que decidiu?

- De quê?

- Oh, cara! Onde é que cê tá com a cabeça, meu? O Catarino!

- Ah,certo!

- E aí? O que resolveu?

- Cara, o seguinte: é a grande chance da minha vida de descobrir o que está havendo. Eu fiquei pensando: o que acontece se eu disser não?

- Não sei! O quê?!

- Eu vou passar o resto da minha vida curioso e sem entender porcaria nenhuma do que aconteceu aqui. E eu sei que vou me arrepender de não ter ido.

- Isso quer dizer que você vai.

- Não! Eu fico! Eu adoro tomar decisão que sei que vou me arrepender depois!

- Como é?

- Mário, o que aconteceu com você? Está ficando burro? Ha ha! É como disse o Nando: "Eu não vou pra lá! Eu já fui!"

Vou nem perguntar que Nando é esse... O Jarel parece que não está batendo bem da cabeça também, sabe? É... Por que essa gente gosta de complicar? Não era mais fácil dizer "vou" ou "não vou"?

- E você, Mário? Já resolveu?

- Estou vendo ainda...

Cara, não sei... Realmente não sei se vou ou não.

- Bella, tem um chopp?

- Não senhor! Que vergonha! E sua decisão de deixar o álcool?!

- É só pra eu decidir o que faço...

- Não senhor, começa assim...

- Se quiser, eu vou pegar.

- Não senhora, Bonnie! Pode ficar onde está!

- Está bem, está bem, Bella... Pode deixar, precisa mais não...

Pelo que estou vendo, ela não confia em mim. Era só pra ajudar a decidir... Mas tudo bem, deixa pra lá, ela não quer que eu volte a beber como antes, até dá pra entender. Ela está livre de droga por enquanto e quer que eu fique longe do álcool.

Voltando ao problema da viagem. Bem, os dois aqui decidiram acompanhar o Catarino. O carinha fugiu e a Bonnie ainda está tentando convencer a Bella a ficar, mas ela não vai mudar a decisão que tomou, ao que tudo indica. Vou ou não? Se eu ficar, poderei voltar à minha velha vida de antigamente. Por outro lado, se eu for, posso morrer ou algo assim... Mas se por um lado eu tenho que fazer companhia à Bella, por outro tem muita gente que eu nunca mais vi e estou com uma saudade... Sem falar na Pat, que deve ter ficado bastante preocupada...

Por que é tão difícil tomar uma decisão dessas? Cara... É complicado isso de tomar decisão. Principalmente quando as conseqüências podem ser grandes. Mas, sabe? Acho que não tem jeito mesmo. Vou ter que ir. Fazer o quê?

A Bonnie está impaciente. Parece que ela queria ir pegar a cerveja pra mim só pra ter a chance de se levantar um pouco. Jardel está pensativo, mas já disse que vai. Bella está ali distraída também.

E o figura lá? Deu no pé mesmo! Já estou vendo o Catarino entrar trazendo o figura pelo pescoço e sacudindo dentro da sala... Não sei... Tá muito estranho isso tudo, é claro, mas até que faz sentido ele fazer essa questão toda de levar o carinha. Tipo, ele foi bater lá em Melodia parece que só atrás do cara! Hmmm... Que besteira que pensei agora, vou nem falar nada...

- Bella, você está doida! - É a Bonnie, pra variar.

- Por quê?!

- Ah, não agüento mais não!

Bonnie se levanta e vai pro banheiro se trancar. Não sei o que se passa em sua cabeça, mas ela é bem "certinha", deve estar ficando braba com todo mundo querendo ir. Vou nem dizer que vou ter que ir também agora, pro trauma dela não ser maior.

- Vamos descansar?

É a Bella? Fiquei um bom tempo aqui parado e não estamos fazendo nada mesmo, mas...

- Descansar?

- Sim, descansar, Mário! Pelo jeito o Catarino não vem tão cedo. Vocês deviam ir dormir um pouco.

- Sei...

- É sério!

- Dormir como? Não tou com sono.

- Mas o Jardel tá. Olha pra ele!

- É, Bella, mas a gente dorme onde? Não quero incomodar a Bonnie.

- Ah, a Bonnie. Bom, então vocês podiam dormir por aqui mesmo. No tapete e no sofá.

- É, pode ser.

Bom então.

Jardel já está dormindo na poltrona. Acho que tá bom ele ficar por lá. Acho totalmente sem sentido acordar uma pessoa pra mandar ir dormir. "Ei, acorde! Vai dormir!" Muito doido isso.

A Bella está lá no sofá, meio deitada, abraçando uma almofada.

- Tá, e você? Vai pro quarto não?

- Nada! Fico aqui pra quando o Catarino chegar.

- Tudo bem então.

- Vou apagar a luz pra você dormir.

- Já disse que não tou com sono.

- Não importa, precisa descansar.

Ela desliga a luz e volta pro sofá. Está tentando ser mais forte que o sono, mas acho que ela desligou a luz foi mais pra ela mesma dormir. Melhor assim. Espero os dois dormirem e dou um pulinho ali no Bar do Chileno...


- Me larga! Que p*##%! - A voz está distante. Que tá havendo aqui!? Tudo escuro! Eu dormi?

- Que tá havendo? - Bella acende a luz e eu pergunto. Enquanto a imagem borrada começa a se tornar nítida (ela também está esfregando os olhos, enquanto Jardel caminha até a porta).

- Me deixa em paz! Será possível!? - Sim, é a voz do figura que decidiu fugir agora há pouco. Vamos correndo até a porta ver o que está acontecendo.

Claro, é perfeitamente previsível. O Catarino com o cara trazido pelo braço, se contorcendo de todo jeito.

- Vamos entrar.

O Catarino entra com jeito firme, com o sujeito, até o sofá.

- Estão prontos?

- Acho que sim, né? Que horas?

- Agora!? - A Bella pergunta.

- É, agora.

- Está muito cedo! São... Quatro e meia!?

- Temos que sair cedo.

- Ah, mas não é assim! Temos que nos arrumar. - Bella fala, enquanto o Catarino olha com olhar intraduzível. - A gente precisa de um tempinho mais!

- Quanto tempo?

- Não sei, uma...

- Vinte minutos. Está bem?

- ...Está bem. - Bella se vira pra gente. - Vamos, pessoal, vamos correr!

Uma pancada forte do quarto. Bonnie deve ter batido a porta com força. Deve ter saído do banheiro agora ou algo assim.

E lá vamos nós tomar café na maior pressa. Todo mundo come biscoito e sanduíche com refrigerante rapidamente. Ainda dá tempo de a Bella ir no banheiro e arrumar suas coisas.

Pô, a Bonnie simplesmente trancou a porta do quarto! Enquanto nós três acabamos de comer, Bella fica gritando na porta do quarto pra ver se a Bonnie abre a porta. Sem resultado.

- Que droga, Bonnie! Abre a porta!

- ...

- Que droga! Não, tudo bem! Pode deixar! Não quer abrir, não abra! Engula a porta e o quarto todo também!

Bella volta pra cozinha e começa a vasculhar numa porta de um armário.

- Iiiiisso! Sabia que tava em algum lugar!

Ela sai com uma bolsa grande e amassada.

- É uma bolsa que eu deixei por aqui outro dia. Agora dá pra ir.

Ela junta algumas roupas recém lavadas - eu acho - na bolsa e vai lá no banheiro de novo.

Acabamos de comer e temos que ir no banheiro também, rapidamente. Afinal, a viagem talvez seja longa.

Bella sai do banheiro, com a carinha um pouco triste e diz "Tá livre". Jardel vai lá usar o quartinho especial. Sei como é quanto à Bella... Deve estar triste pela Bonnie ter ficado assim chateada. E pensar que vai conseguir impedir os outros de fazer o que querem assim, na força. Se bem que eu achava mais seguro a Bella ter ficado, mas ela quer ir, fazer o quê, né?

Depois que o carinha sai, vou eu, mas logo saio pra gente poder se mandar. Fato curioso, pra variar, é que o Catarino simplesmente não comeu nada. Ô cara esquisito esse, hein!

- Está na hora.

Vamos pra fora. O Sol nem apareceu, só está um pouquinho claro. Jardel entra no carro com o Catarino no banco da frente, do seu lado. Bella insiste que quer ficar atrás do Catarino, enquanto eu fico no meio e o carinha fica do meu lado esquerdo.

Pensei que talvez o Catarino quisesse que a gente cercasse o figura, mas acho que não. Se ele fugiu e foi pego de volta naquela hora, acho que nada vai conseguir livrar esse ladrão de ser pego de novo pelo Catarino. Então, sem problema. Jardel liga o carro e vamos embora.

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