Parte 4 - Viagem

A casa não era lá tão espaçosa. Também não era tão pequena como aqueles módulos japoneses. Ela era uma casa improvisada, feita colada com a loja e a lanchonete. Tinha primeiro andar, e o quarto da gente ficava lá em cima. Na tal casa morava uma senhora resmungona. Uma velha chata mesmo! O tipo ali morava com ela... Ô cara corajoso...

A porta ficava de lado, sabe? Nem na frente nem atrás. Aí tinha uma sala bagunçada. Ou melhor, não é bagunçada mesmo, entende? É arrumada, mas... De um jeito esquisito, com poucas coisas e, mesmo sem estar suja, parece não estar limpa. É meio complicado sim e se você entendeu ótimo, mas se não entendeu desculpa, mas eu vou pro quarto.

A escada é daquela simples, com degraus simples até chegar no andar, sabe? Lá só tem um mesmo e a gente pode chamar de "o andar", não precisamos contar: primeiro, segundo... Ah, que saudade da Bella... Será que ela está com drogas! Dessa vez a pergunta não é idiota, pois ela viu o Catarino... Isso foi quando? Ontem ou hoje mesmo! Bom, ela ligou hoje... Sabe por que eu me lembrei dela assim de repente? Quem inventou essa história de "o andar" foi ela...

Depois da escada, lá em cima a gente vê um corredor pequeno ou um algo que queria ser corredor. Só tem um quarto e um som ali. Daqueles de fita e disco de vinil. Sabe? Há alguns anos lançaram os DCs. São uma espécie de cartões de dados... Quando saíram, diziam que iam revolucionar o mundo e substituir fitas, CDs e tudo, até livros! Eu achei que não, que era jogo. Depois, graças a gente como o Jardel eles estão se popularizando cada vez mais. Acho que em uns três anos eles acabam com as fitas e discos. Quanto aos livros, não sei não...

As paredes aqui são amareladas, meio verdes. Não tenho a menor idéia de que cor seja aquela. O quarto tem uma janela que dá para os fundos do posto: dá até pra ver o carro do Jardel. Mas só tem uma cama dentro do quarto e o Jardel tomou pra ele dizendo que ele tinha pago tudo. Felizmente a cama ficava no meio do quarto, tendo espaço dos dois lados e era nesses lados que eu e o carinha íamos dormir: eu do lado esquerdo do Jardel e ele do lado direito. A janela fica bem em cima da cabeça do Jardel e não há muita coisa no quarto além da cama: uma mesa pequena ali e um cabide. Há um guarda-roupas pequeno, de cerca de um metro de altura, encostado bem perto da porta, mas a gente não dorme logo: estamos sem sono.

- Se eu soubesse que a gente ia ficar por aqui mesmo, tinha pego uma cerveja.

- É, Jardel, nem me fale em cerveja...

- Por quê? Ainda não entendi essa história de você querer parar de beber...

- Meu, já ouviu que o álcool faz mal?

- Pouco, mas já. Mas a gente ainda está vivo, cara! Já ouviu que respirar faz mal?

- Eu falo sério, cara! Dá certo não...

- Tudo bem, tudo bem... Você bebia demais mesmo, mas o que é que tem beber de vez em quando?

- Nada! Quando é só de vez em quando mesmo. Mas no nosso caso em especial, você ia dirigir...

- Você não ouviu o que eu disse? Eu não bebi justamente por causa disso! Mas a gente terminou ficando aqui! Você não queria beber não?

- Não queria que eu bebesse...

- Entendo... No fundo você morre de vontade de botar álcool na goela...

- Vamos mudar de assunto.

- Certo... O que você acha daquela experiência russa?

- Qual? Dos soldados perfeitos?

- É, justamente da Força Russa que eu estou falando.

- Foi uma grande polêmica... Criar um soldado perfeito montando o material genético e depois clonar o resultado, fazendo reprogramação cerebral. Muita gente chiou na época, não foi?

- É, foi. Eles criaram guerreiros telecinéticos poderosíssimos, que são os policiais conhecidos como a Força Russa, mas isso todo mundo sabe. O que eu quero saber é o que você acha disso tudo.

- O que eu acho disso tudo... Bem, Jardel, eu diria que isso tudo não passa de mais um caso em que a tecnologia fez algo ruim para a humanidade e bom só pra quem pagou, o dono do bixo. Pelo que entendi, eles cometeram vários crimes de uma vez só...

- Crimes? Como assim?

- Crimes não, é... Eles não foram éticos. Primeiro, a criação de uma pessoa montada; depois, a clonagem e, como se não bastasse, fazem programação cerebral. É como se as pessoas fossem caixas. Eu acho desumano isso de programação cerebral...

- É, eles fazem isso como se as pessoas fossem computadores, né?

- Essa eu não entendi.

- Como você acha que nascem os programas de computadores? As pessoas têm que fazer os programas: a gente chama isso de programar.

- Ah, certo. Pensei que fosse só "escrever programa".

- Não, não é não...

- Vocês dois - o carinha interrompe - não sabem de nada. Por mais que pareça um bando massa e fodão, isso não funciona. É porque ninguém quis, mas quando alguém estiver a fim de quebrar os brinquedinhos dos russos é só fazer um vírus especial pro DNA daqueles bixos, saca? Aí acaba tudinho e não sobra um.

Puxa! Esse carinha quando abre a boca... Eu não sei como é que funciona esse negócio, mas se ele estiver falando sério, o que foi feito é uma grande merda.

- É, não precisava fazer isso, né? - o Jardel fala, finalmente quebrando o silêncio. - Pelo menos não era o caminho certo... Os japoneses devem ter mais sorte com os megamen.

Uma gargalhada ecoa no quarto. Uma gargalhada muito esquisita. Não é ninguém que tenha chegado, mas o infeliz do bandido. Depois, ele fala:

- E você acha que os neo-samurai vão deixar um bando de circuitos substituí-los?

- Neo-samurai? - Curioso... Nunca ouvi falar disso.

- É, são a elite dos homens japoneses. Eles não querem ser trocados por um monte de latas eletrônicas...

- É... Não conheço, mas estou começando a gostar desses caras...

- Pelo que vi, você não gosta desses troços tecnológicos, né? Pois nem fique tão empolgado assim que eles usam armaduras espertas, pistola laser e coisa e tal.

Samurais modernos... Isso é interessante. E mais uma vez querem substituir homens por máquinas; ainda bem que tem gente contra isso.

- Interessante... - Eu falo, então. - A gente passou por aquilo, fugindo de um monstro de outro mundo e quando acabar fica aqui conversando sobre Rússia, Japão... Como se não estivesse acontecendo nada...

- E era pra gente fazer o quê, Mario? - O Jardel pergunta, depois de ficar um tempo calado. - Era pra gente estar correndo e gritando pelo quarto: Ahhh! Socorro! Um monstro! Cai na real, cara! Ia ser ridículo!

- Sei lá! Só acho estranho demais, só isso!

- Ah, vamos sair correndo pelo quarto e gritando então. Socorro! Eu vi uma cobra! Socorro!

- Ei, mano... Não é por nada não, mas... Dá pra ficar calado? Assim vão começar a pensar besteira da gente...

- É... Você já viu o Coração Russo, Mário?

- A megalópole? Não, já foi lá?

- Não, mas...

- Ei, cês dois! - O carinha de novo, parece que se empolgou mesmo. - Tá na hora de dormir não? A gente tem que sair cedo amanhã.

- E quem é você pra me dar ordem? - Jardel revida.

- O único que tem um pouco de juízo, pelo jeito: vamos dormir logo, falei?

A gente não pode dar espaço pra esse cara. É do tipo muito convencido. A gente deixa um pouquinho ele falar e já quer mandar nos outros... Mas sabe que ele está certo? A gente tem mesmo que dormir, que já virou a madrugada e de manhã temos que dar no pé.

- Vai apagar a luz não? - o carinha pergunta.

- Não. - o Jardel responde prontamente, sem dar corda para o bandido não ficar falando besteira e enchendo nosso saco.

Agora, pensando no carinha... Será que ele é um espião ou coisa assim? Cara de espião ele não tem, mas isso pode até aumentar as chances de ele ser mesmo um espião. Sabe? Se ele não tem cara de espião e for espião, isso facilita seu trabalho. Não sei, mas ele é um cara bastante esperto, apesar da língua suja e frouxa. Talvez seja um espião ou agente especial que o Catarino está perseguindo. É que ele parece saber demais, eu acho. Pra um cara das ruas, pelo menos. Achei incrível ele saber mais que o Jardel...

A gente estava falando da Rússia, né? Da megalópole russa conhecida como Coração Russo. Aí o carinha se meteu na conversa pra dizer que a gente tinha que ir dormir... Eu nunca vi nada de lá não, mas já ouvi falar que é muito frio e que o negócio pega por lá... Que tem muita violência e que as cidades não têm mais tantas praças e áreas bonitas como antigamente. Dizem que a Força Russa é útil lá justamente combatendo a violência. Mas há quem diga que eles usam violência demais, tornando o lugar mais violento do que seria sem eles. Pelo jeito, vou acabar tendo que ir pra lá ou pra algum canto assim quando esse negócio aqui acabar e o Andarilho me deixar em paz de uma vez.

Já está ficando muito tarde, mais do que seria confortável, é melhor eu ir dormir de uma vez.


- O que é isso!? - Um barulho de fim de mundo no quarto!

Um pedaço da parede caiu! Cadê o Jardel? É de madrugada ainda e... O carinha tá lá ainda, sentado no colchão e ofegante.

- Vamos dar o fora daqui! - grito finalmente. Nós nos levantamos e corremos em direção à porta. A poeira toma todo o lugar e, antes de sair, tenho a impressão de ver a cama sendo tragada pela poeira. Finalmente saímos do quarto.

Corremos pelo corredor em direção à escada apenas alguns ppassos e outra explosão vem quando a parede do quarto é derrubada bem atrás de nós. Quase caio sentado, mas pude me apoiar no braço do carinha. Nós descemos a escada em dois saltos e alcançamos a porta de entrada. Que merda! Que é que a gente vai fazer aqui fora? A porta é aberta e vemos o BMW do Jardel com a porta aberta.

A gente não entra no carro, a gente mergulha mesmo e o Jardel pisa com força no acelerador.

- Que merda foi aquilo?! - eu pergunto, sentando-me direito no banco.

- Era aquilo de novo! Que merda!

- A anaconda?!

Olho pra trás e lá está ela! É enorme e se sacode sobre o asfalto como uma serpente no deserto, correndo muito.

- Ela tá vindo!

- Puta merda!

O tempo parece parar enquanto a vejo. O Jardel se vira pra frente e o carinha grita apontando para o bixo, mas não sei o que diz. Ela é verde-escura com algumas linhas amarelas. Deve ter uns três metros de diâmetro e uma porrada deles de comprimento. Seus olhos amarelos e ovalados passam uma sensação de pavor e desespero. Sua boca parece sorrir e ela parece ter um pequeno chifre na testa.

Espere! Um caminhão passa por nós, parece de combustível. Enquanto a anaconda parece se aproximar de nós, o caminhão perde o controle e se choca com ela. Uma explosão - e uma outra maoior depois - ilumina toda a estrada. Já era o caminhão, o posto e a cobra... Ainda bem que a pista era reta, senão a gente já era também.

- O que faz um caminhão uma hora dessas na estrada?

- Não faço idéia, mas não achei ruim não. Uh-Hu!! Conseguimos de novo! E sem seu amigo de sei-lá-de-onde!

- Jardel... Você é doido.

- Eu? Por quê?

- Onde você estava?

- Fui beber água quando ouvi o barulho. Aí fui pegar o carro!

- Muito obrigado por ter nos esperado.

- Ora... Qual era a graça se eu saísse embora?

- E obrigado - Eu me viro pro carinha - por ter me ajudado quando podia ter me deixado pra trás.

- Falou, mano. E valeu também por ter esperado a gente, ô do volante!

- Como estamos gentis hoje...

- Ainda são duas e meia! Que merda! A gente não dormiu nada!

- É, mas depois dessa eu não quero dormir tão cedo... Nem estou com sono...

- Nem acredito que conseguimos fugir daquilo...

- Vocês acham - Jardel pergunta - que a anaconda morreu? Digo, naquela explosão?

- Claro!

- Eu não sei... - o carinha responde.

- Como assim?

- Sabe lá o que era aquilo, por acaso? Queria eu que tivesse morrido mesmo mas, mano, aquele bicho lá consegue derrubar parede de brincadeira. Pode ser que não tenha batido as botas ainda.

- É... Sei lá, né?

O cara está indo muito rápido... Ah, deixa pra lá... Quem vai se preocupar com velocidade agora, depois da nova aparição da tal anaconda? É melhor a gente correr mesmo: vou botar o cinto.

- Só estou preocupado com uma coisa: aquele pessoal lá do posto - eu desabafo.

- Morreram todos, cara! Que é que a gente pode fazer? Além do mais eles não eram boa gente não: o gigante cheio de moral e a velha resmungona... E o tapado que cuida do posto... Acho que já deve estar em casa. Que droga! Devia estar no posto também...

- Ah, deixa dessa, Jardel. Só porque o cara é tapado não quer dizer que tenha que morrer.

- É claro que tem! Ele só está na Terra pra fazer merda mesmo!

- Mas acho que ele escapou. Quanto aos dois do posto, você não pode dizer que eles eram imprestáveis e mereciam morrer não. Você por acaso esqueceu que ele saiu da casa dele e foi abrir a lanchonete pra gente lanchar? E que depois alugou um quarto pra gente dormir? Não é em todo canto que tem gente assim, Jardel...

- É, talvez cê tenha razão. Mas vamos falar mais nisso não, senão acabo ficando triste por eles também.

Dá pra entender esse cara? Isso aí foi mais uma piada sem graça ou foi o quê?

Quanto àquele bicho, era uma criatura muito bonita e mortal. Era incrível mesmo e não sei se conseguiria descrevê-la de forma boa, que passe metade daquilo que senti. Mas eu vou tentar. Um dia eu tento...

Aquilo lá não é normal: todos sabemos disso. Afinal, nunca ouvi falar de cobra que tem força pra derrubar parede... E o Jardel teve sorte de ter ido beber água, pois o pedaço da parede onde fica a janela caiu exatamente onde ele estaria, na cama.

Mas não é só por causa dessas coisas que estou achando que aquela cobra não é normal... Só de olhar pra ela se percebe, e não por causa do seu tamanho ou coisas assim.

"Por quê? Por causa de quê?" Eu não sei exatamente, mas ela tinha um olhar. Um olhar de quem tinha uma tarefa a cumprir, quase uma obsessão. Ela não é normal, ela tem inteligência ou, pelo menos, é treinada para alguma coisa que a gente acha que é pegar o carinha aqui.


- Dormindo, Mário?! - Jardel pergunta.

- Não, só pensando...

- Sei...

- Quando a gente vai passar por aquela cidade que você falou?

- Souza? Já passamos! Você estava dormindo...

- Eu não estava dormindo, já disse. - Esse Jardel quando quer pegar no meu pé... - Ninguém aqui está com fome?

- Sim! Estou! Mas a pergunta é: alguém quer parar pra procurar comida agora? Acho que a gente agüenta pelo menos até amanhecer.

- Já são três horas... Faltam duas pra amanhecer e um bocado pra chegarmos a Alagoinhas: ainda estamos na Paraíba!

- É... "Paraíba masculina, mulher macho sim sinhô!"

- Jardel, você como cantor é um ótimo motorista.

- Ah, obrigado! Dirijo desde criancinha!

Tem horas que eu penso que o Jardel é meio doido...

- Espera um pouco!

- Que foi? É pra parar o carro?

- Não! O... Jardel, você viu a anaconda atrás do carro?

- Vi sim.

- É a mesma lá de Mossoró?

- Eu não entendo de anaconda não... Nem de cobra! Mas acho que era. Pelo menos era bem parecida, por quê?

- Se ela estava agora por aqui...

- Então a gente pode encontrá-la de novo lá na frente!

- Não! O que quero dizer é: se ela estava por aqui, então o que houve com o Catarino?

- É verdade... Ou ele morreu, ou fugiu...

- Isso é problema. Se não me engano, a gente não sabe o que fazer quando chegar em Alagoinhas...

- É bom que ele morra mesmo - o infeliz do carinha fala. - Só assim langa do meu pé de uma vez!

- Quem pediu sua opinião?! - o Jardel responde. Ainda bem que ele já se encheu com o bandido também.

Essa do Catarino ter morrido está me preocupando. Se ele tinha poderes, como aquele do relâmpago, acho difícil que tenha sido derrotado, mas não é impossível não: a anaconda tinha força pra derrubar parede! De um jeito ou de outro, prefiro acreditar que o Catarino escapou, A anaconda pode ter fingido de morta ou fugido ou até podem ser duas também. Já que já está tudo perdido mesmo pra mim, gostaria que tudo isso desse certo, pra que pelo menos eu não tenha perdido tudo o que perdi à toa.

O carinha aqui do lado dormiu, quem diria... Acho que não suportou o sono, afinal de contas dormimos só por duas horas... E o engraçado é que não consigo ver o que está acontecendo, por mais que pare pra pensar no assunto. O Catarino aparece e faz coisas impossíveis, feito um bruxo; aparece o carinha aqui que o Catarino parece proteger de algum mal. Esse mal aparece numa anaconda que derruba prédios. Sinceramente, não estou entendendo nada. Estou ansioso pra chegar logo em Alagoinhas e esperar o Catarino pra gente trocar umas idéias. Ele vai ter que esclarecer algumas coisas que não estão bem resolvidas e...


Ôpa! O carro parou! Já é de dia? Deixa ver... Seis horas... A gente está num posto de gasolina com lanchonete.

- Onde a gente está?

- A gente está em Itabaiana, cara! Vamos lá, chega de folga: vamos todo mundo descer e ir no banheiro. A gente podia lanchar aqui também, mas depois do que aconteceu lá atrás, talvez seja melhor lanchar no carro mesmo, na estrada.

Descemos todos do carro e fomos pra lanchonete quase vazia. Havia caminhões parados aqui também. O banheiro ficava lá no fundo. Fomos e havia dois vasos: advinha quem ficou esperando... O carinha, claro!

Fomos ao balcão. Não tinha salgado nenhum, só daquelas pipocas industrializadas e salgadinhos. Não parecia nem mesmo haver lugar pra salgados lá.

- Me dá seis sanduíches e refrigerantes. - o Jardel pede. A vendedora, que não é feia mas também não chega a ser uma gata, em menos de um minuto traz as caixinhas de sanduíche empacotado. - Sabe de uma coisa? Vamos lanchar aqui mesmo!

Jardel paga e a gente vai até uma mesa desocupada. Lá a gente começa a comer esses sanduíches com gosto de nada. Cada um come dois deles e toma apenas uma lata de refrigerante. Durante esse tempo, um homem esquisito do balcão não pára de nos observar. O que ele quer? Vai saber...

- Alguém ainda com fome?

Não, respondemos com a cabeça. Estávamos satisfeitos. O Jardel então se levanta e vai até o balcão. Não, ele não está com fome - ou pelo menos não é só por isso que vai ao balcão -. Ele pega mais sanduíches e latas para a viagem, para não termos que parar logo adiante.

Nó dois outros nos levantamos e vamos até a porta esperá-lo. Curioso... O caminhoneiro galego de barba não está mais no balcão... Por falar em balcão... A atendente acaba de vender os sanduíches e as latas e está acenando um adeus para mim. Respondo, claro, mas com cuidado para não dar muita corda, pois tem muitas melhores de onde veio essa.

Bem, nós partimos da lanchonete e encontramos o tal caminhoneiro à janela nos observando atentamente. É como se ele soubesse alguma coisa ou quisesse nos dizer alguma coisa, ou... Claro! Ele sorri agora confirmando minha suspeita? É um telepata! Um maldito telepata lendo nossos pensamentos atuais! O que será que ele sabe? Será que descobriu muito sobre nós? Deixa pra lá... Melhor a gente ir embora logo antes que alguém entregue alguma informação a ele, mesmo sem querer. Essa gente é perigosa e ele já deve saber mais do que seria adequado.

Entramos no carro e Jardel sai, mas pára antes de deixar o posto.

- É... Melhor abastecer logo.

A BMW desliza pelo posto até alcançar uma bomba. De novo vem um cara pedir a chave e Jardel mais uma vez diz "Abro daqui". O carro é recarregado de combustível, o valor é pago e vamos embora, afinal, nunca se sabe o que nos persegue e o que pode nos encontrar a qualquer momento.

- Ah, cara, tô começando a ficar com sono...

- Não invente de dormir dirigindo...

- Ah, então vamos pensar em alguma coisa... - Ele pára e ninguém responde. - Que tal cantarmos?

- Ah, ótimo! Do jeito que sabemos cantar! Pelo menos, com certeza você não vai dormir nem que queira, Jardel!

- Mas você não é poeta? Deve pelo menos gostar de música, não?

- Mais ou menos...

- Puxe aí uma!

Ah, que coisa ridícula! Só faltava essa! A gente - três marmanjos - cantarolando como um bando de criança indo pra escola! Mas, fazer o quê? Depois de tudo o que a gente viu, talvez seja bom rever nosso conceito de ridículo...

- "Caminhava eu sozinho; à noite, olhando para o chão; de repente eu vi uma figura; que de longe tocou meu coração"...

- Ah, meu, sério! Essa aí só você conhece... De onde você tirou?

- Essa é antiga... Conhecem não mesmo? Então tá, deixa eu ver outra...

- "Olhei para o relógio: era uma da manhã; bem no meio da dança ela tirou o soutien"...

- He, he, gostei dessa... Mas não conheço também.

- Ah, então diga uma!

- "Deve haver mais pessoas na Grécia que em qualquer outro lugar; em tapetes persas, sob a luz solar; e quem sabe a notícia se espalha e por muitos tempos depois assim será!"

- Essa é nova?

- É do ano passado, daquela banda com nome de comida, sabe? Aquela banda mineira...

- Ah, sei não...

- Ah, tá, deixa ver outra... "Não foi o Sol que fechou; é o ciborgue que vem, que vem lá de Moscou, e traz no sangue o veneno que queima o sistema do mal; o veneno que queima o sistema nervoso central".

- Também não conheço.

- Aí fica difícil. Então vamos começar de outro jeito: "Seu Lobato tinha um sítio, Ia, Ia, ô"! - Ele pára e solta uma mão do volante para gesticular que a gente responda.

- Ah, também só sei até aí...

- Então tá... Deixa ver: "Eu tinha uma galinha que se chamava Mary lú!"

Essa pelo menos eu conheço.

"Um dia fiquei com fomo e papei a Mary Lú."

"Mary Lú, Mary Lú, tinha cara de babaca..."

Nós cantamos Mary Lú, Aquele Abraço e Faroeste Caboclo, do Legião Urbana. Tudo música antiga pra caramba, mas que vale a pena alguém lembrar... E por falar em Legião, é interessante como uma banda que era revolucionária acabou com as músicas virando pop e hoje qualquer grupo toca Legião Urbana como quem canta "Atirei o pau no gato"... Isso só mostra como as pessoas de hoje em dia não ligam mais pra essas coisas de revolta, de lutar por alguma causa justa. Até que acham bonito isso, mas na televisão...

Cerca de meia hora depois de deixarmos o posto, passamos pelo posto policial e entramos em Pernambuco. Finalmente! Não que não goste da Paraíba, mas é que eu estou muito ansioso pra chegar logo em Alagoinhas. Felizmente ninguém parou o Jardel e a gente passou numa boa.

Nós seguimos cantando até as 7:30, quando passamos pelo caminho que nos levaria a Recife, mas não pegamos o desvio. Quando disse que cantávamos, se me permite voltar, referia-me a mim mesmo e ao Jardel, pois o carinha mala não queria fazer parte dessa "atitude pivete". Até que foi divertido, sabe? Mas foi por pouco tempo e às 7:30 já estava ficando cansativo e chato, pra ser mais preciso.

- Sabe que cê canta bem, Mário?

- Ah, é? Obrigado, mas não canto nada! E já está ficando chato, não?

- É, está... O que é que a gente faz então? - O Jardel pára um tempo e conclui - Já sei! Tem o seu livro aí?

- Não, tenho não... - E que droga! As cópias que eu tinha guardado pra mim ficaram lá em Melodia. Agora já era...

- Mas você se lembra de algumas? Podia falar pra passar o tempo...

- Recitar! É, talvez eu me lembre de algumas...

- Pois recite então!

- Certo... Vou começar com "A Geração de 1995 e a Revolta Contra as Máquinas": "Vocês viveram um sonho comercial..."

Eu consigo me lembrar da poesia completa e recito.

- É, você não gosta mesmo de máquinas, não é?

- Não sem razão, você tem que reconhecer.

- Se eu não te conhecesse, diria que você tem visto muito filme...

- É, mas a questão é que eu lembro bem o que acontece: a informática é suja e eu perdi meus pais por causa disso.

- Isso eu não sabia.

- Pois foi. Na época da revolta contra as máquinas surgiu um grupo chamado "Unabomber na Bahia". Na verdade foram vários grupos assim, mas esse foi o que matou meu pai quando ele defendeu os computadores. Minha mãe foi morta anos depois.

- Sinto muito, Mário. - o Jardel fala, enquanto o carinha coloca a mão no meu ombro como quem diz o mesmo. Daí, Jardel fala. - Mas deixa eu ver se entendi direito. Seus pais foram mortos por um grupo anti-tecnologia, não foi?

- Foi e sei onde você quer chegar com essa conversa. Na verdade, por muitos anos eu odiei os dois lados: a tecnologia e quem era contra. Enfim, odiei o mundo. Foi por isso que fugi da casa de meus avós e vivi desde cedo nos bares. Mas o tempo foi passando e fui amadurecendo, as coisas foram clareando e eu vi melhor.

- Aí você virou simpatizante desse grupo que mateu seus pais!?

- Uma coisa é você dizer que é contra a poluição, outra é você sair por aí destruindo carros, ônibus e indústrias só porque poluem. Eu não gosto das máquinas, mas sou contra qualquer atitude terrorista, entende?

- Entendo. Certo, legal seu ponto de vista, mas acho que vou continuar com o meu mesmo. E aí, tem outra?

- Tem, tem uma que eu fiz pra Bella.

- Eu não digo!

- "Isabella": "Gira o ventilador..." - eu recito esta poesia também.

- Isso foi antes, né?

- Antes de quê?

- Antes de rolar o lance entre os dois! Hoje você chama de Bella...

- Já disse que somos só amigos...

- E eu já disse que "Ah tá"...

Eu olho pro lado e vejo o carinha de preto de braços cruzados olhando pela janela.

- Tá certo, tá certo... Legal, tem outra?

- Va parar de me encher o saco?

- Tá bem, eu páro.

Eu recito mais algumas, as que lembro no momento. Não é tão fácil lembrar as coisas que a gente escreve, sabe? É mais fácil lembrar o que a gente lê. Talvez seja porque a gente não sabe como pensam as outras pessoas e o que elas escrevem só nos mostra um caminho. Por outro lado, quando se trata do que escrevemos, muitas vezes há pontos em que podíamos ter tomado qualquer caminho. E aí não sabemos o que tomamos e... ah, deixa pra lá. Quando eu começo a pensar coisas assim, nem eu mesmo entendo...

- Legal, principalmente a do Andarilho, que eu conheço agora. Quer dizer, mais ou menos, ou conheci, não sei se ele sobreviveu... - Ele se volta para a frente, depois fala. - Lembra mais alguma não?

- Não, só essas mesmo...

- Mas são muitas no livro?

- Ainda tem mais umas trinta.

- Caramba! Ou sua memória é curta ou você não leva muito a sério o que faz, hein?

- Nenhum dos dois, na verdade.

- Certo... Não tem mais nenhuma... Que é que a gente faz agora?

Já são 7:40 e continuamos indo rápido, mas acho que não percorremos nem metade do caminho até a terra da Bella, onde eu morei por tantos anos, antes deste, quando resolvi - e consegui - ir para uma cidade perfeita e tentar mudar de vida. Deixei tudo do pouco que tinha por lá... Ainda bem que apareceu o Jardel. Ainda bem mesmo! Não podia ter tido ajuda melhor que a de alguém de carro e com dinheiro mas...

- Jardel? Uma curiosidade...

- Fala!

- Pra onde é que você ia quando a gente saiu para Mossoró? Era alguma coisa muito importante?

- Importante, você disse? Que grande piada! Você me conhece, cara! Sabe que o que importa pra mim é curtir a vida! Coisa importante, você pergunta? Eu tava indo visitar uns amigos lá e ia ter uma festa na casa do Estêvão, conhece?

- Não.

- Era só isso... Mas isso aqui está bem mais divertido! Estou me sentindo até como se tivesse dentro de um filme: não vejo a hora de chegar em Alagoinhas e ver o que vai acontecer.

- Depois a gente é que quer vida boa... - o carinha desabafa. Depois completa. - Quem muitas vezes precisa roubar pra ter uma vida normal, as pessoas chamam de vagabundo, aí aparece um bando de mauricinho filho de político que só faz gastar o dinheiro do pai e são chamados de quê? Vagabundo, não; ele é filho do Fulano de Tal...

- Como é que sabe que eu sou filho de político?

- Ah, fala sério, cara! Qualquer idiota percebe!

- Se me chamar de vagabundo mais uma vez... Você tem é inveja, seu bosta! Que é um ninguém e eu sou filho de político, tenho uma BMW e posso ir pra onde quiser!

O clima parece que está ficando pesado... Dois mundos brigando... Ainda bem que não pertenço a nenhum dos dois e posso ficar em cima do muro.

- ...não é, Mário?

Ou talvez não...

- É... O quê?

- Não, que eu tava dizendo...

- História, é papo, mano...

- Por que vocês não deixam isso pra lá?

- Ah tá... Quando ele assumir que roubar é coisa de vagabundo e que coisa assim não tem desculpa.

- É? E um vagabundo que não faz nada da vida quer me fazer dizer isso?!

A discussão prossegue e estava demorando mesmo pra começar. Lá se vai o clima leve e "infantil" que a gente estava agora há pouco. Também, o nervosismo tem dessas coisas: deixa a gente alegre cantando ou com raiva discutindo com a mesma facilidade.

Prefiro não participar disso porque no fundo os dois estão certos. Pelo menos como o Jardel falou, ele é um folgado vagabundo sim. Por outro lado, é preciso alguém falar muito e fazer malabarismo com as palavras pra me convencer que roubar pode ser justificado.

Como os dois lados tinham alguma razão, a discussão contidnua sem que nem um, nem outro, dê a vitória. Passamos por várias cidades, por vários cantos e a discussão continua. Entramos em Alagoas sem ninguém nos parar. É claro que quando a gente se aproximava dos pontos policiais, o Jardel diminuía a velocidade pra disfarçar. Quando a gente passava, ele acelerava de novo.

Independente disso, a discussão prosseguia. Era xingamento pros dois lados e poucos argumentos. Eis aqui um dos grandes males da humanidade. Discussões e ofensas superando a razão.

Por volta das 9:30 a gente faz o lanche e eles param um pouco de discutir. O Jardel parece que pensava em lanchar dirigindo, mas ele muda de idéia e estaciona no acostamento. Nós lanchamos dois sanduíches cada, pois a fome estava braba e assim acabam nossos suprimentos...

- Jardel! A gente se esqueceu da água!

- É, também tinha notado... A gente compra em União.

- União?

- União dos Palmares. Está perto.

- Cara, cê manja mesmo de viagem, né?

- Que nada! Tinha uma placa lá atrás, saca?

- Pelo menos o mano aí sabe ler... - o carinha não perde a chance de provocar.

- E você fique calado que a conversa ainda vai passar no chiqueiro antes de chegar no estábulo.

O Jardel e suas associações. Ele adora mudar frases conhecidas, não? Aquela história de "bateria de nervos" e agora isso...

A gente entra na cidade e compra água como ele havia prometido. Depois seguimos viagem. Ele joga as garrafas de água no banco de trás e saímos na mesma velocidade de antes.

Interessante foi que enquanto comprava a água, o Jardel; um monte de criancinhas veio olhar o carro admiradas. Os adultos olhavam com cara de quem não gostava nem um pouco disso. Acho que seria perigoso ficarmos lá mais tempo.

A viagem seguiu agora mais tranquila aqui dentro do carro. Todos permaneceram calados e só houve um diálogo em Alagoas.

- Por aqui a gente vai pra Maceió - falou Jardel quando passávamos em algum canto.

- Será possível que além de não entrar em nenhuma capital a gente sempre vai passar perto desse jeito? - eu perguntei. afinal era a segunda capital seguida que a gente "quase entrava".

- Esquenta não! - ele respondeu. - A gente almoça em Aracaju...

E assim foi a viagem. Não deu mais sono porque estava perto do meio-dia. Primeiro a discussao com "vagabundo" pra lá e "ladrão" pra cá... Agora o silêncio. Sabe? Fico curioso sobre o que vai acontecer agora.

São 12:40 e já estamos em Sergipe. Passamos, faz uma hora, pela ponte em cima do Rio São Francisco. Estamos perto de Aracaju ao que tudo indica. Sempre voando no asfalto, mas às vezes os carros e caminhões atrapalham e atrasam a gente um pouco, mas tudo bem.

- Vamos procurar uma churrascaria.

Não demorou muito pra encontrarmos uma. Acho que o Jardel não foi muito com a cara dela, mas parou o carro. Depois do que aconteceu na Paraíba, ele percebeu que a gente não pode perder tempo.

Descemos do carro e prontamente vieram três pivetes pedindo pra olhá-lo. Pedindo ao Jardel que confiasse em sua vigilância. Se ainda não entendeu, vou dizer só mais uma palavra: flanelinhas.

Entramos na churrascaria e escolhemos uma mesa. Aproveitamos para tirar água do joelho e lavamos as mãos também. Jardel pediu um churrasco de boi.

Não demorou muito e veio o tal churrasco com arroz, feijão, macarrão e o churrasco em si, em um espeto apenas ilustrativo... Sabe como é... Hoje em dia o churrasco vem pré-passado. Só precisa mesmo esquentar. Fica pronto mais rápido, mas já comi churrasco de verdade algumas vezes e posso dizer que a diferença no gosto é grande.

Um guaraná pra acompanhar e almoçamos debaixo do ventilador, vendo televisão. Tem poucas mesas aqui, mas tem algumas notas lá fora: hoje em dia se ganha mais com a entrega em domicílio.

Terminamos enfim o almoço. Jardel paga a conta e vamos para o carro. Já estão lá, prontamente esperando a gorgeta, os três pivetes de antes, com mais oito ao redor. Aí começa a confusão: "Eu olhei", "ele tava olhando não". Para não perdermos muito tempo, o Jardel puxa uma nota de cinqüenta e diz, entregando a um deles:

- Dividam aí.

Saem todos correndo e discutindo e nos deixam em paz. Entramos no carro e logo deixamos Aracaju mais uma vez rumo a Alagoinhas.

- Vamos ter que inventar alguma coisa... - Jardel comenta.

- Como assim? - pergunto.

- Pra espantar o sono.

- Sei. E aí?

- Deixa ver... Que tal a gente fazer um quiz?

- O que é isso?

- É um jogo de perguntas e respostas!

- Ah, sei como é... Eu pergunto uma coisa e você me pergunta outra, como um jogo de adivinhação!

- Não! Um pergunta para os dois, mas não é adivinhação não, é coisa séria, tipo: qual a capital da Holanda? Saca?

- Sei... E aí, vai? - eu pergunto, mas o carinha de preto só sacode os ombros, como quem diz tanto faz... - Bem, tem pontuação, não é? E pode ser qualquer assunto?

- É, tem pountuação e pode ser qualquer assunto.

- Então eu pergunto.

- Vamos lá!

- Qual a capital da Holanda? Quem sabe? Quem sabe?

- Não é assim não, Mário! Tem que perguntar pra um e pro outro, se o primeiro não souber. Ou outra pergunta. Comece com ele!

- Tá bem... Qual a capital da Holanda?

- E eu sei lá! - o carinha responde, soltando um leve riso.

- E agora?

- Agora você me pergunta.

- Qual é...

- Já sei qual a pergunta, pô! Sei lá qual é!

- E agora?

- Agora a pergunta morreu! Faz outra!

- Pô, cês não sabem qual a capital da Holanda?

- Não, qual é?

- É... Eu sei lá! Vamos ver... Quantos estados tem o Nordeste?

- Boa, Mário, essa é boa!

- Dez! - o carinha responde, depois de pensar um pouco.

- Como dez? São nove!

- Nove? São dez, ó: Tocantins, Maranhão...

- Não tem Tocantins não! Tocantins é do Norte!

- Sério?

- É, perdeu, perdeu! - o Jardel fala. - Agora eu ganhei o ponto e o Mário pergunta pra mim.

- Certo, é... Qual a placa desse carro?

- Ei! Assim não vale, mano! Tão com armação pro meu lado, é?

- É, Mário, essa não vale. Vai sério.

- Tá... Deixa ver... O que é que tem na Península Ibérica?

- Ah, sei não. Pergunta pra ele.

- A Itália, né?

- Não! Portugal e Espanha!

- Assim não vale, cês tão enrolando.

- Tô não, vamos ver outra... Quem nasce em Salvador é o quê?

- Sei não - o Jardel fala, rindo -, pergunta pra ele!

- Ah, dessa vez você caiu do cavalo, mano! Essa eu sei! Saca só! Saca só! So-te-ro-po-li-ta-no!

- Boa, acertou! Agora eu pergunto a você, não é, Jardel?

- É, manda aí!

- Qual... a capital do Amapá?

- Ah, mano, essa é baba. - o carinha protesta. - Vale não...

- Deixa ver... É... Rio branco!

- Não, errou fei! Ponto pra ele.

- É Macapá, mané!

- Vamos lá, sua pergunta...

- Vamos sair da Geografia, por favor! Tá um saco! - Jardel reclama.

- Tudo bem, vejamos... Já sei! Qual o nome como era conhecido o terreno que hoje é Glasscity, nos Estados Unidos?

- Área 51!

- Certo!

- Mas isso era Geografia!

- Não, é História!

- Pior ainda! É Geografia de antigamente!

- E você quer o quê? Televisão?

- Seria ótimo!

- Mas não dá não, vejamos... Qual a fórmula da água?

- Deixa ver... - o Jardel fica pensando um pouco. - O-2! Não, não! Peraí! H-2-O!

- Tá, vou aceitar. Acertou. Agora você: O-2 é o quê?

- Oxigênio! "O" não é Oxigênio? Se botar um monte continua sendo oxigênio, não é não?

- Acertou, mas não é não. Agora o Jardel... Como se chama o troço que a gente tem dentro das células que diz quem somos?

- Deixa ver... Células?

- Não, errou! Que ridículo! Qual o nome dos bixos que têm oito pés?

- Vale não. - Jardel protesta. - Essa tá muito fácil!

- Ah, é? Pois eu não sei. - o carinha responde - Pois responda que eu não sei.

- É aracnídeo! Aê!

- Acertou! Você! Qual a ilha maior do Brasil? E mais conhecida?

- Ah, sei não, mano! E aqui tem ilha?

- Tem. Jardel?

- Não faço nem idéia!

- Não acredito! Fernando de Noronha!

- Ah, é...

- Bem, então vamos para outra. Onde é que eu fico de noite lá em Alagoinhas?

- Ah, mano, essa é foda! Como é que eu sei?

- Eu disse numa poesia... É um bar...

- No Bar do... Argentino?

- Não, do Chileno! Jardel? Que time foi campeão brasileiro ano passado?

- Foi o... Botafogo da Paraíba!

- Certo... Quais são as cores do arco-íris?

- Não sei, pergunta pro bonzão aí.

- Vermelho, Laranja, Amarelo, Azul e Violeta.

- Errou! Faltou duas, Jardel! Agora você... Qual o terceiro planeta depois do Sol?

- Pergunta pro mano aí!

- É... Deixa ver... Vênus!

- Errou de novo! É a Terra!

- É não, ó: Sol, Mercúrio...

- Depois do Sol! O Sol não conta! Qual o peixe típico da cozinha portuguesa?

- Pergunta pra ele aí!

- É o bacalhau?

- Certo!

- Aê!

- Onde moravam os deuses na Grécia?

- Ah, agora eu respondo senão ele ganha. No céu?

- Não, errou!

- Não é no céu não, véi?

- Não. Jardel? Quantos oceanos existem?

- Não sei, passa pra ele.

- Três?

- É, são três!

- Olha, a gente está chegando!

- Só pra encerrar: Jardel agora, não é? Qual é a pontuação atual?

- Não sei. E já ia dizer que você era bom nisso...

É, ninguém sabe quem ganhou, mas chegamos em Alagoinhas.

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