Parte 3 - Caçada

Não dá pra acreditar não, cara. Esse cara é bruxo ou o quê? Já sei: só pode ser polícia secreta. Só pode ser...

A gente sai pelos fundos. Não tem ninguém por perto, só todo o resto do terreno da fazenda pode ser visto.

- Sinto pelo que aconteceu a você.

- Então você sabe o que aconteceu?

- Sim, eu sei.

Pensando bem, estou começando a acreditar que ele é é um bruxo mesmo. Mas será que não está blefando?

- E o que aconteceu?

- Não vamos perder tempo com coisas que nós dois já sabemos.

- Ah, você sabe o que aconteceu?! Eu perdi minha casa na cidade perfeita, perdi minha moto, levei um belo de um corte e ainda posso estar sendo procurado pela polícia!

- Mostra.

- O quê?!

- O corte.

- Pra quê!?

- Me mostra aqui! ...isso não é nada demais. Está com medo de um corte assim?

- Olha, cara: só não lhe dou um soco bem na sua cara... Nem sei porque.

- Ora, vamos, sua vida em Melodia estava muito parada. Não adianta inventar nada não que eu sei.

- Certo. Só uma coisa: você veio aqui só pra me encher o saco?

- Eu vim aqui porque é caminho de Mossoró.

- E...

- E o Viuri está lá.

Nem preciso perguntar quem é esse tal Viuri. Pelo modo como ele falou, só pode ser o infeliz do assaltante. Também não preciso perguntar como ele sabe que o cara tá lá: se ele me achou assim do nada...

- Certo. E você quer ajuda pra pegá-lo.

- E, se tivermos sorte, você ainda recupera sua moto. Que acha?

- Feito, mas espera um pouco: por que essa obsessão por pegar o cara? Ele fez algum pacto sinistro ou algo assim?

- Quase. Mas vamos logo antes que ele saia.

- Saia?

- Da cidade.

- Espera. Vou falar com o Jardel e ver se ele quer vir.

Ele não responde mas, pela cara, não gostou nem um pouco da idéia. Como ele não falou nada vou chamar o Jardel, mas... Será que é uma boa idéia? Ele já me ajudou me achando e me trazendo pra cá, não seria "explorar" o cara não?

Mas e quanto ao Catarino? Eu posso realmente confiar nele? De qualquer forma, ele me deve uma boa explicação: a troco de quê que eu perdi minha casa...

- Não temos muito tempo.

- Tá, já vou.

Minha moto... Eu posso recuperá-la. É, vou falar com o Jardel sim. Viro-me e vou para a casa, mas... Eles estão vindo! Já estão quase aqui!

- Quem é ele? Que faz na minha casa?!

- Não sei como ele entrou não!

- Você o conhece, é... Amigo do Jardel.

- É o Catarino.

- Então você existe mesmo...

- Penso que sim. - Ele responde, olhando os próprios braços e pernas. Completa, em seguida. - Certo, mas nós não temos muito tempo aqui não. Eu e Mário estamos de saída: precisamos encontrar alguém.

- Bem, vocês que se entendam, mas... Não quero nem saber como você entrou aqui, mas não quero ver você mais na minha fazenda, entendido? Vou dar permissão pra os vigias daqui atirarem me quem entrou sem permissão. - depois o doutor se vira para o Jardel - E, faça-me o favor, você. Eu tenho você quase como um filho, um sobrinho! Não invente de trazer essa gente complicada pra minha casa.

- Desculpa, eu não...

O doutor entra em casa nada satisfeito.

- Tá vendo, Mário? O que cê fez?

- Ele não teve culpa. - o intruso então se vira pra mim. - Vamos?

- Espera um pouco. Onde cês pensam que vão?

- A gente vai atrás do bandido, Jardel.

- Isso de novo?!

- É. Ele está com a minha moto.

- Sabe de uma coisa? Você devia era chamar a polícia. Assim acabavam prendendo os dois: o ladrão e esse outro aí.

- Tenha mais respeito. Você não sabe com quem fala.

- Calma aí vocês dois! Olha, Jardel, eu vou lá. Se quiser vir também, pode vir. Se não vier, eu entendo.

- Eu ir com vocês? Tá louco!? Você não devia confiar nesse cara aí de jeito nenhum!

- Tudo bem. Então já vamos. - É... Pra quê que eu fui pedir, né?

- Espere! Eu vou, droga! Quer dizer, se vocês não tiverem de carro, eu posso pelo menos dar uma carona.

- É, eu agradeço.

Certo, resolvido isso a gente vai para o carro do Jardel. Ninguém havia terminado o jantar, mas faltava pouco e nossos estômagos já estavam satisfeitos. Quanto ao Catarino, ele insistia que tinha pressa...

- Vão pra onde? - O doutor estava sentado no sofá vendo televisão quando passamos pela sala.

- Vou deixar os dois mais na frente. Beleza, Osmar?

- Tudo bem. Só espero, Jardel, que você não esteja se metendo em confusão. Abra bem os olhos.

- Falou!

Antes de passar pela porta principal da casa, eu podia jurar que ouvi o doutor resmungar qualquer coisa. Como não deu pra entender direito o que era, deixa pra lá.

- Querem que eu vá nisso aí?

- Ei, mano! Olha lá como fala do meu BMW Z9 16, falei?

- É, vá no banco da frente.

Entrei e fiquei lá no banco de trás. Logo depois entra o Jardel. Nada do Catarino entrar. A porta aberta e ele lá fora hesitando, pensativo. Será que está com medo de o Jardel levar a gente pra polícia?

- Que foi, mano? Quer ir a pé?!

Ele bota um pé dentro, pára um pouco e enfim entra. Seu rosto está pálido!

- Que foi que houve?

- Não, nada.

- Eu não acredito, Catarino! Você tem medo de andar de carro?!

- Não, é que... Bem, pra falar a verdade, eu preferia ir andando...

- De onde é que você vem? Lá não tem carro não?! - Jardel provoca um pouco. - Lá já tem rádio?

O Catarino não responde. E faz muito bem agindo assim, pois é apenas provocação do Jardel. O que é curioso é o fato de ele ter tido medo do carro. Medo ou algo assim, sabe? O problema é o que isso pode significar: será que ele nunca andou de carro?! Quem tem medo de andar de carro acho que também nunca andou de moto. Como é que esse cara diz que vem lá do Oriente Médio!? E como ele viajou da Bahia pra cá me procurando? A pé?! Esse cara me assusta...

De qualquer modo, agora a gente já está passando pela entrada. O carinha que cuida de lá viu o carro se aproximando do portão e correu para abrir: ele estava lá no meio do mato. Devia estar tirando água do joelho ou sei lá.

O Jardel faz o carro pegar a estrada virando à direita, indo em direção à cidade. A gente já deve estar no território de Mossoró, mas a cidade mesmo, de gente, de casa, urbana, a gente não viu ainda não.

- Certo, cara... Pra onde é que a gente vai? - Jardel pergunta batendo de leve as mãos no volante.

O Catarino permanece calado olhando a estrada. Parece preocupado.

- Ei, cara! Falei com você! Pra onde é que a gente tem que ir?!

- Tudo a seu tempo.

- Certo, e onde é que fica? - Ele pergunta, com cara de provocação. Parece riso. Parece uma piada, mas olhando a sua cara a gente nota que não é distração. É uma piada mas, além disso, é uma espécie de provocação, sabe?

Também não é difícil notar que o Catarino não gostou nada disso. E ele ainda está nervoso.

- Tudo será revelado.

- Oh, não me diga... Pensei que a gente estivesse falando de um caso, não de fotos.

O Catarino não responde, continua olhando a estrada. O clima não está legal não...

Olhando daqui os dois parecem personagens de cinema, sabe? Um playboy que adora se exibir e um cara misterioso que esconde o passado e aparece do nada. E eu? O poeta boêmio que queria deixar de beber e acabou no meio de uma história maluca... Mas hoje em dia quase tudo pode virar história de cinema. Tanto pode que vira: tem tanto filme aparecendo por aí...

E, pensando um pouco, qual a diferença de um personagem de cinema pra um cara normal mesmo? Você anda pela rua e encontra um monte de gente presa à rotina. Não buscam se divertir nem nada. Gente que sofre e parece que acha bom, pois nem reclama! Eles têm cara de quem vive pra cumprir obrigação. Sabe como é? Aquela cara de quem veio à Terra pensando que tinha muita coisa pra fazer e, quando chegou, descobriu que era só mais um. Cara de quem foi traído e não pode nem reclamar.

É, eu sei que tem gente de todo tipo, principalmente nos dias de hoje. Mas no cinema, apesar de não manjar muito disso, eu acho que gente assim não existe não. Então, quando a gente fala de gente que parece de cinema, a gente quer falar de pessoas que não são desse jeito parado. Gente que tem personalidade e cara de quem gosta de viver.

Os dois estão lá com as caras fechadas. Parecem duas crianças de mal. Já dá pra ver a cidade. A gente está chegando. Por enquanto não dá pra ver prédio alto não, mas já dá pra ver prédios de casas e lojas.

- Cê sabe onde é pra ir? Não conheço muito a cidade.

- Claro que sei.

A gente entra na cidade mesmo e o Catarino começa a dar as direções: ali, lá, por aqui... Isso por dentro da cidade e até com alguns problemas, pois tinha muita vez que o Catarino mostrava o caminho e era contra-mão. Ele achava outro, mas a gente perdia tempo. Teve até uma hora que o Jardel perguntou ao Andarilho se ele nunca andava de carro. Ele respondeu que não interessava. O mais curioso foi quando o Jardel perguntou se o Catarino já havia ido a Mossoró antes e ele respondeu que ''não necessarimente''. O Jardel quase enlouqueceu.

Mas agora a gente parece ter chegado ao objetivo. A gente está agora deixando o carro no estacionamento. Tínhamos acabado de passar por um bar e o Catarino disse: é aqui.

- Vamos rápido.

- Por quê?

- É pior que pensei. A reserva fica muito perto.

- Que reserva?! Nem vi o time titular!

Jardel e suas piadinhas fora de hora - e sem graça... A gente corre. O Catarino passa entre as pessoas apressadamente, chamando bastante atenção, chegando ao bar. Nós o seguimos.

Não há muita gente aqui, pois é cedo da noite. O bar parece bem equipado. Talvez só haja esse bar na cidade. Sabe? Monopólio. Um bom demais derruba quase todos os mais ou menos. Ou vai ver é um de elite...

O Catarino entra como uma bala, passa por várias mesas na penumbra sem sequer olhar de lado, com a determinação de quem tem um objetivo bem definido. Passando pelo meio do bar, desvia um pouco para a esquerda. Alguém que nem dava pra ver direito pela distância se levanta assustado, leva a mão à arma mas, a um gesto do Catarino, solta a arma de novo no coldre. Era ele.

- Você de novo! O que é que você quer de mim, afinal!?

O Andarilho, ainda com a mão estendida, começa a olhar atentamente o local.

- Jardel, vocês três vão embora agora!

- Ele enlouqueceu!

Ele começa a olhar para as janelas paranoicamente. Bem, pode ser que ele seja um louco, mas... Eu seguro o braço do bandido que a gente procurava.

Um barulho miserável de demolição no momento em que o Catarino fecha a mão e, de uma seqüência rápida de gestos - nem deu pra ver a mão dele - dispara um relâmpago contra a janela atrás da gente! Um barulho de elefante caindo lá atrás!

- O quê...

- Vão '''agora'''!

Ele salta a mesa.

- Onde?

- Isabella.

- Cara...

A parede! Bem que notei um vento forte naquele momento, pensei que fosse o medo! Um pedaço da parede caiu mesmo!

- Vamos!

O Jardel está parado feito um trouxa. O carinha de antes está vindo.

- Eu quero ver.

- Que ver porra nenhuma!

Eu lhe dou um puxão brusco e ele resolve ir logo.

A gente passa correndo esbarrando com pessoas que vêm ver. Que coisa mais idiota ir ver um buraco na parede!

- Rápido!

Enfim a gente chega ao estacionamento e pega o carro. O cara que cuida de lá já vinha falar alguma coisa pra gente, acho que perguntar o que aconteceu...

- O que era aquilo?

- Cara, era a Anaconda!

- Era o quê?!

- Aquela cobra grande de um filme antigão! Vocês não viram não?!

- Não.

- E o teu amigo lá, cara! É bruxo mesmo! Nunca vi aquilo não, cara...

- O que, Jardel?

- Um relâmpago! O cara fez um relâmpago pra acertar em cheio a Anaconda!

- Não acredito que isso está acontecendo... - O carinha deixa escapar. Ele está no banco de trás. - Droga! E a minha moto!?

- Era a minha, seu... seu ladrão!

- Querem ficar quietos vocês dois?!

- Por ali...

- O quê!?

- A estrada! A gente passou por uma placa!

- Ah, droga!

Pior seria sem mim. O Jardel roda a direção com força e o carro desliza queimando pneu.

- Você tá louco?! - Agora é o bandido, mas tudo bem, o Jardel consegue executar a manobra que pretendia. A gente toma a estrada que eu havia encontrado.

Quer dizer então que isso faz parte de uma grande operação envolvendo até magia! Interessante... Mas não sei não... Pelo jeito como a parede caiu. Se o Jardel diz que tinha uma Anaconda - ou seja lá o que for - a gente pode estar correndo um sério risco de vida. Já na estrada, o Jardel parece meio esquisito.

- Quem é ele? - desabafa, finalmente.

- Ele quem?

- O teu amigo bruxo, ué!

- Eu não sei.

- Como assim não sabe? Deixa de lero, você conhece o cara há um tempão...

- Sim, mas conheço pouco. Acredite, eu já disse tudo o que eu sabia!

- Está certo... E você! Você deve saber mais sobre ele.

- Eu sei nada não, mano.

- Ah, tá... Olha bem pra minha cara: tá achando que eu sou trouxa ou o quê?

- Eu não estou achando nada!

- Ah, é? Por quê que o cara tá no seu pé?

- E eu sei lá!

- Como não sabe?! Quer dizer que o figura lá de uma hora pra outra pirou e resolveu colar no seu pé?

Com uma cara de espanto, o carinha parece ter medo, mas acaba dizendo: "Foi. O pior é que foi isso mesmo". Não sei não mas, do jeito que o Catarino é estranho, acho que estou começando a acreditar nele...

- Quem é esse cara afinal de contas?! Bem, Mário, é... Você falou que ele era de Catar, não foi?

- Foi.

- Não sabe se lá eles têm algum culto ou alguma seita de morte, não?

- Não tenho a menor idéia...

- Quer dizer que o lance de Anaconda é de verdade mesmo... Mas de onde será que vêm esses bichos já que ninguém ouve falar deles?

- E eu sei lá, Jardel! Nem sei nem vejo vantagem em saber.

- Pô, cara! Pensa um pouquinho: é uma questão intrigante!

- Que intrigante o quê, cara! Presta atenção no volante que a gente ganha mais. Não tá indo muito rápido não?

- Cento e trinta.

- Manera aí que eu quero chegar vivo!

- Cento e trinta! - O ladrão berra.

- É, algum problema?!

- Pra onde é que a gente está indo?

- Pra casa da...

- Pra Bahia.

- Salvador?

- Não.

- Feira de...

- Alagoinhas.

- Ah, Alagoinhas...

- Conhece?

- Não, mas ouvi falar...

A gente está indo muito rápido! Não seria surpresa se a gente descobrisse que já está na Bahia! Mas se...

- Peraí!

- Que foi, cara?

- Não, mano. Seguinte: a gente vai pra Alagoinhas na Bahia mesmo! De noite até lá?! Não dá não, mano. Sem chance... Nem que fosse "Alagoonas" cê conseguia ficar acordado até lá.

- É, talvez a gente precise parar pra dormir em uma cidade por aí... O que acha, Jardel?

- Sei lá! Que horas?

- Dez pras dez.

- É, talvez... Fiquem de olho e vejam se acham uma cidade boa.

- Como assim?

- Não muito pequena.

- Ah, certo. Mas você precisa ir mais devagar senão a gente não vai ver nem as cidades grandes.

- Falou, cara. Cê diz isso porque não viu a Anaconda. Se você tivesse visto o que eu vi, não ia querer parar pra dormir nem que fosse pra gente ir pro Japão!

- É... Sabe de uma coisa, Jardel? Se a gente não tivesse com tanta pressa, seria legal passar na casa da Pat...

- Olha só! Quem diria? o velho Dantes fisgado! Tá pensando numa mina só!

- Ah, sei lá! Vai ver é porque foi a única que se lembrou de mim...

- Não seja injusto: a Bella também lembrou.

- Sim, mas eu e a Bella somos só amigos.

- Sei... Cês dois vivem dizendo isso, mas ninguém leva a sério não...

- Po, aí é lasca...

- Mas, de qualquer forma, não vai dar pra passar lá não. Seria um desvio de pelo menos seis horas!

- Acho que até mais...

- É, ia ser mais de seis horas...

- Passamos por uma!

- O quê?!

- Uma cidade!

- Aquela era só uma vila!

- Ah, tá... Quero ver onde a gente vai encontrar uma cidade que preste por essas bandas...

- Esquenta não, carinha, que se a gente não achar nada por aqui, a gente dorme em Souza, mais pra frente.

Bem, agora a gente tem que achar uma porcaria de cidade. Já faz um bom tempo que deixamos Mossoró. O quanto antes a gente acha um lugar pra passar a noite, melhor. Não acho que ainda estejam atrás da gente. Pelo menos não perto o bastante. Se bem que, na verdade, não sabemos como aquilo se desloca, nem o que está perseguindo a gente.

- Jardel, você disse que era o que mesmo?

- O quê?!

- Aquele bicho.

- Uma anaconda, por quê?

- O que você sabe sobre isso?

- Bem, pelo que eu vi é só uma lenda de índio.

- Menos mal...

- Por quê?!

- Se tivesse a ver com ET ou coisa assim ia ser mais complicado a gente escapar dele.

- Vocês dois são loucos é?! Uma cobra do tamanho de um trem com força pra quebrar uma parede aparece... Vem um cara que diz que é de sei lá de onde e solta uma magia nela. Manda a gente embora e os dois ficam brigando e cês acham normal!?

- Fica na tua, tá? - O Jardel responde. Já está muito puto da vida com ele.

- Sabe de uma coisa, cara? Olha só para cá. - Ele segura uma pistola. Não é uma laser, mas é compacta. Ele segura sem mirar em ninguém, só mostrando, e continua... - Estão vendo só? Eu não roubei esse carro e mandei cês irem embora a pé porque "que diabo é aquilo"!

- Tadinho, Mário, tá chorando...

- Vai tomar, vai!

- Quer saber de uma coisa? Vou dar um conselho: fica quieto aí no banco de trás, certo? O Mário é marcial, cara! Não vá querer fazer nenhuma gracinha.

- Ah, tá certo... Tô morrendo de medo...

Sabe de uma coisa? O Jardel é mesmo um mané. Parece que esqueceu que esse carinha aí ficou quase a tarde inteira apontando a arma pra minha cabeça e eu não pude fazer nada. Sem contar que ele roubou minha moto e me deixou sozinho no meio da estrada.

Tanta coisa aconteceu hoje... Parece até que já faz uma semana que isso tudo começou. Como eu iria imaginar que num dia eu estaria em Melodia e no outro fugindo dessas criaturas estranhas. Mas numa coisa o carinha lá está certo: essa história está muito esquisita pro meu gosto.

Agora lembrei: ontem eu não tava em Melodia não. Eu havia ido pra casa da Pat. Cheguei hoje mesmo.

Mudando um pouco de assunto, está meio ruim de achar cidade por aqui, não? Até agora só passamos por uma e já faz mais de meia hora. Talvez tenha passado alguma enquanto a gente tava conversando...

O que é aquilo ali na frente?

- Ih, problema, pessoal... Guarda teu brinquedo aí.

-E um posto policial. O carinha esconde a arma debaixo do banco enquanto o Jardel diminui a velocidade. Dois policiais já estão de pé com arma na mão pedindo pra gente encostar.

- Tem documentos?

- Claro que tenho! - O Jardel abre o porta-luvas e pega o documento do carro. Tudo com jeito de gente importante...

- Carteira?

- Está aqui.

- Tudo bem, boa viagem.

- Obrigado.

Nada tão difícil. Apesar de ser quase onze horas, eles devem pensar que a gente está indo varar a noite sei lá onde.

- Viu só? É só botar moral que eles amarelam. Nem me pediram o bafômetro!

Agora é hora de o Jardel se aplaudir. "Eles nem pediram o bafômetro"... Ora bolas! Se ele fosse de moral mesmo, os tiras não pediriam nem o documento do carro...

- Sabe de uma coisa? Eu tô com fome. Cês não tão não?

- E daí? Não tem cidade com lanchonete mesmo!

- É, mas a gente bem que podia parar num posto de gasolina. A maioria tem lanchonete sim.

- Mário... Cê tá me achando com cara de quem lancha em posto de gasolina, por acaso?

- Está bem, tá certo... Olha, o telefone.

- É mesmo... Alô! Tá aqui! Toma, Mário, é a Isabella.

- Alô! Bella! - "Oi, Mário! Cê tá onde?" - A gente está aqui no Rio Grande do Norte, ou já é Paraíba, sei lá! - "É? Fazendo o quê?" - A gente está indo praí, mas precisamos dormir antes. Amanhã a gente chega, tá? - "Está certo... Você está bem?" - Estou. - "Viu o Catarino?" - Vi sim, e mais de uma vez. - "Se ver de novo, diga a ele que mandei um beijo, tá?" - Pode deixar... - "Tô te esperando. Um beijo. Tchau!" - Beijo. Tchau!

- Está vendo? E ainda dizem que são só amigos...

- Tá certo... Pelo jeito você não se convence do contrário, não?

- De modo algum.

- Pois bem, fazer o quê?!

E essa agora... O que foi que eu falei demais? Só disse tchau! Sabe de uma coisa? Quando alguém pensa alguma coisa de alguém, tudo na pessoa parece ser aquilo mesmo. É, parece que ficou meio confuso, não? O que quero dizer é que quando alguém suspeita alguma coisa de outra pessoa, começa a ver coisas que não existem. Tipo assim: eu não acho que disse nada demais no telefone mas, como ele pensa que eu tenho alguma coisa mais com a Bella, ele viu coisa que não existe. Sei lá! Acho que não estou conseguindo explicar bem. Deixa pra lá então.

A gente está nesse carro já faz tempo pra burro, mas o Jardel insiste em parar só numa cidade grande... Tudo está escuro porque está um pouco nublado e não dá pra ver a lua crescente. ...ou é mingüante, sei lá! Sempre confundo uma com a outra! Sabe como é: as duas são faltando um pedaço. Só sei mesmo o que é lua cheia e lua nova.

Por falar em lua... Lembrei da Bella. Teve um dia que a gente estava andando pela cidade de noite e a gente parou numa praça. Nem lembro pra onde a gente ia. Era noite de lua cheia e eu falei pra ela: "Tem gente que vê na lua a imagem de Nossa Senhora e outros vêem Sao Jorge e o dragão. O que você enxerga, Bella, quando vê a lua cheia?" Você nem imagina o que ela respondeu. Uma moeda! Pode? Por isso que eu vivo dizendo que ela é meio maluquinha. Mas ela é legal.

- Mano, a gente não vai parar não?!

- Não.

- Pô, véio... Dá não assim...

- E você tem sorte de estar aqui.

- É, eu sei... Se aquele bicho me pega...

- Não era disso que eu tava falando. Cê sabe que em todo canto tem super-tira. Só no Brasil e nos Estados Unidos que não tem...

- E daí?

- Se eles quiserem te pegar vai ser mais difícil. Na Rússia tem a Força Russa, no Japão tem os samurais. Ainda bem pra você que aqui não tem merda nenhuma...

Espera um pouco... Agora sim faz sentido! Tinha alguma coisa lá, mas... Ela estava lá e quebrou a parede, e...

- Jardel! Acho que descobri o que está acontecendo!

- E o que é?

- Tem alguma coisa atrás do carinha aqui!

- E é? Como assim?

- Saca só: o Catarino disse que tinha coisa pra ele resolver em Melodia e eu tinha que fugir com esse aqui, certo?

- Sim, e daí?

- Por que o Catarino mesmo não fugiu com ele?! Porque essa coisa pra resolver era uma coisa perigosa que estava atrás de...

- De mim? Por que... - O carinha entra na conversa.

- Depois: por quê aquele bixo lá - a tal de...

- Anaconda.

- Isso, Por que ela apareceu do nada no bar? Porque queria pegá-lo. Aí o Catarino manda a gente fugir e luta com o bixo. Está na cara que tem alguma coisa atrás dele.

- Mário, você é um Einstein.

- Você está dizendo que aquilo estava atrás de mim? Tá maluco, mano?

- Mário, só me diz uma coisa: o que é que... - Jardel interrompe o que dizia para desviar de um carro quase parado no meio da estrada. O que fazia lá, ninguém sabe. Talvez nem estivesse tão devagar assim: é que Jardel está indo muito rápido.

- Pô, Jardel! Se liga aí no volante, cara!

- Foi mal, foi mal... Bem, o que eu dizia? Ah, sim: quem exatamente está atrás do carinha e por que o Catarino está defendendo ele?

- Ah, Jardel. Aí cê tá querendo saber demais... Você que entende melhor desse bicho lá. Qual é a história? Aquilo é feito em laboratório?

- Não, peraí... Talvez tenha sido feito em laboratório sim... Mas a lenda não é essa não. A lenda diz que é uma cobra enorme que vive na Amazônia.

- Mas a lenda diz como ela é feita?

- Como assim?

- Tipo assim: mula sem cabeça é quando uma mulher trepa com padre...

- Não, a lenda não diz como ela nasce não, eu acho. Só sei que vive na floresta amazônica e é uma lenda antiga pra burro.

- Certo... Na Amazônia, né Jardel?

- É... Mas não me pergunte isso que cê tá querendo: eu também não tenho a menor idéia do que esse bicho está fazendo por aqui.

É, era exatamente isso o que eu ia perguntar. Se é uma lenda da Amazônia, o que está fazendo aqui, longe pra cacete de lá? São mistérios demais pro meu gosto. Primeiro, o bandido me mantém refém. Depois a ligação da Bella. Aí o Catarino aparece em Melodia, o que seria impossível a menos que ele tivesse falado com a Bella já uns dias antes. Se ela tava drogada é bem possível, mas das outras vezes que a gente viu o Catarino, a Bella curou o vício por uns cinco dias...

O Catarino me pede pra fugir com o bandido. Depois ele me encontra sabe-se lá como, pois eu tinha me perdido e o Jardel havia me levado pra bem longe do ponto de encontro. Aí, pra concluir, aparece uma anaconda e ele dispara um relâmpago contra ela, no instante em que ela quebra a parede!! Sabe como eu me sinte? Como um peixe que sai do aquário pra uma lagoa imensa: não estou entendendo nada!

Mas tem outra coisa que eu não tinha pensado ainda... E se aquele bicho for um ser extra-natural?

- Jardel!

- Que é?

- Eu tô achando que aquilo não é uma anaconda - ou sei lá o que você fala - não. Deve ser um bixo extra-natural.

- Ah, tá... Não vai me dizer que você acredita nessas baboseiras... Acredita em Papai Noel também?

- Estou falando sério.

- Então você deve acreditar nos Maltrobs, não é? Passou um documentário sobre eles semana passada, com imagens e tudo... Mas você esqueceu que as coisas na TV são de mentira?

- Algumas coisas. E você nem vem que eu sei que você acredita em disco voador.

- Claro! Tiraram fotos deles muito antes de ter tecnologia que desse pra fazer fotos de mentira!

- Você acredita mesmo em discos voadores!?

- Sim, mas não mude de assunto: não existem essas criaturas que você está falando.

- E o que era aquea coisa? Um disco-voador?!

- Ha! Ha! Ha! Muito engraçado... Aquilo era uma anaconda, já lhe disse. Espera um pouco! Ela também pode ter sido trazida por extra-terrestre!

- Ah, tá certo...

Ele não acredita mesmo nisso. Fazer o quê? Ele também acredita em disco-voador e eu não. Acho que ele tem o direito de escolher as coisas em que acredita, não acha? Só tem uma coisa que eu não entendi direito...

- E o que são esses matrobs?

- Maltrobs! Você não sabe? Dizem na TV que o homem chegou a Marte e encontrou criaturas parecidas com sapos, só que do tamanho de um homem, que vivem no subsolo de lá. Dá pra acreditar nisso?! E ainda dizem que são seres inteligentes que se alimentam de bactérias!

- Mas você não acredita em extra-terrestres?

- Não nesse tipo, não é, Mário? Está me achando com cara de trouxa pra acreditar numa babaquice dessa?

- Está difícil... - o carinha fala do banco de trás.

- O quê que está difícil?

- Escolher o ganhador do prêmio de mó babaca!

- Só uma pergunta: alguém pediu sua opinião?

- Jardel? Que acha de a gente deixar esse imbecil no meio da estrada?

- Boa idéia, Mário. Quem sabe assim a anaconda encontra logo ele e deixa a gente em paz.

A gente fala isso, mas é só pra ver se ele cala a boca. A gente não vai deixá-lo no meio do caminho, eu acho. Parece que funcionou a idéia. Cê nem imagina como ele está quetinho lá atrás. Quetinho e fazendo bico.

- Olha que hora!

- Que horas? Diga você que eu tô dirigindo.

- São onze e meia!

- É, tá um pouco tarde, mas a gente agüenta.

- E seu carro funciona a quê? A gasolina mesmo? Que a gente até agora não parou!

- Foi, mas liga não. Tenho tudo sob controle. Estava nos meus planos parar no próximo posto.

- Falou, então.

Pensa que me engana. Ele não planejava porcaria nenhuma. O problema é que ele não pode admitir erros. Você deve saber como é isso, que tem muita gente assim por aí. Se eu não aviso, a gente ia terminar parando no meio da estrada e tendo que dormir por lá mesmo.

Cadê a tecnologia dele, hein? Esse carro não devia avisá-lo não quando a gasolina estivesse quase acabando? Isso ele não faz!

Um posto de gasolina! Finalmente vamos parar! E parece que tem lanchonete, mas dá a impressão de que está fechada.

- Olá! - Jardel grita após entrar no posto. Não tem ninguém por perto e a lanchonete está mesmo fechada.

- Jardel, parece que este posto não está mais funcionando.

- Dá pra ver, mas tem que ter alguém por aqui. - em seguida, ele grita. - Oi! Tem gente aqui?!

- Só faltava essa agora... O posto fechado... Que que a gente faz?

- Espera, tá fechado não! Vem o cara ali! - O carinha abre a boca de novo, mas dessa vez valeu a pena. Vem um cara lá devagar e com cara de sono.

- Que é isso, rapá? Tava dormindo no posto!? - o Jardel pergunta.

- O posto fecha meia-noite.

- Mas ainda não é meia-noite.

- Dá a chave.

- Eu abro daqui.

- Gasolina ou álcool?

- Diesel. - Quando o cara do posto se vira, o Jardel fala. - Pô, bixo! Que cara idiota! Não tem BMW a álcool não, cara! Ei!!

E lá vinha o "do posto" com a mangueira da bomba de diesel...

- Ô, mô fio! Cê tá drogado, é? É gasolina, e vê se anda logo!

Ele olha com cara de quem nãogostou, pára um pouco e vai colocar a mangueira de volta e pegar a da gasolina. Pela cara, parece que não dorme faz tempo. E anda devagar e sem vontade, parecendo até um... Uma múmia? Não... Um... Aquele negócio que é gente que morreu e que não é fantasma... Ah, tá, vai de múmia mesmo. Ele parece uma múmia.

Não tanto assim. Parece mais aquela outra coisa que eu esqueci o nome, mas tudo bem. Ele acabou! Que incrível!

- Quanto é?

O carinha do posto se vira lentamente e aponta para a bomba.

- Ah, tá certo... - Jardel pega a carteira e paga o abastecimento, perguntando em seguida - Uma curiosidade: alguém já lhe deu gorgeta algum dia? Te cuida, rapaz! Tem que atender direito os clientes senão não ganha gorgeta.

Prestes a sair ele fala, mais uma vez, à múmia do posto. - Legal esse nome, não é não? - sobre a cantina, se está aberta. A múmia só faz apontar pra lá, nada mais.

- E aí, Mário?

- Não sei... Você que está dirigindo. ...mas não custa nada...

- Certo, vamos ver se tem gente, mas parece fechada.

O Jardel começa a buzinar. O prédio é grande e tem uma lanchonete e o que parece ser uma loja de acessórios para carro, terminando em uma sei lá o quê. Deve ser uma casa, mas sei lá!

O que descobrimos é que a lanchonete está fechada mesmo. O Jardel buzina mais um pouco e depois se vira, com cara de quem diz "Bem, ao menos tentei". Quando liga o carro quase indo embora, aparece um cara vindo de lá de onde acho que é uma casa. Parece um gorila, todo musculoso. Sei lá, mas deve ser por causa dele que esse posto fica aberto tão tarde.

Ele se aproxima do carro. Chega à janela e se abaixa.

- O que vocês querem?

- A gente... Se não for incômodo... A gente queria fazer um lanche antes de ir embora...

Ele se levanta e vai até a lanchonete. Pega um chaveiro e abre a porta. Acende a luz. A gente sai do carro e vai pra lá também.

- Mas vai ter que ser rápido.

- Não... Tudo bem... Você tem o quê?

- Olha aí. - Ele aponta para o cardápio na parede.

- Eu vou querer um sanduíche e um guaraná.

- Bem, quero duas coxinhas e um guaraná também.

- É... Ninguém vai beber, né? Então vou querer isso também.

Dá pra acreditar que o Jardel estava pensando em beber? O cara já disse que tinha que ser rápido e o bicho ainda vai ter que dirigir até a próxima cidade. E ainda tem a questão do sono.

Ele traz as coxinhas e os guaranás. Pra que que eu fui pedir um sanduíche? É capaz de ele ficar com raiva por causa disso. Ele falou que não era pra demorar.

O Jardel e o carinha lá começam a comer e... Pronto. Chegou o sanduíche e eu não estou gostando muito da cara dele... É, da cara de nenhum dos dois: nem do cara nem da comida.

A gente tem que comer rápido, afinal, o cara aí já falou isso. E também que a gente ainda precisa achar um teto. Por isso a gente não puxa conversa, fica cada um lanchando na sua, em paz. O lanche está horrível, mas parece que não sou o único a achar isso. Claro que ninguém quer arrumar confusão com o gorila ali. Assim, fica todo mundo de bico fechado.

O lugar já não é lá aquilo tudo de limpeza. Na verdade é quase um lixo. Há algumas mesas e cadeiras não muito conservadas, os bancos aqui já estão enferrujados e tem até um quebrado mesmo logo ali. O que não presta mesmo é o chão: está sujo como ele só. Os canudos parecem reaproveitados e a gente está tomando guaraná na garrafa mesmo.

Cara, e o dinheiro? Eu tenho dinheiro aqui? Ah, tenho. Ainda bem que tenho um pouco. Eu saí de Melodia naquela situação e não pude pegar todo o dinheiro escondido no envelope preto atrás do guarda-roupa. Sabe como é... Qualquer mané que a Direção de Melodia quisesse podia entrar lá. Eu tenho que fazer alguma coisa pra guardar dinheiro de forma segura. Como eu não sou muito chegado a banco...

Agora meu dinheiro quase todo ficou lá! Só tenho um trocado comigo e vou ter que pedir ao Jardel emprestado pra hospedagem. Isso aqui só dá pra um lanche desses mesmo.

Êpa!

- Já paguei. - os dois já acabaram e o Jardel já pagou a conta. Tenho que acabar logo, senão... Ainda bem que falta pouco mesmo.

- Pronto, vamos lá?

- Vamos.

- Ei, mas e o...

Ele estava falando com o dono do posto. Quem? O carinha da mão leve que veio com a gente. Está lá no balcão conversando com o dono do posto. Quer dizer... Não sei se é o dono do posto, só sei que ele mora aqui e cuida da lanchonete.

O Jardel o olha curioso e com um pouco de raiva. Mais curioso que irritado na verdade. O carinha gesticula e gesticula enquanto o cara do posto só faz balançar a cabeça afirmativamente e abrir a boca vez ou outra.

- Jardel? Cê não acha que ele está aprontando alguma não? - Sei lá, né? Vai ver, de repente ele inventa uma história maluca pra fugir da gente... Não dá pra confiar em ladrão, né?

- Vamos! - o Jardel grita, finalmente, mostrando sua liderança. O carinha pede pra esperar e continua.

- O que... - o Jardel não me ouviu. Está indo até lá. Bem, vou lá com ele, não é?

Ao percorrermos metade do caminho, encontramos o tal carinha vindo.

- Eu estava perguntando onde a gente pode dormir aqui perto.

- Quem lhe deu permissão?

- Vai tomar, vai! Eu tô resolvendo a treta e é assim que tu retribui...

- Está bem, não precisa chorar... Fala de uma vez!

- Só não lhe respondo porque... Bom, ele disse que tem um quarto aqui e que cobra cinqüenta contos pra gente passar a noite. É isso. E aí? Topa?

- Não sei...

- Já tá tarde.

- Eu sei...

- A próxima cidade fica longe pra caramba e...

- Tá bom, tá certo! A gente passa a noite aqui.

Como o carro não podia ficar muito à mostra, o Jardel o bota lá atrás da casa, pra ninguém ver mesmo. Depois a gente vai pro quarto, não sem antes o Jardel tirar as cinqüenta pratas do bolso e pagar adiantado...

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