Parte 2 - Fuga

"Sentado aqui há um tempo... Acho que estou começando a entender o que está se passando. Hoje, logo cedo, passou um motoqueiro com a polícia no pé. Que se fez da moto não sei, mas minha casa tem um muro bem ''pulável'', nem tinha reparado nesse detalhe. Há um tempo ele pediu a chave da minha moto e eu entreguei - tava no meu bolso. Por isso ele não pôde sair logo. Não saiu por enquanto porque deve estar esperando o melhor momento, que não sei ao certo qual será."

"De qualquer forma, ele continua lá, bem na minha frente com aquela cara séria. Ah, que coisa que eu estou passando... Eu que pentei que uma cidade perfeita fosse um paraíso livre dessas coisas de violência do mundo de lá..."

"Só não endendi a ligação da Bella. O Catarino dizer que precisava falar comigo e que vinha pra cá parece muita loucura pro meu gosto. Ela deve estar usando alucinógeno. Não é assim de qualquer um querer entrar, chegar e passar pra dentro de uma cidade perfeita... É muito complicado entrar aqui e, do jeito que ele anda e conhece as coisas, acho bem difícil que venha tentar, a não ser que seja algo muito importante mesmo."

"Acho que falta falar dele, não é? Já tentei algumas vezes, mas sempre aparece uma coisa ou outra pra atrapalhar... Bem, esse tal Catarino de que falo é um cara alto, de pele morena clara, quase branca, de cabelos e olhos castanhos. Tem no rosto uma expressão de firmeza e tem presença forte. Sabe? Aquele tipo de gente que não consegue entrar num bar sem chamar para si a atenção, mesmo que entre quieto. Talvez seja pela altura, pela capa ou quem sabe até algo sobrenatural que o acompanha."

"É um viajante e disso não resta dúvida. Ele se diz Andarilho de Catar, que veio de Catar. A gente - eu e Bella - não acredita muito nisso não. Ele é um viajante, sim. Mas eu, pessoalmente, acho que ele deve ter vindo de um outro lugar, embora eu não duvide que ele tenha passado por essa terrinha em uma de suas muitas viagens."

"Ele continua lá. Está pigarreando."

- Qual o teu nome?

- Como?! - Não esperava por essa. Ele continua a me olhar sério, como quem diz "Vá... Devagar que você consegue entender o que eu perguntei..." - Mário.

- Mário... Não vou perguntar que Mário porque não fica bem...

"Que alívio... Não que eu tenha medo de dizer meu sobrenome, mas que ele não está nervoso. Isso sim é arriscado. Pelo menos ele está relativamente calmo, tem até algum senso de humor."

- Por que cê tá aqui?

"É... Parece que ele também se cansou de ficar olhando pra minda cara e esperar esse ''algum momento''. Começou mesmo a puxar conversa. Isso é ótimo, que esse negócio já tava ficando cansativo. Epa, ele fez uma pergunta, não?"

- Como?

- Cê não tem cara de "gente direita"...

- Eu... Eu vim aqui pra mudar, ora!

- É? E como conseguiu vir pra cá? Pois acho que dizer "eu quero mudar" não basta pra essa gente.

- Eu vim porque tenho uns amigos...

- Ótimo.

- Como assim?

- Esses seus amigos vão me ajudar a deixar a cidade.

- Ah, não, cara! Sem chance. Cê quer mesmo fugir? Esses amigos que eu disse são muito amigos da galera da Direção. Não dá certo.

- Tudo bem!

"Ufa! Ainda bem que não quis ficar insistindo."

- "Você" me ajuda!

- Espera aí. Você não tá querendo que eu me queime por sua causa, tá? Olha, cara, cê tá aqui já faz umas horas e eu não reclamei...

Ele se ergue e aponta arma na minha cara.

- Você não tem escolha, rapá!

Eu baixo a cabeça. O mundo caiu em cima de mim. Todos os meus planos vão correr por água abaixo. Depois de ajudá-lo a escapar, a situação vai estar bem pior do que antes. Antes eu vivia no bar, mas tava limpo. Agora, depois disso, os caras vão pegar mesmo no meu pé. O que foi que eu fiz pra merecer isso?

Uma pancada. Barulho de algo caindo. Quem está aí?

- Catarino!

- Oi, garoto.

O carinha outro está no sofá, imóvel. Também, pudera, sua arma foi arremessada pra longe de um só chute! E o Catarino está de pé entre os dois sofás, com ar sério de autoridade.

- Você me salvou, cara! Esse doido queria que eu ajudasse...

- A Isabella deu o recado?

- Deu! Ela ligou...

- É muito importante e você nem imagina quanto, mas vou lhe pedir um favor.

- Fala... - "isso não está me cheirando bem."

- Pegue sua motoca e ajude-o a fugir. Vá com ele e me espere perto do posto Wargo, na BR-110. Eu tenho algo pra fazer ainda.

- Peraí... Você quer que eu...

- Isso. Não se preocupe com a guarda. O importante é que devemos agir logo.

Grande merda. Pensei que estivesse salvo! Pra quê que ele quer salvar esse infeliz?

- Vamos. E você, vê se colabora. - Ele fala pro infeliz do bandido.

O fugitivo se levanta e caminha em direção à arma, mas é impedido pelo meu amigo, ou melhor, amigo da onça.

- Vamos logo. Você não vai precisar disso.

- Mas é uma Harmlet Z 15 Trioh!

- Que bom que entende de arma. Quer conhecer a munição da guarda também? Não temos tempo a perder. Vamos logo.

Saímos, os três. A rua está mais ou menos deserta. O guarda de trânsito não está aqui: deve ter entrado na escola pra conversar sei lá com quem.

- Não está esquecendo nada não? - O viajante me olha sério. - Sua moto...

- Não vai dar certo. Não vamos conseguir sair da cidade. Não há a mínima chance!

- Vocês conseguem.

- E por onde é que vamos sair?!

- Pela "entrada" da cidade. Só tem esse lugar.

- Mas...

- Não se preocupe, é só acelerar mesmo.

Parece que não tem jeito...

- Tenho mesmo que fazer isso?

- Tem.

Isso é mal. Lá se vai minha vida. Nunca mais terei outra chance. Parece loucura obedecer essas ordens, mas a gente nota quando alguém fala com autoridade, quando alguém sabe o que está fazendo. Só espero que ele saiba mesmo.

- Você... Por que não vai com ele?

- Já disse que tenho coisas a resolver.

- Que tal: eu resolvo e você foge com ele! - Que droga! O que é que eu estou pensando?! E se for pra "matar" alguém? E eu ofereço como se fosse só pra pagar uma conta no banco.

- Essas coisinhas não fazem meu gênero. - e aponta com desdém para a minha querida moto. - Além do mais, o que eu tenho pra fazel só pode ser feito por mim. Vamos logo, já perdemos muito tempo.

- E como é que você acha a gente? O Wargo fica longe!

- "Eu" sou o andarilho. Isso compete a mim. Não se preocupe, parta! Eu te espero lá.

Na moto, com o fugitivo, eu parto. Este parecia tão surpreso com a situação quanto eu. Certamente não esperava - também - por isso. Deve ter tido um choque. Mas por que ele quer que eu leve esse criminoso até o Wargo? Será que é criminoso mesmo? Talvez guarde informações contra a Direção. Sei lá! Coisa ilegal! O Brasil nunca foi lembrado pela justeza dos políticos...

O mais estranho, e que só agora eu vim perceber, é: como é que o infeliz do Andarilho veio parar aqui de uma hora pra outra? Sim, porque quando a Bella ligou, acho que ela disse que ele tinha acabado de passar lá...

- Olha ali.

- O quê... - Incrível! A guarda está reduzida a um homem. Vamos lá, é só pisar fundo que os portões não ficarão abertos pra sempre...

Pronto! Passamos! Não deu pra ver a cara dele, mas não ouvi nenhum tiro. Conseguimos! Deixamos Melodia! Mas não devo parar até o ponto marcado.

- Viu só! Era só isso.

- E daí?

- Você com sua frescura não queria me ajudar. Nem tinha guarda.

- Como não tinha?

- Aquele mané lá tava só pra marcar o lugar. Você não viu a cara dele!

- Mas isso agora. Normalmente tem mais de doze soldados lá.

- Ah, é? Tá bom, faz de conta que acredito...

- Eu moro lá! Quer dizer, morava lá, que depois disso tudo... Não sei nem porque eu vim!

- Porque ele manda em você, ué!

- Manda em mim, essa foi boa...

- Agora vira ali naquela entrada, tá bom? Eu tenho compromisso.

- Azar o seu!

- Eu tinha uma Harmlet Z 15 Trioh...

- E daí?

- Daí que não era a única arma que eu tinha...

Êpa! Não gostei de ouvir isso. Tude bem, eu piso fundo, que eu me garanto na estrada e ele não vai ser doido de me matar, senão morremos os dois.

- Calma! É brincadeira!

Ah, tá certo... Pra previnir, vou tentar continuar correndo, que é o melhor que eu faço.

Mas, voltando ao assunto... Como é que o Catarino chegou tão rápido? E como ele pretende chegar lá? Muito esquisito isso. Só não sei se é mais ou menos esquisito do que ele vir pra cá - ou melhor, pra Melodia - atrás desse infeliz. O que será que ele fez pra estar sendo perseguido?

- Tu tá encrencado, né?

- Aposto que está curioso sobre como eu entrei nessa, não é não?

Pra quê que eu fui perguntar... Agora ele fica aí fazendo pose e se achando o gostoso. Quero é...

- Vamos fazer um acordo, então: você me diz o que é que teu amiguinho quer comigo e eu conto o que foi que eu fiz! Que tal, hein? Vamos lá então. Você começa.

- Sinto muito, mas não posso dizer nada sobre isso.

- Tudo bem! Segredo então!

- Não foi o que eu quis dizer. Eu não sei de nada!

- E eu não sei o que eu fiz não. Tô com aminésia. Dã! Pra onde a gente está indo...

Ah, meu saco! Já bastava eu ter que fazer isso...

- Cala a boca!

- Quem é você pra me mandar calar a boca? É mesmo... Quem é você? Onde estou?

- Se não fosse pelo cara, eu te deixava aqui, no meio do mato, e me mandava. - Pelo "cara" e por não ter mais futuro eu voltar, né? Mas esse cara aqui tá um saco...

- Cara?! Que cara? Eu não conheço ninguém...

- Da próxima vez que o Catarino quiser enviar mala, vou sugerir a ele que use uma transportadora... Ou mande de avião!

- Mala? Que mala? A gente tá viajando?

- Você! Seu... Uma mala sem alça! Mala não, uma bigorna!

- Uma bigorna sem alça!? Você já viu alguma com alça, ô mané!

- Quer calar a boca? Quer que eu te deixe aqui?

- Ah, quero. E você vai deixar, e com a moto.

Uma dor no braço esquerdo... Sangue?

- É, amiguinho, acabou a brincadeira... Ou você pára aqui e desce ou eu te encho de furo.

Uma faca! O infeliz está armado! Ele falava sério... Fazer o quê, então? Não tenho treinamento de nenhum "Ninja Kyoto" de vale-tudo... O jeito é parar e descer numa boa.

- Valeu, maninho! Foi muito bom conversar com você! ...pensando bem, não foi não. Só disse isso pra ser educado. Tenha um péssimo dia!

Pronto. Já era... Quando encontrar o Catarino, ele vai ver só... Meu amigo, faz pouco tempo que eu tô lá em Melodia e ele aparece. Aí eu perco a casa e a moto. Muito bonito isso... Sabe de uma coisa? Eu tô começando a achar que ele tava envolvido no tramóia do bandido. Saco! sabe de outra coisa? É melhor eu estancar esse sangramento... O corte é raso, mas sei lá, né?

Pelo menos acho que estou perto do ponto de encontro. Se é que o cara vai aparecer... O ladrão voltou pelo caminho de onde a gente tava vindo que há um cruzamento lá atrás e ele quer é sumir dessa área. Está tudo ficando escuro ou é impressão?

Acho que é impressão. Espero que seja, pelo menos. Olha! Um carro?! Um caminhão ou ônibus vem lá da frente! É um caminhão de carga e não pára não. Ninguém pára hoje em dia. Talvez há uns vinte anos as pessoas fossem mais solidárias, mas hoje em dia... Não para nem se a gente pula no caminho deles. Parece que eu tou frito mesmo: aqui nessa estrada sozinho e longe de tudo. Parece infantilidade achar que o cara vai estar lá. Só vou mesmo porque é a única opção.

Nada ainda. Já está ficando tarde e não chega o tal do posto... Já estou me cansando, mas acho que esse corte não está piorando, só dói. Legal a paisagem... Tenho que aproveitar bem, pois talvez seja a última vez que a vejo. Mas é bonita mesmo a visão. Engraçado que a gente viaja e olha tanto pra estrada que não se dá conta da beleza do lugar por onde passa. É como formiga, que anda só na linha dela e não está nem aí pro resto do mundo. É como ver televisão em preto e branco e sem som.

Ah, deixa pra lá, esquece! Essa da televisão não tem nada a ver mesmo. Acho que é o cansaço. E também, acho que estou sendo muito dramático, não? Que "última vez" o quê! Eu vou escapar dessa. Eu tenho que escapar. Hoje em dia, que tem tanto jeito de morrer, eu terminar andando no meio do mundo é uma piada.

Tá aí! Eu aposto que o Catarino vai morrer de qualquer jeito menos assim, por estar andando.

Ah, não digo que esse cansaço está começando a me prejudicar! É! Eu não sou assim tão pra baixo não. Só porque estou no meio de uma estrada de tarde, já escurecendo, com um ferimento, a pé, eu ficar falando de morte? Ai, e agora...

Catarino, meu! Que é de você?! Será que ele vem mesmo? É minha última esperança... Sabe? A Bella dizia que ele era a cara do Mercúrio, aquele deus mensageiro. Que ele parecia ser um "mensageiro dos deuses". Ela gosta desse lance de mitologia, só eu que não sou muito chegado nisso. Eu até escrevi um poema pra ela, comparando a Bella com Vênus... Sabe como é, ela insistiu muito! E depois, quando acabar, ela não gostou. Disse que eu tava falando mais da estrela que da deusa...

Aí eu perguntei pra ela: "Eu sou quem então?" Ela disse que eu era o mundo. Quando perguntei o porque, ela respondeu: "Olha só: Mercúrio é ele; Vênus, euzinha; você é a Terra! É o próximo, não é demais?!" Assim, '''ela''' que estava falando mais das estrelas que dos deuses.

...É, eu sei... Mercúrio e Vênus não são estrelas, mas planetas. É que a maluca da Bella gosta de chamar de estrelas, mas ela também sabe que não são... Parece meio maluco isso, né? Olhando bem, talvez seja mesmo.

A noite já está chegando pra valer e nada do posto. Ai, meu braço está ficando dormente! Se não aparecer uma salvação logo...

Que é isso? Um carro vem vindo... Um carrão BMW prata... Não tem muitos não e eu acho que sei...

- Ei, Mário! Entra aí!

Obrigado, "providência divina"!

- E aí, mermão! Tá fazendo o quê aqui? Ah, meu! Cuidado não melar minha gracinha... Cê tá ferido, cara! Que foi que houve?!

É o Jardel... Ele é filho de um ricaço local. Um dos "donos do mundo", sabe? Querem mandar em todos e ai de quem não obedecer...

Entro no carro e fecho a porta que abre pra cima.

- É uma longa história... Tem a ver com assalto, mas não se trata só disso.

- Tudo bem, tudo bem... Depois cê conta.

- Posso perguntar uma coisa?

- Fala.

- Como cê me achou?

- Ah, mano, agradeça à Patrícia: ela que ligou. Sei lá como ela soube que eu estava passando por aqui e pediu pra eu passar em Melodia e ver como você estava. Parecia nervosa... Que é que tá pegando?

- Quem me dera saber...

- Não vem com esse papo não, tá? Qual é, cara?! Pode confiar em mim! Me diz o que é que tá havendo!

- Não sei... Sabeo andarilho?

- Não muda de assunto...

- Está no assunto. Sabe o andarilho?

- Anda o quê?

- Viajante, o Catarino.

- Não sei desse Catarino não, ele é de onde?

- Ah, meu, tenha dó.

- Que é? ...tá, tá, o que tem esse... Esse cara aí?!

- Passou lá em Melodia e pediu pra eu fugir com um bandido.

- Como é que é?!

- É, e o bandido que fez isso...

- Tu é burro, é? "Ele chegou lá assim e pediu pra eu fugir com um bandido"... Sabe o que eu tô achando? Que cê tá com merda na cabeça, ou então tá me achando com cara de anta pra engolir isso. Deve ser é isso mesmo.

- Não é nada disso... Aconteceu assim mesmo!

- Tá bem, tá bem... A gente vai ter tempo pra conversar melhor...

- Como assim?

- A gente tem que dar um jeito nessa ferida sua, né não? Agora, é bom cê falar com a Patrícia, que ela tava uma bateria de nervos.

- Uma bateria?!

- É! Não tem "pilha de nervos"? Bateria! Mais que pilha, sacou? Ha, ha, ha!

- Ah, tá... Qual é o número dela?

- Que número, rapá?! Dá aqui. "Fala Pat Vinte e Sete"! Pronto, tá chamando.

E se acha um grande comediante... Bem... "Alô!"

- Oi, Pat! - "Mário!? Como é que você tá?! Tá legal?!" - Estou. - "Eu tava tão preocupada! A Bella ligou e disse que cê talvez tivesse entrando numa encrenca, mas ainda bem..." - É... Obrigado por se lembrar de mim... - "Ora, como eu não ia me preocupar com você, gato? O que foi que houve afinal?" - Nada demais...

- Cuidado que ela já estava nervosa...

- Eu...

- Não deixe a mina doida...

- Não, foi só um mal entendido. - "Sério?" - É! Um cara aqui me confundiu com outra pessoa, mas já está tudo bem. - "Verdade?" - É sim. - "Olha, você não me convenceu muito não com essa história... Mas tudo bem, só que depois eu vou querer uma explicação mais completa." - Tudo bem então - "Tchau!" - Tchau. - "Olha, meus pais ainda não voltaram! Resolveram aproveitar a viagem e ir pra Atenas, lá na..." - Grécia. - "Isso! Se você pudesse vir de novo..." - Ah, é uma pena: acho que não vai dar não... - "Tudo bem. Mas eu estou esperando, caso mude de idéia, certo? Tchau!" - Tchau. - "Um beijo!" - Outro. - "Tchau!" - Tchau!

Pronto, menos uma preocupação. Mas o que é que eu digo pra ela quando a gente se encontrar de novo? Deixa pra lá, depois eu penso nisso...

- Toma, valeu. - devolvo o telefone.

- Que nada, não há de quê!

- Ei, esse negócio não é computadorizado não?

- O quê? O telefone?! É sim! É o que há de melhor no assunto.

- Não sei como você usa isso...

- Ah, que besteira agora! Qual o problema? Esse lance de ser vigiado por essas caixinhas é superstição, é só do folclore e não tem sentido não!

- Ah, tá bom...

- Você já ouviu falar de alguma coisa assim? Tipo, alguém que usava um troço desses e era espionado e coisa e tal? Não tem nada a ver não, mano! O problema é que graças a gente como você, a tecnologia nunca teve chance de mostrar do que é capaz!

- Nunca teve chance?!

- Claro que não! Vocês ficam sempre falando que tecnologia é perigosa e se assustando com ela! Mas a nova geração não vai ser assim não...

- Cara, ela teve chance sim!

- Ah, é? Quando?

- Faz bem uns vinte anos. Ela teve chance e mostrou que era suja.

- Você tá vendo filme demais. Ela nunca teve chance não!

- Você não conhece a história...

- Que história?

- Havia computadores em todos os cantos da Terra, até que descobriram como eles eram manipulados. O mais usado programa tinha armadilhas que só... Só se livraria se a gente pagasse uma fortuna pra quem criou.

- E daí? Quem tem dinheiro usa, ué!

- Sim, meu amigo, mas é uma operação que passa por cima da lei, meu!

- Quer dizer que tinha coisa boa e todo mundo jogou fora!? Eu não acredito! Eles têm que voltar que a gente está perdendo muita coisa com isso!

- Quem está perdendo é você, com isso.

- Quer dizer que é por isso que as empresas guardam segredo sobre os troços high tech que usam, é? Nunca havia pensado nisso...

- É por isso que... Que tipo de empresa?!

- De todo tipo.

- Essa eu não sabia. Pensei que fosse só a imprensa!

- Imprensa!? Pra quê?!

- Ah, deixa pra lá...

- O que sei é que isso vai mudar, e é logo. Não dá pra... Sei lá! Computador é coisa muito boa pra ficar na gaveta. entende?

É, é o que está parecendo... A cada dia me convenço mais disso. Quer dizer então que computadores são utilizados às ocultas hoje em dia mesmo... Não sei como não pensei nisso. O que preocupa é ver gente como o Jardel. Tudo bem a tecnologia voltar a governar, mas tem que ser controladamente. A gente não pode, de jeito nenhum, esquecer o que aconteceu, senão tem o risco de voltar a acontecer, só que dessa vez sem ninguém notar.

Claro! Os poderosos estão por dentro de tudo o que ocorreu, eles poderão dar um golpe mais preciso e isso é que dá medo. Mas o que tem de tão interessante nessas caixas cor de manteiga? São só umas calculadoras metidas a besta, capazes de acabar com a nossa vida se deixarmos.

- Pra onde que a gente está indo?

- Mossoró. É pertinho e a gente chega já.

- Tudo bem. Me diz uma coisa, cara: você não tem medo de ser assaltado não?

- Por causa da máquina aqui? Não, eu mesmo não.

Já é noite e os faróis estão acesos. Passam alguns carros, mas não há um movimento tão grande.

- A gente não pode ter medo dessas besteiras não. Se eu for assaltado, vou ser assaltado e pronto. Você tem medo de sair na rua?

- Não...

- Mas cê pode ser assaltado, pode morrer num acidente de carro, levar uma bala, ser abduzido...

- Ser o quê?

- Abduzido, ué! Seqüestrado por ET! Nunca ouviu falar disso não?

- Não, nunca. Tudo bem, eu só fiz uma pergunta, não uma crítica. Só queria saber como você se sente num carrão desses.

- Como eu me sinto?! Eu me sinto um deus!

- É, aí que está. Eu acho que não me sentiria tão bem assim. Ia me sentir meio...

- Perdido?

- Não, não é bem a palavra...

- É?

- Eu me sentiria meio... Sei lá! Ia ficar com medo de andar por aí...

- Sei...

"Abduzido"... Seqüestrado por alienígenas! Pra que serve uma palavra como essa?! Os alienígenas somos nós, seres inteligentes em um mundo natural. Acabou dando nisso: transformamos o mundo natural que a gente tinha em um mundo morto-vivo. Florestas estão se acabando junto com quase tudo que é natural.

Mas deve ser justamente por causa disso que estão vindo os defensores das florestas, aqueles seres incríveis que parecem cogumelos. Seqüestro de bicho desses talvez possa ser chamado disso também, ser abduzido.

É, mas nunca ouvi falar de seqüestro por essas criaturas. E esse negócio de alienígena... Deve ser coisa de quem vive vendo televisão mesmo.

- Aê, estamos chegando...

- Onde?

- Na China, dã!

- Sério! Aqui? Está tudo deserto!

- É a casa de um doutor, conhecido meu.

- Ele tem casa por aqui?!

- Na verdade, é uma fazenda. Bem, chegamos.

Parou o carro na frente do portão da tal fazenda. Bem, ele pega o telefone incrementado dele.

- Alô! Osmar? Olha, eu tô aqui já. Pode mandar abrirem o portão?

Pronto. Já ligou. Demora um pouco e, enquanto ninguém vem abrir o portão, ele fica batucando no volante.

- Você viu o jogo de ontem?

- Que jogo?

- Do São Paulo.

- Não.

- Ah, esqueci que cê não vê televisão. Pô, Mário, aí fica difícil conversar com você, não é não?

- Também não é assim...

- É, tu torce pra que time?

- Flamengo.

- Ele não está tão bom esse ano não, tá sabendo?

- É?

- É. Perdeu semana passada pro Cruzeiro. Parece que jogou ontem.

- Certo.

- Aí! Você não disse que torce pro Flamengo? Não sabe nem como ele está!

- É.

- Aposto como você nem sabe quais são os jogadores...

- Não sei mesmo.

- Grande torcedor...

- Ah, meu amigo, eu não sou é fanático. - ...nem torcedor do Flamengo. Esse negócio de futebol... Só falo que sou flamenguista porque sei que a maioria é e eu tenho mais chance de não criar discussão. Não foi esse o caso agora, né?

Olha lá, tão abrindo o portão. Estamos entrando na tal fazenda. À primeira vista parece um lugar agradável. Uma estrada curva que parece coisa de parque leva até a casa. Tem um monte de árvores, altas e também mais baixas. Não parece muito uma "fazenda" vendo por aqui... Eu não falei, mas os muros são altos... Quer dizer, não tão altos assim mas pelo menos eu esperava ver um cercado ao invés de muro. Mas se ele disse que é uma fazenda... Sei lá, a plantação ou os bichos devem estar pro outro lado.

Ele pára o carro na frente da casa, que não parece tão pequena. Se bem que eu já vi maiores. A da Pat, por exemplo. Descendo do carro, a gente encontra um cara de cabelo branco e um pouco grande, só até o pescoço. De bigode também branco e vestindo uma bermuda grande com uma camisa branca, ele nos recebe.

- Jardel! Seja bem-vindo, amigo!

- Ô! Ô! Como vai o grande médico...

- Vou bem, rapaz... Quem é o seu amigo?

- Ah, é o Mário. Mário, esse aqui é o Dr. Osmar.

- Prazer em conhecer.

- Prazer. Está machucado?

- É, ele se machucou numa briga. Pode dar uma olhada no braço dele?

- Claro. Não quer guardar o carro na garagem?

- Ah, não, obrigado! Vou já dar uma volta na cidade.

- Bem, venha por aqui.

Ele entra e nós o seguimos. A tal casa tem uma pequena área coberta antes da porta de entrada. Na tal área há vasos suspensos e no chão, enchendo o ambiente de verde das folhas. Uma vez dentro da casa, ele nos leva da sala principal, onde há sofás, uma televisão e uma esteira rolante pra exercício lá no canto, até um quarto pequeno para os padrões da casa, passando por um curto corredor. Esse pequeno quarto parece ser uma espécie de clínica doméstica.

- Senta aí.

Eu me sento na "mesa de médico" que ele tem.

- Tira a camisa.

É só um corte no braço! Mas tudo bem, se isso ajuda... É, só agora eu me lembrei: deixei minha jaqueta no carro do Jardel.

- É, não parece tão grave. Só deixe eu preparar o curativo e tratar o ferimento. - E, virando-se para Jardel - Como está seu pai?

- Ah, o velho está bem... Foi pra França fazer sei lá o quê. Deve ser coisa da profissão, né?

- É, seu pai sempre gostou de viajar pra essas coisas. Na época de faculdade ele sempre viajava pra simpósios e coisas assim. Eu às vezes ia também, mas era mais pra farrear.

- É, legal!

- A gente formava um grupinho, ia pra esses encontros e quando chegava lá se afastava. Ia conhecer a cidade, principalmente de noite.

- Meu pai não ia não, né?

- Não. Seu pai era sempre o certinho do grupo. Ia pra os encontros mesmo. - Virando-se para mim... - Vai doer um pouco.

Era exatamente isso que eu não queria ouvir.

- Merda! Isso dói!

- Foi o que eu disse... Mas vale a pena, ajuda a curar. Ah, vai precisar levar um ponto ou dois, tudo bem?

- É, tudo... - Que maluco o Jardel me arrumou! "Pô, Jardel, esse cara aqui é doido!"

- Calma, fica frio que ele sabe o que tá fazendo.

Não é telepatia... Tem expressões que se faz com a cara que dizem tudo. Ele só "sacou", sabe? De qualquer forma... "Ai! Droga!"

- Pô, não era melhor contratar um alfaiate ou uma costureira não?!

- É bom que tenha senso de humor. Eu confesso não ser muito bom com pontos mesmo... Bem, Jardel, finalmente veio conhecer a cidade, como havia prometido?

- É, eu tava vindo aqui pra isso quando topei com o Mário no caminho.

- Agora, que mal lhe pergunte, como foi que se cortou? Se foi acidente ou não não sei. Mas foi faca, não foi?

- Foi.

- Sim.

- É uma longa história.

- ...mas quero conhecê-la mesmo assim. Na sala você me conta, afinal, vocês devem estar com fome, não?

Pelo menos agora ele já está acabando de colocar os troços de proteçãoe: gase ou sei lá o que é isso.

- Pronto! Já está feito. Só evite mexer muito o braço pra curar mais rápido.

- Tá, obrigado.

- Não tem de quê. Vamos à sala pra comer alguma coisa.

Ele sai do quarto, entra em um banheiro que encontra no caminho. Com a porta aberta mesmo, ele lava as mãos, enxuga e sai. Saindo, fala pra gente com ar de riso:

- E aqui fica o banheiro!

Jardel entra logo depois que o doutor sai.

- Eu vou adiantando a janta. Vocês já sabem onde fica a sala, não é?

- Não, pode deixar que a gente vai lá. Não esquenta com isso não.

- Tá certo. Espero por vocês lá, então.

Ele caminha pelo corredor e vai "adiantar a janta". Eu fico esperando que o Jardel saia pra eu poder usar o banheiro.

Mas que droga! Está tudo acabado! Nem havia me dado conta disso, droga! Não posso mais voltar pra Melodia... Eles vão me prender se eu voltar pra lá. Quem sabe até fazer coisa pior. Que vai ser da minha vida agora? Sem casa e sem moto vou terminar voltando praquela vidinha de antigamente. Isso sim não vai prestar.

- Mário, eu estava pensando em umas coisas...

- Em quê?

- Você vai ter que me explicar daqui a pouco. Vou indo lá: cê sabe o caminho, né?

- Sei.

Eu entro no banheiro enquanto Jardel vai embora. Só me faltava essa: o Jardel tendo "idéias de privada". Eu vou ter que explicar depois... Mas é cada uma...

Ôpa! É bom não usar muito o braço machucado pra curar mais rápido.

Pronto, posso ir à mesa. Já deve estar pronta a comida do doutor.

- Sente-se aí e sinta-se em casa.

- Obrigado.

- Olha, não tinha muita comida não e eu mandei fazer sopa pronta, tudo bem?

- Claro, cara! Não se preocupe com isso não. - Jardel se pronuncia.

- Não é tão bom quanto sopa de panela, mas quebra um galho. - o Doutor fala e, depois, voltando-se para mim - Bem, quanto a você, "amigo do Jardel", acredito que tenha umas coisas pra explicar...

Mal começamos a refeição e ele já toca no assunto. Bem que podia ter deixado pra mais tarde, não? Mas se tem que ser agora, vamos nessa então.

- É uma longa história.

- Por isso pedi pra começar logo.

- Não vai tirar o apetite de vocês?

- Não, muito pelo contário: pode contar.

- Tudo bem, tudo bem. Eu contarei. ...mas não sei por onde começo. - "Desde que vi o ladrão em casa, na farmácia... E o infeliz do Catarino? Falo desde que conheci o desgraçado? É, parece ser mesmo o melhor..." - Bom, certo dia eu tava lá no Bar do Chileno bebendo e conversando com a Bella...

- Quem?

- Isabella, amiga dele. Continua, Mário.

- Certo. Eu tava á bebendo e conversando com a Bella, que nunca mais a gente tinha se visto, sabe? É, aí chegou um cara esquisito e alto e perguntou se podia se sentar. Eu tinha achado estranho, mas a Bella na hora fez que sim com a cabeça, com um sorriso no rosto. Aí ele se sentou.

- Isso foi em Melodia?

- Não, não. Isso foi antes! Já faz quase um ano... Mas continuando... Ele se sentou lá e falou que era de Catar...

- De quê?!

- Catar! Eu também não sabia onde ficava isso, mas ele disse onde era. É um país nanico do Oriente Médio. Ele vinha de lá e tinha passado por muitos lugares procurando alguém que ele dizia ser um contato.

- E o que ele queria com vocês?

- Ele só queria saber onde ficava o Bar do Meia-Cinco. A gente disse a ele, mas ele acabou pegando o telefone da Bella. Sabe? Ela ficou um pouco caidinha por ele.

- Sim, mas o que isso tem a ver...

- Tem sim. Aí ele foi lá procurar o contato dele e no outro dia, quando a gente estava conversando justamente sobre ele, ele apareceu lá no Bar do Chileno. Passou bem uma semana com a gente. Toda noite a gente saía por aí. A gente mostrou a cidade pra ele, conversou... Pareceu um cara legal, que sabia muita coisa do mundo, mas um dia precisou ir embora. Nunca mais eu tinha visto o Andarilho até hoje.

Bem, continuando...

- Apareceu um ladrão lá em Melodia e entrou justamente na minha casa. Depois de ficar a tarde quase toda no sofá com o desgraçado mirando uma arma na minha cabeça foi que apareceu... Sabe quem? Justamente o Catarino. Ele deu um chute no bandido e me salvou sem usar arma nenhuma. Quer dizer, eu pensava que ele tinha me ajudado, mas ele veio com um papo estranho que eu devia ajudar o bandido a fugir e me encontrar com ele logo depois, fora da cidade...

- Se encontrar com quem?

- O Catarino!

- Quem é esse Catarino?

- O Andarilho de Catar! A gente começou a chamar ele assim e se acostumou.

- Quer dizer que esse tal Catarino aí mandou você fugir com o bandido e você foi lá e fugiu, sem reclamar...

- É! Eu ainda não sei como fui fugir. Ele tem um jeito meio misterioso, talvez tenha jogado algum feitiço em mim, sei lá!

- Sei, feitiço... Com licença. - Ele se afasta, chamando o Jardel, e vai para o corredor. Parece que não acreditou muito na história, não?

Tudo bem, tudo bem. Calma, Mário. O Jardel conhece você e sabe que não tem grilo. Não precisa ficar tão nervoso. É só aproveitar e acabar de comer.

- Venha comigo. - Não! Não pode ser! Viro-me ou não... É ele!

- Como...

- Venha comigo. Precisamos ter uma conversa.

Como o infeliz me achou!? Que droga! Eu me levanto e o acompanho, fazer o quê? Mesmo porque precisamos mesmo ter uma conversa...

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