Os Donos do País

Era uma vez um país. Um país cujos cidadãos viviam felizes, até que um dia ocorreu uma tragédia. Uma tragédia chamada “golpe militar”.

Mas essa tragédia não aconteceu por acaso, nem foi de surpresa. Os donos do país tinham muito medo, pois viam outros países passando por transformações em nome da igualdade entre as pessoas. Os donos desse país sabiam muito bem que igualdade social significa garantir direitos a todos. E sabiam que o aumento de direitos da população significaria também diminuição de privilégios seus. Por isso o medo.

O medo fez com que atacassem o governo e, para isso, utilizaram seu principal instrumento. A pena é mais forte que a espada, então começou a acusar o governo e noticiar de maneira obstinada e enfática qualquer suspeita de corrupção, para que a as pessoas tivessem cada vez mais ódio daquele governo. Tudo isso terminou com os militares tomando o poder.

Os donos do país ficaram felizes, pois o risco havia passado. Logo depois perceberam que, na verdade, iam perder privilégios de qualquer maneira. A partir daquele dia, foram proibidos de falar sobre corrupção no novo governo. Talvez os militares tenham percebido como “corrupção” era um tema capaz de mover montanhas. E, assim como não podiam falar de corrupção, nada de falarem de censura, ditadura, nada de falar mal do poder. Nada de noticiar desaparecimentos de pessoas. Não podiam mais sequer se reunir para conversar sem serem vistos com desconfiança - ou mesmo serem acusados e levados embora – pelos militares daquele país.

Mas tudo bem, afinal seus privilégios econômicos estavam assegurados.

O tempo passou e a ditadura militar caiu, décadas depois. Foi um alívio para os donos do país, que agora teriam novamente os privilégios perdidos. Foi muito bom ter poder econômico, mas aquele poder verbal, que havia sido capaz de derrubar um governo, fazia muita falta.

O bom para eles é que nessas décadas de poder militar, por obrigação imposta, os donos do país terminaram aprendendo a escrever distorcendo as verdades, destacando pontos que interessavam, omitindo outros; construindo assim notícias que atendessem às necessidades daquele tempo em que não se podia falar o que se pensa. Com o fim da tal ditadura, os donos do país resolveram continuar agindo daquela mesma forma, só que dessa vez para atender a interesses próprios.

Na ponta da pena ou da câmera de seus funcionários, ilustres desconhecidos se tornam heróis ou vilões, gigantes massas de insatisfeitos desaparecem, punhados de outros insatisfeitos viram manchete, políticos viram sábios salvadores, enquanto outros se tornam corruptos incorrigíveis. Assim seguiram os donos do país até hoje, controlando as pessoas com seu poder verbal, em todas as formas de noticiar. Jornais cheiram muito mal, mas como o povo, que o lê há tantos anos, vai notar o cheiro? Ora, já se acostumou a ele e sequer o sente!

Assim seguem os donos do país, controlando as massas com closes e vírgulas, enquanto morrem de medo de terem seu poder limitado. Sempre houve quem diga que as pessoas têm direito de serem informadas corretamente sobre os fatos, mas os donos do país sabem muito bem que esse direito afetaria um importante privilégio que hoje eles têm: o Monopólio de Opinião.

-- Cárlisson Galdino
-- Publicado no Informativo ACALA 2015

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