Fábula da Liberdade

Imagine alguém preso em uma jaula, vivendo a pão e água. Amarrado pelos pulsos, tornozelos e pelo pescoço, esse alguém passa seus dias trancado ouvindo apenas o barulho da praia e dos animais ao seu redor. A pessoa que a trancou às vezes aparece com sua limousine. Ela fala uma língua que o prisioneiro não entende, mas não há problema: raras vezes fala diretamente com ele.

O que você me diz sobre liberdade nesse momento? É inegável que isso é tudo o que essa pessoa que vive em uma jaula não tem, certo? Não creio haver dúvidas quanto a isso.

Agora imagine que você, homem normal, descobre a pessoa que vive sob essas condições tão desumanas. Primeiro vem o sentimento de revolta, de que o mundo está errado e isso não pode estar acontecendo. Após aceitar o que acontece como verdade, dependendo de quanto você valorize sua própria liberdade, você desejará que essa pessoa seja tão livre quanto você.

Vamos supor que você criou coragem e, inspirando-se em tanto quanto já se falou sobre liberdade nos últimos tempos, partiu rumo à libertação de tão infeliz criatura.

Após entrar no covil e furtivamente roubar as chaves, você se dirige à jaula. A pessoa o observa, assustada com o que está acontecendo. Você saca a chave e, girando-a no cadeado, começa a tentar desfazer o mal tão grande que fôra feito por outros. Entra. Solta as algemas, olha para a pessoa e diz: Você está livre. Vamos fugir para um lugar seguro. Enquanto olha ao redor, preocupado se alguém já descobriu seu intento, você ouve o barulho das algemas. Ao se virar, vê a tal pessoa se prendendo novamente, dizendo: Prefiro ficar aqui.

O que fazer diante de uma situação tão inesperada? Depois de feito o mais difícil, o prisioneiro simplesmente se nega a colaborar. O que se deve fazer? Deixá-lo e ir embora se lamentando por esse alguém não dar valor à própria vida ou, já que veio até aqui, levá-lo à força? Você ama a liberdade e quer libertá-lo. Mas se ele não quiser e escolher ficar, você é capaz de lhe dar liberdade de escolha? Afinal, há liberdade ao se escolher a não-liberdade? Se podemos chamar isso também de liberdade, o que é a liberdade afinal?

Acredito que haja quatro padrões básicos de reação quanto à liberdade:

  • há quem simplesmente desconhece que está em posição desfavorável, não conhece a liberdade e tudo aquilo que lhe foi furtivamente retirado;
  • há os que sabem o que perderam, odeiam essa posição, mas não sabem como deixá-la de uma vez, pois não conhecem opções;
  • há os que sabem o que perderam, mas que se conformaram depois de um tempo. Acomodados, preferem ser escravos mesmo, muitas vezes por estarem nessa posição há muitos anos;
  • há os que descobrem a liberdade, conhecem alternativas à sua vida acorrentada e lutam com todas as forças pelo que é mais precioso. Alguns perdem a vida na batalha, mas outros saem, muitas vezes sem saber quão difícil será viver assim. Outros conhecem as responsabilidades da nova vida, mas não fazem disso obstáculo e vão em frente.

Sempre que lutamos muito por algo para uma outra pessoa e essa não se mostra interessada, passamos a ter duas opções: podemos deixar as coisas como estão ou forçá-las. Ambas são problemáticas e parecem pôr em cheque todos os ideais que o levaram a mover toda a longa luta.

Em situação tão inesperada, penso que a maioria de nós agiria quase prontamente, movida apenas por ódio ou algum outro sentimento súbito. Como esta cena não está realmente acontecendo com você - assim espero -, podemos então discutir um pouco o problema, que parece bem complexo.

Abandoná-lo, deixando que fique preso pra aprender ou se dizendo que ele não merecia ser libertado parece, a princípio, ser a melhor saída. Acontece que a liberdade é algo bom demais para ser assim rejeitada. Sempre há um ou outro maluco masoquista que não deseja a liberdade, mas creio que, na maioria das vezes, abdique-se de liberdade por algum fator externo. Há os seguintes, e talvez ainda outros:

  • ignorância sobre o que é liberdade e o que é escravidão;
  • desconhecimento sobre como agir e forças que podem atuar em conjunto;
  • comodismo;
  •  medo de mudança;

Independente de quais exatamente sejam os motivos que levam uma pessoa a preferir uma posição de não-liberdade à outra, podemos agrupá-las em dois blocos: a ignorância/medo e o comodismo. O primeiro grupo tem um caminho fácil de se resolver, embora às vezes trabalhoso. Já o segundo é muito mais difícil de ser trabalhado.

Sabemos que um pássaro preso em uma gaiola por toda a sua vida e acostumado a ter a comida e a água sempre ao alcance quando necessário se habitua de tal forma a isso que, quando liberto, vem a morrer em pouco tempo, pois não está acostumado às responsabilidades da vida livre. Da mesma forma agem os humanos. Quando presos por um longo período, por ignorância não sabem se virar sozinhos e, se libertos, precisam de ajuda. Aí entra a informação. Precisa-se esclarecer completamente o que está havendo, porque está havendo, as vantagens e desvantagens que a nova vida trará. Tudo que possa lhe dar retorno tem um risco associado e há coisas na vida que, mesmo mais difíceis, valem muito mais que outras mais fáceis.

Há os que temem a mudança. Estes precisam de apoio. Devemos mostrar até que ponto será difícil e pedir que decidam. Devem encarar isso como um grande desafio de vida ou morte. Quando o assunto é liberdade funciona mais ou menos assim mesmo: ou você vence o medo e vive, às vezes enfrentando dificuldades, mas cada vez mais forte; ou simplesmente desiste e aceita a possibilidade de ser um fracassado pesando para o resto da vida. às vezes há pressão em torno do aprisionado e isso deve ser visto com atenção.

Não acho que aconteça com pássaros, mas há espécies de animais que voltam após serem libertas, pois preferem a vida presa. Aqui temos o comodismo em ação. Há pessoas também que agem desta forma e quanto a elas não há muito o que ser feito. São os piores aqueles que não querem deixar o conforto de onde vivem, mesmo sabendo que há um lugar melhor. Aliás, melhor para essas pessoas significa menos complicado. Muitos desta categoria nem ao menos conhecem o sentido da liberdade em teoria (o que já se deve considerar pouco frente à sua vivência), nem querem ser instruídas. Com esses, o dilema anteriormente mostrado (ir embora ou forçá-lo) se torna inevitável.

Mas o que é a liberdade afinal? Poder escolher entre ser livre ou não é liberdade? A resposta para esta pergunta pode levar a uma possibilidade de contradição e as duas possíveis respostas nos levarão a esta contradição se assumimos que um dos pre-requisitos para a liberdade é a tomada de decisão e que a liberdade só existe quando unimos capacidade para isso e procuramos sempre decidir por nós mesmos.

O que acontece é que às vezes uma decisão inicial pode impedir que outras decisões possam ser tomadas futuramente. Por exemplo, quem decide permanecer preso não poderá decidir aonde ir, o que comer e coisas tão triviais quanto estas. Liberdade exige responsabilidade e não pode, em momento algum, ser confundida com viver sem preocupações. Alguém livre poderia ser entendido como alguém que faz o que quer da vida e a ambigüidade que o termo traz (devido ao tom com que é dita) retrata bem a possibilidade de ser entendida de forma errada. Para reparar o erro, podemos completar com: e tem responsabilidade para decidir o que quer da vida.

Parte II

Tentando abordar o termo liberdade da forma mais genérica possível, percebe-se a princípio que cada indivíduo vê a vida de acordo com um _mini-mundo_ que lhe foi sendo criado a partir do meio externo.

O que diferencia os indivíduos é a amplitude do mini-mundo em que eles vivem. Existe o mundo real, completo e complexo em suas mais diversas esferas de atribuições, e nós nos enquadramos em uma parte dele. Alguns têm uma visão um pouco mais ampliada e outros menos, o que depende apenas do meio externo e das características da própria pessoa.

É normal que o índivíduo se acomode ao seu mini-mundo, sentindo-se confortável e não sentindo necessidade de mudanças, mas as pessoas mais críticas correm atrás e ampliam o escopo de conhecimento, e aos que têm a visão mais ampliada surgem questionamentos que são relevantes, mas que para os menos conhecedores não são, e a liberdade pode ser um deles caso seja aplicável ao seu contexto, seja social ou profissional. Ao se adquirir mais conhecimentos, surgem novos horizontes.

A liberdade pode ser caracterizada pelo seguinte: sempre que alguma coisa impede nosso crescimento pessoal ou livre arbítrio (mesmo que não se note), podendo ser caracterizada como restrição, surge a necessidade de quebra deste obstáculo para que se alcance uma "liberdade provisória" e conseqüente crescimento, afinal num mundo tão instável não sabemos quantos obstáculos mais vamos encontrar.

Aí surge o questionamento citado anteriormente: será que todos estão prontos para reconhecer a necessidade da liberdade ou, se reconhecer, saber lutar por ela? Definitivamente, eu acho que não. Aos que têm apenas medo de romper os obstáculos basta estendermos uma mão amiga e dizermos "o caminho é este, é difícil, mas vamos juntos!", fornecendo o apoio necessário. Porém, aos acomodados com sua situação, deve-se mostrar o caminho e perguntar "veja o que te espera, tem certeza que está satisfeito aí?". Então esperar uma mudança de atitude que com certeza virá, para que possamos dizer a primeira afirmativa a esta pessoa e trazê-la conosco.

Todos nós vivíamos em um mundo ilusório, a nossa realidade, nosso mini-mundo. Mas do outro lado existia um outro universo, embora caótico, que contemplava o nosso e muito mais coisas. A princípio surgia um pouco de confusão com a nova situação, pois deixava-se de lado um modelo de vida em detrimento de outro. E mesmo voltando ao modelo antigo, este te parecia artifícial e o desejo era de voltar para o novo modelo e assumir as novas "responsabilidades". Isto é o que acontece com a minoria das pessoas, assumir mais compromissos que o de praxe é realmente difícil e a liberdade te força a isso.

O típico exemplo do comodismo era o do tripulante revoltado da nave que queria voltar à "Matrix". Não preparado para assumir a "responsabilidade" de um "papel" no seu novo contexto, queria voltar a uma vida ilusória.

Um diálogo bem interessante é o que se procede entre "Morpheus" e "Neo", onde Morpheus pergunta a Neo se ele não sente algo de diferente no ar, uma necessidade de coisas que ele não sabe o que são, um desejo interno de mudança. Pergunta também se ele não sente que falta algum sentido na vida e se esta não lhe é restrita. É esse tipo de percepção que as pessoas acomodadas têm que adquirir, seja a fonte que restringe a liberdade algo sutíl ou uma coisa bem definida. Basicamente deve-se adquirir uma postura mais crítica das coisas.

A maioria das pessoas é assim: se puderem manter a sua comodidade, não importando os meios, ótimo!!! Mas se forem pegos de surpresa e não puderem ter mais esta falsa liberdade, ficarão sem uma alternativa verdadeira e sucumbirão.

Aos que se esforçam pela verdadeira liberdade, será garantido que esta não sumirá num estalar de dedos, pois foi baseada em esforço verdadeiro.

Portanto a liberdade é algo que todos podemos adquirir, porém requer mais atitude, personalidade e responsabilidade em virtude dos diversos caminhos que surgirão diante de nós e que poderemos escolher. Aos que não estão preparados cabe uma orientação no sentido de abrir a mente destas pessoas e mostrar-lhes que têm chance de desempenhar um papel neste novo contexto.

-- Alex Müller e Cárlisson Galdino

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