Jasmim #19 - Área Verde

O almoço termina. Todos os poucos passageiros voltam para o ônibus. Russos, turcos, georgianos... O ônibus se afasta da plataforma onde estava, em ré. Sua manobra se completa e ele deixa a rodoviária de Pasinler, com todos, menos Jasmim.

Ela vê o ônibus ir embora do banco feito de cimento, na parede. Seus olhos se perdem no mundo por uns instantes, até que finalmente segura as duas bolsas e se levanta. Sua determinação nos diz claramente: esta é a cidade do parque e ela sabe como chegar até ele.

Não é tão fácil encontrar, mas logo ela está diante de uma pousada.

"Isso pode ser rápido ou demorar muito. Já são quase 2h. Dane-se o Klaitu, não vou viajar mais hoje."


Sai da pousada com uma camisa cinza escura escrito "Diamond 9" em preto, com brilho branco no fundo de cada letra e número. Em suas mãos, a bolsa onde guarda a morningstar. No bolso direito de sua calça jeans quase preta, os dois anéis dentro de um pequeno pacote. No esquerdo, uma chave presa a um chaveiro com o número 2. A camisa escura contrasta com o dourado de sua trança, que cai por suas costas. E ela caminha, chamando alguma atenção, mas quem disse que se importa?

Ruas de comércio pouco movimentadas, farmácia, supermercado... Uma escola à direita. O caminho é fácil e ela segue pelo que se lembra do sonho. O cuidado que tem é de gravar pontos de referência para conseguir voltar depois.

Adentra a área residencial. Crianças param de brincar na calçada para verem aquela mulher bela, séria e altiva passar.

As casas são relativamente simples e há pontos de venda improvisados em algumas delas.

Após dobrar uma esquina, sem nenhuma surpresa para Jasmim, o parque se mostra bem diante dos seus olhos.

Estranho como não há ninguém perto. Jasmim prossegue. Já é bastante tarde e se não resolver logo o que precisa, logo será noite na volta e simplesmente ela não faz ideia do que pode esperar caminhando à noite pelas ruas de uma cidade estranha em um país estranho. Então se apressa. Não por medo, mas por cautela. Afinal, se por acaso a noite cair e ela precisar voltar para a pousada, irá pelo mesmo caminho que a trouxe.

Seus passos firmes caminham por entre as árvores e lhe acompanha uma sensação estranha. A sensação estranha, mas não inédita, de que está sendo seguida.

É certo que algo não está normal. Essas árvores têm algum problema, ela sabe que têm.

"Eu me lembro desta." Encara uma árvore de forma ameaçadora. Ao se afastar mais, podia jurar que a árvore se mexeu. E ela continua, afinal sabe o que precisa encontrar.


Passo a passo os pés de Jasmim adentram a clareira. Um círculo sem árvores. À metade do caminho até o centro, ela para, de olhos fechados, sustentando a bolsa. O vento passa entre as árvores produzindo um som estranho.

- Não é comum que venham até aqui.

É a voz de uma mulher e Jasmim sabe bem que não pode ser outra senão aquela do sonho. Sua cabeça permanece ligeiramente curvada para a baixo, e seus olhos ainda fechados.

- Realmente é muita ousadia de sua parte. Quem é você afinal?

Jasmim é capaz de ouvir claramente as batidas do próprio coração aceleradas além do normal. Não é a rival que a assusta. É que ela não precisa abrir os olhos para perceber que há muito mais pessoas além delas duas, que a clareira está cercada por mulheres que a observam com curiosidade e certa dose de desprezo

- Entendo... Querida, você não sabe no que está se metendo. Me diga exatamente o que quer antes de eu decidir se te expulsaremos viva ou morta.

Tentando a todo custo manter seu ar frio, Jasmim ergue a cabeça. Com medo do que vai ver a seu redor, ela abre os olhos. O zíper da bolsa é aberto devagar.

Sua visão turva um pouco. Como suspeitou, é aquela mulher do sonho. Ao seu redor, várias outras mulheres vestidas de jeito parecido. Mulheres de orelhas pontudas vestindo farrapos verdes. Olha o chão. Os pés delas tocam o solo, como mulheres selvagens. Seu olhar sobe pelas pernas daquela mulher parada à sua frente. À altura do ventre param, ao se depararem com o objeto que ela segura com as duas mãos.

As palavras não saem, mas sua mão esquerda solta a bolsa e se ergue. Solta a bolsa com a mão direita enfiada dentro dela. Solta a bolsa para apontar para a maça que a outra segura. Sua vista começa a escurecer, mas Jasmim pisa firme e se esforça, mesmo já sentindo o suor frio pelo seu corpo.

- O quê?! Você quer minha arma? Não brinca, criatura... Invade nosso lar para roubar nossos pertences?

Jasmim abaixa um pouco a cabeça. Não são as palavras, são os muitos olhos sobre ela.

- Quem você pensa que é? Sabe que ninguém te atacou antes porque sentimos uma energia em você. Mas não é você, é só o que você carrega. Você quer mesmo me enfrentar, débil criatura? Você é só uma mulher...

Uma ligeira flexão nos olhos dá a Jasmim uma nova expressão, no instante em que a bolsa cai, já vazia.

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