Jasmim #09 - Pelos na Calçada

Olhos fechados procurando paz. Qualquer coisa que proteja daquela voz irritante do seu lado. "Tenho uma tia que é arquiteta, você deve conhecer, ela..." Sua paciência está no limite. "...muito engraçado porque tropeçou bem na hora que..." Já chega. Jasmim abre os olhos.

- O que é aquilo? - Pietro para seu carro cor de laranja. - Parece que teve alguma coisa ali!

Desce do carro e vai pela calçada em direção àquele estranho aglomerado de pessoas na calçada. Não demora muito, já está ele na janela.

- Jasmim! Você tem que ver isso...

- ...

- Tem um sujeito muito estranho morto ali.

- E daí?

- Daí que o cara é estranho mesmo, todo peludo e não tem cara de gente normal, não mesmo! Tão dizendo que é um lobisomem.

- Morreu, não morreu? Podemos ir embora?

- Mas Jasmim, você não percebe? Um lobisomem! Finalmente apareceu um! Ele pode revolucionar a ciência! - Pietro se empolga enquanto Jasmim olha ao redor na esperança de ver um táxi. - E ele pode trazer genes especiais, que ajudem a combater doenças. Eu devia patentear esse lobisomem...

Jasmim finalmente abre a porta.

- Isso! Vem ver! É estranho!

Ela se levanta, já com a caixa nas mãos. Olha para o lado e vê Pietro se dirigindo novamente àquele grupo de pessoas. Ela não se levantou para ver o tal do lobisomem morto, mas para procurar um táxi. O peso da caixa em suas mãos lhe faz pensar... Seus olhos azuis fixam na textura de madeira, marrom, e ela se dá conta de que qualquer coisa não natural agora pode ser da conta dela mesma. Ergue o rosto para a multidão, então olha para o outro lado. Suspira, fecha a porta do carro e caminha, com a caixa. Vai ver do que se trata esse lobisomem idiota afinal.

Seus passos são lentos e o grupo de pessoas ainda está lá à frente. Há um problema nessa decisão. Digamos que multidão não é exatamente o tipo de coisa que combine com ela.

Não que se possa chamar umas trinta pessoas de "multidão", mas para Jasmim isso já é gente demais. Ela se aproxima devagar, tentando ver o corpo sem que precise entrar nesse amontoado de pessoas.

Não parece tão grande, mas é peludo. Não parece ter feridas. Um pelo castanho, como um lobo bípede. Sim, pois suas pernas e braços se estendem pela calçada como os de uma pessoa, mesmo com o pelo preenchendo todo o corpo.

Parece ter uma espécie de focinho ao invés de simplesmente um rosto. Não um avanço pequeno da região da mandíbula como nos primatas. É quase mesmo como um focinho de lobo.

Seus pés também são diferentes. Têm garras e o o formato de quem anda na ponta dos pés. Mais como um monstro mesmo do que uma bailarina. Suas mãos são grandes e com unhas cônicas e dedos grossos e, ao contornar a multidão olhando de vários ângulos, nota: sem anéis.

- Você viu daí? Não quer ver mais de perto? - É Pietro, que se aproxima de Jasmim. - Não precisa ficar com medo, ele nem está respirando...

Jasmim simplesmente se vira para ir embora. Medo... Medo!? O que é um animal peludo para quem semana passada lutou contra um homem de fogo?

- Ei, Jasmim! Espera! Eu prometi que te levava em casa! Vamos agora!

Como Pietro passa por ela e já vai em direção ao carro - e não parece vir nenhum táxi por essa rua -, Jasmim resolve continuar a viagem com ele mesmo. Já no carro...

- Olha, estou sem palavras...

- Não tenho essa sorte.

- É sério! Um lobisomem! Aqui!? O que ele tava fazendo? Deve ter sido ele que sumiu com aquela família outro dia... Mas você nem viu direito, né? Eu disse, não precisava ficar com tanto medo! Vou confessar uma coisa: eu tava morrendo de medo também. E se ele se levanta e sai correndo atrás de mim?

- Nem lobisomem teria esse interesse.

- Que bom! Também tinha muita gente lá, né? E se ele ataca? Tenho um medo dessas coisas... Ele podia estar fingindo de morto, mas não, não estava. De que será que ele morreu?

- Aposto que foi depois de uma conversa com você.

- Não, ele já estava morto. Tanto que tinha aquele monte de gente ao redor... O pessoal do hospital não vai acreditar quando eu disser que vi um lobisomem! Estava pensando... Se ele estivesse só doente, quem ia tratar? Veterinário ou médico?

- O mesmo veterinário que cuida de você.

- De mim mesmo não! Ha, ha! Gostei hoje! Você está conversando mais!

"Dar fora também não funcionou. Será que se eu meter a morningstar na cara dele ele cala a boca?"

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