Jasmim #05 - Fogo em Minha Casa

- Jasmim, juro que não fui eu... - Anna chora sentada ao balcão com os braços jogados sobre a caixa que Jasmim trazia.

- Calma, Anna. - Jasmim fala perto dela após enxugar uma lágrima que corria de seu próprio olho direito. - Me explique o que houve.

- Eu não sei... Eu estava aqui e ouvi um barulho lá dentro. Acho que era rato. Você brigou comigo porque eu fui lá dentro e dessa vez eu não fui. Também, se fosse rato... Desculpa, Jasmim, eu devia ter ido ver, mesmo que você brigasse comigo depois... Desculpa, não fui eu que fiz isso não também... Eu juro... - Cada frase é banhada a lágrimas e dita com dificuldade.

- Calma... Depois você explica melhor. - Jasmim ainda em choque tenta entender o que houve. Caminha em direção ao fundo da loja. À metade do caminho, vê um bombeiro vindo de lá.

- Ei, moça! Você mora aqui? - Jasmim responde com um aceno de cabeça. O aumento das dores lhe diz que não foi uma boa forma de responder, com o pescoço ainda imobilizado.

- Quando seus pais chegam?

- Por quê?

- Precisamos falar com eles.

Jasmim respira fundo.

- Tem uma cigana que atende há três quarteirões. - O bombeiro alisa o bigode, sem entender. - Olha, eu sou a proprietária. Dá pra dizer o que houve?

Ele franze a testa ainda mexendo no bigode e ainda sem entender.

- Senhora, senhorita...

- Jasmim.

- Jasmim, preciso mesmo falar com seus pais.

- Já disse que sou a proprietária. O que houve?

- Bom, se você está dizendo...

- Meus pais morreram.

- Ah, desculpe. Meus pêsames...

- Dá pra dizer logo o que houve? - Jasmim pergunta com raiva. Além do péssimo dia, ainda ter que aturar emoções e lembranças tristes a irrita.

- Um incêndio naquela sala no fundo.

Jasmim passa por ele e continua o trajeto de antes. O bombeiro a segue. A fumaça ainda não se dispersou e alguns objetos se encontram parcialmente queimados ainda fora da tal sala.

- Conseguimos controlar o fogo, mas dentro daquela sala acho que nada mais presta.

- Capitão! Pode vir aqui? - É um outro bombeiro que estava no primeiro andar, falando agora do meio da escada.

Jasmim olha para os dois preocupada. Sua dúvida é clara em seu rosto: "teve incêndio no primeiro andar também?" Mas ela não externa por palavras e nenhum dos dois olha para ela. Eles apenas sobem e Jasmim os segue.

Na sala, o outro bombeiro, careca e de uns vinte e dois anos, já está abaixado próximo ao sofá, que fica sob a janela.

- Não foi acidente. Olha isso... - Ele levanta um dos quatro palitos de fósforo parcialmente queimados em cima do sofá. - Tentaram tocar fogo aqui também, acho que o vento apagou logo no início.

Jasmim vai até o quarto: seu guarda-roupas está aberto e suas roupas de cabide espalhadas pelo chão. Volta e já encontra o capitão dos bombeiros no corredor. Ele se aproxima de Jasmim e fala baixo.

- Sua funcionária... Como é a relação entre vocês?

- ...

- Digo, você viu lá fora? Aqui é o primeiro andar, não é tão simples alguém pular a janela.

- Eu deixei fechada.

- Bom, então alguém veio aqui e abriu. - Jasmim mantém a expressão séria enquanto em sua mente se forma uma complexa estrutura de possibilidades e ações.

- Bom, desculpe senhora Jasmim. Na verdade, nosso trabalho aqui já acabou. O que eu queria falar é que vocês precisam ter extintores aqui, já que trabalham com tanta madeira velha. Esse não é o momento, além do mais é bom seu marido estar presente. Quando quiserem é só ligar pro Corpo de Bombeiros e agendar que a gente manda alguém pra dizer quais é bom ter e onde colocar, além de dar instruções pra vocês sobre o uso.

Jasmim continua andando até a janela.

- Estamos indo. Recomendo que chame a polícia urgentemente.

- Obrigada.

Eles a deixam sozinha olhando através da janela e vão embora do prédio. A janela leva a um terreno abandonado, com árvores e mato. Jasmim sobe de joelhos no sofá para poder ver melhor lá fora.

Observa até que resolve fechar a janela e descer. Só então nota que não dá mais para fechá-la: o cilindro metálico do ferrolho fôra precisamente cortado ao meio.

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