Escarlate III #07 - Nova Viagem

Escarlate III #07 - Nova Viagem

Dri Gnat, pequena cidade de Noak, final da manhã. Viex vem em seu cavalo pelas ruas transparecendo calma, escondendo o turbilhão que passa em seu coração naquelas horas.

“Maldição!”

Olha para os lados discretamente.

Chegou à cidade ontem à noite, mas só agora percebeu que Dri Gnat também está tomada pelos bandidos da Dessurdi.

“Não vai demorar para vir um grupo aqui à minha procura. Na verdade, não imagino o porque de não estarem em alvoroço ainda!”

A percepção de que seu plano não foi tão bom assim é clara. Não contava com o avanço tão rápido do clã. Vários olhos cidade afora. Guardadas as proporções, do mesmo jeito que na capital.

Temendo que sua própria cabeça esteja a prêmio ele segue rumo à saída norte da cidade. Poderia ir a Fyox ou Wicor, que são a segunda e a terceira cidades mais próximas de Beniw, mas se a primeira já foi tomada... Viex teme que as outras duas, que são pouco mais distantes que Dri Gnat e triangulam a capital de Noak, já estejam sob poder dos Raxx.

Assim, Viex pretende seguir rumo ao norte, calmamente para não levantar suspeitas. Seu objetivo é desviar à metade do caminho a Fyulet, acompanhando o Rio Cretoa até a cidade de Evy. Pelos seus cálculos, chegará lá já durante a noite.

Ainda no centro de Dri Gnat, porém, alguém o chama, mas não pelo nome.

- Ei, você!

“Me descobriram!”

A voz era de mulher, não que isso importasse no momento a Viex. Ele vira lentamente o cavalo. Ainda sob capuz, ele se prepara para um eventual confronto, caso um confronto seja inevitável e não haja possibilidade de fuga.

Numa olhada rápida, percebe que não há outros a acompanhando, ao menos não de perto.

- Quem é você? - Ele pergunta, com certo receio. - E o que quer comigo?

- Uma pergunta complexa e outra nem tanto. - Ela se aproxima e continua, dessa vez falando mais baixo. - ...Viex. Estou indo a Beniw destronar a aliança.

- Aliança?! Os Raxx conseguiram uma aliança?

- Uns amigos me disseram que estaria aqui.

Em sua cabeça passam, em flashback, as cenas na saída de Beniw.

- Amigos?

Sua tensão aumenta.

- Sim. Dois marinheiros.

Viex suspira por um instante. Não que tenha eliminado inteiramente suas suspeitas a respeito daquela bonita jovem.

- Aqui não é seguro. Se me acompanhar conversamos melhor sobre isso. - Fala, gesticulando para que ela o acompanhe em seu caminho.

Ela se aproxima um pouco mais e fala, em voz baixa.

- Não, bardo. Meu destino é na outra direção.

- Quantos vocês são?

- Estou só.

- Nem que você fosse um dragão vermelho teria chances de derrotá-los sozinha hoje. Venha comigo que estou em projeto de montar uma equipe para retomar Noak às linhas naturais de sangue dos Fuzeddine restituir a ordem.

Ela para pensativa por um momento. Então o segue.

 

Estão a duas horas de Dri Gnat e ainda não encontraram o rio. É quando Viex saca lentamente a flauta e começa a soprar as primeiras notas. Antes da quarta nota, a mulher fala:

- Eu sou Eve.

- Como!?

Viex para e se vira para ela surpreso, afastando Janliet um pouco, pronto para acionar sua lâmina.

- Foi o que ouviu, bardo. Não precisa usar esses truques em mim.

Por sua cabeça passa que um nome não significa muito: quantas Eves deve haver no continente. O tom de voz com que ela dissera “ser Eve”, porém, foi firme e pareceu querer dizer “sou aquela Eve”.

Ele pensa na intenção que ela trazia de enfrentar o clã Dessurdi sozinha e fica ainda mais ansioso por uma explicação. Não demora, ela vem.

- Primeiro, que os Raxx foram derrotados. Zand matou Halkond e, depois, Rubi. Eu fui libertada. - Ela fala, seguindo lentamente com seu cavalo, forçando Viex a sair de seu estado de imobilidade para acompanhá-la.

- Como aconteceu?

- Na verdade, este corpo que você vê não é meu corpo original. Eu fui libertada durante a luta com a quimera.

- Entendo... Como está Zand?

- Está bem, o que quero dizer que está vivo e que vai estar plenamente recuperado em algumas semanas.

- Como posso confiar que você é mesmo Eve?

- Terá que confiar. De qualquer forma, estou com E-60.

- E a E-64?

- Não sei. Nem me interessa.

Os dois seguem até a estrada que ladeia o Rio Cretoa. Ao avistarem o rio, eles seguem já em direção a Evy por meia hora, quando param para se alimentar.

Cada um com suas próprias provisões, enquanto os cavalos descansam e bebem água.

- É muito bonito aqui. - Eve fala contemplando a paisagem verde. Muitas gramas nas margens do rio, que corre suavemente em direção ao mar, que está tão longe.

Viex apenas olha admirado a bela jovem em pé, sem saber o que dizer. Ela completa:

- A vida aprisionada em um objeto muda a forma de ver o mundo. Não havia me dado conta, mas sentia falta de muitas coisas simples, até de ver paisagens assim...

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