Escarlate #04 - Dragão do Mar

- Bom dia, senhor. Em que posso ser útil?

- Preciso de um quarto. E de um lugar nos estábulos para o Tornado. - Zand se dirige ao senhor do balcão de maneira simples e direta, tentando evitar ser reconhecido e ao mesmo tempo tentando não parecer que não quer ser reconhecido.

- Pois não, senhor. Tenho um quarto. Deixe-me pegar a chave.

Zand olha à sua volta e vê o lugar da mesma forma que era há alguns anos. O mesmo balcão com marcas, as mesmas cadeiras antigas, até o tapete redondo é o mesmo. Esse tipo de lugar não muda. Nem as pessoas, que apenas ficam mais velhas com o tempo. Isso traz um certo conforto ao seu espírito.

- Aqui está, Zand. - Fala o homem enquanto lhe entrega a chave.

- Wrivee, meu velho... Ainda se lembra de mim, não?

- E como poderia esquecer? Quantas vezes veio a meu estabelecimento! E quantas vezes ficamos na porta, entretidos por suas canções!

- Pois é, bons tempos aqueles, não?

- Bons tempos...

- Gosta do amigo Zand, não? Então posso te pedir um favor?

- Claro que sim, no que eu puder ajudar.

- Por favor, mantenha minha estadia em Diwed em segredo.

- Mas por quê?

- Estou em uma missão importante e sigilosa. Totalmente sigilosa.

- E o que houve com o velho Zand alegre? Está tão... diferente!

- É, meu velho Wrivee... Ser bardo é teimar com o mundo. Buscar alegria enquanto todos estão entretidos com suas próprias misérias, tentar trazer alegria, ensinar e mostrar como as coisas realmente são. ...Mas isso um dia cansa.

- Não entendo.

- É inevitável, é o que posso dizer. Toda estrela brilha, mas se apaga um dia, quando morre. Mas alguns se apagam antes de morrerem. Eu sei, é confuso, meu amigo, mas é assim que as coisas são. Terei um longo dia, e ninguém pode me reconhecer por aqui. Pode fazer esse grande favor para um velho amigo?

- Tudo bem. - Responde o senhor, um tanto decepcionado, pode-se notar. Pelo jeito ele não via a hora de espalhar pra todo mundo que o alegre bardo estava de volta depois de tantos anos.

- Obrigado, meu amigo. Agora vou para o meu quarto descansar um pouco.

- Tudo bem.

Zand se dirige às escadas e sobe em busca de um lugar tranqüilo para colocar as idéias em ordem.


 

O quarto não é tão confortável assim, mas certamente é dos melhores da hospedaria. Não há problema nessa falta de conforto. Se Zand quisesse mesmo um lugar confortável, teria ido para a Hospedaria Raposa da Lua, parada de aventureiros mais nobres. Não, Zand sempre veio ao Dragão do Mar. Justamente por se sentir mais à vontade nos locais simples do que em outros nobres, cheios de regras.

A cadeira está ali, próxima à janela, com uma discreta escrivaninha. Ao lado da janela, um pequeno guarda-roupas. À porta, um cabide. Não há banheiro, não há banheira: os dois são de uso coletivo, como em todo lugar que não ofereça regalias.

Zand toma a cadeira e se posiciona à janela, colocando a lista com os ítens roubados sobre a escrivaninha, devidamente apoiada com pesos para que não saia voando pela janela. De lá, vê a rua e o movimento começando a se formar no início desse dia.

"Wrivee me reconheceu. Isso é um problema. Como posso conseguir caminhar livremente sem ser reconhecido quando o primeiro antigo amigo me reconhece? É, Zand, acho que você vai ter que puxar alguns truques artísticos pela memória."

Zand fecha a cortina, fazendo do quarto um ambiente quase sombrio, mas ainda suficientemente iluminado. A cortina é antiga e tem suas próprias cicatrizes.

"Fato número um: estou mais forte que antes. Eu sempre usava cabelo longo e gorro ou capuz. Sem barba... O que eu posso fazer... Bom, acho que vou ter que pedir um segundo favor ao velho Wrivee..."

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