Agenda Mundial #14 - Retirada

A luz no fim do túneo quase sempre é mesmo um trem

Agenda Mundial #14 - Retirada

- Já falou com eles?

- Ainda não. Eles foram na escola e devem estar na minha casa.

- Como soube deles?

- Eu vi o carro saindo. A menina da secretaria disse que estavam indo na minha casa.

- E você saiu?

- Disse que ia lá também ver o que queriam.

- Isso é mal, a menos que vá agora. Mas, como eu disse, terá que ser capaz de convencê-los de que não faz ideia do que eles estão falando quando falarem de tudo aquilo. Sabe blefar?

- Sou péssima...

- Foi o que pensei. Nesse caso, o mais seguro é ir comigo.

- Onde!?

- Maceió.

- Está doido?! E meu emprego, e o Herbert?

- Seu namorado... Bom, deixa ver. Se você demorar, eles vão falar com seus vizinhos e pegar informações sobre o seu namorado. Em seguida, vão procurá-lo no trabalho dele. Não sei o que vão dizer nem como ele vai reagir, mas terminarão sabendo de parte da história. Talvez o levem, talvez o deixem. Se deixá-lo, tenha certeza de que ele será grampeado e vigiado por um bom tempo.

- Ai meu Deus...

- Hmmm... Onde você pegou a moto?

- Em frente à escola.

- Vamos! - Ele se levanta, de súbito. Vai até o balcão. - Senhorita...

- Cyntia.

- São irmãs, não são?

Ela faz que sim com a cabeça.

- Ótimo. Se gosta dela e quer que ela viva, nós dois não estivemos aqui.

Ele estende uma nota de cinquenta.

- Está sequestrando minha irmã!?

- Não, estou protegendo. E se lembre: a polícia não vai vir para proteger.

 

Claudia segue com Caio até um hotel algumas quadras depois. Seu coração bate desesperadamente.

Vão partir imediatamente, ou quase isso: ele precisa pagar antes a hospedagem.

O tablet, os agentes, esse tal Caio... Tudo deixa seu coração muito apertado. A cidade de repente ficou muito pequena, pequena demais.

Um segundo de distração e ela foge, deixando Caio no hotel. Corre um quarteirão e pega um taxi até a rua dos transportes para Maceió.

- A moça está bem?

- Estou.

- Notícia de família, né? Vai dar tudo certo.

- Obrigada.

Para sua sorte, uma besta já estava saindo. Ela respira fundo, um pouco mais tranquila, e toma um assento na frente.

“Enquanto não souber o que está havendo, é melhor manter distância desse sujeito. Não faz mal ir pra Maceió mesmo. Lá é mais fácil eu me esconder. Daqui a uns dias eu volto e justifico na escola. Ou não sei...”

- Você viu que encontraram um carro com dois mortos dentro?

- Como assim? - O motorista pergunta ao cobrador.

- Meu pai que tava falando que viu no jornal hoje de manhã. Os dois queimados.

- Onde isso!?

- Lá em Bananeira!

- É, aqui tá cada vez pior. É no que dá a polícia pegar leve com bandido.

- Não é, véi! Nada a ver isso.

- Se eu fosse da polícia queria nem saber de Direitos Humanos nem de nada, queimava essa praga era toda!

- E por que não vai pra polícia então?

- Nada, tem futuro não. O cara também fica marcado...

- …

- Parece que teve acidente aí na frente. Olha os caras cortando luz.

- É nada! É blits.

- Esse povo querendo dinheiro.

- Nada, se não mudaram enquanto eu vinha é da polícia essa aí.

Claudia leva um susto e pede pra parar.

- Vai descer aqui, moça? Mas a gente nem passou do trevo!

- Não, esqueci uma coisa lá em casa.

- Pede pra alguém mandar. Eu ligo pro Paulo, que vem mais tarde, que ele leva pra Maceió.

- Não dá. Só eu sei onde botei.

- Então tá.

“Que droga! Fecharam o cerco!”

Ela caminha por ruas de barro. Mais de meia hora depois é que alcança finalmente a estrada, depois da blitz. Com medo de reencontrar Caio, espera a próxima besta passar.

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