Bardo no OpenClipart

Se você não conhece, o projeto OpenClipart reune uma infinidade de desenhos prontos para serem reutilizados em trabalhos escolares, cartazes, etc. Tudo distribuído sob licença aberta.

O projeto é antigo e já faz anos que está nos repositórios Debian e Ubuntu, inclusive em versão integrada com o LibreOffice (a Galeria interna do LibreOffice podendo ficar bem cheia de opções do OpenClipart).

Pois bem, há pouco mais de um ano comecei a publicar coisas por lá também, sejam trabalhos inteiramente meus, seja derivações de trabalhos de outros. Hoje conto com 37 uploads, sendo que 2 deles já tem mais de 1.000 downloads.

Se você quiser ver o que botei por lá é só ir por este link. Lembrando também: tudo o que está no OpenClipart está em formato SVG, facilmente adaptável com o Inkscape!

Florestiotas

Pela floresta se ouviu
“Vamos todos para o lago!”
Era o grito da Arara
Voando por todo lado
Chamando pra reunião
“Vamos todos! Vamos logo!”

Os bichos foram chegando
Buscando acento no chão
Quando a Arara pousou
“Foi feita a convocação
A todos nossos amigos
Que comece a reunião”

O jabuti começou
Falando meio arrastado
“Muitos de nós hoje andam
Com razão, bem preocupados
Com a presença dos homens
No nosso chão adorado”

“Os índios vivem há tempos
Caçando nossos colegas
Mas tem outros que estão vindo
Estranhos, com fúria cega
Destruindo quase tudo
A própria vida nos nega”

O Tatu-bola pediu
Para comentar também
E disse: “Pra mim nenhum
Homem é bicho de bem
Não aceito índio aqui
Nem lenhador, nem ninguém!”

Houve um barulho de apoio
O mico ergueu a mão
E disse: “eu vou além!
Eu vi o que os homens são!
Tem parques muito bonitos
E um monte de construção”

“Se eles derrubam as plantas
É pra botar no lugar
Cidades bem divertidas
Boas de humano morar
Fazem um tal zoológico
Pra gente ficar por lá!”

“Se tem humano ruim
É esse povo atrasado
Que além de matar o bichos
Nada faz pra nós de agrado
Eu gosto do bicho homem
Quando ele é civilizado”

A Jiboia se espantou
E disse: “para com isso!
Nunca ouvi tanta besteira!
Lançaram em tu um feitiço?
Trocar a nossa floresta
Por canto assim, tá difícil!”

O Pato falou também
“O mico está muito certo!
Não é atacar floresta
Mas sim ser bem mais esperto
Melhorando nosso mundo
Antes que vire um deserto”

O Tatu falou de novo
“É pensando bem que eu digo
Quem não concorda com o Mico
É da floresta inimigo
Por isso digo: vocês?
São contra ou estão comigo?”

Bicaram muito a Jiboia
E o Jabuti com maldade
Foram pra aldeia dos índios
Mataram sem piedade
Só por amor à Floresta
Sonhavam em ser cidade

-- Cárlisson Galdino

Esquerda e Direita

Na política, a essa altura acho que já ficou claro para quase todo mundo que esquerda não significa "oposição".

A Esquerda é um conceito amplo e geral demais, que muda seu formato exato a depender do local onde é utilizado. De modo geral, entendo o conflito Esquerda X Direita como um reflexo da guerra de classes sociais: a Esquerda defendendo interesses das camadas menos favorecidas da população, a Direita defendendo os interesses das mais abastadas.

A Esquerda tende ao Comunismo. Quando se fala de Extrema Esquerda, frequentemente significam grupos que defendem uma revolução que coloque o Estado inteiramente na mão da classe trabalhadora.

Direita por outro lado defende o interesse dos grandes empresários e investidores e banqueiros... Claro, também há a defesa de valores religiosos, morais.

O resumo da história (e esta é apenas minha opinião) é que não temos Direita e Esquerda grandes o suficiente para se destacarem no Brasil.

O PT, que tem se vendido como Esquerda, há muito tempo não o é. Tem uma política social-democrata de conciliação de classes que pode até ser melhor do que nada, mas se afasta muito dos interesses dos trabalhadores. Não foram poucas as vezes em que direitos nossos foram jogados no lixo em negociações, mesmo na "Era PT".

O que se tem entendido por Direita por aqui não são políticos defensores da ideologia burguesa. Pior que isso: são os próprios empresários, bancários e burgueses que ocupam o espaço político do que se vende como Direita.

No fim, falta gente com projeto de país, com amor à terra em que pisam, independente de serem de Direita ou de Esquerda.

-- Cárlisson Galdino

P. S.: Acredito que há sim Esquerda, mas longe dos holofotes. Como possivelmente o é o PCB, tema recente do Politicast.

P. S.: Imagem original do post.

Special: 

Podcasts e Podcasts

Se você não acompanha ainda o Politicast, os dois episódios mais recentes tratam de criptomoedas.

Se você curte Software Livre, apareceu um podcast novo nesses últimos meses: o Papo Livre. De uma turma das antigas da comunidade de Software Livre mesmo. Ouçam lá!

E se você ainda não ouve podcasts nem sabe direito o que é isso, dá uma olhada por aí! O Anticast mais recente trata de pesquisas que apontam crescimento na publicidade em podcasts lá nos States. Podcast é uma mídia alternativa, como diz o Léo Lopes, sob demanda! Você escolhe o que ouvir, como ouvir, quando ouvir... E outra: ouvir podcast não exige dedicação completa. Você pode ouvir enquanto faz atividades mecânicas!

É isso! Mais uma vez: se você quer acompanhar podcasts via Android, recomendo o software livre Antennapod! No site tem link para a Play Store, mas ele está no F-Droid também.

P. S.: Foto original do post de Bem Devassa.

Sina

Mais uma vez você diz que acabou
Mas sei que volta na próxima esquina
É o mesmo Sol sobre nossas cabeças
E a mesma história, esta é nossa sina

E até lá tento sobreviver
Às sombras que saltam à minha frente
Elas dizem: preciso de você
Sei que concordo: os postes não mentem

Nosso sofá reclama a sua falta
E as horas nem passam mais por aqui
Mas ainda sinto seu cheiro na casa
Como um fantasma, um lindo dejavú

Você não atende uma ligação
Mas nossa história sempre foi assim
Sempre termina por qualquer razão
Mas recomeça quando chega ao fim

-- Cárlisson Galdino

Engenho: 

Sobre Novas e Velhas Besteiras

Mascarado

Um dia disseram que mulheres seriam fracas demais para exercer a Medicina. Que esta profissão era “obviamente” apenas apropriada para homens. Foi-se um tempo em que mulheres não passavam de meras posses de alguém (entenda-se: de algum homem).

Um dia disseram que índios não tinham espírito. Negros também não. Escravizar não seria um crime, muito pelo contrário, pois entre os serviços que os escravos prestariam, eles teriam contato com a “civilização”, sendo pouco a pouco instruídos e catequizados.

Eles levavam mulheres e as puniam por “despertar desejo nos homens”. Puniam e puniam até não ver mais mulheres e sim farrapos de gente, sem dentes e deformadas. Tratavam de queimar o bagaço humano em praça pública. E diziam que eram bruxas, que bruxas eram feias e que bruxas eram más. As torturas na Terra, diziam, diminuiriam as torturas que esperam pelos infiéis no pós-vida. Era uma época de deslumbramento da Cruz com o Poder.

O Poder sempre foi envolto em mentiras. Reis e imperadores já foram divindades na Terra ou por elas indicados. Sangue azul não era apenas uma metáfora. Quanta mentira já foi dita… Hoje ainda se diz que o futuro de uma nação está nas mãos de uma única pessoa, responsável por tudo o que acontece do lado de cá das fronteiras.

As fronteiras… Fronteiras de uma terra pretensamente descoberta, assim ao acaso, como quem não quer nada. Como se ventos desviassem navios por distâncias transcontinentais (nem que fossem marinheiros bêbados!). Como se Pindorama não tivesse pessoas e não fosse já a nação de centenas de povos.

Já disseram que houve um grito heroico no Ipiranga, capaz de nos libertar e nos dar soberania, apartando-nos de Portugal. Claro, o pagamento de 2 milhões de libras esterlinas à pátria dominante deve ter sido um mero detalhe neste quadro.

E ainda há quem pense que é de hoje que lideranças políticas brasileiras resolvem as coisas com dinheiro, nas entrelinhas, longe dos holofotes.

Ainda há quem queira justificar as torturas do período de governo militar e ainda peçam seu retorno pelas ruas, que vexame! Torturas e assassinatos que, como estão escondidos aos montes debaixo do tapete, dizem não terem havido. Tortura por interrogatório ou sadismo? Pouco importa, deveriam ser crime contra a humanidade.

Diziam que o golpe era um contragolpe os que defendem o indefensável. Diziam que comunistas comiam criancinhas e que naquele período não havia corrupção.

Quanta coisa já foi dita e quanto mito já caiu... Quantas crenças deixaram de ser religiões para se tornar mitologias? Será que a fé do antigo heleno em Athena era menor que a fé do contemporâneo beato cristão? Quem pode saber?

Já disseram que o Inglês é a língua mais falada no mundo por ser uma língua fácil. Não citam o fato de o posto já ter sido ocupado, bons tempos atrás, pelo Latim!

Já disseram que a culpa pelos crimes é dos mais jovens, ou dos mais pobres, ou dos mais negros. Muitos já disseram que é dos três, principalmente quando combinados. E que quando a polícia mata é porque coisa boa o pobre não estava fazendo. Salvem as sábias balas juristas do Brasil!

Já disseram que tudo o que é público não é de ninguém. É o caminho para a apropriação, depredação e desrespeito de quem, logo depois, aparece a reclamar da corrupção, irresponsabilidade e respeito de seus próprios representantes.

Disseram que não há políticos honestos e que o Estado é a culpa de todos os males. Que o Comércio é, por outro lado, a perfeita criação da natureza humana. Que uma vez solto, será capaz de se regular sozinho em prol de toda a Humanidade. Claro que sim, Pink! O Estado é corrupto e o Comércio é puro! E comércio é sempre socialmente bem intencionado, respeitando funcionários e clientes por iniciativa própria. Claro, claro…

Já disseram que os jornais são imparciais. E que todas pessoas nascem iguais. Como é possível, no decorrer da História, ter havido quem acredite em tanta besteira? Ops! Parece que ainda há...

-- Cárlisson Galdino

P. S.: imagem original modificada para o post.

Special: 

95%

Quero teus 95%
Pois tua completude não me agrada
Se a perfeição, sei, não é deste mundo
É outra parada

Como alguém quase a virar herói
Cheio de determinação e o medo
De alguém que é forte, mas ainda humano
E vai virar deus

Quero teus 95%
Como a sacada que ainda não é sucesso
(E que não sabe ao certo se será)
(Mas será)

Como o assassino que não ama a morte
Mas contempla o grito
Como uma história de terror sinistra
Que não mostra o bicho

Quero teus 95%
Essa beleza perfeita incompleta
Quero essa Luz da Lua quase cheia
Iluminada pelo entardecer

--Cárlisson Galdino

Engenho: 

O Poeta da Colina

Era um poeta que morava no topo de uma colina. Thadeu Wanddle. Era uma casa simples, com uma chaminé na sala, um sofá, uma escrivaninha e uma poltrona marrom.

Thadeu Wanddle escrevia todas as manhãs um soneto para Beatrice, uma jovem loira de jeito delicado e sensual. Pele suave como veludo, perfume de rosas e olhos azuis como o mar numa manhã ensolarada e quente. Thadeu já a comparou com o mar, o céu, as rosas e com tudo o que podia imaginar, mas ela não existe mais neste mundo. Embora tenha existido algum dia, hoje não faz mais parte da vida de Thadeu.

A campainha toca. É o carteiro para trazer as encomendas e correspondências de Thadeu. Nada de novo, como sempre. Ele caminha até a janela e avista a paisagem.

- Ah, doce Beatrice... Por onde andas? O que tens feito na vida? Conseguiste, será, encontrar a tal da Felicidade? Este sentimento vil que nos atormenta e quer que partamos alucinados à sua procura... Ah Beatrice... Como andarás?

"Oh, Beatrice, como é doce o querer-te
Te quero hoje como dez anos atrás
Como queria uma vez de novo ver-te
Oh, Beatrice, linda musa dos meus ais

Oh, Beatrice, por mais que essa Vida aperte
Cá estou eu a te esperar, sei que virás
Ainda que encontre não Thadeu, mas um inerte
Cadáver, morto de Amor que não acaba mais

Te esperarei a cada dia de minha vida
Como a noite sempre espera o nascer do Sol
Como quem vive e espera a hora da partida

Te esperarei, oh Beatrice, aqui tão só
E valerá cada tristeza aqui sentida"

- O que coloco no último verso... Poderia falar que fui fisgado por seu anzol...

Thadeu coça a barba do queixo. Aos trinta anos parece ter quarenta. Os anos o maltratam, mas ele não desiste da sua Beatrice. Continua a escrever. Ele olha mais uma vez o horizonte.

- "Oh Beatrice, és meu único farol" Não, já usei a metáfora da embarcação em outro soneto... O que resta então...

- E que tal "Que venha antes que eu enfim me torne pó"?

Thadeu procura surpreso a voz feminina que falou. Logo a encontra ali, aproximando-se da casa. Para sua tristeza, seus cabelos eram castanhos escuros e curtos; seus olhos e sobrancelhas não tinham o mesmo desenho que ele esperava encontrar. De óculos, ela o encarava enquanto vinha para a casa.

- Quem é você?

- Iolanda, e você?

- Thadeu Wanddle, mas o que faz aqui?

- Ah, estou de férias, vim te fazer uma visita.

- Eu conheço você? - Thadeu pergunta, sem jeito, após uma pausa.

Uma gargalhada gostosa de Iolanda é a resposta. Ela o encara com ar misterioso, então complementa.

- Não, seu besta! Eu apenas soube que no alto da colina havia um poeta e vim visitar.

- Queria saber como é um poeta, é? Pois veja: eis aqui um farrapo de gente! Eu vivo os meus dias a escrever e ninguém se importa. Nem Beatrice. Mas já que já viu como é um poeta, poderia me deixar em paz com meus pensamentos e minha arte?

- Não. - Ela responde, já adentrando a casa.

- Como assim?

- Você está errado. Só está certo numa coisa: é um farrapo de gente. Se eu fosse essa Beatrice, ia querer mesmo não nada com você.

Thadeu não tem palavras para reagir. Como uma pessoa desconhecida entra em sua casa, fala mal da sua aparência e...

- Onde está indo?

- Estou com sede. - Iolanda responde, dirigindo-se à cozinha logo após ter deixado a bolsa sobre o sofá.

- Quem disse que...

- Ora, vamos, um pouco de companhia não faz mal a ninguém. Ainda mais quando se vive uma eternidade sozinho.

- Como sabe há quanto tempo estou aqui?

- Hahahaha! Meu filho, pra ter se tornado esse farrapo de gente que é hoje, deve estar aqui há pelo menos cinco anos. Ninguém fica do jeito que você está de uma hora pra outra não.

Iolanda chega à sala com um copo de água na mão. Thadeu permanece sentado na poltrona, próximo à janela. Iolanda se senta no sofá ao lado da bolsa, com a perna dobrada sobre o outro lugar do acento, para poder olhar para Thadeu, que está atrás dela. O sofá fica de frente para a lareira e de costas para o birô. Encontra a expressão pensativa e ainda surpresa do poeta.

- Você é jornalista, é isso?

- Errado.

- Uma estudante de letras?

- Não.

- Uma leitora dos meus livros é que não é, suponho...

- Finalmente acertou!

- Você é...

- Não! Eu também não sou uma leitora dos seus livros. A propósito, me mostraram seu trabalho lá na cidade. Francamente, todos os livros falando da mesma mulher as mesmas coisas... Ninguém merece, eu não compraria um livro desses não.

- Como...

- Que foi? Ficou com raiva? Ninguém nunca te disse isso não? Desculpe, meu filho, estou apenas sendo sincera. A verdade pode ser dura, mas é melhor que qualquer enrolação. Quem é essa Beatrice afinal?

- Beatrice... É a luz que ilumina minha vida todas as manhãs, ela é...

- Tá, tá... Tou falando da outra Beatrice!

- Outra?

- Claro! Da Beatrice de carne e osso! Ou vai dizer que você se apaixonou por um vaga-lume?

- A Beatrice... É uma linda moça que conheci na adolescência. Era minha vizinha, até que um dia ela teve que ir embora pra longe.

- Entendo... Isso faz tempo, né?

- Faz...

- E você gosta mesmo dela?

- É claro! Por que acha que eu vivo meus dias falando dela.

- Não sei... Acho que não gosta tanto assim dela.

- Como ousa duvidar do meu imenso amor?

- Ora, penso que se gostasse realmente dela tinha ido à sua procura e não ficado aqui escrevendo um monte de sonetos bregas.

- Você é louca... - Thadeu franze a testa, voltando a olhar através da janela.

- Diga-me uma coisa que eu não saiba. ... Sabe de uma coisa? Você tem que superar isso. Já faz mais de dez anos! Ela já deve ter se casado, virado freira, batido as botas, sei lá! Muita coisa pode ter acontecido nesse tempo todo, não acha? Olha, quando eu me apaixonei pela primeira vez eu fui lá e me declarei. Levei um belo de um fora e continuei minha vida. Simples assim.

- Mas é impossível que eu esqueça a Beatrice, ela é tudo na minha vida.

- É nada! Você já desistiu dela faz mais de dez anos! Quando resolveu ficar aqui você desistia dela e cada poesia não passa de uma farsa do seu lado covarde, que engana a si próprio fingindo que ainda luta. Mas você já entregou os pontos. O jogo acabou e faz é tempo!

- Quem é você afinal?

- Me chame de Iolanda que está de bom grado.

- Você sabe que não foi isso o que eu quis dizer...

- Você nunca sabe o que quer dizer, por isso repete sempre as mesmas coisas.

- E você? Veio aqui só me azucrinar, foi?

- Adivinhou! Bom, o papo está legal mas tenho que ir. Fiquei de visitar a capela, que eu não conheci ainda. Até outro dia!


As águas se espalham sobre a areia. O mar é mesmo lindo e imenso. Thadeu vê o mar lá longe, da janela de sua casa na colina. No papel à sua frente, o mesmo soneto inacabado. Desta vez, só no papel. Na sua mente, ecoam as palavras de Iolanda. Desde ontem.

Que maldição! Toda sua vida é por Beatrice e aparece essa mulher do nada para tentar destruir seu castelo de cartas. Será que ela está certa? E se estiver certa, ao menos um pouquinho que seja? E se..

- Não! Besteira!

"Ainda lembro: os teus olhos têm a luz
Que ilumina o meu dia e meu viver
É dentro desses teus olhos azuis
Que o que não era possível passa a ser

Nos loiros fios, nos gestos, me seduz
Nos lábios, em tudo o que há em você
Jamais a tal beleza farei jus
Mas tal beleza sonho em merecer

Sonho um dia virá, sei que virá
E nada importará, só tu e eu
Seremos só nós dois a nos amar

Sonho, ainda um dia, oh sonho meu!
Todos dizerem ao te ver passar"

- "Essa era Beatrice? Então fodeu..." - É a mesma voz de Iolanda, que interrompe o pobre poeta

- Faz tempo que está aí?

- Cheguei agora.

- Este soneto já estava escrito, não é novidade. O último verso é "Ali vai Beatrice de Thadeu".

- Hmmmm... Prefiro o meu final.

- E o soneto se chama Beatrice de Thadeu.

- É, sonhar é bom às vezes, né?

- O que quer dizer com isso?

- Ora, "Beatrice de Thadeu"... Faça-me o favor! Uma mulher que você nem tem notícias há uns dez anos! Um dia eu vi um violino lindo!

- Como é?

- É, um violino perfeito, de som maravilhoso!

- E o que tem a ver? Você está doida?

- Foi na adolescência. Estava à venda numa cidade grande. Eu queria muito aquele violino, mas não puderam comprá-lo para mim.

- Que pena...

- Que louca que não tem juízo seria eu se até hoje estivesse falando desse violino como se fosse meu e só escrevesse sobre ele?

- Sei onde quer chegar, mas não tem nada a ver...

- Claro que tem, poeta! Beatrice é seu violino da adolescência! Quem sabe sequer se ainda existe?

- Você toca violino?

- E você? Toca as mulheres? - Ela responde com olhar sarcástico. Então continua caminhando passando pela casa.

- Ei! Já vai? Não vai tomar água hoje?

- Não, poeta. Vou ver o que há além dessa sua colina.

- Hmmm...

- Quer vir comigo? Pode vir.

Seria masoquismo o que movia Thadeu? Em pouco tempo, ele deixa os papéis sob um peso na mesa e vai junto com Iolanda, deixando sua casa aberta.

- Deixe-me adivinhar... Você nunca caminhou muito além da sua casa!

- Não, eu andei um bocado nos primeiros anos. Caminhar é uma boa terapia.

- Terapia... Não tem terapia que resolva seu problema, poeta, se você não quer que o problema seja resolvido.

- Amor não é exatamente um problema.

- Não, não é... Mas nem sempre o que pensamos que é amor é de fato amor.

- O que você quer dizer? Acha que sou louco por amar Beatrice?

- Ninguém é louco por amar outra pessoa, mas amor exige entrega. Quando a gente ama, faz de tudo pela pessoa que a gente ama. Vai atrás. Faz loucuras. Não fica num quarto trancado isolado do mundo escrevendo poemas.

- Sabe, cansei dessa conversa. Por que não paramos de falar de mim e Beatrice e falamos de você? O que faz na vida?

- Sou advogada.

- Hahahahaha! Sério? Não brinca!

- Sério. Por que a graça?

- Por isso você argumenta tão bem tentando me fazer acreditar no que quer que eu acredite.

- E no que quero que acredite?

- Que estou perdendo meu tempo.

- Não, poeta, não faz a menor diferença pra mim se acredita ou não. Mas se vejo um problema, é meu dever apontá-lo. Se vai acreditar ou não, fazer alguma coisa a respeito ou não, já não é mais problema meu.

- Você é estranha.

- E quem não é estranho neste mundo?

Eles caminham entre pedras e pouca vegetação. Alguns animais se espalham na paisagem sob o céu azul. Enfim, uma cerca branca.

- Quantas poesias você fez pra essa Beatrice?

- Não sei... Geralmente faço uma por dia... Mas tem dias que não tenho inspiração. Em compensação, há dias em que faço até cinco.

- Em uns dez anos, isso deve dar... Nossa! Mais de três mil!

- Não sei... Pode até ser, sabe?

- Patético...

Ela se vira e começa o caminho de volta, balançando a cabeça em negação.

- Por que patético?

- Porque ela não existe mais pra você. Tudo isso foi em memória de alguns momentos de adolescência entre os dois? Patético, simplesmente. Não conheço ninguém que tenha feito cem poemas para uma mesma pessoa. Chega um tempo em que a convivência basta. Poemas como provas de amor deixam de ser necessários, porque não são mais necessárias provas de amor. Sem contar que na maioria dos casos simplesmente o romance termina de hora pra outra, sufocado pelo dia a dia.

Iolanda pára e se vira para trás, e vê Thadeu cabisbaixo e pensativo.

- Que foi agora, poeta?

- Estou pensando na vida.

- Na sua Beatrice? Se você a encontrasse hoje ela seria outra. Não teria os mesmos lábios que você beijou, nem os mesmo assuntos. Afinal, dez anos são muito tempo! Vamos voltar? Agora estou com sede.

Eles caminham de volta para a cabana. Iolanda sem cerimônia vai até a cozinha mais uma vez pegar um copo de água e se senta no sofá. Thadeu se senta na poltrona. Calado e mudo, perdido em pensamentos angustiantes, olha o chão em busca de alguma resposta entre a poeira da casa.

Duas mãos deslizam por seu rosto. É Iolanda que o beija de surpresa.

- Você é um homem bonito. Acorde pra vida! Não perca seus dias por alguém que se foi. Como tanto dizem, quem vive de passado é museu.

Ela se ergue, pega a bolsa sobre a mesa e sai de volta à cidade.


Thadeu está sentado à escrivaninha, pensando na vida, com o mesmo poema inacabado.

- Até que Iolanda é um nome bonito... Tem sete letras, meu nome tem seis. Dá pra fazer um soneto com os versos começando com Thadeu e Iolanda! Deixa ver como ficaria...

"Toda manhã acordo e é igual
Hoje, porém, mudou minha rotina
Apareceu alguém especial
De uma beleza estranha, rude e fina

E todos os brilhos que eu tinha e tal
Um a um se quebraram, triste sina!
Essa mulher estranha e fatal
Iolanda se chama essa menina

Ontem demos a volta no terreno
Lá onde costumava percorrer
Até aquela fazenda do Breno

Não sei o que entre nós veio nascer
Diria eu ser grande? Ser pequeno?
Ainda não sei ao certo o que há de ser"

- É, acho que não tem o menor sentido uma poesia pra Iolanda. Ela só veio aqui e o que quer é só me aborrecer! Além do mais, ela é doida mesmo, não deve ter nenhum interesse por mim.

"Oh, Beatrice, a vida que eu pedia
Era somente tendo-te ao meu lado
Não importava ser, pois, noite ou dia
Sol escaldante ou inferno gelado

Oh, Beatrice, toda a alegria"

- "Seria te deixar no meu passado. Que praga és, Beatrice, quem diria! És praga e eu, o pobre condenado!"

- Iolanda?

- Bom dia!

Thadeu vê boquiaberto Iolanda entrar na casa e ir se sentar no sofá.

- Como fez isso?

- Isso o quê?

- Completou essa estrofe assim! Na hora?!

- Eu sou poetisa também, meu bem.

- Eu levo mais de hora pra fazer um soneto!

- Não tenho culpa se você se acostumou ao raciocínio lento. Porque escrever mais de três mil sonetos e não saber fazer na hora, sinceramente... - Ela se levanta e caminha até ele. Segura sua mão. - Agora deixa as palavras de lado, há poesias muito mais belas a se fazer e não precisamos de palavras pra essas.

Ela o conduz até o sofá e o beija com ardor. Mãos deslizam por seu corpo e em pouco tempo estão os dois envolvidos e nús naquele sofá de dois lugares...

- Thadeu... Thadeu... Agora me diga: vale a pena deixar a vida passar por causa da sua Beatrice?

- Eu... Não sei... - Ele se levanta, veste as calças e caminha até a janela.

- Pobre poeta... - Iolanda o abraça pelas costas e olha a janela também. - Não te disse tudo o que disse para te prejudicar, só quero o seu bem. Viva a vida, esqueça Beatrice.

- Eu não sei...


- Iolanda?

Desta vez é Thadeu quem a surpreende. Não conseguira dormir por toda a noite, pensando no que aconteceu e nos sentimentos conflitantes que preenchem seu coração. Foi deste jeito que desde antes de o Sol despertar para o novo dia, lá estava Thadeu sentado à entrada de sua casa.

- Bom dia, poeta!

- Bom dia, Iolanda! Olha, estive pensando em tudo o que você falou. Sobre esquecer Beatrice... Sim, talvez você tenha razão. Sabe de uma coisa? Eu esqueço sim Beatrice! Por você eu esqueço!

- Ah, não acredito... - Iolanda abaixa a cabeça. - Thadeu, não era de mim que eu falava esse tempo todo. Era de você! Você tem que viver! Independente de qualquer Beatrice ou Iolanda!

- Mas eu pensei que...

- Olha, sabe o que mais? Eu vim aqui me despedir.

Só então Thadeu percebe na mão de Iolanda um papel.

- Foi um imenso prazer conhecê-lo, poeta. Mas estou voltando hoje mesmo pra minha terra. E como sei que você dá muito valor a essas coisas, escrevi uma poesia de despedida. Aqui está, vou indo. Boa sorte na vida! E claro que não quero que me esqueça, mas por favor não me transforme numa nova Beatrice, tá legal? Isso não é... confortável.

- Você vai mesmo? Mas...

- Vou, poeta. É a vida. A minha vida. E você tem que cuidar mais da sua própria, sem se importar com quem não pode ver. Adeus!

E assim partia Iolanda, com chapéu branco ia embora descendo a colina para a cidade, e Thadeu nunca mais a veria. Entre as lágrimas, quando Iolanda já não era mais visível ao longe, ele abre o papel que recebera e lê:

"O Poeta da Colina

No topo da colina há um poeta
Que todo dia sonhava com sua musa
Uma Beatrice que já faz dez anos
Sequer notícias suas ele tinha

No topo da colina o vento vinha
Toda manhã chamando-o para a vida
Mas ele preso à musa tão querida
Não percebia esse lindo chamado

No topo da colina acorrentado
Estava aquele pobre poetinha
Nas dores de um tosco cotidiano
Por alguém que nem sabe que ele existe

No topo da colina estava triste
E eu pude comprovar que vida havia
No peito do poeta e nos seus lábios
Escondida sob esse sofrimento

No topo da colina, o sentimento
Poeta, viva a vida como deve!
Invista quando sabe que recebe
Não jogue tudo num poço sem fundo

O topo da colina é o seu mundo
Liberte-se pra vida enquanto é tempo
Na vida, conheci muitas Beatrices
Nenhuma delas vale esse tormento

Iolanda Twillow"

Cordel Pokémon

Cordel Pokemon

No mundo dos videogames
Mimimi é bem normal
Pessoas com preconceitos
Sem conhecer a real
Pegam um jogo qualquer
Sem jogar uma vez sequer
Se apressam em falar mal

Há quem fale mal de esporte
Quem não curta RPG
Ou dos jogos “infantis”
Ou de jogos pra PC
Pois esse campo é de jeito
Que um besta preconceito
É fácil de aparecer

Hoje vou falar de um jogo
Na verdade, uma franquia
Segunda maior do mundo
Desde sempre, quem diria
Só o Mario está na frente
Mas nem é tão diferente
É a Nintendo quem cria!

Nossa história então começa
No ano de 96
O Gameboy ia mal
Ia afundar de vez
A Nintendo a ter chilique
Veio uma tal Game Freak
E uma solução se fez

Ninguém conhecia o jogo
Mas a empresa tinha o dom
Vendeu pouco no início
Quem comprou viu que era bom
E rápido divulgou
Pouco a pouco se espalhou
Era a febre Pokémon

No universo desse jogo
Há um mundo sossegado
Como um Japão bem antigo
Só com vila e povoado
Pouca gente ali vivia
Mas com tecnologia
Não era tão atrasado

Nele existem criaturas
Como um reino animal
Mas é difícil dizer
O que eles são afinal
Há quem pareça inseto
Planta, gente, objeto
Nesse mundo é natural

São chamados pokémon
São os monstrinhos de bolso
Eles são parte do mundo
Sei que é estranho, seu moço
Mas nesse mundo especial
São a peça principal
Causam maior alvoroço

Não se pode andar sozinho
Longe de cada cidade
Sem proteção de um bichinho
Com quem se tenha amizade
Pois sempre, a qualquer momento
Surge um pokémon sedento
Por briga só por maldade

Os pokémon fazem mal
Mas porque são animais
Não sabem certo ou errado
E os humanos vão atrás
De um deles capturar
Se proteger e ensinar
É o que um treinador faz

Treinadores são pessoas
Com pokémon mundo afora
E pra levá-los pros cantos
Não ia prestar sacola
Criaram então certo dia
Sagaz tecnologia
A famosa pokébola

Como uma bola pequena
Capaz de um bicho conter
A pokébola é incrível
Só mesmo vendo pra crer
O pokémon fica preso
Seja veloz ou de peso,
Tamanho ou muito poder

Assim segue pelo mundo
Cada jovem treinador
Os pokémon vão caçando
Co'ar de colecionador
Mas só podem levar seis
Os outros vão de uma vez
Parar num computador

Além de treinar os monstros
Para melhor proteção
Treinadores colecionam
De pouco em pouco, um montão
Como se eles fossem selos
Andando com os mais maneiros
Para cumprir sua missão

Que é enfrentar mais treinadores
Em uma competição
E nos ginásios encontram
Os melhores da nação
Tem que vencer as batalhas
Juntar todas as medalhas
Pra se tornar campeão

Nos jogos de Pokémon
Existem tantos monstrinhos
Que não se acabam mais
Se quiser contar todinhos
E nos jogos só aumenta!
Já eram cento e cinquenta
Já no primeiro, sozinho

Quem acompanha a franquia
Precisa ficar atento
Se quiser conhecer todos
Ô trabalho desgracento
Pois já aumentou a quantia
Eles já são hoje em dia
Passando de setecentos!

Cada um com seu estilo
Seu tipo e comportamento
Seus golpes por aprender
E o seu próprio som fazendo
Quem cria essas criaturas
Acho que beira a loucura
Sempre em certo momento!

Mas de todos esses bichos
Diminuem a seleção
Se lembrarmos que alguns
Deles um mesmo é que são
Pois tem formas diferentes
De uma a três geralmente
Mudando na evolução

Larva vira um casulo
E depois uma borboleta
Assim é com pokémon
Que habitam nesse planeta
Mudam a forma na jornada
E nem sempre a avançada
É de todos predileta

Chegando devagarinho
Sem nenhuma pretensão
Os pokémon se tornaram
Uma grande sensação
Se espalhando bem ligeiro
Do nosso mundão inteiro
Chamaram a atenção

Muita coisa apareceu
Além do jogo falado
Apareceram brinquedos
Boneco pra todo lado
Baralhos, jogos diversos
Além do grande sucesso
Que era o desenho animado

O desenho era infantil
Com um traço oriental
A história era bem simples
Luta, humor e coisa e tal
Mas carisma não faltava
Na turma que aventurava
O sucesso foi total

Assim ficou popular
Virando celebridade
Aquele rato amarelo
Que tem eletricidade
Pikachu, que se revolta
Sem querer a pokébola
Segue Ash pela cidade

Até aqui no Brasil
Ele veio aprontar
O desenho animado
Se tornou tão popular
O sucesso foi tão bom
Que se via pokemón
Vindo até no Guaraná

Os jogos para portáteis
- A primeira criação -
Da Nintendo sempre foram
Importantes e ainda são
Mas a turma tem empenho
Há muito mais que desenho
Pra ver na televisão

Há revistas em quadrinhos
Conhecidas por mangá
Tem jogo só de batalha,
De masmorras a explorar
Adesivos, tatuagens
E cartas colecionáveis
Para a Nintendo enricar

E foi que recentemente
Veio um novo produto
Feito para celulares
Em um projeto astuto
Assim qual quem não quer nada
Com realidade aumentada
Chegou dominando tudo

Essa grande novidade
É o tal Pokemon Go
Pra jogar no celular
E virar um treinador
Mas toda essa maravilha
Esconde uma armadilha
Que pouca gente notou

Pra jogar Pokemon Go
E cumprir suas missões
Você dá todo o acesso
A suas configurações
Permitindo espionagem
(Olha só que sacanagem!)
Completa, sem restrições

A câmera tira fotos
Quando você está jogando
GPS dá o lugar
E tudo vai se juntando
Pra juntar informação
Dessa grande multidão
Alheia ao que está passando

Mas não foi a Game Freak
Que teve essa obra feita
Nem foi a própria Nintendo
Mas uma empresa suspeita
Niantic, de ex-funcionário
Do Google, império lendário
Agora você diz: “Eita!?”

O Google já mapeou
Ruas de nações, estados
Quem joga Pokémon Go
É espião infiltrado
Sem querer e sem notar
Ajudando a mapear
Dentro de prédios privados

Pokémon é muito bom!
Tem carisma, tem história
Mas o jogo que chegou
É um perigo, não rola
Cuidado pra não virar
Um zumbi de celular
Cabeça de poké-bola

-- Cárlisson Galdino

P. S.: publicado em audio no Politicast /Arte/

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