Palito Amigo de Freud

Palito Amigo de Freud

O meu nome não importa
Pois me chamam de Palito
Essa terrinha danada
Desde que eu nasci habito
Sou surfista dessa praia
Surfo até que a noite caia
Nesse pôr de Sol bonito

Tá ligado na parada
Lá da praia do Francês?
Você anda assim de jipe
Mais duas horas ou três
Com a praia acompanhando
E vai terminar achando
A praia do Pequinês

Perto da velha cidade
Chamada Nova Nemeia
Não está em nenhum mapa
Pode esquecer essa ideia
Tou falando, eu sou daqui!
Na praia eu sempre vivi
É uma praia bem véia

Sou surfista de pequeno
Não sei se cê tá ligado
Mas a praia é frequentada
Tenho um monte de chegado
Que nas ondas se exercita
Que você não acredita
É um povo procurado!

Aqui não tem telefone
A gente fala na cara
Carta só pra quem tá longe
Linha mesmo só na vara
Da turma que vai pescar
Mas é show esse lugar
E tem uma turma mara

Mas vou confessar um troço
Eu me amarro nisso aqui
A praia do Pequinês
É o canto onde eu nasci
Às vezes lá por abril
É que me dá um vazio
Dá vontade de partir

Nessa vida de interior
Na parada da Natura
A gente se sente náufrago
Longe da verdade dura
Desse povo do dinheiro
Que esmaga o mundo inteiro
Na ganância, na secura

Claro que é melhor estar longe
Desse comboio de esperto
Longe chegam as consequências
Imagina estando perto!
Por isso que eu saio pouco
Gosto daqui, não sou louco
Mesmo quando está deserto

Quando a praia tá sem gente
E vem as ondas chegando
Elas vem de muito longe
Há tempo que estão andando
Então surfo mais ainda
Para dar as boas vindas
Pras águas que andam em bando

Mas pra falar a verdade
Quase nunca eu tou sozinho
Tou sempre trocando ideia
C'os cabeças, meus vizinhos
E sempre na molecada
Tem um que é mais camarada
Vou falar dele um pouquinho

Ele é mais velho que eu
Tá ligado? Mas é broth'
Sempre tem uns zé roelas
Que dizem que é debiloide
Não entendem o que ele fala...
Ele é gente fina, cara
O nome do bicho é Freud

Passa a semana falando
O povo vem pegar ideia
E ele vive é só disso
Num ponto em Nova Nemeia
Pagam uma fortuna imensa
Só porque o povo não pensa
As cabeças de geleia!

Freud até me convidou
Pra ajudar lá na cidade
Atendendo alguns clientes
Mas não dá, pô, de verdade
Só dele contar dos casos
Dá agonia o nível raso
Eu digo: eu não, amizade!

"Atender essa galera
Resolvendo seus problemas
É pra quem é paciente
Eu não dou pra esse esquema
Prefiro falar com mar
E a turma desse lugar
Não me encaixo no sistema"

Mas Freud é mesmo o cara
Paciência tem de sobra
Diz que está tendo umas ideias
Vai escrever uma obra
Mas se vem surfar com a gente
Fica zen, e a sua mente
Só se liga nas manobras

Ele tá com umas pesquisas
Pra entender nossa mente
Dividindo o indivíduo
Em três partes diferentes
E escreve, pra publicar
Já disse: se for lançar
Tem que convidar a gente!

Diz ele que todo mundo
Tem no centro do seu ser
Uma peça que é essência
Que ele chama de ID
Voz do desejo imediato
Como um bicho do mato
Que quer se satisfazer

Por viver em sociedade
Que se aprende o que é certo
Essa parada todinha
Fica no tal superego
Ele conflita com o ID
Pro conflito resolver
É que existe o tal de ego

Ego guarda as lembranças
Da vida de um vivente
Aprendizado, experiência
O Freud diz simplesmente:
"O ego é a camisa
Que esconde a cara lisa
Pra se expor a toda gente!"

Eu nem falei para ele
Mas tenho uma impressão
Que o brother bolou a história
Quando eu falei de Platão
Que também na sua vez
Dividiu a mente em três:
Homem, monstro e leão

Ele diz que na cidade
Numa zona como aquela
Ele diz que o problema
Quase sempre se revela
Por um ego já cansado
Que já ficou dominado
Lá na sua clientela

Quase sempre o problema
Que ele estuda no final
Tem a ver alguma coisa
Com o lado sexual
Superego e ID são brabos
É o tema mais complicado
Pro ego julgar legal

Pois é, véio, cê vai ver
Freud é um cara da hora
As paradas que ele estuda
Manda bem, e vai embora
Sei que vai ficar famoso
Pois essa vida é um osso
Pra tanta gente lá fora!

E agora cê dá licença
Que o Sol já está deitando
Vou ali na saideira
Da onda que vem chegando
Um abraço do Palito
Desse galego bonito
Até outro dia, mano

-- Cárlisson Galdino

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