Estrangeiro Nato

Estrangeiro Nato

Ele se acorda bem cedo
Toma banho e café
Veste a roupa, escova os dentes
Sai de casa: vai a pé

Preferia ir a cavalo
Mas hoje não pode ser
Seu rei mandou uma ordem
Todos devem obedecer

Segue ao centro a passeio
Pois tem férias neste mês
Não tem nada pra fazer
Só o tédio outra vez

Porém tem uma surpresa
Não compreendeu direito
Por que droga de motivo
Todos falam de outro jeito

Nada faz qualquer sentido
Nessa terra ele nasceu
Essa terra não é disso
Todos falam como eu

Mas que cena tão estranha
Que terá acontecido?
Será que é só um sonho?
Se for, vai ser divertido

E seguiu pela cidade
Em profunda alegria
As pessoas estranhavam
Quando falava Bom Dia

Mas mesmo assim foi em frente
Não tinha nada a temer
Afinal era um sonho
O que teria a perder?

Finalmente viu a praça
Toda cheia de barracas
Lá o comércio seguia
Roupas, frascos, pêras, jacas

E por toda a cidade
Se notava já agora
Outra língua se falava
Não a mesma de outrora

Foi então que decidiu
Visitar seus conhecidos
Começou pelos feirantes
Pareciam possuídos

Começou a caminhar
Em direção a alguém
E então como é que tá?
Quanto aos negócios, vão bem?

A resposta tão maluca
Nem sequer se pôde ouvir
Mal saiam as palavras
Se lançou no chão a rir

E o feirante, em resposta
Ao desprezo recebido
Resmungou, virou o rosto
E à feira seus ouvidos

Ao notar que ri sozinho
Do chão ele, já sem graça
Se levanta e limpa a roupa
Então atravessa a praça

Tudo bem, infelizmente
Ele está de mau humor
Ontem era outra pessoa
Ria até perder a cor

Ora, mas o que que eu digo?
Isso aqui não é real
Pode ser bem diferente
Não precisa ser igual

Segue na sua jornada
Não resiste a uma risada
Quando ouve o seu povo
E não pode entender nada

Uma mulher vende roupas
Ele segue até ela
E levanta uma camisa
Está por quanto, donzela?

Porém ela não entende
O que o cavalheiro pede
Em um sorriso amarelo
Se desculpa e se despede

- Tudo bem, pois não faz mal
Ela não vai entender
Mas que custa ser gentil
Isso é fácil perceber

Um menino viu a cena
E segue o pobre coitado
Que olha todas as placas
Com ar de tão espantado

O alcança finalmente
Pergunta se tem dinheiro
Sabe por exeperiência
O nato que é estrangeiro

Tantos já vieram assim
Impossível que esqueça
Lhe responde simplesmente
Faz que não com a cabeça

O pivete, inconformado
A rir começa a gritar
Um menino malcriado
Não ganhou, pois vai xingar

Todos olham curiosos
Como tantas outras cenas
E não riem nem bronqueiam
São curiosos apenas

Ignorando o menino
Toma o rumo que seguia
Sem notar por um instante
O que o pivete vigia

Quem um pedinte se fez
Se mostra agora um ladrão
Num golpe de rapidez
Na carteira passa a mão

Tentando se defender
Do golpe de supetão
Se virando bruscamente
O assaltado vai ao chão

Mas que raio de pivete!
Como estamos hoje em dia!
Se não damos o que pedem
Nos tomam toda a quantia

E essa droga de cidade!
Tanto imposto nós pagamos
E por onde anda a guarda
Quando dela precisamos?

Mas que droga de pivete!
Olha só que arranhão!
Além de ter o dinheiro
Me arremessou contra o chão

Mas tudo isso é importante
Pois cheguei à conclusão
De que nem por um instante
Isso aqui foi sonho não

Se levanta da calçada
Do meio da tal cidade
Sua cabeça está pesada
Por tão pesada verdade

Mas algo ficou pendente
Só agora ele está vendo
A importância da pergunta
O que está acontecendo?

Se isso nunca foi sonho
Como agora descobri
Por que todos falam estranho
Como nunca ouvi e vi

Co'a pergunta sem resposta
Se dirige à capela
Chegou lá, ficou na escada
Ao Divino ele apela

Céus, o que está havendo?
Na cidade co'a minha gente
Qual o segredo horrendo
Que a fez tão diferente?

Para espanto do apelante
A resposta é alcançada
Vem de alguém não tão distante
Nenhuma beleza alada

Um mendigo, vejam só
Que da lembrança recobre
De quem sempre tinha dó
E deixava algum cobre

Se aproxima o pedinte
De quem pede explicação
E lhe traz da própria cinza
A chama à escuridão

- Meu amigo, o que houve
Co'esse povo de meu Pai?
Por que hoje só se ouve
Frases mortas, explicai!

- Sou um pobre, bem o sabes
Sou pedinte, todo dia
Às incríveis belas aves
Deixo o vôo, a fantasia

- Que felicidade a minha
Ainda fala como eu
Mas a dúvida que tinha
Você não esclareceu

- Pois às aves a voar
Deixo a sabedoria
Mas eu posso relatar
Que foi da noite pro dia

- Meu amigo, obrigado
Isso quebra o meu galho
Só não lhe deixo um trocado
Por conta de um pirralho

- Mas espera, amigo, um pouco
Disse "Da noite pro dia"?
Estarão, portanto, loucos
Ou foi obra de magia?

- Ou ainda, bem não sei
Foi durante um certo banho
Que fez esta lei o rei
Sempre o vejo tão estranho...

- Calma homem, se acautele
O rei nada tem com isso
Nem tampouco a magia
Concluiu este serviço

- A invenção é do povo
Desde a invenção da roda
Falar desse jeito novo
Simplesmente virou moda.

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