Viagem de Hector

Chega uma época da vida em que você precisa tomar uma atitude. Soltar-se das amarras dos pais e tentar viver a vida de maneira independente. É uma necessidade comum, que vai crescendo conforme nos afastamos da adolescência e entramos na idade adulta. Hector, no entanto, já tinha passado bastante da adolescência. Hector já tinha seu PhD em Astrofísica. E já tinha seus 35 anos...

Ele queria ser independente. Não que quisesse de fato, como um desejo interior, mas ele queria querer. Ficava cada vez mais desconfortável para ele viver com os pais e ter amigos. Por mais que respeitassem sua "patente acadêmica", ele sentia a cobrança social: "liberte-se!" E foi tentando atendê-la que ele resolveu sair naquela noite. Pois é, ainda não sabia como iria fazer para morar sozinho, mas pensou: "Bem, uma festa talvez seja mesmo um bom começo". E por isso, logo ele estava ali.

- Oi?

Hector se vira lentamente, tentando imaginar quem iria querer ir pra varanda falar com ele. Tentando identificar a voz de algum colega, conclui que deve ser um garçon. Só que não.

- Oi.

Era um rapaz novo, pelo menos com cara de estudante ainda.

- Você... Conheço de algum lugar... Você não ensina na Unirc?

Sem jeito, Hector tem que admitir: "É, sim..."

- Haha! Eu sabia! Estudei com você faz... Uns 3 ou 4 anos.

- Que curso?

- Física.

"Três ou quatro anos... Já deve estar no mestrado a essa altura."

- E aí? O que anda pesquisando?

- Eu? Só no Google mesmo! Haha! Não, é que tranquei, tá ligado? Não voltei mais.

- Por quê?

- Na verdade eu não queria nem fazer faculdade, mas meu velho insistiu muito. Por isso fiz pra Física.

- Mas será que tem como voltar? É muito importante você ter uma carreira, para o seu futuro e...

- Na boa, professor. Eu escolhi Física porque sabia que é a mó parada inútil. O bom é que o meu velho se convenceu que não tinha futuro mesmo e deixou essa história de faculdade pra lá.

- Mas você faz o quê da vida?

- Professor, vou lá que as gata que eu trouxe tão me esperando, senão terminam pegandou outro. Valeu.

- Prazer te... ver...

Só com o rapaz indo embora é que Hector percebe como ele está vestido. Roupa nova e, bem, ele não sabe mensurar, mas parecem de grife. De playboy, pelo menos.

Ele vê o ex-aluno saindo (e só então lembra que não perguntou seu nome) e percebe que não é capaz de classificar aquela música que está tocando. Seria um Funk? Um Rock? Um Dance? É uma barulheira estranha, de batidas insistentes e letra cantada da melhor maneira para você não entender nada.

Ele entra à procura de mais alguma coisa para beber - algo leve pra quem não tem costume - e de alguém conhecido. Qualquer pessoa, mas...

Senta-se desanimado no sofá.

"Que vida a minha... O que foi que eu fiz todo esse tempo? Nada! Esse esforço todo que venho fazendo e nada! Olha só, não tem ninguém aqui que eu conheça! Isso tudo está muito errado! Não era pra ser assim."

Com uma força surgida não sabe de onde, ele se levanta decidido.

"E não vai ser mais assim! Vou pra casa agora que eu tenho muita coisa pra fazer! Acho que essa história de morar sozinho pode esperar, pelo menos até o fim do ano letivo..."

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