Pra ele bastou - parte 2

- Oi, filha! Como foi no cursinho?

A mãe recebe a adolescente, ainda arrumando a cozinha, quando atenta para a jovem.

- Nossa, filha! O que houve!? Você está pálida!

- É que... - Cida corre pro quarto e se deita na cama chorando. Não quer falar sobre isso. Não agora. Prefere poder aproveitar a segurança do seu ninho, sua fortaleza.

- Ei. - ...mas a mãe não deixa. - Me diz o que houve, vai filha? Fizeram alguma coisa com você?

Tudo o que ela consegue é fazer sinal de negativo com a cabeça, com o rosto ainda afundado no travesseiro.

- Vai, filha! Tá me deixando preocupada! É a faculdade? Tá com medo de não passar dessa vez, é isso?

Mais um sinal de negação.

- Mãe... - Ela fala com esforço. - Lembra aquele menino que veio aqui semana passada?

- Aquele dos deseinhos?

- É...

- O que foi que houve? Ele te deu um fora? Você gostava dele, não gostava?

- Ele morreu... - As palavras saem e são seguidas por um choro desesperado.

- É... Filha? Como assim morreu?

A vontade de Cida era de gritar “Morreu, sabe não!? Morrendo! Pulou da igreja! O Henrique morreu! E eu vi!”. Ao contrário, não conseguia produzir mais do que soluços.

- Como ele morreu? Ele estava doente?

“Não, idiota! Claro que não estava doente! Ele se matou!”

A mãe tenta tirá-la carinhosamente do travesseiro e revela seu rosto vermelho e molhado. É quando ela consegue falar:

- Ele pulou...

- De onde!? De um prédio!?

Cida faz que sim com a cabeça e abraça a mãe, em lágrimas.

- Calma, filha... Isso acontece. Ele devia ser uma pessoa perturbada mesmo.

“Era um idiota, isso sim!”

- Tem gente que não aguenta essa pressão toda perto do vestibular. Mas não vai acontecer com mais ninguém. Seus colegas vão superar isso.

“E eu com isso!? Por que o Henrique pulou!? Ele não tinha o direito de se matar! Eu gostava dele...”

-- Cárlisson Galdino

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