Os Fracos e os Fortes

Piiii! Piiii! Piiii!

O micro-ondas avisa da comida pronta e ele entra na cozinha apressado. Ali no canto um cão bassê levanta a cabeça de onde estava deitado. Observa com vaga curiosidade enquanto Wagner tira a lasanha e a coloca na mesa de vidro.

- Hmmm... Parece ótima! Quer um pouco, Witch?

O pobre animal ergue a cabeça ao ouvir o próprio nome. Levanta-se e caminha sonolento, com suas patas curtas.

- Você sabe que não pode comer isso. Boto já sua ração.

Como se entendesse o que seu dono diz, Witch simplesmente se senta e espera pacientemente seu dono terminar de comer. Seus olhos presos pelos sapatos escuros e pelas calças jeans, quase como se estivesse em um transe hipnótico.

Na casa só moram os dois, desde uns anos depois que Wagner se formou e começou a trabalhar. Foi quando se conheceram.

- Vamos comer?!

Logo a ração está ali no prato de plástico. Witch vai lá dar uma olhada naqueles biscoitinhos com gosto de carne enquanto seu dono veste a camisa e vai embora. Como acontece todo dia útil. Por várias horas a casa será só de Witch. Não que ele tenha muito o que fazer com a casa, uma casa pequena. Quase sempre fica por ali na cozinha ou na sala, deitado no tapete. É onde estão seus brinquedos, inclusive. Já tentou tirar cochilos na cama de Wagner, mas descobriu que ele não curte muito a ideia.

Terminada a refeição, hora de arrumar também o que fazer. Ele vai pra sala brincar um pouco e termina pegando no sono.

- Witch! Cadê meu naniquinho?

Despertado pela voz afetuosa do outro lado da porta, o bassê se levanta do tapete e corre até lá pra receber seu amo, latindo feliz.

Já é noite e Wagner entra em casa, fechando a porta da rua. Joga a bolsa preta sobre o sofá e se abaixa pra cumprimentar o amigo.

- Brincou muito hoje, hein rapazinho? Que bom! Vamos lá, deixa eu tomar banho que mais tarde a gente vai ver um filme maneiro! Jurassic Park, olha só! Né bacana? Você tem medo de dinossauro?

Se pudesse falar, o pobre animal perguntaria “e o que droga é isso?”.

Depois do banho ainda houve mais comida, só para Wagner dessa vez. E além disso, o jornal. Notícias sobre um tornado nos Estados Unidos, sobre dólar e futebol. Nada que interessasse aos dois ali sentados. Witch descansando a cabeça sobre o colo de Wagner.

Vem novelas, vão novelas. O filme chega e se vai. Então começa o noticiário da madrugada, é quando Wagner acorda.

- Caramba! Já? Poxa, Witch, você nem me acordou? Perdi o filme quase todo! Nem adianta fazer essa carinha: vai pro tapete dormir. Sei que você estava achando bom, mas já tá tarde. Amanhã é dia de trabalho.

Wagner teria que acordar cedo no dia seguinte. Cansado ia dormir, mas não sem ter dado atenção ao pobre Witch. Não sem cumprir suas obrigações de “pai”.

Assim eram os dias. Era como se Wagner não conhecesse quase ninguém. Visitas houveram, mas tão poucas. Ele preferia assim.

Era fim de tarde de um sábado quando os dois voltavam para casa depois de uma boa caminhada.

A porta se abre e Witch dispara pra cozinha pra beber água.

Wagner entra devagar e fecha a porta por dentro. Olha rapidamente para o sofá. Normal.

Segue então para a cozinha para beber água também. Seus olhos continuam procurando alguma coisa pelos cantos. Seu coração bate mais rápido. Sabe que há alguém mais além deles dois pela casa. Não sabe quem exatamente, mas sabe que há. Pode sentir.

Witch olha para ele percebendo que está diferente. Inclina a cabeça com uma interrogação.

Não há resposta. Wagner não está olhando para o cão. Ao invés disso vai até o quarto e acende a luz.

Nada.

Mas é justo nesse momento que ouve algo na porta. Ao se aproximar ainda pode ver um vulto do outro lado, pela janela.

- Quem está aí?

Chega à porta e não há mais ninguém. Seja quem for, se foi. Tudo em paz novamente.

Mais ou menos. Como continuar calmo depois de saber que alguém estava por perto.

Tantas coisas passam por sua cabeça: quem seria? O que faria ali? O que queria exatamente? Como entrou?

- Sabe de uma coisa? Deixa pra lá.

Liga a TV e tenta relaxar um pouco. Logo seu amigo vem pro sofá para lhe fazer companhia.

Triiiim... Triiiim...

Wagner se levanta assustado e acende a luz. Confere no relógio: três e meia da manhã.

- Quem iria me ligar uma hora dessas?

Pensa nos parentes, no trabalho. Raramente ligam, mesmo durante o dia.

Vai cambaleando até o telefone e o coloca no ouvido.

- Alô?

Do outro lado da linha um chiado de televisão dessintonizada.

- Quem está na linha?!

Não há resposta. O chiado oscila um pouco, mas é só.

Witch olha com seu jeito sonolento. O telefone volta ao gancho e Wagner se levanta.

- Isso é hora de ligar pros outros? E pra passar trote, ainda mais?

E se deita e tenta dormir. Não consegue. Lembra-se do vulto que viu mais cedo pela casa. E agora, a ligação.

- O que querem de mim?

Quão cansativo é um dia de trabalho depois de uma noite mal dormida...

Wagner chega em casa exausto e ainda preocupado com a noite anterior.

Chega em casa e é recebido por seu amigo Witch.

- E aí, amigão? Como foi seu dia, hã? Queria uma vida assim como a sua, sabia? Sem preocupações... Sem relatórios pra digitar...

Pelo canto do olho, algo passou lá fora da casa. Wagner pode ver pela janela.

- Só faltava essa de novo!

Ele deixa o cachorro por um tempo e abre a porta. Olha a rua estreita. Não há nada de anormal. Algumas pessoas passam, nenhuma suspeita e nenhuma perto o bastante pra ter sido quem ele viu. Pessoas normais da cidade.

Balançando a cabeça em negação ele volta para dentro e fecha a porta.

- O que você quer negar?

A voz ele ouve. Uma voz grave e ríspida que gela sua espinha. A mão ainda segurando a chave, ainda presa à porta que acabara de fechar. A voz vem das suas costas.

Wagner se vira e encara aquele homem. Um velho de gorro verde musgo e um sobretudo cinza, ambos com aquele aspecto de roupa já muito gasta. Com bigodes brancos, grandes e desarrumados. De pelo menos quinze centímetros! Seus olhos são vazios de expressão. A pele sobre o olho esquerdo quase o fecha totalmente.

- Quem é você!?

- Isso não importa agora.

- O que está fazendo aqui dentro!?

- Vim lhe falar sobre a vida, meu jovem.

O velho se vira de lado e caminha em direção ao sofá. Wagner procura Witch com os olhos e não o encontra. O jovem prossegue.

- Você sabe que tudo na vida tem um propósito. É o que chamam de destino. Os fracos devem cair para que os fortes se levantem. É o ciclo natural da vida. É assim que as coisas são.

A voz do velho, gelada e sinistra, faz uma pausa, como se aguardasse que o morador daquela casa assimilasse aquilo tudo. Então prossegue.

- É o ciclo natural da vida. Os fracos devem cair para que os fortes se levantem. Há muito mal no mundo e eles estão esperando só uma chance para acabarem com os homens de bem.

- O que quer dizer?

- Os fracos devem cair para que os fortes se levantem.

Um barulho na cozinha chama a atenção de Wagner, que olha para ver Witch chegando, abanando o rabo.

Olha para o sofá novamente: o velho não está mais lá.

- Que diabos foi isso? Quem diabo era ele!? Como foi que entrou aqui e sumiu agora?

Ele checa a porta: está aberta.

- Desgraça!

Fecha a porta novamente e desvia do Witch para chegar na cozinha. Senta-se à mesa com a cabeça apoiada nas mãos.

- Que tipo de criatura insana invade a casa das pessoas pra falar um monte de besteiras? Saco!

Olha para Witch, que está apenas olhando para cima assustado.

- Que foi, meu filhinho? Ainda bem que você nem viu aquele velho terrível. Sabe do que mais? A gente vai se mudar daqui. Vamos alugar outra casa. Seria bom um apartamento. Vou procurar um que aceite animais pra gente morar, tá?

O quarto, o banheiro. Não há ninguém. O velho deve ter ido mesmo embora.

Decide ir à sala assistir qualquer coisa que o acalme. Novelas, séries de humor, não importa. Qualquer coisa serve.

O tempo passa diante da TV e seus olhos veem as cenas, seus ouvidos ouvem as conversas, mas sua mente está em outro lugar.

O tempo passa e o sono não vem. Quando termina o filme – que ele nem prestou atenção suficiente pra gravar qual era -, ele se dá conta de que já é madrugada e ainda está ali, diante da TV. Witch está deitado no tapete, já dormindo.

- Vamos lá... Amanhã vejo o que posso fazer. Vou trocar essa fechadura amanhã mesmo.

Desliga a TV. Levanta-se e vai tentar dormir.

Não é fácil, mas finalmente o sono vence.

- Os fracos devem cair para que os fortes se levantem.

- O quê!?

De susto, desperta. Ali está o velho de novo. Diante dele, com sua voz severa e sua expressão sinistra.

- Os fracos devem cair para que os fortes se levantem.

- Quem é você?

- Um amigo.

- Amigo?! Se é amigo me deixa em paz.

- Não posso.

- Por que não?

- Porque a paz é passageira e tudo na vida tem um propósito.

- Como foi que você entrou aqui? Vá embora!

- Não esqueça o que eu te disse.

O velho vira as costas e se afasta, sumindo pelo corredor na escuridão da casa.

Wagner dá um salto rápido da cama, acende a luz e fecha a porta do quarto a chave.

- Que loucura é essa? Tenho que falar com a dona Belle. Não, nem vou trabalhar amanhã pra cuidar disso. Esse velho louco deve ser um morador antigo dessa casa, que tem as chaves e não tem o que fazer da vida. Ao invés de morrer logo resolveu me tirar o juízo.

Ele se senta.

- E o Witch?!

Levantando-se de novo, abre a porta, olhando o corredor com cuidado. Fecha a porta do banheiro e segue para o outro lado até a sala, acendendo todas as luzes da casa pelo caminho.

Witch está ali dormindo, quieto. Wagner se abaixa perto dele e o pega nos braços. O animal acorda e lambe o rosto do dono enquanto ele o leva ao quarto. Coloca-o no chão e fecha a porta a chave.

- Hoje você dorme aqui comigo, Witch. Tem um velho louco por aí e você pode correr risco lá fora.

- Eu estou louco, eu estou louco... É cada uma que a gente ouve!

Wagner abre a porta chegando em casa. Já é noite e ele chega trazendo Witch na coleira.

- Você ouviu isso, Witch? A dona Belle disse que nunca morou nenhum velho aqui e que eu devia estar ficando louco! Como é que pode?

Ao entrar se dá conta de que as luzes da casa estão todas acesas.

- Ah, não. Ele esteve aqui de novo!?

Vai até o sofá e se senta.

- Calma, Wagner... Calma... Deve ter uma explicação. Quando eu levantei de madrugada eu acendi as luzes todas da casa. Devo ter me esquecido de apagá-las pela manhã. Deve ser isso.

Witch corre pro tapete e começa a morder um ossinho de borracha.

- Tá, tudo bem. Deve ser isso. Mas vamos ver. Se o velho não morou aqui antes, quem é ele? Daquela vez que ele tava aqui dentro, como foi que ele entrou? Eu tinha certeza de que tinha visto alguém fora da casa e ele estava dentro. Deve ter se escondido antes disso e eu me atrapalhei, com medo, e... Será que é um fantasma?

Liga a televisão: está passando o jornal local.

- Tá, nunca acreditei nessas besteiras, mas tou começando a ficar com medo. O Jonas! Ele é espírita!

Pega o telefone e liga. O telefone chama, mas ninguém atende.

- Não dá certo morar mais aqui. Amanhã a gente vai sair de novo, Witch. Dessa vez vamos procurar um apartamento pra alugar. Ou uma casa, qualquer coisa! Não aguento mais esse velho no meu pé e...

De repente, as palavras lhe fogem. Wagner olha para a televisão assustado.

Atrás do apresentador está o velho, do mesmo jeito que vira das outras vezes.

- Os fracos devem cair para que os fortes se levantem.

Wagner não consegue se mover diante daquilo. O medo percorre cada célula do seu corpo. Em sua mente formula o que gostaria de dizer: “Para de dizer isso!”, mas não consegue pronunciar qualquer palavra.

- Eu não vou parar, pois você precisa saber.

“Como ele... Quem é?”

Medo puro vai se transformando, e ele finalmente fala com o velho, que está na TV.

- Quem é você!? O que quer de mim? Me deixa em paz!

Witch se assusta com o dono e se levanta, encarando-o espantado.

- Eu sou um bruxo.

- Bruxo!?

- Vim alertar você que o mal está ao seu redor. Há um bruxo disfarçado em sua vida e você precisa conhecer a verdade.

Diante dos seus olhos, Wagner vê seu amigo bassê se transformar. Sua boca solta uma baba verde e seu pelo é vermelho. Seus olhos são de répteis e tem chifres. Como uma criatura tosca e horrenda.

Em pânico, Wagner pega o telefone e joga com toda a força naquela criatura monstruosa. Bate, e de novo.

A criatura grita em desespero, mas ele não para. Não até estar coberto de sangue. A cabeça da criatura destruída, o telefone quebrado. E coberto de sangue.

Na televisão, intervalo comercial. Pela casa uma gargalhada ecoa, na voz do velho.

Wagner treme ao ouvir aquilo. Solta o telefone e vê horrorizado Witch, seu cão dócio bassê, sem vida, com o crânio quebrado e espalhando seu sangue pela sala e tapete. Suas mãos vermelhas de sangue.

A campainha toca.

- Os fracos devem cair para que os fortes se levantem.

A voz do velho parece ter raiva, e Wagner não sabe de onde vem.

- Cala a boca!

- Wagner?

É uma voz de mulher do lado de fora.

- Os fracos devem cair para que os fortes se levantem. Você é forte, Wagner!

- Olha o que você fez!

- Wagner? Abra a porta! É Belle! Vim trocar as fechaduras!

Dona Belle finalmente entra na casa, acompanhada do filho Fred, de dezessete anos. Na, sala, os dois veem Wagner sentado diante do animal morto, chorando e gritando palavras sem sentido.

– Cárlisson Galdino

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