One Shot

Silêncio logo depois da banda Blood and Metal Candles. É a quarta edição do La Temet Ion, evento de metal com um nome estranho. Um nome para parecer exótico e impactante que nada mais é do que “Noite Metal” escrita ao contrário.

BMC foi a quarta banda do show e agora, por volta das três da manhã, o público espera pela grande atração da cidade: a banda de Melodic/Black Metal Shotgun Shells. Uma banda muito querida pelos metaleiros de todo o estado. Uma banda que nasceu do sonho de um jovem chamado Félix Gomes, baixista que preferia ser conhecido como Zombie. Ele e seu irmão JG, o tecladista, praticamente levantaram a banda do zero até transformá-la no que é hoje.

Na plateia, alguns conversam, outros vão comer alguma coisa. A maioria simplesmente espera pela Shotgun Shells, inclusive alguns que não costumam ir a shows de metal. A entrevista na televisão local falando do lançamento do seu primeiro CD despertou curiosidade de alguns jovens de públicos avizinhados. Mas há também os fãs.

Um som de guitarra e uma voz chamam a atenção da plateia, mas não tanta assim. Estão apenas ajustando o som. A banda está toda ali. Pelo menos toda a Shotgun Shells de hoje: Zombie não está mais lá. Zombie não está mais acima da terra. Há quase um ano ele morreu em um acidente de ônibus. Justamente por isso a capa do primeiro álbum da banda traz a foto maquiada e editada do seu irmão JG, como se ele fosse um zumbi e tivesse acabado de levar um tiro na testa. Em diagonal, embaixo, o teclado manchado de sangue. No rodapé, o nome do álbum escrito em letras que lembram algum estêncil agressivo,:quase uma pichação The Reverse Land: When Life is Death.

No palco, o novo baixista Moloch discute alguns detalhes com JG, enquanto Darklord acena para alguém ao longe, talvez perto dos banheiros. Ele é o vocalista. Tyrant se senta diante da bateria e bebe alguma coisa. Parece água. Vodka? Cachaça? É bem mais provável que seja algo do tipo.

No canto do palco está o último integrante. Com olhar de sociopata, ele apenas olha a discussão entre Moloch e JG. Olha e analisa. Zealot é seu nome e seu rosto traz maquiagem de cadáver. Provável homenagem a Zombie e referência ao álbum TRL:WLD.

A essa altura, os que se afastaram já estão de volta. Uma turma no canto ensaia uns gritos de guerra de sua própria tribo, enquanto no palco a Shotgun Shells faz seus últimos ajustes.

Começou!

Que melhor começo do que You're not safe? Esta foi a primeira música que trabalharam. Composta por Zombie, com uma base de guitarra pulsando e o teclado inconstante. Uma música que fala de um suposto ataque de zumbis, um apocalipse zumbi, e mostrando como ninguém está seguro em lugar algum.

Mesmo sendo no final da noite – e talvez por isso mesmo – alguns se animam e vão para a frente apreciar melhor.

Mal termina a música, eles já emendam com outra: The Evil Remains. Essa música densa e mais arrastada, que foi composta por Zealot, e fala de demônios prestes a subir na terra para nos perseguir pela noite quando estamos sem saber para onde ir.

Não poderia ser diferente. A banda está agradando, como previsto. Há alguns que apenas observam de longe. Especialmente os que não costumam ir a shows de metal e vieram por curiosidade.

A música para. Zealot executa um tema frenético e todos vibram. O teclado complementa e logo a banda inteira entra, de forma perfeitamente encaixada, na música One Shot. A música fala de um irmão que matou a irmã depois de uma longa e macabra história. É uma música um tanto longa e tem seus momentos de pausa, para retomar com animação.

Como a You're not safe, esta é uma música muito conhecida. Alguns até arriscam acompanhar o vocal gutural de Darklord. A plateia simplesmente vibra. Batem cabeça e se empurram na paz.

Mas não é na paz que um deles se aproxima no palco no exato momento de pausa no vocal de Darklord para o solo de Zealot.

Esse fã – ou seja lá o que for – coloca um pé no palco e aponta um revólver para Zealot, que não para de tocar enquanto o encara, esperando o desenrolar da cena. Darklord vê o sujeito e recoloca o microfone no pedestal para se aproximar do fã. Ele ergue a mão e parte para segurar o graço do maluco e impedir que faça alguma besteira.

Mas tudo acontece muito rápido e a besteira que podia ser feita não é impedida.

Um disparo que todos notam, mais visualmente do que auditivamente, e Zealot é jogado para trás.

O slow motion termina com um soco violento na cara do fã, que larga a arma e cai do palco de costas. O palco não era muito alto. As pessoas se aproximam para ver o que aconteceu, como está Zealot.

De repente a guitarra grita e todos levam um susto. Zealot se levanta e continua tocando de onde parou. Com olhar mais vivo e trazendo como única diferença uma mancha discreta arrocheada na testa, em meio à maquiagem de zumbi que já trazia.

Alguns gritam quando o veem de pé, então logo tudo vira uma grande festa, mesmo que ninguém entenda exatamente o que aconteceu. Era uma jogada de marketing o zumbi levar um tiro do mesmo jeito que na capa do CD? Darklord chegou a tempo e conseguiu por pouco desviar a mão do meliante milésimos de segundo antes do disparo? A plateia não sabe. Eles simplesmente aproveitam o show.

Pouco depois vem os seguranças do evento levar o agressor, já desacordado e pisoteado. Está desacordado por hoje ou desacordado pra sempre? Ninguém sabe.

Zealot foi mesmo atingido ou não? Ele próprio é o único que sabe. E sorri enquanto destila solos com sua guitarra com mais energia do que antes. Uma energia que, com o tempo traria efeitos colaterais. Mas ele não quer saber. Não agora. Só depois é que essa energia toda demoraria alguns dias para deixá-lo até mesmo dormir.

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