O Primeiro Golpe

Este conto eu escrevi para publicar no Informtivo deste ano da ACALA, distribuído durante a solenidade de aniversário.


- O segredo de um grande guerreiro é a espada embainhada.

- O que quer dizer? Não se deve mais lutar depois de tirá-la? Não há mais como vencer?

- Claro que há como vencer. Sempre há. Mas o caminho para a vitória depois que a espada é desembainhada é diferente, exige disputa de forças.

- Ainda não entendi, mestre.

- Um dia há de entender... Por enquanto, apenas guarde isso em seu coração: não desembainha a espada até o momento exato de usá-la.

Aquelas palavras ecoavam em sua mente enquanto ele observava o horizonte.

Totalmente deserto. Ele e os outros soldados de sua nação à espera dos invasores anunciados. A ansiedade afeta a todos e ele lamenta seu mestre não estar por perto para dar força.

De repente um barulho, ainda distante... E uma nuvem de poeira se vê no horizonte. São os inimigos se aproximando. Ele se põe de pé com ar tranquilo, tentando esconder sua própria ansiedade nesta perigosa estréia no mundo bélico. Claro que no fundo não faria muita diferença, já que não é facultado aos soldados o direito de decidir se uma guerra é ou não justa, mas esta guerra era. Os inimigos vinham tomar suas terras. Pelo menos é o que disseram. De qualquer forma, não havia de ser algo muito distante disso, já que os inimigos é que vinham e não eles que iriam.

Logo eles chegam.

Seu corpo dança, desviando dos golpes inimigos e os derrubando rapidamente. Com os braços, com a espada, ainda na bainha, sendo utilizada como bastão... Seus olhos fixam um guerreiro forte a cinquenta metros. Já vários de seus aliados caíram diante dele. E ele abre caminho, desviando dos golpes e derrubando oponentes.

O bravo inimigo joga mais um corpo no chão, tirando a própria espada do tronco do derrotado, quando o aluno chega diante dele e o encara.

Por pouco tempo os dois se olham, em análise mútua.

“37 derrotados e não usei minha espada. Meu mestre ficaria orgulhoso.”

A luta com a espada embainhada é diferente da luta com a espada em punho. Ele sabe como o oponente luta, mas sua própria espada ainda não foi usada. Ele sorri e o oponente percebe a razão.

O oponente salta com a espada descendo sobre o ousado guerreiro, mas encontra apenas o chão. E antes que sinta a raiva do golpe perdido, dói-lhe a barriga. Olha para baixo e vê sangue. Seu próprio sangue.

O forte oponente cai e a guerra prossegue. O jovem aproveita o primeiro momento para reembainhar sua espada e seguir em frente.

Não se trata de os outros não serem dignos de morrerem por sua espada. Hoje, que viveu na pele o que seu mestre dizia, é que ele percebe a razão daquelas palavras. Ao lutar sem mostrar as armas, a técnica é de esquiva, há mais concentração e se foca o todo. A técnica de manejo da espada não se mostra e os oponentes mais perigosos só a conhecerão quando o confrontarem eles próprios.

É como o efeito da primeira impressão. Dizem que o olhar de um lobo é capaz de congelar sua presa. Ao perceber que está sendo olhado, como não ter certeza de que perdeu totalmente o controle da situação? O controle está com quem olhou primeiro. Esta foi a grande lição de seu mestre. Esconder a técnica principal era a forma de garantir que estaria livre do olhar congelante do lobo. E seria o lobo ele próprio. Afinal, um bom jogador sabe guardar suas melhores cartas.

Avalie: 
No votes yet

Comentar