A Longa Caverna

- Nossa, estou sem ar!

- Agüenta um pouco mais! Só mais um pouco e chegaremos!

Den e Joe caminham por cavernas tortuosas e escuras. Sinistras cavernas repletas de frio e de falta de ar.

- Não vou agüentar...

- Vamos. Você consegue. Falta pouco.

- Ainda nem sei porque estamos aqui.

- Ora, você não queria conhecer a verdade tanto quanto eu?

- É, mas a gente não precisava ter entrado nessa caverna e caminhado tanto...

- Precisava. Você mesmo ouviu o zé xamã de capuz.

- Que idéia estúpida...

- Não reclame. Se a gente morrer aqui, já teremos visto muitas coisas nessa longa semana.

- Claro, muito bom! Um lago dentro da caverna com água salgada.

- Não estava tão salgada assim.

- Como não? E o que mais... Morcegos, cogumelos...

- Você não viu mesmo aquilo?

- Não existe esse doende, anão, alienígena ou sei lá o que você diz que viu. Está bem, vamos indo.

- É uma pena que não tenha visto...

- A gente devia ter voltado naquele ponto, não ter forçado o corpo pra se espremer entre pedras. Não sei onde estava com a cabeça pra topar uma loucura dessas.

As lanternas já se apagaram há dias e tudo o que restou foi o frio e a escuridão. De vez em quando eles ligam a calculadora que trouxeram por acidente. O led vermelho é uma piada, mas longe de acharem graça, seus olhos já acostumados com o escuro utilizam seu brilho sutil para identificar formas alguns centímetros à frente.

- Sabe o que faz falta aqui?

- O quê, Joe?

- Televisão.

- Você é mesmo engraçado...

- Por quê?

- Numa aventura dessas, passando por tanta coisa emocionante e se lembrar justo da televisão...

- Como aventura? A gente tá é numa fria, isso sim! Um maldito programa de índio!

- Sei...

- Quero ver se a gente não achar mais comida...

- Ainda tenho Lembas aqui.

- Lembas... Você tem mesmo senso de humor...

- Péra lá... Olha ali. Não está vendo uma luz?

- É... Será que morremos?

- Você está louco?

- Não, estava brincando.

- Ah, tá. Onde será que vamos sair?

- E eu é que sei!? Por mim, saindo desse buraco já está bom demais!

- Está vendo só? Você sem conseguir respirar... É só a gente se distrair um pouco que nem percebe.

- Obri... ga... do por... lembrar...

É grande a ansiedade em cada passo, se bem que não sei se podemos chamar de passo essa forma de deslocamento deles pela caverna. Machucados, eles vão rumo à luz que cada vez se torna mais forte, até que chegam a um espaço maior na caverna, onde podem ficar de pé e onde a luz chega.

- Nós...

Não dá mais pra falar. A coisa pra ar aqui está realmente feia. Mas eles iam dizer que já é de noite e dá pra ver o céu escuro com algumas estrelas brilhando tão forte... Claro que acham o brilho forte, depois de uma semana no escuro, né?

A saída é lá pra cima, lá vão eles ter que escalar. Ou melhor, lá vai Den escalar, já que o Joe nem tem mais fôlego pra nada. Vai e leva uma corda.

Com muito sacrifício sobe, degrau após degrau. Se bem que o conceito de degrau que as pedras têm é um tanto, digamos, problemático...

Enfim, Den chega à abertura. É pequena demais e falta ar lá fora. Estranho como Den chega a ficar tonto com o esforço, mas é agora ou nunca: ele tem que sair.

E sai. Não dá pra ver nada a não ser uma dança de branco e preto, talvez fruto da tontura com o costume da visão ao escuro. Den se senta perto da abertura e gesticula pela fenda na esperança de que Joe entenda que precisa esperar um pouco.

Recomposta um mínimo, a vista de Den começa a mostrar as manchas. Uma círculo enorme ali na frente lhe traz a idéia de disco voador e lhe faz lembrar o ser esquisito que viu nessas cavernas. E viu mais de uma vez, só Joe não viu nada. Seria alienígena? Esse círculo borrado que começa a se formar na sua retina deve ser o disco voador da criatura.

Como queria poder gritar para o Joe que tem um disco voador aqui em cima... Mas falta fôlego, falta ar.

Den se encosta em qualquer coisa de pedra ou areia e fica fitando o disco ao longe. A imagem vai se tornando mais nítida aos poucos... O disco é azul e branco, meio mesclado... Ele decide esperar um pouco antes de tentar puxar Joe para cima. Claro que não teria força para tanto e de nada adianta tentar recuperar fôlego agora, mas ele lá sabia disso?

A visão vai ficando mais clara e Den se desencosta de onde estava - saltaria e gritaria se tivesse fôlego para isso. Mas falta ar. Talvez ele nem gritasse, talvez faltassem palavras. O maldito círculo é a Terra...

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