A Linguagem Perfeita

Era uma vez uma empresa de criação de software. Ela ficava no bairro comercial da cidade e se chamava TMLM, pois seus donos eram o Tiago, o Miguel, o Leonardo e a Mariana. Todos viviam em correria, programando em seu Miroloft Visual Starter não licenciado.

Na outra rua havia uma outra empresa, que se chamava Front-Begin. Não devido aos nomes dos seus donos, que eram o Jacinto e o Alberto, mas por brincadeira mesmo. Hoje em dia as brincadeiras eram poucas, pois tinham que correr pra manter funcionando o programa de loja em seus clientes. Passavam os seus dias diante de seu Delffus não licenciado. Tinham até contratado uma estagiária chamada Fernanda para cuidar da documentação.

De vez em quando havia um encontro na cidade para comerciários, e lá iam as duas empresas levar seus estandes.

Tiago e Leonardo haviam estudado com Alberto e costumavam conversar um pouco. Miguel e Mariana não gostavam disso, e o Jacinto também não. Mas deixavam que conversassem.

A discussão era comum: cada lado dizia que a ferramenta de programação que usava era a melhor que tinha no mercado. Claro, nenhum conhecia a fundo a ferramenta da empresa concorrente, mas não importava. A informação que tivera até ali era suficiente para que eles garantissem, cada um, que sua própria ferramenta era a melhor.

Nenhuma era licenciada, era verdade. Mariana e Leonardo planejavam adquirir o Visual Starter dentro de 2 anos. Dois anos são muito tempo, mas mesmo assim Tiago temia o investimento. Jacinto e Alberto pouco pensavam a respeito da versão licenciada do Delffus: quase não tinham tempo pra pensar em nada.

E assim seguiam as duas empresas do bairro. Concorrentes e rivais, sempre discutindo, nos eventos, qual a ferramenta melhor.


Mas um dia a Mariana acabou achando na Internet um texto que falava de uma ferramenta nova. E uma linguagem nova. Ela achou seu nome bonito, e também gostou de ela ser patrocinada por uma grande empresa já conhecida. Seu nome era Jaca.

Contou para os outros três. Tiago achou interessante, mas nenhum dos outros dois deu valor. Mesmo assim, Tiago estudou pelos meses seguintes. E achava interessante a rebuscada sintaxe cheia de normas: aquilo lhe parecia bonito.

Não demorou e no encontro seguinte o Leonardo contou pro Alberto: "Rapaz, tem um negócio novo por aí... Sei não como é direito, o Tiago é que tá estudando. Parece que é Jaca". Alberto se mostrou interessado, pois já havia visto esse nome algumas vezes não lembrava onde. Como estava ensinando como professor substituto na universidade onde se formou, aproveitou pra falar com o professor André, mais experiente que ele.

André lhe falou: "Sim, Jaca é muito bom! Eu dou aula de modelagem de dados e Jaca é muito boa pra gente fazer o que definiu em uns diagramas. Já propuz pra coordenação que a gente adotasse essa linguagem ano que vem em Programação 1, assim a gente forma melhor os alunos com essas coisas de diagramas e análise de sistemas, o que é muito bom!". Alberto se espantou e começou a estudar a fundo a linguagem, fazendo cursos e comprando livros.


Meses depois, Alberto tinha feito um sistema de locadora em Jaca para mostrar pro Jacinto e pra Fernanda. Já havia lhes mostrado diversas revistas de Jaca que sempre mostravam como Jaca era bem melhor que Delffus e bem melhor que Visual Starter. Eles gostaram da idéia e decidiram que em 6 meses só usariam o Delffus pra manter os sistemas antigos.

Alberto não via a hora do próximo evento pra dizer pro Leonardo e pro Tiago que nenhuma das duas ferramentas era boa, o bom mesmo era Jaca. Qual não foi sua surpresa quando descobriu que eles também estavam mudando? Sim, "porque Jaca é mais robusta e roda em Linux também!".

E finalmente as duas empresas falaram a mesma língua. E Alberto pensou: "Nossa, agora sim! Estamos usando a melhor ferramenta do mundo!"

Mas além de seu bairro, existiam outros bairros. E além das revistas de Jaca, outras revistas. Mas tudo isso era muito para passar perto da vida dos sete...

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