Equilíbrio Elétrico

"Sempre há uma saída."

"Não, nem sempre..."

"Sempre há uma segunda porta e, quando não, há um jeito de ser feita."

"Não concordo com você."

Este era o início de um diálogo em um bar do Brasil. Em uma pequena cidade de um Brasil tão grande. É um diálogo que tem sempre o mesmo início. Dois amigos fardados, um assunto, todos os dias. Abraão é o nome do otimista. Filho de cristãos, acabou deixando de seguir a carreira sacerdotal, sonho antigo de seus pais, para fazer parte da PM. O outro, que vê o homem como um limitado, chama-se Achlen. Abraão recebeu seu nome da Bíblia, através de seus pais. Achlen, só Deus sabe onde seus pais encontraram esse nome... Mas, de qualquer modo, os dois são os primeiros do distrito. ...quando analisados em ordem alfabética.

- ...E se o nosso chefe tivesse fora da linha, o que você faria? Se você achasse certo ele pagar ia dizer a quem? Não ia ter jeito, você tinha que ficar calado.

Mais uma situação descrita por Achlen. Mais uma de suas suposições para tentar provar que nem sempre há uma saída. Tentativas que se passam no mesmo bar. Tentativas que sempre falharam. E hoje não seria diferente.

- Eu faria justiça.

- Você é louco? E depois ser caçado pela polícia e pelos criminosos? Você é louco!

- Eu encontraria uma saída.

- Tá. Não me diga que você acha que conseguiria escapar dos tiras do Brasil inteiro...

- Eu tentaria e, possivelmente, conseguiria.

- Tá. Vamos supor que você conseguisse escapar da polícia e se esconder numa casa, mas eles encontrassem e a cercassem. O que você faria? Mataria todo mundo?

- Não, não seria certo, eu...

- Vai me dizer que você ia escapar; e sem matar ninguém!?! Ah! Essa foi boa...

- Escuta, eu poderia...

O construtivo diálogo é interrompido pelo chamado do rádio. Para ambos só significa uma coisa: trabalho. Embora, assim como pensam diferente sobre saídas, também tenham noções contrárias de trabalho.

- Merda! Logo agora! - diz Achlen. - Daqui a pouco a gente vai.

- Nada disso, vamos partindo. - reponde Abraão, levantando-se. - Se o chamado fosse para daqui a pouco eles não o fariam agora. Afinal, se não quer trabalhar, por que não se demite?

- Não tem jeito de encontrar emprego hoje em dia. Se eu deixo esse, vou viver de quê?

- Está certo. - fala Abraão, com um leve sorriso pela fraqueza ou negativismo do parceiro. Entra na viatura e fecha a porta, mas Achlen, ainda no bar, parece indisposto.

Abraão engata a ré e acelera. O carro sai do estacionamento do bar, ficando na rua pronto para a partida.

- Ei! - grita Achlen. Com certo esforço, ele consegue alcançar o carro; e entra. - Você não ia me deixar lá, ia?

- Não sei... Quem sabe?

Eles vão embora e deixam no bar apenas o barulho da TV mal-sintonizada, e o homem-do-balcão. "Esses dois... Parecem duas crianças brincando de santo e capeta..."

A missão era a rotina. Era algo muito normal na vida de um soldado da lei. Um simples caso de homem armado com reféns, querendo fugir. Quando chegaram, o bandido já havia sido pego, e os dois reclamavam. Abraão reclamava do atraso do parceiro, enquanto Achlen dizia que tinha vindo sem precisão, que devia estar acabando o lanche.

Eles eram os melhores amigos, um do outro, mesmo tão diferentes. Abraão era casado e tinha dois filhos, um casal de gêmeos, e ia ao clube todo fim de semana. Achlen era solteiro, sozinho e só saia de casa aos domingos quando era vencido pelo convite do amigo. Abraão sempre liderava a ação da dupla, e Achlen parecia desnorteado, como se houvesse nascido no planeta errado.

Certo dia a viatura capotou durante uma perseguição. Achlen estava com cinto, Abraão não. Ambos sobreviveram, e o médico repetia até cansar que Abraão se salvara por milagre.

Os dias foram passando e as dores da derrota apertavam e, quando Abraão já não era o homem confiante de sempre e Achlen começava a acreditar em milagres, foram pegos em um acidente de trem. E ainda hoje discutem às portas do céu se tentam voltar ou tiram férias ao lado de São Pedro...

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