Asas de Libélula

Special: 

"A vida não tem mais sentido. Não que um dia tivesse, mas... Por que eu sobrevivi?!"

Num despenhadeiro, no alto e no frio, uma menina lamenta a sorte. É Arielli, sentada à beira do precipício. Braços e pernas machucados e olhos ressecados de tanto chorar. Sua figura de dezoito anos com jeito de quem ainda tem menos de dez, de roupas tão maltratadas quanto ela própria, é a única coisa que se vê por quilômetros nesse entardecer.

Sua família fazia turismo. Seu ônibus simplesmente caiu e se prendeu em algum lugar. Muitos feridos, poucos mortos. Mas o tempo tratou de levar pessoas do primeiro para o segundo grupo. Todos foram deixando este mundo. Todos menos Arielli.

Seus pais, seus amigos, seus sonhos... Tudo acabou e Arielli está sozinha, sentada à beira do abismo.

"Por quê, droga! Estou aqui há dias e não passa ninguém! E eu não morro!"

É claro que a Fome vem, mas mesmo ela desistiu de dar muita atenção a Arielli. A essa altura, apenas passa vez por outra como quem não quer nada, apenas para lembrar que ela ainda existe.

Há dias Arielli está aqui. Seu rosto não nega. Tão alto, tão só, tão triste... Sábios foram os deuses, que não lhe deram lágrimas suficientes para sua dor. Fosse assim, talvez Arielli precisasse subir ainda mais a montanha para não se afogar nelas.

E pensar que tudo o que Arielli um dia quis foi uma casa bonita, um marido carinhoso e filhos. Sonhava ter dois: um menino e uma menina. O menino se chamaria Odeon e a menina, Artemis.

Claro, Arielli também sonhava com coisas mais imediatas. Um colar de ouro, um vestido verde-claro e prateado, um sapato prateado com salto e mais algumas coisas, todas do shopping perto de sua casa. Quer dizer, da casa de seus pais... Seus pais...

Mas de que vale sonhar agora? Tudo acabou para Arielli. Já fazem alguns dias que ela se deu conta de que seus sonhos também morreram de fome no ônibus. Só Arielli não morre.

Suas duas metades discutiram muito esses dias. Ari dizia que nada mais faz sentido. Elli questionava porque sobrevivera, que alguma razão haveria de ter. E assim, enquanto as duas metades discutiam, Arielli foi subindo e subindo a montanha. Hoje até Elli se calou sem muitas esperanças de um futuro. Ari sabe que venceu e espera só o momento.

O céu vermelho, em despedida ao Sol. Quantas vezes Arielli viu esse céu assim depois desse triste acidente?

Que esta seja a última: Arielli se levanta.

- Mãe, pai...

De pé, à beira do precipício, "estou indo ver vocês" é tudo o que diria logo antes de pular, mas não pulou.

Diante de Arielli, uma mulher voando. Uma mulher, um anjo, uma fada ou algo assim. De rosto sério, mas de olhar compreensivo. Com cabelos brancos e longos. Não brancos de idade, já que ela parecia tão jovem quanto Arielli. Uma mulher sustentada por asas. Asas de libélula. E ela não tinha pupilas em seus olhos brancos.

Quanta coisa passa na cabeça de Arielli, de pé à beira do precipício, a dois metros dessa estranha? Esse estranho anjo-fada que lhe encara com um ar frio, mas que não esconde uma certa bondade. A expressão de Arielli congelada num espanto inocente não diz tudo o que lhe passa nessa hora. Seria um anjo? Uma fada? Uma miragem? E o que está fazendo ali diante dela? O que lhe traz? O que lhe pede?

Impacientes com a espera, para o espanto de Arielli e da estranha, suas pernas fraquejam e Arielli se inclina para a frente. Agitando os braços, vê a boca da estranha se entreabrir em surpresa. E Arielli cai. Cai...

Arielli vê o chão lá longe enquanto seu corpo gira em queda. Vê a estranha lá em cima no mesmo lugar e... Cai sentada em algo macio. Deita-se para recuperar as forças, e dorme.

- Arielli?

"Quê?! Que voz linda! Será um príncipe encantado?"

- Sou apenas um amigo, Arielli.

As lembranças vêm menos fortes. O vento bate em seu corpo deitado. Deitado com as pernas penduradas. Um barulho de ventilador...

- Está frio. Desliga o ventilador!

- Do que está falando, Arielli?

Arielli finalmente abre os olhos e se senta.

- Estamos voando.

Adiante, uma Lua imensa e divina. E Arielli, ainda mais alto que antes, segue nas costas de uma libélula gigante.

- Quem é você?

- Como eu disse, Arielli, um amigo. Você não está destinada à tristeza. Vim te mostrar o mundo. Vamos perseguir alguns sonhos?

E Arielli some no horizonte em direção à Lua nas costas de uma grande libélula verde-clara de asas e olhos prateados, enquanto à mesma Lua, próximo àquele velho penhasco, aquela estranha mulher dança flutuando no ar, a um som ritmado de palmas e batidas de asas. Dança como se fosse a dona da noite, como uma deusa em um dia de bom humor. Com um sorriso leve em seu rosto frio. Dança como uma deusa feliz.

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