filosofia

Qual a sua anestesia?

Hoje todos nós vivemos sob controle, escravos de um sistema terrível. Um sistema que gira em torno de lucros cada vez maiores e que nos obriga cada vez mais a participar de uma corrida desenfreada por nada. Custo de vida aumentando cada vez mais. Pessoas que sempre viveram da natureza veem suas terras sendo destruídas e se veem obrigados a trabalhar em indústrias. Leis cada vez mais rígidas para manter lucros de grandes empresas e cada vez menos eficazes para o bem estar social.

Quem governa o mundo não é o Legislativo, nem o Executivo, nem o Judiciário: é o Lucro.

Nada disso é novidade e nada disso é facilmente contornável. Nada bom. Como confrontar poderes econômicos? Que outros poderes podem ser fortes o bastante e ainda não foram corrompidos pelo poder? Séculos atrás o controle era feito pela Religião. Hoje, quando a Religião não é tão eficaz assim, o controle é feito pela fé no Lucro.

Mergulhar nesse mundo nos traz cada vez mais revelações terríveis. Que seria possível acabar a Fome no mundo se “eles” quisessem. Que 1% da população mundial detinha 40% de todos os recursos do mundo. Que 11 de setembro foi uma farsa. Que os governos não são democráticos: são executores a serviço de quem tem o “verdadeiro poder que move o mundo”.

Por isso há tantas formas de alienação:

  • Religiões alienantes têm se expandido assustadoramente nas últimas décadas, e giram em torno de Dinheiro

  • Profissões exigem cada vez mais especialização e a cada passo em uma especialização temos forte chance de perder a percepção do todo. Além disso, as exigências do mercado roubam nosso tempo e nos impedem de pensar, exigindo foco em nossas carreiras.

  • Livros são substituídos por filmes

  • A Televisão se torna o novo Livro Sagrado dessa religião monetária. Pessoas não pensam nem leem, simplesmente aceitam o que veem no quadro mágico.

  • Consumo e comércio de drogas crescem assustadoramente mundo afora e os governos não parecem muito interessados em combater isso.

  • A Indústria do Entretenimento cresce cada vez mais. Jogos eletrônicos pela Internet, nos celulares...

Quantos já falaram sobre isso? Quantas pistas? Matrix, por exemplo, foi das mais explícitas, mas as pessoas não conseguem mais enxergar nada além de efeitos especiais. Nada além de sombras. Estamos caindo em um abismo, numa viagem irreversível.

Ver os males do mundo e perceber todas essas coisas fere os nossos olhos. Qual a sua anestesia?

P. S.: Imagem do post: Xeringues, de rofi

Special: 

Palito Amigo de Freud

Palito Amigo de Freud

O meu nome não importa
Pois me chamam de Palito
Essa terrinha danada
Desde que eu nasci habito
Sou surfista dessa praia
Surfo até que a noite caia
Nesse pôr de Sol bonito

Tá ligado na parada
Lá da praia do Francês?
Você anda assim de jipe
Mais duas horas ou três
Com a praia acompanhando
E vai terminar achando
A praia do Pequinês

Perto da velha cidade
Chamada Nova Nemeia
Não está em nenhum mapa
Pode esquecer essa ideia
Tou falando, eu sou daqui!
Na praia eu sempre vivi
É uma praia bem véia

Sou surfista de pequeno
Não sei se cê tá ligado
Mas a praia é frequentada
Tenho um monte de chegado
Que nas ondas se exercita
Que você não acredita
É um povo procurado!

Aqui não tem telefone
A gente fala na cara
Carta só pra quem tá longe
Linha mesmo só na vara
Da turma que vai pescar
Mas é show esse lugar
E tem uma turma mara

Mas vou confessar um troço
Eu me amarro nisso aqui
A praia do Pequinês
É o canto onde eu nasci
Às vezes lá por abril
É que me dá um vazio
Dá vontade de partir

Nessa vida de interior
Na parada da Natura
A gente se sente náufrago
Longe da verdade dura
Desse povo do dinheiro
Que esmaga o mundo inteiro
Na ganância, na secura

Claro que é melhor estar longe
Desse comboio de esperto
Longe chegam as consequências
Imagina estando perto!
Por isso que eu saio pouco
Gosto daqui, não sou louco
Mesmo quando está deserto

Quando a praia tá sem gente
E vem as ondas chegando
Elas vem de muito longe
Há tempo que estão andando
Então surfo mais ainda
Para dar as boas vindas
Pras águas que andam em bando

Mas pra falar a verdade
Quase nunca eu tou sozinho
Tou sempre trocando ideia
C'os cabeças, meus vizinhos
E sempre na molecada
Tem um que é mais camarada
Vou falar dele um pouquinho

Ele é mais velho que eu
Tá ligado? Mas é broth'
Sempre tem uns zé roelas
Que dizem que é debiloide
Não entendem o que ele fala...
Ele é gente fina, cara
O nome do bicho é Freud

Passa a semana falando
O povo vem pegar ideia
E ele vive é só disso
Num ponto em Nova Nemeia
Pagam uma fortuna imensa
Só porque o povo não pensa
As cabeças de geleia!

Freud até me convidou
Pra ajudar lá na cidade
Atendendo alguns clientes
Mas não dá, pô, de verdade
Só dele contar dos casos
Dá agonia o nível raso
Eu digo: eu não, amizade!

"Atender essa galera
Resolvendo seus problemas
É pra quem é paciente
Eu não dou pra esse esquema
Prefiro falar com mar
E a turma desse lugar
Não me encaixo no sistema"

Mas Freud é mesmo o cara
Paciência tem de sobra
Diz que está tendo umas ideias
Vai escrever uma obra
Mas se vem surfar com a gente
Fica zen, e a sua mente
Só se liga nas manobras

Ele tá com umas pesquisas
Pra entender nossa mente
Dividindo o indivíduo
Em três partes diferentes
E escreve, pra publicar
Já disse: se for lançar
Tem que convidar a gente!

Diz ele que todo mundo
Tem no centro do seu ser
Uma peça que é essência
Que ele chama de ID
Voz do desejo imediato
Como um bicho do mato
Que quer se satisfazer

Por viver em sociedade
Que se aprende o que é certo
Essa parada todinha
Fica no tal superego
Ele conflita com o ID
Pro conflito resolver
É que existe o tal de ego

Ego guarda as lembranças
Da vida de um vivente
Aprendizado, experiência
O Freud diz simplesmente:
"O ego é a camisa
Que esconde a cara lisa
Pra se expor a toda gente!"

Eu nem falei para ele
Mas tenho uma impressão
Que o brother bolou a história
Quando eu falei de Platão
Que também na sua vez
Dividiu a mente em três:
Homem, monstro e leão

Ele diz que na cidade
Numa zona como aquela
Ele diz que o problema
Quase sempre se revela
Por um ego já cansado
Que já ficou dominado
Lá na sua clientela

Quase sempre o problema
Que ele estuda no final
Tem a ver alguma coisa
Com o lado sexual
Superego e ID são brabos
É o tema mais complicado
Pro ego julgar legal

Pois é, véio, cê vai ver
Freud é um cara da hora
As paradas que ele estuda
Manda bem, e vai embora
Sei que vai ficar famoso
Pois essa vida é um osso
Pra tanta gente lá fora!

E agora cê dá licença
Que o Sol já está deitando
Vou ali na saideira
Da onda que vem chegando
Um abraço do Palito
Desse galego bonito
Até outro dia, mano

-- Cárlisson Galdino

Special: 

As pessoas não querem produtos

Ano passado participei do I ESLAPE, Encontro de Software Livre do Agreste Pernambucano. Organizado por Marcelo Santana, o evento foi muito bom, apesar de alguns contratempos.

É comum haver contratempos. Nós planejamos o evento com atenção a todos os detalhes e no dia simplesmente algumas coisas terminam dando errado. É gente da equipe que adoece, são parceiros que não cumprem acordos (por esquecimento ou desleixo). Nós que já organizamos eventos (apesar de menores) sabemos bem como é. O que importa é que no final o evento foi muito bom e pretendo ir para uma eventual edição 2012.

Mas o que quero comentar aqui é sobre parte da palestra do Maddog Hall, diretor executivo da Linux International, o braço direito de Linus Torvalds.

Tive de voltar para casa logo depois da palestra por conta de um compromisso no dia seguinte, durante o dia. Por conta disso terminei não podendo acompanhar a palestra inteira, só um pedaço mesmo.

Uma parte que me lembro claramente e achei muito interessante, entretanto, diz respeito ao mundo atual, ao capitalismo, à indústria e o consumo, não estando preso ao "Linux" ou ao Software Livre. Ele disse que as pessoas não querem produtos, elas querem serviços.

Pode parecer estranho, mas se analisar bem isso é verdade. Há produtos que marcam e há pessoas que são fãs de certos produtos ou de certas tecnologias. Esses querem realmente os produtos. A maioria da população, porém, não é assim.

As pessoas não compram um carro porque querem ter o produto. O que elas querem ter é transporte de qualidade no momento em que for preciso. Isso se estende a muitas outras áreas e serve como base para justificar a importância cada vez maior da Computação nas Nuvens.

Pense bem: qual a vantagem de pensarmos em produtos, especialmente hoje num dia a dia de obsolecência programada e extrema? Claro: o fator econômico. Por isso faz mais sentido comprar um carro do que contratar serviço de uma empresa.

Outra coisa interessante que ele falou foi sobre commodities. Ele disse que a indústria tem usado o termo commodity de maneira inapropriada. Arroz é commodity, mas carro não é. Quando se vai comprar arroz, você não sabe dizer com clareza a diferença entre um produto e outro. Na prática, você termina levando em conta fatores como preço e afinidade com fabricante. Quando vai comprar um automóvel, você tem muitas características para avaliar: conforto, consumo, manutenbilidade, além do preço. Em sua visão, pra resumir, um commodity não é só um tipo de produto muito popular, mas um produto que não sabemos tanto a diferença entre os modelos no mercado. Você pode dizer para alguém "compre arroz para mim" e não se importar com a marca, mas dificilmente vai dizer para alguém "eu preciso de um carro: compre um pra mim".

É isso. Só umas ideias interessantes que vi na palestra e gostaria de compartilhar aqui com vocês. Apesar de ter levado um bom tempo para isso, finalmente aqui estão.

Special: 

Cavalaria Maldita

De tempos em tempos, certas idéias e ideais costumam reunir em torno de si pequenos grupos. Esses grupos defensores desses ideais costumam sofrer preconceito da maioria da população, simplesmente por não conhecerem como funciona. Ou simplesmente encontram dificuldade para promover as mudanças que desejam. Então deseja-se divulgar, que esses grupos tenham mais adeptos para assim aumentarem o entendimento do assunto e diminuir o preconceito, e conseguirem ser ouvidos. O problema é que na maioria das vezes o tiro sai pela culatra...

Aconteceu com os Hippies

O Movimento Hippie quebrou paradigmas e trazia todo um conjunto de atitudes. Nao era só falar de "Paz e Amor", era viver isso. Não era só mudar o visual, era mudar a atitude diante do mundo.

Eles chocaram e ganharam os holofotes. O que houve então? Virou moda! Receberam diversos novos "adeptos", mas adeptos modistas, não sinceros. O problema disso é que não eram hippies internamente, só esteticamente.

Mídia, Mídia...

Quando o movimento é restrito a um grupo, há uma "quase garantia implícita" de que os novatos receberão o conteúdo necessário para entender de que se trata o movimento e então decidirem se "é pra eles" ou não. Nada mais natural. Assim, o movimento continua pequeno, mas consistente. Este é o ponto positivo, a consistência. O negativo é que não dá pra fazer uma "transformação social" com um grupo pequeno demais, por isso vem o desejo de expandir os horizontes: o movimento precisa de reforços.

Um certo dia, líderes - ou os mais exaltados, ou até mesmo alguém de fora - terminam chamando a atenção da mídia. Surgem algumas matérias apresentando o movimento e aumenta a curiosidade do público em geral a respeito do tema.

Com a curiosidade, abre-se uma demanda por mais matérias. E passam a ser abordados aspectos menos importantes do movimento, até o ponto de desinformação.

Empolgados com o que viram na TV, um grupo de gente começa a "se auto-iniciar" no movimento. Compra acessórios, roupas, uns CDs, muda o cabelo e pronto! Já se sente parte do movimento. O movimento duplica, triplica, quadriplica, ou até mais, o número de "adeptos", porém com adeptos desse naipe.

É chegada a Cavalaria Maldita.

Por que Maldita?

Ora, por que acha que os primeiros adeptos daquele movimento mudaram tanto a forma de ver o mundo, de agir e se uniram? Isso não sai barato, socialmente falando! Sempre se enfrenta preconceitos da grande população ao integrar um movimento social no início. Todo movimento social traz uma mensagem e um conjunto de valores reivindicados. O principal propósito é o "apelo de valores". A cavalaria que chega não conhecerá esses valores. Pra que vai servir o tal movimento então, sem esses valores?

Por isso, tão logo chegue a Cavalaria Maldita, invariavelmente o movimento decresce e começa a fracassar em seu propósito principal. Os veteranos percebem isso desde o início e começam a se irritar com os novatos. Os novatos, por sua vez, terminam achando que os antigos são "elitistas" e não percebem que o problema está no fato de eles próprios não conhecerem a essência do movimento. O movimento se fragmenta.

A tragédia maior são os "novos líderes", vindos dentre os novatos, que ganham a mídia. E assim a cavalaria toma o lugar da vanguarda, tornando-se a parte mais forte do movimento. Pronto. Está tudo condenado. Quando passar a moda, poucos sobrarão para juntar os cacos e tentar resgatar aquilo que tinham no início...

Alguns Outros Casos

Punks e góticos são visualmente interessantes. Seus estilos são interessantes. Por isso mesmo, e pela exposição que já tiveram na mídia, é comum aparecerem "novatos superficiais" desse tipo, que mudam apenas o visual e já se sentem como parte do grupo. São chamados de "posers".

Outro caso interessante e um tanto recente é a Wicca, uma linha moderna de Bruxaria. Apesar de não ser um Movimento Social e sim uma religião, sofre do mesmo problema. Wicca é uma religião pagã centrada em um Deus e uma Deusa. Muitos novatos "se anexam" à Wicca influenciados por filmes como o Senhor dos Anéis, Harry Potter, ou por desenhos como Witch. Resultado: tem até gente que mistura deuses pagãos com anjos, santos, etc, simplesmente por não perceber que Wicca é uma "religião" e tem seu conjunto de crenças próprio. Pelos excessos no trato visual e pela forma "conto de fadas" de ver o mundo, esses novatos são tratados como "pink wicca".

Por incrível que pareça, o Movimento pelo Software Livre também sofre com cavalaria assim. Nesse caso, com um agravante: o interesse empresarial. O Software Livre foca primordialmente a liberdade coletiva de acesso, estudo e modificação de programas de computador. Simples assim. Essa foi a motivação que originou o movimento e o que criou suas bases. O problema é que muitos gostaram dos resultados, mas não do caminho, e terminaram criando conceitos derivados. Isso falando só dos esclarecidos, porque também tem muita gente novata que chega achando que defender "software livre" é defender programas de graça, o que são duas coisas distintas. Há ainda quem queira pegar carona no movimento para se promover. Lembrando que a origem do movimento pelo Software Livre foi com o projeto GNU, estes caronistas já foram taxados como "bois".

Conclusão

  1. O movimento se forma em torno de um conjunto de valores;
  2. O movimento se constrói e cria uma identidade própria;
  3. O movimento vislumbra uma chance de dar sua mensagem, mas precisa de exposição;
  4. O movimento se expõe;
  5. Chega a cavalaria maldita;
  6. Os novatos leigos se tornam maioria;
  7. O movimento se fragmenta.

Questões:

  1. Como evitar o enfraquecimento do movimento após a chegada da cavalaria?
  2. Há como criar formas de "recrutamento" para a cavalaria?
  3. No final das contas, qual a melhor postura para o grupo original, para que possa manter viva a causa e evitar a extinção do movimento? Não tenho respostas para essas perguntas, mas isso me preocupa, de modo geral. Haverá ainda alguma salvação para os que lutam por seus ideais?

Só deixo um apelo: quando se empolgar com algum movimento social (ou algo próximo disso), faça seu dever de casa: pesquise! Entenda as figuras antes de vestir a camisa! Não ajude a destruir mais um sonho coletivo...

Special: 

Fábula da Liberdade

Imagine alguém preso em uma jaula, vivendo a pão e água. Amarrado pelos pulsos, tornozelos e pelo pescoço, esse alguém passa seus dias trancado ouvindo apenas o barulho da praia e dos animais ao seu redor. A pessoa que a trancou às vezes aparece com sua limousine. Ela fala uma língua que o prisioneiro não entende, mas não há problema: raras vezes fala diretamente com ele.

O que você me diz sobre liberdade nesse momento? É inegável que isso é tudo o que essa pessoa que vive em uma jaula não tem, certo? Não creio haver dúvidas quanto a isso.

Agora imagine que você, homem normal, descobre a pessoa que vive sob essas condições tão desumanas. Primeiro vem o sentimento de revolta, de que o mundo está errado e isso não pode estar acontecendo. Após aceitar o que acontece como verdade, dependendo de quanto você valorize sua própria liberdade, você desejará que essa pessoa seja tão livre quanto você.

Vamos supor que você criou coragem e, inspirando-se em tanto quanto já se falou sobre liberdade nos últimos tempos, partiu rumo à libertação de tão infeliz criatura.

Após entrar no covil e furtivamente roubar as chaves, você se dirige à jaula. A pessoa o observa, assustada com o que está acontecendo. Você saca a chave e, girando-a no cadeado, começa a tentar desfazer o mal tão grande que fôra feito por outros. Entra. Solta as algemas, olha para a pessoa e diz: Você está livre. Vamos fugir para um lugar seguro. Enquanto olha ao redor, preocupado se alguém já descobriu seu intento, você ouve o barulho das algemas. Ao se virar, vê a tal pessoa se prendendo novamente, dizendo: Prefiro ficar aqui.

O que fazer diante de uma situação tão inesperada? Depois de feito o mais difícil, o prisioneiro simplesmente se nega a colaborar. O que se deve fazer? Deixá-lo e ir embora se lamentando por esse alguém não dar valor à própria vida ou, já que veio até aqui, levá-lo à força? Você ama a liberdade e quer libertá-lo. Mas se ele não quiser e escolher ficar, você é capaz de lhe dar liberdade de escolha? Afinal, há liberdade ao se escolher a não-liberdade? Se podemos chamar isso também de liberdade, o que é a liberdade afinal?

Acredito que haja quatro padrões básicos de reação quanto à liberdade:

  • há quem simplesmente desconhece que está em posição desfavorável, não conhece a liberdade e tudo aquilo que lhe foi furtivamente retirado;
  • há os que sabem o que perderam, odeiam essa posição, mas não sabem como deixá-la de uma vez, pois não conhecem opções;
  • há os que sabem o que perderam, mas que se conformaram depois de um tempo. Acomodados, preferem ser escravos mesmo, muitas vezes por estarem nessa posição há muitos anos;
  • há os que descobrem a liberdade, conhecem alternativas à sua vida acorrentada e lutam com todas as forças pelo que é mais precioso. Alguns perdem a vida na batalha, mas outros saem, muitas vezes sem saber quão difícil será viver assim. Outros conhecem as responsabilidades da nova vida, mas não fazem disso obstáculo e vão em frente.

Sempre que lutamos muito por algo para uma outra pessoa e essa não se mostra interessada, passamos a ter duas opções: podemos deixar as coisas como estão ou forçá-las. Ambas são problemáticas e parecem pôr em cheque todos os ideais que o levaram a mover toda a longa luta.

Em situação tão inesperada, penso que a maioria de nós agiria quase prontamente, movida apenas por ódio ou algum outro sentimento súbito. Como esta cena não está realmente acontecendo com você - assim espero -, podemos então discutir um pouco o problema, que parece bem complexo.

Abandoná-lo, deixando que fique preso pra aprender ou se dizendo que ele não merecia ser libertado parece, a princípio, ser a melhor saída. Acontece que a liberdade é algo bom demais para ser assim rejeitada. Sempre há um ou outro maluco masoquista que não deseja a liberdade, mas creio que, na maioria das vezes, abdique-se de liberdade por algum fator externo. Há os seguintes, e talvez ainda outros:

  • ignorância sobre o que é liberdade e o que é escravidão;
  • desconhecimento sobre como agir e forças que podem atuar em conjunto;
  • comodismo;
  •  medo de mudança;

Independente de quais exatamente sejam os motivos que levam uma pessoa a preferir uma posição de não-liberdade à outra, podemos agrupá-las em dois blocos: a ignorância/medo e o comodismo. O primeiro grupo tem um caminho fácil de se resolver, embora às vezes trabalhoso. Já o segundo é muito mais difícil de ser trabalhado.

Sabemos que um pássaro preso em uma gaiola por toda a sua vida e acostumado a ter a comida e a água sempre ao alcance quando necessário se habitua de tal forma a isso que, quando liberto, vem a morrer em pouco tempo, pois não está acostumado às responsabilidades da vida livre. Da mesma forma agem os humanos. Quando presos por um longo período, por ignorância não sabem se virar sozinhos e, se libertos, precisam de ajuda. Aí entra a informação. Precisa-se esclarecer completamente o que está havendo, porque está havendo, as vantagens e desvantagens que a nova vida trará. Tudo que possa lhe dar retorno tem um risco associado e há coisas na vida que, mesmo mais difíceis, valem muito mais que outras mais fáceis.

Há os que temem a mudança. Estes precisam de apoio. Devemos mostrar até que ponto será difícil e pedir que decidam. Devem encarar isso como um grande desafio de vida ou morte. Quando o assunto é liberdade funciona mais ou menos assim mesmo: ou você vence o medo e vive, às vezes enfrentando dificuldades, mas cada vez mais forte; ou simplesmente desiste e aceita a possibilidade de ser um fracassado pesando para o resto da vida. às vezes há pressão em torno do aprisionado e isso deve ser visto com atenção.

Não acho que aconteça com pássaros, mas há espécies de animais que voltam após serem libertas, pois preferem a vida presa. Aqui temos o comodismo em ação. Há pessoas também que agem desta forma e quanto a elas não há muito o que ser feito. São os piores aqueles que não querem deixar o conforto de onde vivem, mesmo sabendo que há um lugar melhor. Aliás, melhor para essas pessoas significa menos complicado. Muitos desta categoria nem ao menos conhecem o sentido da liberdade em teoria (o que já se deve considerar pouco frente à sua vivência), nem querem ser instruídas. Com esses, o dilema anteriormente mostrado (ir embora ou forçá-lo) se torna inevitável.

Mas o que é a liberdade afinal? Poder escolher entre ser livre ou não é liberdade? A resposta para esta pergunta pode levar a uma possibilidade de contradição e as duas possíveis respostas nos levarão a esta contradição se assumimos que um dos pre-requisitos para a liberdade é a tomada de decisão e que a liberdade só existe quando unimos capacidade para isso e procuramos sempre decidir por nós mesmos.

O que acontece é que às vezes uma decisão inicial pode impedir que outras decisões possam ser tomadas futuramente. Por exemplo, quem decide permanecer preso não poderá decidir aonde ir, o que comer e coisas tão triviais quanto estas. Liberdade exige responsabilidade e não pode, em momento algum, ser confundida com viver sem preocupações. Alguém livre poderia ser entendido como alguém que faz o que quer da vida e a ambigüidade que o termo traz (devido ao tom com que é dita) retrata bem a possibilidade de ser entendida de forma errada. Para reparar o erro, podemos completar com: e tem responsabilidade para decidir o que quer da vida.

Parte II

Tentando abordar o termo liberdade da forma mais genérica possível, percebe-se a princípio que cada indivíduo vê a vida de acordo com um _mini-mundo_ que lhe foi sendo criado a partir do meio externo.

O que diferencia os indivíduos é a amplitude do mini-mundo em que eles vivem. Existe o mundo real, completo e complexo em suas mais diversas esferas de atribuições, e nós nos enquadramos em uma parte dele. Alguns têm uma visão um pouco mais ampliada e outros menos, o que depende apenas do meio externo e das características da própria pessoa.

É normal que o índivíduo se acomode ao seu mini-mundo, sentindo-se confortável e não sentindo necessidade de mudanças, mas as pessoas mais críticas correm atrás e ampliam o escopo de conhecimento, e aos que têm a visão mais ampliada surgem questionamentos que são relevantes, mas que para os menos conhecedores não são, e a liberdade pode ser um deles caso seja aplicável ao seu contexto, seja social ou profissional. Ao se adquirir mais conhecimentos, surgem novos horizontes.

A liberdade pode ser caracterizada pelo seguinte: sempre que alguma coisa impede nosso crescimento pessoal ou livre arbítrio (mesmo que não se note), podendo ser caracterizada como restrição, surge a necessidade de quebra deste obstáculo para que se alcance uma "liberdade provisória" e conseqüente crescimento, afinal num mundo tão instável não sabemos quantos obstáculos mais vamos encontrar.

Aí surge o questionamento citado anteriormente: será que todos estão prontos para reconhecer a necessidade da liberdade ou, se reconhecer, saber lutar por ela? Definitivamente, eu acho que não. Aos que têm apenas medo de romper os obstáculos basta estendermos uma mão amiga e dizermos "o caminho é este, é difícil, mas vamos juntos!", fornecendo o apoio necessário. Porém, aos acomodados com sua situação, deve-se mostrar o caminho e perguntar "veja o que te espera, tem certeza que está satisfeito aí?". Então esperar uma mudança de atitude que com certeza virá, para que possamos dizer a primeira afirmativa a esta pessoa e trazê-la conosco.

Todos nós vivíamos em um mundo ilusório, a nossa realidade, nosso mini-mundo. Mas do outro lado existia um outro universo, embora caótico, que contemplava o nosso e muito mais coisas. A princípio surgia um pouco de confusão com a nova situação, pois deixava-se de lado um modelo de vida em detrimento de outro. E mesmo voltando ao modelo antigo, este te parecia artifícial e o desejo era de voltar para o novo modelo e assumir as novas "responsabilidades". Isto é o que acontece com a minoria das pessoas, assumir mais compromissos que o de praxe é realmente difícil e a liberdade te força a isso.

O típico exemplo do comodismo era o do tripulante revoltado da nave que queria voltar à "Matrix". Não preparado para assumir a "responsabilidade" de um "papel" no seu novo contexto, queria voltar a uma vida ilusória.

Um diálogo bem interessante é o que se procede entre "Morpheus" e "Neo", onde Morpheus pergunta a Neo se ele não sente algo de diferente no ar, uma necessidade de coisas que ele não sabe o que são, um desejo interno de mudança. Pergunta também se ele não sente que falta algum sentido na vida e se esta não lhe é restrita. É esse tipo de percepção que as pessoas acomodadas têm que adquirir, seja a fonte que restringe a liberdade algo sutíl ou uma coisa bem definida. Basicamente deve-se adquirir uma postura mais crítica das coisas.

A maioria das pessoas é assim: se puderem manter a sua comodidade, não importando os meios, ótimo!!! Mas se forem pegos de surpresa e não puderem ter mais esta falsa liberdade, ficarão sem uma alternativa verdadeira e sucumbirão.

Aos que se esforçam pela verdadeira liberdade, será garantido que esta não sumirá num estalar de dedos, pois foi baseada em esforço verdadeiro.

Portanto a liberdade é algo que todos podemos adquirir, porém requer mais atitude, personalidade e responsabilidade em virtude dos diversos caminhos que surgirão diante de nós e que poderemos escolher. Aos que não estão preparados cabe uma orientação no sentido de abrir a mente destas pessoas e mostrar-lhes que têm chance de desempenhar um papel neste novo contexto.

-- Alex Müller e Cárlisson Galdino

Special: