sextilhas

Florestiotas

Pela floresta se ouviu
“Vamos todos para o lago!”
Era o grito da Arara
Voando por todo lado
Chamando pra reunião
“Vamos todos! Vamos logo!”

Os bichos foram chegando
Buscando acento no chão
Quando a Arara pousou
“Foi feita a convocação
A todos nossos amigos
Que comece a reunião”

O jabuti começou
Falando meio arrastado
“Muitos de nós hoje andam
Com razão, bem preocupados
Com a presença dos homens
No nosso chão adorado”

“Os índios vivem há tempos
Caçando nossos colegas
Mas tem outros que estão vindo
Estranhos, com fúria cega
Destruindo quase tudo
A própria vida nos nega”

O Tatu-bola pediu
Para comentar também
E disse: “Pra mim nenhum
Homem é bicho de bem
Não aceito índio aqui
Nem lenhador, nem ninguém!”

Houve um barulho de apoio
O mico ergueu a mão
E disse: “eu vou além!
Eu vi o que os homens são!
Tem parques muito bonitos
E um monte de construção”

“Se eles derrubam as plantas
É pra botar no lugar
Cidades bem divertidas
Boas de humano morar
Fazem um tal zoológico
Pra gente ficar por lá!”

“Se tem humano ruim
É esse povo atrasado
Que além de matar o bichos
Nada faz pra nós de agrado
Eu gosto do bicho homem
Quando ele é civilizado”

A Jiboia se espantou
E disse: “para com isso!
Nunca ouvi tanta besteira!
Lançaram em tu um feitiço?
Trocar a nossa floresta
Por canto assim, tá difícil!”

O Pato falou também
“O mico está muito certo!
Não é atacar floresta
Mas sim ser bem mais esperto
Melhorando nosso mundo
Antes que vire um deserto”

O Tatu falou de novo
“É pensando bem que eu digo
Quem não concorda com o Mico
É da floresta inimigo
Por isso digo: vocês?
São contra ou estão comigo?”

Bicaram muito a Jiboia
E o Jabuti com maldade
Foram pra aldeia dos índios
Mataram sem piedade
Só por amor à Floresta
Sonhavam em ser cidade

-- Cárlisson Galdino

Despolítica Futebol Clube

Despolítica Futebol Clube

Era uma vez um país
Que, vários anos atrás
Sob a lei de militares
Muito terríveis, brutais
Quis ver no povo Esperança
Só que não havia mais

Claro, com tantos massacres
Morte, censura, opressão
Como ia ser diferente?
Mas veio uma solução
Pro povo ter alegria
Orgulho de sua nação

Era uma Copa do Mundo
E uma grande seleção
Primeira vez a passar
Jogos na televisão
Era a chance mais perfeita
Para homens de visão

Duas copas antes dessa
As duas de um Brasil só
Com muita publicidade
Forjaram de gol em gol
Um novo patriotismo
O “país do futebol”

Vários anos se passaram
A Ditadura acabou
Novos governos e copas
Muito jogo se travou
Mas o gosto pelo esporte
Esse sim continuou

Hoje temos muitos clubes
De futebol no país
Que disputam em 3 classes
Ou séries, como se diz
Pelo Futebol o povo
Seguiu torcendo feliz

Foi então que certo ano
No auge da alegria
A Copa do Mundo em casa
Esse povo recebia
Sem esperar a surpresa
Guardada pro último dia

Brasil chegou na Final
Afinal veio a pancada
Enfrentando a Alemanha
Numa cena inesperada
Perdeu foi de 7 a 1
Que tão grande goleada!

Veio assim, desilusão
E tristeza, ódio e dor
Torcer pelo que agora?
Foi assim que se tomou
Eleições daquele ano
Como o “novo futebol”

Como fosse em Maceió
CSA, CRB
Torcidas foram às ruas
Pra seus times defender
PSDB de Aécio
E a Dilma com o PT

Não foi tranquila a mudança
De jogo, de arquibancada
A torcida se agitava
Todo dia inflamada
Não era “gente família”
Mas torcida organizada

Quando enfim termina o jogo
Quem perdeu a eleição
Sem aceitar a derrota
Continuou na missão
De se não ganhou no campo
Insistir no tapetão

Quem ganhou ficou feliz
Com a vitória alcançada
Mas o clube está estranho
E ninguém entendeu nada
Parece até que o poder
Tá com uma Dilma trocada

Enquanto os azuis praguejam
Vão às ruas com firmeza
Os vermelhos ficam em casa
Em estado de surpresa
Sem entender o Governo
Sem ter nenhuma certeza

A torcida organizada
Tal qual as de antigamente
Quer que seu time triunfe
Nada importa realmente
Atropelando as leis
E quem estiver na frente

Se seu time cava a falta
Que dê falta simplesmente
Que solte cartões vermelhos
Para os vermelhos somente
Querem que juízes julguem
Só com pesos diferentes

E vai pra rua dizendo
Enfrentar corrupção
Mas se um azul se corrompe
A torcida não vê não
E segue a gritar vestindo
Camisas da seleção

Essa torcida azulada
Se transforma em agressão
Se um pensa diferente
É xingado de ladrão
Isso quando não é pego
E espancado sem razão

É bonito ver o povo
Nesse tipo de serviço
Lutar por seus ideais
Ir à rua em compromisso
Político, o problema:
Política não é isso

Nem tampouco é “o povo”
A torcida organizada
É uma turma com raiva
Por ter sido derrotada
Que quer mudar o placar
Nem que seja na porrada

Nesse jogo temos leis
Que nos dão civilidade
Não se muda um presidente
Somente pela vontade
Só porque não gosta dele
Sem um crime de verdade

A Política é bonita
Quando bem compreendida
Não está só em Brasília
Ela faz parte da vida
E você só entende um pouco
Quando ela é debatida

Ela não é Futebol
Quem a trata desse jeito
Nunca entendeu o que é
A Política direito
Ela exige o debate
E mais ainda: respeito

Não se age com justiça
Dando status de certeza
A um lado da conversa
Só de um canto da mesa
Sem ouvir o outro lado
Sem direito de defesa

Esse ódio à diferença
É uma imbecilidade
A riqueza dos debates
Está na diversidade
De opiniões e posturas
De toda a sociedade

Custou muito suor e sangue
A nossa Democracia
O que mais a ameaça
E ameaça todo dia
É a turma insatisfeita
Intolerante em gritaria

Sei que ela não é perfeita
Mas a nossa é muito nova
Sem ela, será pior
Duvida? É fácil a prova!
Procure por Ditadura
Em qualquer livro de História

É preciso mais debate
É preciso mais respeito
E ter mais informação
Pois somente desse jeito
Teremos Democracia
E um Estado de Direito

-- Cárlisson Galdino

P. S.: Também está no Issuu. Declamada no Politicast #22.

Special: 
Gênero: 

A Prosa de Vlad e Louis

Boa noite ou boa tarde
Ou bom dia, camarada
Hoje vou contar um caso
(ou será boa madrugada?)
Bom, vou falar de um encontro
Uma história inusitada

Era uma noite de chuva
Madrugada, na verdade
Na rua ninguém passava
E perto daquela grade
Eu ouvi naquela praça
Bem no meio da cidade

Eu voltava caminhando
Da casa do meu amor
Quando ouvi uma conversa
Que logo me assustou
Me escondi pra não me verem
E o papo continuou

Era um velho de cartola
Preta como a escuridão
De terno bastante antigo
Que falava com emoção
Com um jovem do seu lado
Com a voz de assombração

- Esse mundo anda perdido
Olha só pro meu estado
Já matei tanto bandido
Desde um antigo passado
Aí vem esses pivetes
E estou desmoralizado

"O meu nome era temido
Na Europa e no planeta
Só de ouvir, nêgo gelava
E hoje, veja só que treta
Me associam com um maricas
Que queria ser borboleta!"

O velho estava enfezado
Andava pra lá e pra cá
Um pouco baixo, mas nobre
O céu já a trovejar
O outro sentou na praça
Também resolveu falar

- Caro mestre do meu mestre
Nem sei o que te dizer
Não queria que voltasse
Só para se aborrecer
Melhor era estar dormindo
Como há anos pôde ser

"Infelizmente, concordo
O mundo está ruim, meu caro
Eu não sou tão nobre assim
Quanto você, honorário
Mas graças a esse moleque
Também eu me sinto otário"

- Devo confessar, meu jovem
Já me achei desrespeitado
Por você e seu amigo
Mas hoje isso é do passado
Nunca pensei num futuro
Assim tão esculhambado

"No meu tempo eu perseguia
Donzelas e sequestrava
Seduzia e conduzia
Depois me banqueteava
Alguns vinham me deter
Mas ninguém me derrotava"

"Hoje vem esse moleque
Que parece retardado
Vive há décadas fazendo
Escola, aquele coitado
Cheio da sua frescura
Só quer ser sofisticado"

"Não caça mais as pessoas
Só se alimenta de bicho
Você já viveu de rato
Foi um grande reboliço
Mas superou e o pirralho
Nunca vai para com isso"

- Aquele tempo eu me lembro
Foi logo que despertei
Foi uma fase, passou
Sofreres que só eu sei
Tudo isso me fez mais forte
Aprendi o que hoje sei

"Mas o drama do moleque
É que está apaixonado
Por uma mocinha bela
Que nada mais é que gado
E nem se alimenta dela
Nem transforma pro seu lado"

"Os dramas lá do meu tempo
Eram matar sem querer
Mulher já com trinta anos
Que não podia crescer
Condenada a ser pra sempre
Menina que não quer ser"

"Era a mão da inquisição
Nos obrigando a fugir
Eram brigas entre irmãos
Foices, o fogo a subir
No desespero querer
Morrer e não conseguir"

- O seu tempo já foi outro
Ninguém passa o que passei
Eu vivia num castelo
Vivia acima da lei
Todo mundo me temia
No meu tempo, fui um rei

"Já te achava avacalhado
Eu, bem mais que Realeza
Você vivendo com outro
E hoje, veja que tristeza
Vem os ventos do destino
E nos trazem essa surpresa"

"Um desgraçado qualquer
Que tem pai, irmã, irmão
como fosse isso normal
Nessa nossa posição
De predadores do mal
De monstros sem coração"

- Coração, eu já o tive...
Mas nunca fui parecido
Com aquele afeminado
Mas lembro do tempo antigo
Sentia falta do Sol
Tão letal a nós tem sido

- Louis, você é um menino
Tem tanto ainda a crescer
O Sol não é mais problema
Frente a todo o meu poder
Se eu controlo as nuvens cinzas
O que o Sol pode fazer?

"Posso sair todo dia
No momento que quiser
Você ainda não consegue
Pois morre se assim fizer
Mas o tempo te fará
Forte como você quer"

"Já reparou o moleque
Que queria ser menina?
Ele nunca sai no Sol
Como tu, mas imagina!
É que se ele for ao Sol
Se banha de pupurina!"

- Vampiros já foram fortes
Temidos pelas pessoas
Hoje é essa presepada
Uns viadinhos à toa
Pro nosso mundo das trevas
As coisas não estão boas

"Outro dia numa festa
Num porão a vela e vinho
Na madrugada perfeita
Quando já estava sozinho
Mostrei a presa à garota
Ela disse: 'Ó que fofinho!'"

"'...Você parece legal
Mas prefiro lobisomem
Vampiros são meio estranhos
E eu quero é ter um homem'
E eu tive que matar ela
Para proteger meu nome"

- A vida não está boa
Só quem não vive que viu
E a pista que nos deixaram
Essa pista não serviu
Acho que não está aqui
Talvez nem cá no Brasil

"Vamos continuar a busca
Um dia ele aparece
Vai sofrer como ninguém
Eternamente sem prece
Uma dor eterna e grande
É menos do que merece"

E eles saíram da praça
Um voando com o vento
Como se fosse de nuvem
E o outro noutro momento
Sumiu da praça também
Ou é meu olho que é lento?

E assim voltei para casa
Que sorte que não fui visto!
Pensando nesses vampiros
Em tudo o que lá foi dito
E torcendo pra encontrarem
Aquele fresco maldito!

-- Cárlisson Galdino

Special: 

O Castelo do Rei Falcão

No alto daquela montanha
Havia um lindo castelo
Lugar de coisas impossíveis
E lar de um povo tão singelo
Jardim de eterna primavera
De paz e tudo o que há de belo

No alto daquela montanha
Moravam o Rei e a Rainha
Tão jovens e bem humorados
E tudo que essa terra tinha
Por esses dois, justos e alegres
Era bom, só ventura vinha

No salão daquele castelo
A festa estava acontecendo
Quando chegou uma criada
Buscando a rainha querendo
Anunciar a novidade
E ao vê-la foi logo dizendo

Rainha, trago uma notícia
Que tão feliz-feliz me fez
E vai animar todo mundo
Olha esse papel, desse mês!
Veio lá do laboratório
Parabéns pela gravidez!
 
A rainha não se conteve
Logo se danou a chorar
Pois era esse um sonho antigo
O que faltava no seu lar
Há tanto esperando por isso
Por fim ia realizar

O Rei feliz ergueu a taça
E disse a todos presentes
Hoje é um dia especial
É muita alegria pra gente
Vamos brindar a essa criança
Que minha rainha traz no ventre

E toda a noite foi feliz
Como sempre, com muita paz
Com essa bela novidade
Na doçura que a noite traz
Dormiram e sonharam muito
Que logo eles seriam pais

Mas ninguém naquele castelo
Nem de longe desconfiou
De um homem frio e traiçoeiro
Que nem sorriu e nem chorou
Pois esse sonho destruía
Seu sonho de ser imperador

E logo amanheceu o dia
E esse homem não dormiu
Pensando em um plano perverso
Aquela criatura vil
Para derrubar o casal
Que era sempre tão gentil

Pior que aquele sujeito
Não pensou mais nenhum segundo
Saiu porque ele já sabia
Que naquele vale profundo
Vivia um monstro estranho
Dos mais perigosos do mundo

Descendo nas frestas da noite
Movido pela ambição forte
Pela cobiça sem medida
Para mudar a própria sorte
Chegou naquela terra escura
Que exalava o cheiro da morte

Gritando, ele falou assim
Ó monstro da sombra Graní
Eu vim do alto da montanha
E sei que você está aí
Te dou pedaço da minha alma
Pois tenho um favor a pedir

E num grito que estremeceu
O homem, uma voz ligeira
E grave como um trombone
Lhe disse: não fale besteira
Não faço acordo com mortal
Que não seja de alma inteira

O homem suspirou bem fundo
E com a voz quase sumida
Falou: eu quero muito isso
Se você quer minha alma e vida
Pode levar nesse acordo
Mas quero um tempo dessa vida

A voz galopou novamente
Dando coices no seu ouvido
E disse: pois então tá bem
Vamos falar do seu pedido
E eu digo o que posso fazer
E os anos que terás vivido

Aquele homem tão cruel
Com aquela alma penada
Fazia um acordo sombrio.
Na cama pouco iluminada
Dormiam o Rei e a Rainha
No castelo sem saber nada

Num ritual do mais sinistro
O homem pegou um falcão
Prendeu numa jaula de vidro
Com velas, óleo e maldição
Entre espelhos e sangue humano
Escondeu tudo no porão

E o tempo passou no castelo
E tudo parecia bem
A rainha sentindo dores
Bem mais do que as gestantes têm
E não saia mais da cama
E todos sofriam também

Ao completarem oito meses
A Rainha com dores fortes
Gritava clamando na cama
Os gritos de quem vê a Morte
A cama se banhou de sangue
No seu ventre se via o corte

Enquanto a Rainha morria
Nascia, para grande espanto
Diante do Rei e criados
Enrolado num rubro manto
Um monstro infantil horroroso
Jamais visto em um outro canto

A criança não tinha mãos
Os braços pareciam asas
Os seus joelhos distorcidos
E pés terminando com garras
Seus olhos redondos, gigantes
E negros como a madrugada

Cabeça clara e careca
Como cabeça de bebê
O choro que ele fazia
Fez todo mundo estremecer
No lugar de boca, ele tinha
Um bico: mas que estranho ser!

O Rei em pouco enlouqueceu
Mandaram o bebê embora
Por medo do pequeno monstro
Simplesmente jogaram fora
E aquele homem tão malvado
Virou o rei naquela hora

O tempo passou no castelo
No alto daquela montanha
O novo rei era um tirano
Que na dor dos outros se banha
E o povo não tinha alegria
Sofria uma crise tamanha!

Todo mundo passava fome
Era comum haver motim
Mas quando havia, eram pegos
E mortos, era sempre assim
Miséria que não acabava
Impostos que não tinham fim

Vivendo nessa triste vida
Sem nem saber o que é viver
Quem é que pode condenar
Alguém que rouba pra comer
Que nem adolescente é
E criança cansou de ser?

Era uma menina bem nova
Já em roubos e falcatruas
Maltrapilha, sem nenhum trato
Como uma menina de rua
Ninguém se importava com ela
Seus pais são cada um na sua

Um dia aquela tal menina
Por inocência e precisão
Terminou roubando galinha
Do castelo do Rei e então
Passou ela a ser procurada
Pelos soldados da prisão

Seu pai, sabendo do perigo
Que a filha agora já corria
Teve medo que ela morresse
Pois embora não parecia
Trazia o coração de um pai
Que com o risco se afligia

E disse: filha, agora basta
Olha onde você se meteu
Não faz sentido a tal da morte
Te levar primeiro que eu
Você sempre viveu bem solta
E a se virar sei que aprendeu

O rei está com muita raiva
Não sei do que ele é capaz
Por isso pra que você viva
Só uma solução se faz
Você fuja para a floresta
E nunca mais olhe pra trás

Os dois se abraçaram tanto
E se banharam em choradeira
Ela viu no seu pai carinho
Que nunca antes percebera
Entendeu que para viver
Era mesmo a única maneira

E assim ela juntou um pouco
De tudo o que ela podia
Levar, aí esperou atenta
Na hora que a noite caia
Correu do castelo à floresta
Jurando retornar um dia

E na selva ela aprendeu
A viver como os animais
A fugir das garras da fome
E caçar como o lobo faz
Distante daquele castelo
E tudo de mal que ele traz

Correndo um dia na floresta
Ainda era muito cedo
Ela terminou se perdendo
Num labirinto de arvoredo
E sem ter mais saída viu
A cara mais firme do Medo

Em sua mão só uma faca
Feita co'uma pedra lascada
Na sua frente via um monstro
Uma gigante águia penada
Parecia querer ser gente
De medo ela ficou parada

A vida passou nos seus olhos
Como uma retrospectiva
Enfim ela criou coragem
E para continuar viva
Segurou a faca com força
Mas ouviu uma voz altiva

Não faça isso, pobre criança
Um velho chegava ao local
E falou: não mate esse ser
Como se fosse um animal
Ele tem uma alma humana
E não quer fazer nenhum mal

Ainda sem perder o medo
Sem saber se ia confiar
No velho, aquela menina
Andou de lado devagar
Sem tirar os olhos do monstro
Que ficou no mesmo lugar

E disse ainda: Ó criança
Não seja uma menina fria
E ela analisando o monstro
Com olhos atentos o via
E ao fitar por fim os seus olhos
Notou a dor que ele trazia

Nem passou tanto tempo assim
E logo ela fez amizade
Com esse pássaro estranho
Tinham quase que a mesma idade
E por dentro, ela viu que os dois
Se pareciam de verdade

O monstro não falava nada
Mas os dois sempre se entendiam
Ele voando nas alturas
E ela nas plantas, e assim iam
Vivendo os anos sem saber
Que a Morte e a Dor logo viriam

Os anos foram se seguindo
O velho cuidava dos dois
Os dois com quase dezessete
Juntos, como feijão e arroz
Um dia, o monstro estando fora
O velho a chamou e depois

Falou: minha cara criança
Sinto que já me falta o ar
A vida é mesmo muito boa
Mas um dia tem que acabar
E antes que eu vá embora
Preciso uma coisa falar

E contou que ele era o Rei
De outros tempos tão felizes
Da morte da linda Rainha
Da criança e das cicatrizes
Que isso deixou no castelo
Foi quando começaram as crises

E como veio o novo rei
Sem que se abalasse por nada
E ele próprio, tido louco
Já tinha uma cova cavada
E ele fugiu pra floresta
Pra criar a alma condenada

O monstro, o seu próprio filho
E ela disse: Há algo errado
Esse novo rei que chegou
Vivia sempre lado a lado
Com o Rei e com a tragédia
Foi o único beneficiado

E o velho franziu sua testa
E disse: então você pensa
Que ele tem culpa nessa história
Da minha dor e decadência?
Pode até ser, mas isso hoje
Já não faz menor diferença...

Ao final da mesma semana
A tristeza anunciada
Bateu naquela porta ansiosa
Sem querer saber de mais nada
Levando o velho, deixou os dois
Sozinhos em sua jornada

Não sabiam o que fazer
Mais uma semana de luto
E o tempo que ia passando
Aquela moça sem estudo
Pensava naquela história
E bolou um plano astuto

Chamou o monstro numa noite
E disse: Nós faremos isto
Me leve naquele castelo
Discretamente sem ser visto
Que eu vou resolver essa história
De qualquer jeito, eu não desisto

E foi assim que eles fizeram
Acharam onde o rei dormia
Por ali ela se escondeu
E lá ficou por todo o dia
E tudo o que o rei lamentava
Bem escondida ela ouvia

E ele falava do tapete
Da cor que não tava legal
Falava de matar pessoas
De aumento do imposto real
E falava da solidão
Mas nada do monstro afinal

De noite ela voltou pra casa
Que tarefa mais cansativa!
Frustrada por não ter ouvido
A desejada narrativa
Mas teve logo uma ideia
Para uma nova tentativa

E disse: Já sei o que houve
Não adianta eu estar junto
Não posso ficar toda a vida
Com risco de virar defunto
Eu tenho que dar o meu jeito
De fazer ele ir nesse assunto

Por isso, amigo de asas
De dia cace um falcão
Iremos amanhã de novo
Levando essa ave na mão
E a soltaremos no castelo
Pra atiçar a Recordação

E foi que na noite seguinte
Partiram eles novamente
Para fazer tudo de novo
Mas só um pouco diferente
O falcão solto no castelo
Deu susto em todos de repente

O dia passou e o rei
Não falou nada de importante
A jovem retornou com raiva
E disse ao monstro: um instante!
Se um falcão não deu resultado
Agora vou ser ignorante

Na outra noite eles chegaram
E foram espalhar ligeiro
A carga desse novo plano
Bem mais gritante que o primeiro
Soltar os dezesseis falcões
Nas salas do castelo inteiro

E dessa vez não foi em vão
Todo mundo estava assustado
Falavam da tal maldição
Cochichando por todo lado
E ela por lá, sem ser notada
Colhia esse resultado

O rei sequer abriu a boca
Banhado de preocupação
Andou bem rápido dali
Correu direto pro porão
A jovem não viu o que houve
Não arriscou ir junto não

Mas à noite ela aproveitou
E antes de vir seu amigo
Voando lhe levar de volta
Ela desceu até o abrigo
Do porão que o rei tinha visto
Sem temer mais nenhum perigo

E ao chegar lá, se espantou
Ao ver a jaula sobre o chão
Não se via o que tinha dentro
Mas tinha som de assombração
E ela seguiu em silêncio
Como gata na escuridão

Pela brecha viu que lá dentro
Um pássaro estava preso
E ela abriu a jaula e viu
O olhar do falcão aceso
Ele saiu voando louco
E, apesar de tudo, ileso

O espelho tinha algo sinistro
Como se ali se visse um vulto
De alguém: mulher ou um menino
E ela quebrou num golpe bruto
O espelho, que era a prisão
Criada lá no antigo culto

O rei se contorceu na cama
O rompimento estava feito
Sentia seu corpo em chamas
Apertava com força o peito
E viu entrar pela varanda
Aquele que é o Rei de direito

Tão logo pousou na varanda
Sentiu que agora estava exposto
Do jeito que realmente era
Com braços, pernas e com gosto
Sem penas, com pelo e cabelo
Sem bico, na cabeça um rosto

O jovem, a cara do pai
Correu com uma fúria antiga
Pelo castelo só gritando
Em busca daquela sua amiga
E o povo acordava e dizia
É o príncipe! Não há quem não diga!

Os dois se encontraram na sala
E se espantaram de repente
Se conheceram um no outro
E trocaram um beijo ardente
À volta, o povo se juntava
Sorria como antigamente

No alto daquela montanha
Há um castelo em ascensão
Com festas e fartos tesouros
Uma alegre população
De bela Rainha plebeia
E de um Rei que já foi falcão

-- Cárlisson Galdino

Seu Papai Noel

Seu Papai Noel

Seu Papai Noel
Que nesse Natal
Ninguém passe fome
Ninguém passe mal
Pra que a alegria
Possa ser total

Que os homens que têm
O mundo na mão
Se esqueçam que existe
Aquele botão
Capaz de fazer
Só destruição

Que nesse natal
Minha mãe e meu pai
Estejam comigo
Que não briguem mais
Pelo menos hoje
Que exista paz

Que os homens na rua
Não vejam o sinal
Com crimes e crimes
E achem normal
Que pensem nos outros
Sejam menos maus

Seu Papai Noel
Não quero brinquedo
Se eu não puder
Bulir, meter o dedo
Ver como é por dentro
Ver cada segredo

Eu quero aprender
Como é esse mundo
Pra quando eu crescer
Depois dos estudos
Torná-lo melhor
Poder mudar tudo

Se quem tem poder
Na palma da mão
Não quer melhorar
A situação
Eu poder fazer
Com minha geração

Pra que ter presente
Sem ser pra nós dois?
Que brinque sozinho
Num vidro, sem nós?!
Eu quero quebrar!
E ajeitar depois!

Seu Papai Noel
Não quero brinquedo
Se eu não puder
Copiar ligeiro
Para os meus amigos
Para o mundo inteiro

Eu quero poder
Com amigos e amigas
Compartilhar tudo
Momentos, cantigas
Livros e brinquedos
Por toda essa vida

Porque, meu velhinho
Seu Papai Noel
Tudo que há de bom
Nunca foi "só meu"
Quem não compartilha
Não irá pro céu

Seu Papai Noel
Não quero presente
Dê pra quem precisa
Pois tem tanta gente
Com fome, com frio
Sem casa e carente

Pra quê um brinquedo
Se tem tanta gente
Que nem tem comida
Nem casa decente
Só têm uns aos outros
E a dor permanente?

Seu Papai Noel
Peço um compromisso
Dê pra todo mundo
Só o que for preciso
Não vai faltar nada
É só ter juízo

Devolva o autorama
Dos fíos de papai
Na loja e o dinheiro
Pegue e vá atrás
Do que tanta gente
Precisa bem mais

Que nesse Natal
Pense em nós primeiro,
Pobres e o Natal,
Peço em derradeiro,
Que se for assim
Dure o ano inteiro

Cordel do GNU/Linux

Tem gente que pensa
Que computador
É calculadora
Mal lhe dá valor
Mas ele é bem mais
Que pode supor

Tem gente que pensa
E pensa saber
O que é o negócio
Chamado PC
Pensando que é só
Máquina de escrever

Mas computador
É bem mais que isso
É um equipamento
Robusto e preciso
Que é diferente
De tudo que é visto

Para funcionar
Precisa programas
E o programador
Vivia um drama
Sem poder dormir
Tranquilo na cama

O computador
E um bicho danado
Dentro tanta coisa
Fora outro bocado
Monitor de vídeo
E mouse e teclado

E aqueles lugares
De botar disquete
CD ou outra coisa
É coisa pra peste!
Memória e circuitos
Bios, chipset

Cada fabricante
Já que é seu direito
Cada componente
Fará do seu jeito
Eis o pesadelo
Que já estava feito

Pois antigamente
Cada programinha
Tinha que saber
A história todinha
E usar do PC
Tudo o que ele tinha

Um programa feito
Rodava somente
Num computador
Pra outro diferente
Teria que ser
Feito novamente

Como um instrumento
Feito por medida
Que não funcionava
Em outra guarida
E isso complicava
De todos a vida

Foi quando alguém
Teve uma sacada
Fazer uma coisa
No centro instalada
Pra cada programa
Não precisar nada

Essa coisa estranha
No canto central
Chamou-se Sistema
Operacional
Ou Operativo
Lá em Portugal

É esse programa
Que quebra a cabeça
Pra saber usar
Tudo o que apareça
No computador
Cada placa ou peça

E os outros programas
Conversam com ele
De um jeito padrão
Sem muito enfeite
E o Operacional
Faz o papel dele

Assim um programa
Pra grande espanto
Não era como antes
Pois com grande encanto
Feito só uma vez
Roda em qualquer canto

Pra ter um Sistema
Operacional
Chamado S. O.
Temos afinal
Umas opções
Como é normal

O mais conhecido
Se chama Windows
Mas diversidade
É um negócio lindo
E não tem só ele
E há outros surgindo

Inclusive um
O melhor que tive
Falaremos dele
Que ouça quem vive!
E o melhor de tudo
É software livre

Sobre soft livre
Falei outro dia
Do nosso sistema
Fala esta poesia
Para quem não sabe
Ou pouco sabia

Havia um sistema
Que se utilizava
Na Universidade
E se apreciava
Era S. O. Unix
Como se chamava

Uma confusão
Num tempo confuso
Mudou o cenário
E impediu seu uso
Pelo copyright
Ou foi seu abuso

Para resolver
Tão triste questão
Um novo projeto
Surgiu logo então
O Software Livre
Teve uma Fundação

GNU Não é Unix
Era este o projeto
Criar um S. O.
Unix aberto
Era o objetivo,
Perfeito e completo

Assim foi nascendo
Foi bem natural
Surgiu um Sistema
Operacional
Dando liberdade
Ao usuário final

Free Software Foundation
Ou FSF
Criou o GNU
Embora tivesse
Faltado uma coisa
Que ela fizesse

Ainda não disse
Pra não confundir
Se você entendeu
Tudo até aqui
Vamos com cuidado
Então prosseguir

Pois é que um Sistema
Operacional
Tem dentro de si
Pra ser funcional
Muitos programinhas
E uma parte central

A parte central
De todo S. O.
É chamada kernel
Não funciona só
Mas é necessária
Senão, tenha dó...

Claro que a FSF
Disso bem sabia
Então planejou
Uma engenharia
Bem sofisticada
Pro que ela queria

Mas esse tal kernel
Nunca ficou pronto
E longe do States
De um outro canto
No país Finlândia
Veio um novo espanto

Um kernel foi feito
Por prazer, não dor
Aberto e robusto
Como se sonhou
Chamado Linux
Devido ao autor

O kernel Linux
Cresceu bem ligeiro
Um dia encontrou
Num golpe certeiro
O S. O.  GNU
Se uniu por inteiro

Feitos um pro outro
Corpo e coração
GNU e Linux
Fizeram união
Assim se tornaram
Úteis desde então

O tempo passou
Do norte ao sul
Ele é utilizado
Sob o céu azul
Mesmo que esqueçam
O nome GNU

Pois chamam Linux
O Sistema inteiro
Esquecem GNU
Que veio primeiro
O Linux que é
Dele um parceiro

Mas o importante
É a qualidade
Que o sistema traz
E a liberade
E sem falar que
Vírus não o invade

Há muita opção
Pra quem quer usar
GNU com Linux
Pra então se livrar
Do S. O. fechado
Pra se libertar

O famoso Debian
Que uso desde antes
O Ubuntu, que é bom
Para iniciantes
Fedora, Mandriva
E muitos restantes...

Espero que tenha
Entendido o recado
Sobre esse Sistema
Que já é comentado
Mas o assunto é um pouco
Mesmo complicado

Adeus a quem leu
Com isso se importe
Se quiser tentar
Esse S. O. forte
Desejo a você
Boas vindas, boa sorte!

Special: 

Ironia

Quanta ironia a vida pode nos trazer?
A roda da fortuna gira e até parece
Que toda vez voltamos ao mesmo lugar...
Tudo é tão triste nesse mundo desumano
Tudo é tão frio, egoísta, tão insano
É a realidade com o açoite a nos bater

Porém enquanto os deuses nos abençoarem
Enquanto houver o Sol tão quente e acolhedor
Enquanto a Lua nos sorrir com sua magia
Enquanto ali no fundo ainda formos crianças
Não deixará nunca de existir esperança
E é esta a mensagem para nós por esses dias

A história que começa como a anterior
Não é um mal sinal, é presente dos deuses
Pra podermos fazê-la como se sonhou
Pois essa é a história que nós vamos construir
Afinal todo conto de fadas começa
No mesmo mote que nos diz: "Era uma vez..."

Special: