setilhas

Planeta dos Vampiros

Vou te contar uma história:
Um dia olhando o espaço
Eu acabei visitando
O símbolo do fracasso
Um planeta esquecido
Vagando no céu perdido
Como um cadáver sem braço

Girando em torno de um Sol
Era um planeta sombrio
Era vermelho e azul
E aquele calor febril
Só de noite se acalmava
Mas nem sempre ele era frio

Havia dias no ano
Que de noite era normal
Vários banhos, muita água
Mesmo no escuro total
Debaixo de um céu cinzento
O calor era brutal

Pra compensar, outros dias
Chegava a chover granizo
Caia um frio de morte
Um dia assim, sem aviso
Gelando toda a cidade
Pedrando até o juízo

Era um planeta distante
De continentes e mares
De clima louco, inconstante
Poluição pelos ares
Poucas cidades gigantes
Deserto em todos lugares

Nesse planeta inteiro
Sonhos jamais tinham fim
Quando um sonho se cumpria
Já vinha outro e assim
Sempre sonhando, sem paz
Vivam uma vida ruim

Esses desejos que tinham
Cada sonho mais profundo
Era uma caixa na loja
Um pacote vagabundo
Os sonhos eram vendidos
Em qualquer shopping do mundo

É a TV que revelava
Ambições pré-fabricadas
Não conseguiam pensar
Além daquilo em mais nada
Só nos sonhos por comprar
É o que movia a manada

Eram pessoas vampiras
Que não saiam de dia
No túmulo de seus lares
De qualquer luz se escondia
Só de noite iam pro mundo
Trabalho, estudo e boemia

Eram pessoas vampiras
Não uso a palavra à toa
Quem conhece essa gente
Jamais dirá que são boas
Pra prosseguirem vivendo
Matavam outras pessoas

Vampiros sem ter família
Nem moral, nem coração
Quando caminham em grupo
Dividindo o mesmo chão
É só por conveniência
Por orgia, ou ambição

Nesse planeta distante
Que o dia é sempre tão quente
Só existiam vampiros
Nenhum tipo mais de gente
Eles matavam uns aos outros
Sem punição, livremente

Crianças que eles achavam
Atraiam com sorvete
Pra materem e ferverem
Em sopa como um banquete
A Lei de todo lugar
Pedia que isso se aceite

Mas veja que esses vampiros
No fundo não eram maus não
Se eles matavam uns aos outros
Era pra alimentação
Pois não havia mais gado
Galinha, nem plantação

Se eles não iam de dia
É pela fúria infernal
O Sol queimava sua pele
Até o Sol matinal
Os raios ultravioletas
Tinham passagem total

Toda a Terra poluída
Mares sem ter peixes mais
Poluição sem medida
Fumaça e gases letais
Terra de tantas doenças
De sofrimento, sem paz

E tudo o que lhes sobrava
Contra o sofrimento todo
Era a fé no consumismo
Era a esperança do povo
Que os fazia dormir
E acordar vivos de novo

Sem perceber que foi isso
Essa ganância sem igual
Que garantiu a ruína
De um lugar natural
Transformando o planeta
Numa cova espacial

Nem sempre foi desse jeito
Esse planeta foi vivo
Hoje morre pelo espaço
Cheio de verme nocivo
É o que as pessoas viraram
Eis que destino maldito!

Esse planeta já foi
Terra bem rica e feliz
Os mares cheios de peixes
Terra de plantas, perdiz
Animais de todo tipo
Terra que o homem não quis

Esse planeta vampiro
De crueldade no escuro
Não é uma novidade
Com canibais em apuros
Esse planeta de morte
É a Terra no futuro

-- Cárlisson Galdino

O Gênio

Na cidade de Rio Largo
Bem perto de Maceió
Havia um tal sujeito
Que vivia sempre só
Estudava e trabalhava
E de noite descansava
Na casa da sua avó

Ele se chamava Leo
Neto de Dona Maria
Quando ele desocupava
Sempre ele refletia
Sobre sua condição
O que diz seu coração
Era louco por Talia

Talia, moça mimada
Morava na capital
Cursava arquitetura
Tinha um jeito fatal
Voz suave e bem pausada
Mas dele, lembrava nada
Se visse, nem dava xau

Mesmo assim o pobre Leo
Recordava todo dia
Quando a viu em uma festa
Na praia, e alguém dizia
"Ela não é linda, homem?
Talia é o seu nome"
Desde então ele sofria
 
Talia era colega
Da irmã de Bastião
Esse amigo de Leo
Que falou na ocasião
Ela veio e depois
Ele apresentou os dois
Leo lembra, Talia não

Mas essa vida dá voltas
Como uma roda gigante
Leo sequer imaginava
Que em um pequeno instante
Seu mundo seria mudado
Tudo então transformado
Nada seria como antes

Foi numa manhã cinzenta
Daquela manhã sem graça
Dia triste e agorento
Que Leo voltava pra casa
Na parede ele viu
Um esquisito cantil
Na rua onde sempre passa

Um cantil assim antigo
De um visual rebuscado
Ele pegou e buscou
Ver se tinha anotado
O endereço do dono
Mas viu que foi abandono
O cantil tava largado

Trazia uma pirâmide
A foto de um faraó
Escrita de povo antigo
Pra entender tenha dó!
Tudo isso, é o que se via
Aquele cantil trazia
Desenhado em seu redor

Leo balançou o cantil
Uma barulheira feia
Ao invés de trazer água
Parece que tinha areia!
O Leo então curioso
Destampou logo o negócio
Sem medo, nem cara feia

Sem que Leo imaginasse
Nem passou na sua mente
O cantil caiu no chão
Num papoco de repente
Vestido de antiguidade
Um homem de alta idade
Ressurgiu na sua frente

"Meu caro cabra de sorte
Não se assuste comigo
Eu não trago sua morte
Nem sou de tu inimigo
Sou um gênio, tu já viu?
E vivo nesse cantil
Creia nisso que te digo"

"Sou um gênio muito antigo
Dos tempos mais esquecidos
Muita gente já me viu
Outros olhos e ouvidos
Mas estou na sua frente
Estou aqui simplesmente
Pra realizar três pedidos"

Recuperado do susto
Leo já estava a pensar
No que era mais importante
Que queria conquistar
Se uma casa com piscina
Dinheiro que não termina
Uma ilha particular...

"Comece pelo primeiro
Diga e está realizado!"
O gênio lhe insistia
E o Leo lá concentrado
Disse: "Tudo o que queria
Era ter aqui Talia
Tê-la sempre do meu lado"

"Pois creia que está feito
Seu pedido desejado
Não vai ser em um instante
Mas está encaminhado"
Mas naquele mesmo dia
Seu pedido, quem diria!
Seria realizado

Leo quase teve uma coisa
Ao chegar na padaria
Revirando a própria bolsa
Ali estava Talia
Linda, com sorriso incerto
De Leo foi chegando perto
Sem saber o que queria

"Oi, como vai?" Leo falou
Talia um sorriso abriu
"Oi!" e falou bem baixinho
Do problema que a afligiu
Uma amiga veio ver
Foi lanchar e que fazer?!
O seu dinheiro sumiu

Não seria diferente
Leo pagou o que ela devia
Saíram então conversando
Foi falando com Talia
Da música ao estudo
Falaram de quase tudo
Mais tempo que se podia

Para não ser assaltada
Sem ter mais como voltar
Na casa da avó de Leo
Talia a noite foi passar
Noutro dia uma greve
Nenhum carro que se pegue
Talia pôde pegar

Assim foi que nesses dias
Acaso aqui e acolá
Talia ficou por perto
Por não ter como voltar
Não dava certo era nada!
Foi deixando ela estressada
Nada estava a funcionar

Leo notando como tudo
Fugia do seu previsto
Pegou o cantil de novo
Chamou o gênio já visto
Não era pra ser assim
Chamou e pediu enfim
Pra acabar logo com isto

- Você quis tê-la bem perto
"Todo tempo, toda hora
E o desejo foi cumprido
Ela não pode ir embora"
- Mas assim ela se estressa!
"Minha Talia não é essa!
Por que está assim agora?"

- Eu cumpri com meu papel
"Nem adianta reclamar"
- Então vou pedir o outro
- Se quiser, pode falar
- Quero que desde esse dia
"Eu desejo que Talia
Me ame em primeiro lugar"

- Pois se é o que você quer
"Saiba que já está feito
Ela vai gostar de ti
Perdoar qualquer defeito
Querer tudo que for teu
Você nunca conheceu
Quem te gostou desse jeito"

Tanto foi que o gênio disse
Que logo no outro dia
Tudo estava diferente
A mudança acontecia
Era claro o sinal
Era um brilho especial
Bem nos olhos da Talia

- Como você é bonito
"Eu nem tinha reparado
Eu sou muito distraída
Mas que bom eu ter notado
Quero respirar seu ar
Te ver em todo lugar
Quero a ti, meu bem amado!"

E Talia estava perto
Sempre querendo seu beijo
E se a sós estivessem
Já se enchia de desejo
- Meu Leo, olha para mim
"Eu te amo um tanto assim!
É só a você que eu vejo"

A mudança mudou tudo
No início foi um céu
Era tudo o que queria
O apaixonado Leo
Mas o tempo foi passando
E tudo isso o irritando
De um jeito tão cruel...

- O que foi isso que eu vi?
"Não se faça assim de tonto!
Vi você olhando outra!
Não permito, eis o ponto!"
- Mas eu não olhei ninguém!
- Me perdoa então, meu bem
"É que eu te amo tanto..."

Seu quarto se encheu de fotos
Pelas paredes pregadas
Talia fotografava
Perseguia obcecada
E o pobre Leo acuado
Desde então nesse estado
Não tinha espaço pra nada

Fazia planos incríveis
Sonhos tão mirabolantes
Que Leo perdia o fôlego
Bastavam alguns instantes
Tanta pressão já sofrendo
Que o desejo foi crescendo
De tudo ser como antes

Ciúmes a toda hora
Planos de um casamento
Talia não ia embora
O tempo corria lento
Leo logo o cantil pegou
Num momento que encontrou
Chamou o gênio de dentro

- Gênio, faz alguma coisa!
"Eu quero voltar atrás!
Essa mulher não me larga
E eu já não aguento mais!
Como foi acontecer?
O que preciso fazer
Para ter de novo paz?"

- O pedido que foi feito
"Foi prontamente atendido
Não reclame do trabalho
Foi entregue o pedido"
- Eu sei como aconteceu
"Entendo: o erro foi meu
Mas já está decidido"

- O meu terceiro pedido
"Não será ele em vão
Vejo que fiz tudo errado
Agora entendo a razão
Mas uma saída eu vejo
Me sobrou um só desejo
Que será minha salvação"

- Uma vez feito o desejo
"Sumirei da tua vida
Nunca verá o cantil
Essa é uma despedida
Pense no que vai pedir
Pois pedindo eu vou sumir
Não há volta, nem saída"

- O que vou pedir, já sei
"Isso aqui já não aguento
Desejo que todo o tempo
Volte àquele momento
Que encontrei o cantil
Seja qual se ninguém viu
O cantil se vá com o vento"

"E tudo o que eu pedi
Considere sem efeito
Não encontrando o cantil
Nenhum pedido foi feito
Eu não encontrei Talia
No fim das contas, meu dia
Foi normal, de todo jeito"

O gênio compreendeu
O pedido do rapaz
E desfez todo o efeito
Voltando um tempo atrás
Mudando toda a história
E Leo perdeu a memória
Disso não se lembra mais

Não deseje ter alguém
Contra a própria vontade
O que desejamos vem
Mas não é certo que agrade
E o desejo no sonhar
Poderá se transformar
Num inferno em realidade

A vida tem sua história
Cabe a nós participar
Os deuses nos dão as cartas
Todos podemos jogar
Pra não gerar confusão
Use as cartas da mão
Não queira trapacear

-- Cárlisson Galdino

Special: 

Cordel Digital

Finalmente, o Cordel Digital. E você? Já está participando da Promoção Cordel Digital?

Meus amigos, com licença
Vou falar da realidade
Desses dias de hoje em dia
Do que fez a humanidade
Desbravando com bravura
A mata da Literatura
Veja quanta novidade

Houve um tempo muito antigo
Que poeta tinha ideia
De escrever histórias longas
Fosse o leão da Nemeia
Odisseu e suas dores
Ou grandes navegadores
Era a tal da epopeia

Elas eram poesias
Enormes de se cantar
Descrevendo uma história
Que tentavam registrar
Era, eu sei o que digo,
Um costume mais antigo
Que se possa imaginar

Foi assim com o Homero
Que dos deuses recebeu
Dom sublime lá na Grécia
E desse jeito escreveu
Versos que são ouro e joia
Narrando a Guerra de Troia
E a jornada de Odisseu

Depois, entre os portugueses
Como em outras nações
Ressurgiu num certo dia
Outro poeta dos bons
Feito pra narrar o drama
No mar, de Vasco da Gama
Era Luis Vas de Camões

Desse modo, todo povo
Viu poeta inteligente
Talentoso e inspirado
Falando pra toda gente
Grandes fatos dos que viu
E assim, cá no Brasil
Não ia ser diferente

No Brasil, esse trabalho
Coerente e genial
De romancear em versos
Tem lugar especial
No Nordeste da nação
Vivo em uma tradição
Trazida de Portugal

Falando muitas verdades
Contra rei e coronel
Ou fazendo o povo rir
Só de pegar no papel
Há livros que são achados
Em um cordão pendurados
Levam nome de cordel

São livretos bem pequenos
Mas grandes em seu talento
Trazendo pra nós notícias
Ou um bom divertimento
Pequenos com poesia
Pendurados, quem diria?
Em feiras, no movimento

Tem mulher que virou bicho
Tem medroso e assombração
Tem disputa de viola,
De goela e munição
Tem relato corajoso
Do inferno endoidando todo
Quando chegou Lampião

Você encontra pelas feiras
Do Nordeste brasileiro
Sempre muitas opções
Versos narram por inteiro
Dramas e atualidades
Com mentiras ou verdades
Sempre por pouco dinheiro

Hoje já não há mais tanto
Mas antigamente havia
Pra vender esses cordeis
Que são pura poesia
Artista com emoção
E uma viola na mão
Narravam em cantoria

Mas o tempo foi passando
Tudo passa nessa vida
E essa tradição da gente
Tão antiga e tão bonita
Com as gerações mudando
Pouco a pouco foi minguando
Hoje está quase esquecida

Hoje há poucos cantadores
Pelas feiras do Nordeste
Há poucos cordéis à venda
A cultura poucos veste
Mas buscando, é forçoso
Achar um ou outro teimoso
Que na tradição investe

Hoje se acha por aí
Os clássicos do cordel
E uns que por muitos anos
Escondidos num papel
Criaram força de repente
Resolveram finalmente
Mostrar a cara pro céu

E hoje a gente olha pro mundo
O mundo está tão mudado
Todos vivem na canseira
Se matando por trocados
Numa correria louca
E a leitura, que era pouca
Foi ficando mais de lado

Com TV, rádio, Internet
Videogame, academia
Celular, computador
GPS, foi-se o dia
De moleza na calçada
E nessa vida estressada
Quem tem tempo pra poesia?

Em tudo botou o dedo
Essa Tecnologia
Disco já virou CD
PC encolheu, quem diria?
Aumentando a qualidade
E hoje já é realidade
O que o cinema previa

Hoje todos têm acesso
Ao que só teria o rei
Todos têm cartão de crédito
Celular, pelo que eu sei
Cada um tem três o quatro
Tevezona virou quadro
Filme se tornou blue-ray

E tudo foi progredindo
Como era o natural
E foram desencarnando
Do mundo material
Nessa evolução danada
Tão espiritualizada!
Tudo agora é digital

Ninguém precisa de disco
Pra música simplesmente
Converte pra MP3.
Jogo ou video facilmente
É só ter dispositivo
Player ou PC. E com livro?
Por que seria diferente?

Amazon entrou na dança
Lançando o tal do Kindle
Depois a Apple com o iPad
Que tanta gente acha lindo
Sony, Samsung e outras mais
Têm produtos quase iguais
E muitos outros vem vindo

São notebooks pequenos
Por tablets conhecidos
Pra navegar na Internet
Ver uns videos divertidos
Ver e-mail e conversar
Agendar e calcular
E também para ler livros

Ou são, mesmo parecidos,
Aparelhos diferentes
Feitos só para ler livros
Com uma tela inteligente
Para ler poesia ou crônica
A tal da tinta eletrônica
Pra ser bom de ler pra gente

Pois, amigos, desse jeito
O livro, que era papel
Hoje está só na memória
De um aparelho "do céu"
Tanto livro e saber
Vai num cartão SD
Que a gente fica pinel

E se hoje já há dicionário
Romance, HQ, mangá
Coletânea, manual
De quase tudo já há
Se tem lugar pra poesia
Revista, jornal e guia
O cordel não tem lugar?

O cordel tem que viver
É um marco dessa gente
Tem o seu lugar cativo
No coração do vivente
Do Nordeste brasileiro
E assim do Brasil inteiro
Talvez nem dele somente

Poesia gigantesca
É algo internacional
Se aqui temos cordel
Noutros cantos, tem igual
Cada povo, com efeito
Faz, na sua língua, seu jeito
Essa tradição legal

E se hoje todos falam
Da tal globalização
Por que não vir o cordel
Dar sua parte da lição?
Sair da feira do agreste
Para entrar na Internet
Qual no céu foi Lampião?

É por isso, meus amigos
- E não estranhem o fato -
Que o cordel tem o direito
De ter a turbina a jato
Que essa tecnologia
Oferece e a poesia
Cabe num livro abstrato

Hoje, nesses novos tempos
Que mudam nosso normal
Quando a vida é correria
E o consumo é sem igual
Tudo aos poucos é mudado
Que fique aqui registrado
O Cordel é Digital

E se a mudança não para
E se tudo se mistura
Pra estar no mundo global
Preservando a cultura
Quem sabe se alguém não cria
Disk-cachaça, e um dia
Download de rapadura?

Nessa era tão moderna
Marcada, pelo que sei,
Pelo compartilhamento
Que todos podem ser reis
Que a Arte humana tanto cresce
Quando será que aparece
Um repentista DJ?

E assim, meu caro amigo
É chegado o momento
De partir, já me vou indo
Grato pelo acolhimento
Até um outro cordel!
Boa sorte pra quem leu
E bons compartilhamentos!

-- Cárlisson Galdino

Special: 

Cordel Quilombola

Nossa história hoje começa
Muito além, além do mar
Numa Terra tão antiga
Terra de leão, jaguar
Elefantes e savanas
É nas terras africanas
Que tudo vai começar

Mas o que falo a seguir
Não é em nada ilusão
Este cordel é de História
Não fala de ficção
Leia tudo até o final
Este problema é real
E é causa de aflição

Mas chega dessa conversa
Vamos logo começar
A história dessa vez
Pois não gosto de enrolar
Eis o Cordel Quilombola
Tenha boa lida agora
Quem a ele se dedicar

Ó bravo povo africano
Forte e livre em seu lugar
Sim, nem sempre havia paz
Mas sabia guerrear
Com sua própria ciência
Seus costumes, sua crença
E seu modo de falar

Faziam sua própria história
Até vir um povo ufano
Trazido por águas turvas
Desse inconstante oceano
Com sua própria ciência
Seus costumes, sua crença
Diferentes do africano

Era esse o povo branco
De bravos navegadores
Orgulhosos das proesas
De suas crenças, valores
Que cegos pela vaidade
Perderam a humanidade
E empreenderam horrores

Para expandir seu império
Têm que ter trabalhadores
Os mais baratos possíveis
Mas fortes como tratores
E na ganância da ideia
Planejaram uma odisséia
De um caos viraram atores

Estimulando o combate
Entre tribos que eram amigas
Compravam presos de guerra
Das tribos que eram vencidas
Partiam barcos ligeiros
Levando um povo guerreiro
Para lhes dar nova vida

Eram navios reforçados
Orgulho de um povo inteiro
Guiado por homens maus
Desses porcos traiçoeiros
Que levavam os sequestrados
Nesses barcos lá chamados
Por eles navios negreiros

Nas colônias, povo negro
Com seu passado glorioso
Virou escravo dos brancos
Explorados até o osso
Sem ter ninguém que os salve
Ó que vida, Castro Alves!
Ó que destino odioso!

Trabalhando nos engenhos
Como fossem animais
Qualquer erro ou cansaço
Vinha logo o capataz
Se do chicote servido
Era o mais leve castigo
Pois havia muitos mais

Se o senhor daquele engenho
Gostasse de uma escrava
Levava a seus aposentos
E a agredia e estuprava
Sua família na senzala
Vendo o capataz levá-la
Não podiam fazer nada

Foi então que começaram
A testar a própria sorte
E fugir dessas fazendas
Num grande risco de morte
Por pura necessidade
Mas a tal da liberdade
Era o desejo mais forte

Fugindo só não deu certo
Podiam levar um tiro
E se escapassem com vida
Onde iriam? Que retiro?
Pois eram recuperados
E os castigos mais pesados
Eram prêmio garantido

Começaram a se juntar
Todo negro fujitivo
Numa vila independente
Para se manterem vivos
Quilombos eram chamados
Esses lugares criados
A esperança dos cativos

Quilombos foram surgindo
Combatidos com crueldade
Os senhores de escravos
Não mostravam piedade
Contra eles, que brigavam
Pois tudo o que desejavam
Era ter a liberdade

Foi mesmo um grande caminho
Pra acabar a escravidão
Por medo da Inglaterra
Proibiram importação
Punindo o navio negreiro
Capitão e o povo inteiro
Envolvido na infração

Pouco a pouco foi chegando
A liberdade sonhada
Mas para isso foi preciso
Muita luta e muita estrada
Muito sangue correu o chão
Muitos mortos sem caixão
A disputa foi pesada

Os intelectuais
Brigavam lá no senado
Eram os abolicionistas
Que lutavam de bom grado
Contra os colegas de lá
Faziam o que precisar
Pra libertar os escravos

Assim leis foram surgindo
Em auxílio àquela gente
Foi a Lei do Ventre Livre
E outras vinham mais à frente
Mesmo sendo complicado
Cobrar que fosse aplicado
O que a Lei diz tão solene

A Lei Áurea foi, por fim
A que abriu portas no céu
Lhes dando a liberdade
Tudo justo no papel
Decreta com precisão
O final da escravidão
Pela Princesa Isabel

Assim o tempo passou
Tudo passa nessa vida
E o negro hoje é igual
A vitória é conseguida
E sendo assim, desse jeito
A todos, iguais direitos
A todos, igual medida

Claro que o pior passou
Mas e tudo o que foi feito?
E a cultura violada?
E os anos de preconceito
Desde um tempo mais distante
E ainda hoje está tão grande?
Como está está direito?

Muitos negros hoje vivem
Na luta, aqui, na marra
Na nossa sociedade
Com orgulho e muita garra
Honestidade e respeito
Mesmo assim, há preconceito
Essa vida é uma barra

Outros ainda têm raízes
No passado, suas nações
E se orgulham de manterem
Seus valores, religiões
Seus costumes, seus assuntos
E se agrupam, vivem juntos
Pra preservar tradições

São estas comunidades
Quilombolas conhecidas
Por alguns, por outros não
É onde eles levam a vida
De artesanato e plantio
Há várias pelo Brasil
Mas sua luta é sofrida

É desde oitenta e oito
Pra reparar todo o erro
Cometido contra todos
No passado que o Governo
Reconheceu de verdade
Diversas comunidades
Quilombolas nesse termo

É nesses "novos quilombos"
"Aceitos" pelo Estado
Que vivem os quilombolas
Mantendo vivo o passado
A cultura e o restante
Tudo aquilo que é importante
Não dá pra deixar de lado

Mesmo a constituição
Reconhecendo o direito
Dessas tais comunidades
Nem tudo saiu perfeito
É enorme o tormento
Pra ter reconhecimento
De uma terra desse jeito

Ainda são poucos terrenos
Que estão legalizados
Esse "aceite" do Governo
Não é fácil nem folgado
De todas as formas, tentam
Mas tanto problema enfrentam
É um fim de mundo danado

O Governo tem a verba
Própria pra auxiliar
Gente de comunidades
Quilombolas, sempre há
Mas tem que pedir primeiro
Formalmente e o dinheiro
Parece nunca chegar

Pra completar esse quadro
De tanta dificuldade
Ainda há certos doutores
Que vêm da Universidade
Com projetos tão enormes
Recolhem verba e se somem
Nada chega na verdade

Alguns ainda se aproveitam
Da cultura popular
Das pessoas quilombolas
Colhem plantas do lugar
Falam com o povo local
Sobre o uso medicinal
Pra depois patentear

O que tem desses projetos
Bonitos, são quase um céu
De plantio, de benefícios
Tudo lindo no papel
Vem a verba e, então, agora
Todo mundo vai embora
Nem centavo no chapéu...

Pena que todos esquecem
Que essas comunidades
Cada uma é diferente
Tem próprias necessidades
Não se pode assim tratar
Sempre a generalizar
Não ajuda: eis a verdade

Parece que não notaram
Que toda aquela gente
São pessoas, mesmo tendo
Uma cultura diferente
E precisam de respeito
Isso é de todos direito
Mais respeito urgentemente!

O povo negro sofrendo
Pra ajudar, Governo vem
Parece que só pensaram
Num "nome bom", nada além
"Pra ficar bonito agora
Chão de preto é quilombola"
Isso enche a pança de quem?

E esses projetos fajutos
Que vêm sempre procurar
As pessoas quilombolas
Pra no fim só explorar
Criem vergonha na cara
E o Governo, olhe para
Punir quem quer enrolar!

Já passou mais de um século
Que a escravidão findou
Com ela a desigualdade
Ou era o que se pensou
Pois a ver a trajetória
Ao consultar a História
Me pergunto: o que mudou?

Special: 

Eleições e Internet

Hoje vou contar um caso
Que aconteceu de verdade
Graças à "inteligência"
De quem quase nada sabe
A não ser mentir pro povo
Pra se eleger de novo
Sempre que o mandato acabe

Política é algo bom
Mas não é o que eles fazem
No Brasil há muito tempo
Só tem é politicagem
Você pensa diferente?
Então leia mais a frente
E vai ver que sacanagem

A propaganda política
Em rádio e televisão
É direito garantido
Em época de eleição
Pra evitar briga de graça
Que injustiça não se faça
Tratam disso com atenção

Um controle foi criado
Que é muito importante
Pra manter o nível bom
Se um ataca num instante
Há direito, e se mostra
Um direito de resposta
Do atacado ao atacante

Tudo isso é muito bom
Ajuda bem na questão
Por anos tem funcionado
Quando é hora de eleição
É assim que se tem feito
Sempre funcionou direito
No rádio e televisão

Com o tempo apareceu
Um recurso diferente
Do que era então conhecido
Veio então de repente
Como quem não quer é nada
Logo, logo, está instalada
Internet a toda a gente

Computadores acessam
Um espaço virtual
Garantindo aos usuários
Acesso a um mundo tal
Com muita informação
Que era na ocasião
Agrupada num portal

Mas a tal da Internet
Não é só uma revista
Que foi digitalizada
Não é jornal que se assista
Como na televisão
Temos que ter atenção
Como a Internet é vista

No início da Internet
Uns dez anos no passado
Poucos colocavam sites
Para serem acessados
Mesmo assim, quem desejasse
Se um designer pagasse
Podia ser publicado

A Internet envolve texto
Som, imagem, discussão
Muitas formas diferentes
De ter comunicação
Não é presa a quase nada
Nem tem nada a ver com nada
Rádio, nem televisão

De uns anos para cá
A Internet evoluiu
E num canto mais aberto
Ela se constituiu
Chamando o visitante
A ser um participante
Daquilo que ele viu

Quer botar opinião?
Para isso tem o blog
É um tipo de diário
Seja pra trabalho ou hobby
Se quiser ter um ligeiro
Não tem que gastar dinheiro
Há grátis onde se olhe

Também tem site pra fotos
Que é fácil de publicar
Se você gravar um vídeo
Que queira ao mundo mostrar
Fácil, sem que muito estude
Pode usar o tal YouTube
E o vídeo liberar

É assim o novo mundo
Da Internet de hoje em dia
Todos podem fazer parte
Bem melhor que se fazia
Quer espaço, tem demais
Os direitos são iguais
Pra mostrar o que se cria

Mas tem gente que não tem
Sobre algo conhecimento
E insiste em discutir
Qual o "sábio do momento"
Um conselho não aprende
Só fale do que entende
Ou passará por jumento

Senadores brasileiros
No auge da ignorância
Acabaram de aprovar
Lei que pela vigilância
Num absurdo legislar
Da Internet quer tratar
Como mídia de outra instância

Pensam que a Internet
É como televisão
Sem pesquisar a respeito
Sem ter nenhuma noção
E colocaram em nota
O direito de resposta
Olha que situação!

Um direito de resposta
Na Internet como é?
Se quem quiser ter um blog
Nele escreve o que quiser
Quem se sente ofendido
Faça blog e nele, escrito
A resposta que se quer

Foi alguns meses atrás
Que jornal mal intencionado
Falou mal da Petrobrás
E ela, num blog danado
Falou a sua versão
Esclarecendo a questão
Viram: o jornal estava errado

Eu citei a Petrobrás
Porque é o que me recordo
Mas Internet é assim
Todos estamos a bordo
Cada um tem o direito
De expressar do seu jeito
No seu blog, do seu modo

O que querem senadores
No caso eleitoral?
Se num blog eu falar
E um candidato achar mal
Eu escreva no meu blog
Texto dele que eu reprove
E fique tudo legal?

E essa tal de nova lei
Ainda tem outro porém
Quer tirar o anonimato
Na Internet e, veja bem
Como fosse ela um lugar
Que se pode dominar
Por uma regra que vem

"Internet" é um mundão
Milhares de blogs, sites
Serviços dos mais diversos
Cada um deles que sabe
Se anônimos vai querer
Mas o Senado hoje quer
Que anonimato acabe

É preciso anonimato
Direito do cidadão
Pelo menos na Internet
Pode parecer que não
Nossos dados pessoais
Ficam expostos demais
Se expor é uma "opção"

Enquanto a população
Não pode mais optar
Por proteger os seus dados
Quando se pronunciar
Quem for patrocinador
Do candidato que for
Não precisa se mostrar

Isso é sim muito pior!
No mundo capitalista
Não é porque é bonzinho
Que patrocínio exista
Quem investe em candidato
Com certeza, isso é fato
Tem algum lucro em vista

E nós, a população
A mercê de empresários
Sem saber nem quem serão
Se são poucos, se são vários
E se farão, com certeza
Mais leis em função de empresas
Seremos nós os otários

Caro amigo eleitor
Essa história que hoje traço
É a pura realidade
Foi dado esse tronxo passo
Se você for no senado
Pra ficar mais arrumado
Use um nariz de palhaço

Cordel da Pirataria

Naquele tempo antigo
Dos grandes descobrimentos
Navios cruzavam mares
Levando dor e tormento
Às terras por toda a vida
Fossem novas ou antigas
Sem respeito e violentos

Iam à costa africana
Com suborno ou então bravos
Deixavam terra levando
Dezenas de homens, escravos
Outros levavam empregados
E muitos deles, coitados,
Eram mortos por centavos

Esses homens nesses barcos
Dominavam o mar selvagem
Subjugando outros povos
Mas tinham uma boa imagem
Pois nos livros de História
Ainda hoje levam glória
Por cada dessas viagens

Nesse mar, sem ter direito
A ter u'a vida de gente
Muitos se reagruparam
Num caminho diferente
Nessa realidade ingrata
Criaram as naus piratas
E enfrentaram o mar de frente

Piratas, os homens livres
Diferiam dos demais
Dentro da embarcação
Tinham direitos iguais
Cultivavam parceria
Contra toda a tirania
Confrontando as naus reais

Atacavam naus tiranas
Roubando o que foi roubado
Matavam os ocupantes
Escravos, são libertados
Onde gastar o obtido?
Tudo o que era conseguido
Mundo afora era trocado

Esses eram os piratas
Daquela época esquecida
Que se ergueram contra reis
Nessa tortuosa vida
De "crimes", mas foi assim
Pois em alto mar, no fim,
Não tinham outra saída

Mas vamos falar agora
De algo dos dias atuais
Que é estranho e nasceu
Já nem tanto tempo faz
Hoje o tema da poesia
Chamam de pirataria
E os direitos autorais


Para contar essa história
De leis, direito e valor
Temos que entender primeiro
Como a gente aqui chegou
Por isso, como esperado
Vamos voltar ao passado
Onde tudo começou

No ano de 62
Do século XVII
O país, a Inglaterra
E a censura, um canivete
Cortava a produção
De tudo que era impressão
Pois besta em tudo se mete

E os livreiros desse tempo
Cada editora antiga
Precisava de um aval
Para que imprimir consiga
O aval do Rei, do Estado
Que se não for do agrado
Deles, a impressão não siga

Um monopólio formado
Pra controlar a leitura
Terminou dando poderes
Além do que se procura
Dessa forma os livreiros
Cresceram muito ligeiro
Nessa forma de censura

Já no século XVIII
Bem lá no ano de 10
Naquela mesma Inglaterra
Uma nova lei se fez
Hoje ninguém lembra mais
De direitos autorais
Foi ela a primeira lei

Right em inglês é direito
E copy é copiar
O Estatuto de Anne
Só disso ia tratar
Direito direcionado
Aos livreiros, que afetados
Tinham que se acostumar

Pois copyright falava
De cópia em larga escala
E o direito é o monopólio
Sobre cada obra criada
E esse direito, notamos
Durava quatorze anos
E o monopólio acabava

Note que essa nova lei
Não veio favorecer
Os livreiros da Inglaterra
E o monopólio a nascer
Não era bem algo novo
E era o bem ao povo
Que essa lei veio fazer

Nasceu o Domínio Público
Nesta distante Idade
Os livreiros exploravam
Seus direitos à vontade
Mas terminado o prazo
Toda obra era, no caso
Doada à Humanidade

Os livreiros reclamaram
Pedindo ampliação
Para aquele monopólio
Mas não teve apelação
Pois se fosse concedida
Mais outra seria pedida
E o prazo seria em vão

Isso lá naquele tempo
Eles podiam prever
Que se o prazo aumentasse
De novo iam querer
Sempre após mais alguns anos
E o prazo se acumulando
No fim "pra sempre" ia ser

Mas o mais interessante
Pros livreiros e editores
É que o que eles previam
Houve com novos atores
E hoje o direito autoral
Vale tanto, que é anormal
Pra agradar exploradores

Por que, vê se faz sentido
A desculpa que eles dão
Pra monopólio de livros
É incentivo à criação
Se é assim, por que, ora pois
Ele dura anos depois
Da morte do cidadão?

Que eu saiba depois de morto
Eu garanto a você
Por grande artista que seja
Ele não vai escrever
Só se for, caso aconteça
Com um médium, mas esqueça
Não é o que a Lei quis dizer

O direito agora vale
Por toda a vida do autor
Depois mais setenta anos
Depois que a morte chegou
Pra incentivar o defunto
Mesmo estando de pé junto
Continuar a compor

Por que funciona assim
Não é difícil notar
"Incentivo" é só desculpa
Para o povo aceitar
Quem lucra são editores
Sendo atravessadores
É a Lei da Grana a mandar

As empresas mais gigantes
Que corrompem os governos
Que publicam propagandas
De produtos tão maneiros
Com um gigantesco ganho
Artistas são seu rebanho
E a Lei garante o dinheiro

Toda essa exploração
Funciona desse jeito
O pobre artista cria
O seu trabalho perfeito
Um trabalho bom e novo
Ele faz é para o povo
Poder ver o que foi feito

Para o povo ter acesso
Ao que ele produziu
Não é algo assim tão fácil
Atingir todo o Brasil
Pra isso que produtores,
Gravadoras, editores
Tudo isso se construiu

Porém esse monopólio
Garantido ao autor
É o preço que eles cobram
Pra fazer esse "favor"
Se a editora tem confiança
Facilmente a obra alcança
Além do que se sonhou

O autor perde o direito
Sobre a sua criação
Quem vende é atravessador
E lhe paga comissão
Alguns centavos pingados
E o maior lucro somado
É da empresa em questão

Vejam só que curioso
São "direitos autorais"
Mas pra chegar no mercado
Alguns contratos se faz
E os direitos de repente
A que tanto se defende
Do autor não serão mais

Como se vendesse a alma
Para uma empresa privada
Nem ele pode copiar
A obra por ele criada
Mesmo quando ele morrer
A empresa é que vai dizer
Como a obra é usada

Autores bem talentosos
Que se encontram no caixão
Sem obras suas à venda
Com fãs, uma legião
Mesmo a pedidos dos fãs
Toda essa força é vã
Pra ter republicação

Pois o direito estará
Numa empresa transferido
Que é quem dirá se é viável
Atender a esse pedido
E se ela não publicar
Nenhuma outra poderá
Pois o direito é exclusivo

Esse jogo de direitos
Ilude a maioria
Dos artistas existentes
Como uma loteria
Onde muita gente investe
Mas pra poucos acontece
Algum sucesso algum dia

E os artistas que investiram
Enriquecendo a empresa
Olham para os de sucesso
Não percebem serem presas
Sonhando chegarem lá
Seguem a financiar
Essa indústria com firmeza

Quem tem direito exclusivo
Cobra o quanto quiser
Esse é o mal do monopólio
Mas sempre é assim que é
Quando surge alternativa
A essa prática nociva
Reclamam, não saem do pé

Copiar é ilegal?
É, mas a Lei que hoje vale
Foi feita por essa gente
Que corromper tudo sabe
Alterando o Direito
Para funcionar do jeito
Que melhor a elas agrade

Desde os tempos mais antigos
Alguém canta uma cantiga
Outro aumenta um pouquinho
E ela cresce e toma vida
Na cultura popular
Logo ela se tornará
Bem melhor do que a antiga

Com cultura é desse jeito
Que se faz evolução
Sempre se inspira nos outros
Na imagem, prosa ou canção
Do Teatro à Literatura
Cultura gera cultura
Não queira fingir que não

Hoje com toda mudança
Que fizeram, quem diria?
Compartilhar e expandir
Chamam de Pirataria
E o direito à cultura?
Criou-se uma ditadura
Como há muito se temia

O que querem impedindo
O poder da interação
É tornar todos iguais
Seja massa a multidão
É uma questão de Poder
Pra mais lucro acontecer
Todos com o mesmo feijão

Deixo então esta pergunta
Que ainda não tem solução
Num país de tradições
Que futuro elas terão?
O que será da cultura
Vivendo na ditadura
Dos livreiros, da opressão?

Piratas no fim das contas
Apoiavam igualidade
Hoje chamam de pirata
Quem age contra a maldade
E compartilha o que tem
Dando cultura por bem
Quem tem solidariedade

P.S.: Arte de capa do meu xará Karlisson Bezerra.

Special: 

Peleja de Pelé contra Roberto Carlos

Meus amigos que acompanham
Esta rádio pela antena
Hoje temos dois gigantes
Duelando na arena
Rei do esporte e da cantiga
Atenção para essa briga
Ela não vai ser pequena

É o rei do futebol
Pelé, como é conhecido
Há muito aposentado
Um jogador bem vivido
Vindo aqui mostrar seu jeito
Está do lado direito
Pra provar que é mais sabido

No outro lado desta arena
Temos outro renomado
Disputando com Pelé
Para tentar derrotá-lo
De talento que agrada
É o rei da Jovem Guarda
É o rei Roberto Carlos

A disputa desses dois
Não será no futebol
Roberto jogar não pode
E o Pelé não joga só
A disputa desses dois
Será decidida, pois
Em repente sob o Sol

Pode parecer vantagem
Pro Roberto talvez seja
Pois ele é compositor
Mas Pelé vencer deseja
E é enfim chegada a hora
Vejam a arena agora
Que comece a peleja

Sou o Rei Roberto Carlos
Na disputa vou embora
Pelé não ganha de mim
Pois tenho uma longa história
Na música brasileira
Sou o Rei, não é brincadeira
Eu sou uma brasa, mora?

Quando eu estou aqui
Vivo um momento lindo
Muitos vêm torcer por mim
Todo mundo é bem-vindo
Vou ganhar, isso é normal
Pelé antes do final
Vai acabar desistindo

Você é o rei do futebol
O mais importante esporte
Mas nessa disputa hoje
Seu reinado pouco importe
Pois no canto e criação
O Pelé não tem vez não
Pois só no campo é forte

Nem sei porque falei tanto
Nem precisa tanto assim
Pois sou o rei da canção
A taça pertence a mim
Nem devia ter disputa
Mas se querem, a gente luta
Se você tá mesmo a fim

Já cantei de tanta coisa
Por protesto e por prazer
Por amor e por saudade
E o que tinha pra dizer
Hoje já está falado
Eu já falei um bocado
Fale um pouco de você

Roberto da Jovem Guarda
É o rei nesse reinado
Mas Pelé não é bagaço
Para ser ignorado
Além de ser jogador
Pelé já foi de cantor
Já teve disco gravado

Se você correu o mundo
Pelé já correu também
Sua voz viajou longe
Pelé foi mais longe além
E se há tanta gente boa
Sempre manteve a coroa
Nunca perdeu pra ninguém

O Pelé já foi ministro
Você nunca, que eu recorde
Se quiser ter uma chance
Deixa de moleza e acorde
E peleje de verdade
Pois todo mundo já sabe
Cão que ladra não me morde

O Pelé foi influência
Pra mais de uma geração
Muito mais do que ser rei
Foi a luz na escuridão
E num país em apuro
Foi uma luz no futuro
A esperança da nação

Por isso não se estufe
Não fale o que bem entende
Pois sei que o rei Roberto
Não é tudo o que ele vende
Nessa disputa acirrada
Não vai te sobrar é nada
Essa eu já ganhei, entende?

Meu caro Edson Arantes
Essa briga vai ser boa
Mas não fale do Pelé
Como fosse outra pessoa
Desse jeito colocado
pareces um retardado
Isso bonito não soa

Roberto, fique na sua
Pois Pelé é o Pelé
Como falo não te importa
Falo como eu quiser
Sem força pra chegar junto
Fica mudando de assunto
Bom isso não é, entende?

Se você prefere assim
Não tenho nada com isso
Vamos à disputa logo
Tenho outro compromisso
Pois meu trabalho afinal
É intelectual
Não é força bruta, bicho

Roberto, você ofende
Todos falando assim
Pega mal ofender todos
Querendo ofender a mim
Futebol é uma arte
O físico é só uma parte
Que você nem tem por fim

Se for pra ganhar milhões
Correndo atrás de uma bola
Queria ter a outra perna
Perfeita, não como agora
Vocês no topo da escada
Por fazerem quase nada
Recebem milhões em dólar

Como se você fizesse
Esforço, cê não precisa
Ganha milhões em dinheiro
Sem nem suar a camisa
Faz um show de fim de ano
E a vida vai levando
Na água de côco e brisa

Se faço show todo ano
É que o povo me adora
E eu me esforço compondo
Fazendo show mundo afora
Quando eu não apareço
Tou na vida que "mereço"
É de ensaios toda hora

Pois assim é com a gente
Com quem vive de um esporte
Quando não está na TV
Treina pra ficar mais forte
Futebol é uma arte
Exigente em toda a parte
Férias tem só quem tem sorte

Essa arte de que falas
É discurso, é isso só
Molecada deixa a escola
Tantos que até tenho dó
'mbora muita gente tente
Muitos viram é delinquentes
No sonho do futebol

Não fale tanta besteira
Dessa arte que é tão bela
Futebol joga o rico
E o pobre da favela
Quero ver a arte que é sua
Tirar crianças da rua
Dando esperança a elas

Tudo bem, é uma arte
Futebol que você vende
Mas a disputa desviou
A disputa é entre a gente
E você não é problema
Pra não desviar do tema
Só quem é inteligente

Quem desviou foi você
Mas isso nem vem ao caso
Pois Pelé é inteligente
Não foi ministro ao acaso
E você, Roberto irmão
Cheio de superstição
Você é um prato raso

Qual o prato que é melhor
Deixo ao povo da cozinha
Na canção eu me garanto
Se eu fosse você, nem vinha
Ficava no seu reinado
Com a fama de viado
Que eu soube que cê tinha

De onde foi que tirou isso
Essa fama nunca fiz
Você não tem argumento
Só besteira agora diz
A Xuxa já namorei
Com ela só não casei
Porque eu não quis, entende?

Duvido muito, mas deixa
A disputa é no argumento
Não quero levar um chute
De um homem violento
Na fama sua alcançada
Rasteira e cotovelada
Sem demonstrar sentimento

Tudo o que eu disputei
Desse jeito resolvido
Não foi por mal que ocorreu
Foi por um mal entendido
E você, grande que alega
Terminou cantando é brega
Não é sabido, entende?

Não fale do romantismo
Se tiver pouca cultura
É preciso inteligência
Pra entender a candura
Do que escrevo hoje em dia
Você não entenderia
Se forçar, terá loucura

Pelé não é ignorante
Você não compreendeu
Preferiu parar o jogo
Sabe que a idade venceu
Não insiste na carreira
Senão vai fazer besteira
Igual contigo aconteceu

Se continuo cantando
É que ainda há talento
Diferente de outro rei
Que parou lá num momento
Com medo da decadência
Pois a sua inteligência
Era um frágil instrumento

É melhor ser recordado
Como rei de eterno brilho
Parei de jogar faz tempo
Mas na história fiz meu trilho
Uma carreira perfeita
Reinado que o mundo aceita
Não sou um rei só pro filho

Pelo que vejo, Pelé
Cada um tem seu orgulho
Seus defeitos e virtudes
Seu jeito de ver o futuro
Somos reis de dois reinados
Distintos e separados
Não dá pra quebrar um muro

É, Roberto, essa guerra
Já não tem nenhum sentido
Eu respeito a sua voz
E o sucesso conseguido
Você transmite emoção
Marcou uma geração
E ainda é ouvido

E você, caro Pelé
Bicho, você é o cara
No futebol, que é uma arte
Se ao fazer mil gols, cê pára
Seu reinado é soberano
Ainda vão fazer mil anos
Pra surgir quem te encara

Roberto, você é o rei
E humilde, eu agradeço
Esta é a sua praia,
A vitória não mereço
Você grande amigo é
Quisesse matar Pelé
Eu nem tinha endereço

Qual é, Pelé, camarada
Você lutou um bocado
E o duelo dessa vez
Está agora acabado
Saibam todos sem enganos
Somos dois reis soberanos
Somos reis de dois reinados

-- Cárlisson Galdino

O Castelo de Zumbis

Lá no meio de Alagoas
Num povoado distante
Morava um certo sujeito
Conhecido como Rand
Era o nome mais ligeiro
Pois seu nome verdadeiro
Era Ronaldo Alexandre

Rand vivia tranqüilo
Longe de qualquer estrada
Fazia tudo na terra
Mexia com boi e enxada
Mas a sua vaidade
Tava na realidade
De não ter medo de nada

Rand ainda costumava
Quando já no fim da tarde
De ler um livro qualquer
Quando ia pra cidade
Debatia com o irmão
Tinha sempre opinião
Essa era outra vaidade

Acontece que o Rand
Gostava de caminhar
De noite pra todo lado
Para a mente descansar
Já que ele não tem medo
Nem precisa voltar cedo
Tenha Lua ou sem luar

Numa dessas caminhadas
Foi que teve um caso estranho
Ele andava lá no sítio
Onde dormia o rebanho
E andando nessa terra
Foi que viu formar na serra
Um castelo bem tamanho

Um castelo tão gigante
Apareceu de repente
Que coisa mais sem sentido!
Que coisa mais diferente!
Sendo Rand curioso
Logo partiu ansiovo
Pro castelo à sua frente

Cada pedra do castelo
Era cinza e rocha nua
Havia um clima estranho
Nuvens tapando a Lua
Sem ter vento e a noite fria
E aos poucos se sentia
Um cheiro de carne crua

Rand achou curioso
Quando chegou no portão
Um barulho que se ouvia
Parecia assombração
E ele quis ver de perto
O portão estava aberto
E ele empurrou com a mão

Nem dava para ver nada
Naquele escuro de fossa
O salão era enorme
Tão escuro, minha nossa!
Ele triste "Pois danou-se
Que nem lanterna eu trouxe
Pra poder ver qualquer jossa"

Foi então que se lembrou
Do que estava bem ali
Bem no bolso da camisa
O que teima em possuir
Um isqueiro bem bonito
Aquele vício maldito
Pruma coisa ia servir...

Feliz por ter encontrado
Algo bom pra clarear
Acionou o tal isqueiro
Pra poder se orientar
E um barulho sem sentido
Lhe chegou no pé do ouvido
Como a morte a sussurrar

"Mas que barulho sinistro
Tou ouvindo lá de dentro
Se não for a Cinderela
Sorrindo e se escondendo
Coçando a unha do pé
Tenho certeza que é
Assombração se movendo"

Eram pés desengonçados
E uma barulheira brava
Enquanto gemia estranho
Alguém os pés arrastava
Ao invés de se mandar
Rand foi é investigar
Que coragem não faltava

Isqueiro pouco ilumina
Nesse escuro tão danado
Rand foi se aproximando
Curioso e sossegado
Quando viu uns dedos sujos
Esticados, de rabujos
Apontando pro seu lado

Era qualquer coisa estranha
Parecida com humano
Que queria lhe alcançar
E estava se esticando
Rand esticou o isqueiro
E assim pôde ver ligeiro
Quem estava ali chegando

Era uma criatura
Conhecida por zumbi
Mas não era um guerreiro
Qual no passado daqui
Que na Serra da Barriga
Conduzia uma briga
Não era ele aquele ali

Era um bicho que de morto
Já nem tinha mais assunto
E que mesmo sem ser vivo
Não queria ser defunto
Ao ouvir barulho ou fala
Se arrastava pela sala
Querendo lhe chegar junto

Com a cara deformada
Babando muita nojeira
Com as roupas aos pedaços
Fazendo uma barulheira
Vinha se aproximando
Rand encarou e foi quando
Reagiu dessa maneira

Deu um chute no zumbi
Com toda a força no pé
Que ele tombou pra trás
Como um saco de café
Gritando talvez de dor
No chão o zumbi rolou
"Vai-te embora, seu mané!"

"Onde foi que já se viu
Esse tipo de figura
Que vem querendo abraçar
Ou morder, mas que secura!
Vai-te embora com seu trapo
Que com gente assim nem trato
Pra não perder a postura"

E seguiu por essa sala
Prosseguindo na jornada
Foi então que encontrou
Uma porta escancarada
E pra ver o que é que tinha
Foi que entrou na cozinha
Tão escura e esticada

Ao entrar naquele canto
Uma alegria daquelas
Em cima de uma mesa
Tinha um monte de velas
E Rand tratou ligeiro
De usar o seu isqueiro
Para botar fogo nelas

Logo assim que terminou
Nem pôde aproveitar
Uma desordem danada
Começou a escutar
Passos e um barulho horrendo
Bando de gente gemendo
Naquele estranho lugar

Tudo estava iluminado
Quando aquele povo entrou
Na cozinha se arrastando
Na gemedeira de dor
Zumbi que n'acaba mais
E outros tantos vinh'm atrás
Foi quando Rand falou

"Acho que estou numa fria
Como vim pra esse inferno?
Que castelo tenebroso!
Me pareceu tão fraterno...
Quando cheguei pelo vento
Nem sonhei que aqui dentro
Vive esse horror eterno"

Mas enquanto ele falava
Não ficaram ali parados
Só prestando atenção
Com os seus braços cruzados
Nada! Vinha a trupe morta
Mais e mais cruzavam a porta
Com seus corpos estragados

Logo eles chegaram perto
Como o lobo e sua presa
Rand tratou bem depressa
De saltar logo pra mesa
E correu rapidamente
Pro longe de tanta gente
E no fim, uma surpresa

A cozinha nem tem porta
Para onde ele caminha
Atrás os zumbis vêm vindo
Já tomam toda a cozinha
Rand decidi ir em frente
E corre bem calmamente
Voltando por onde vinha

Correndo em cima da mesa
Mas sem tropeçar em nada
Nenhuma vela derruma
Longe da gente afobada
Todo zumbi tá lá dentro
Rand sai, num movimento
Tranca a porta de entrada

Logo Rand se encontrava
Naquela sala no escuro
Os zumbis tão na cozinha
Aqui deve estar seguro
E ele vai bem calmamente
Continua indo em frente
Sem medo de outro apuro

Parece ter outra porta
Logo mais ali na frente
E ele vai de curioso
Ver se lá é diferente
Pensando encontrar alguém
"Será que por cá só tem
Daquele tipo de gente?"

Nessa porta um corredor
De tamanho tão gigante
Que Rand quis percorrer
Para ver mais adiante
Quinze portas de um lado
Estava tudo trancado
Foi o que viu o andante

Com isqueiro pôde ver
Pois sobrava combustível
A sugeira dessa estrada
Que de imunda estava horrível
Muito grude pelo chão
Marcas de pé e de mão
Um mau cheiro indescritível

E no fim do corredor
Algo dava para ouvir
Não dava pra ver o que era
Mas Rand quis descobrir
Mesmo sabendo que o som
Não deve ser algo bom
Num lugar como esse aqui

E abriu a última porta
Que mostrou sem resistência
O interior da sala
Com toda sua presença
E o que viu à sua frente
De tudo era diferente
Foi estranha a experiência

Mas Rand soube escapar
Do Castelo dos zumbis
E tudo o que aconteceu
É assim como ele diz
Foi uma estranha viagem
Mas mesmo com sua coragem
Só escapou por um tris

Nunca mais teve notícia
Desse castelo depois
Vez ou outra some um
Nessas bandas, até dois
Ninguém sabe o que acontece
Com quem vai, desaparece
Perto do monte de bois

E o que viu naquela sala
Naquela estranha visão
Era a origem dos zumbis
E causou uma confusão
Na sua sabedoria
Era que o zumbi nascia
É de ver televisão

Por isso, caro leitor
Seja logo alguém astuto
Aprenda por conta própria
A deduzir sobre tudo
Pensamento e decisão
É o que dá distinção
Do homem pro bicho bruto

Não acredite de pronto
Em tudo o que você vê
Estude e queira pensar
Pois isso é bom pra você
E leia o que conseguir
Pra não virar um zumbi
Criado pela TV

Special: 

Um Conto no Oeste

Do cano de seu revólver
Ainda foge a fumaça
Ainda reflete no ouro
O céu e parte da praça
E o silêncio do momento
Só se quebra quando o vento
Diz: nem todo dia é da caça

E a fumaça do revólver
Como o sangue num punhal
Denuncia aquele tiro
Para bem ou para mal
Na fumaça o sangue arde
E se eleva ao fim da tarde
E avermelha o céu total

Como fosse por acaso
Jaz um corpo na calçada
Olhos negros como a noite
Como se não fosse nada
Vermelhos o chão e o céu
Sob a sombra do chapéu
Vêem a cena alcançada

Mas a noite vem chegando
No cavalo mais ligeiro
E aquelas botas de couro
Do par de olhos forasteiro
Se vão firmes ao cavalo
Sobem e partem no embalo
Pois a noite é seu terreiro

Uma Lua e as estrelas
Tímidas, da escuridão
Vão surgindo pouco a pouco
Vendo a estrela do chão
Está morto o xerife
Era um herói? Um patife?
Já foi vivo, hoje já não

Naquele cavalo branco
Galopando a noite insana
Sorri sob seu chapéu
Sob a Lua soberana
Se afastando da cidade
Sob vento e liberdade
Sorri leve Tatiana

Do alto de um penhasco
Alto como um arranhacéu
Procurando seus iguais
A fumaça busca o céu
E às nuvens se mistura
Para enfeitar a pintura
Do lugar, que é um painel

Dali de cima, Tatiana
Que já trocou sua roupa
Sentada olha pro mundo
Tomando um prato de sopa
Há tanto vivendo assim
Mas o Destino, por fim
Sua vida sempre poupa

No alto desse penhasco
Só uma árvore há
Nela um cavalo amarrado
Pra não fugir do lugar
É só um cuidado dela
Numa paisagem tão bela
Quem ia querer escapar?

E ela sorri para o mundo
Sorri pra Lua, pra Vida
Apaga a fogueira feita
Se deita ao chão estendida
Muitos dela iam ter pena
Mas, grata, ela ainda acena
À Natureza servida

Como cantigas de banjo
Raios dourados do Sol
Lhe vêm dourando o deserto
Dizendo: não estás só
E ela sorri lá por onde
Com olhos negros, responde,
Herdados de sua avó

Ainda era muito cedo
E a fogueira, no canto
Apagada, abandonada
Pra trás ela foi deixando
Some o dourado do dia
E o ouro permanecia
Em seu revólver brilhando

Corria como selvagem
O seu cavalo sem nome
Pelo deserto parece
Ser de vento a sua fome
De alma tão livre e ufana
Que se não fosse Tatiana
Não havia quem lhe dome

Ela nunca leva mapas
Nada lhe pode guiar
Sem Sol, estrelas ou setas
Livre como águia no ar
Atravessando o deserto
Sem ter um destino certo
Indo pra qualquer lugar

Por baixo do seu chapéu
Tão poucos anos de idade
Entre menina e mulher
Pára e a alegria invade
Sorri e some de vista
Tão logo ao longe ela avista
Parte pra nova cidade

A cidade é bem pequena
Como tantas por aqui
Com gente desconfiada
Com prédios por construir
E ela, uma forasteira
Vê a cidade inteira
Estranhando ela surgir

Enquanto ela entrava
Por um lado da cidade
E o povo fechava a cara
Com temor e ansiedade
Por outro, vinha ligeiro
Um bando de forasteiros
Perigosos de verdade

Cinco filhos do deserto
A poeira os pariu
Rudes, fortes e perversos
Armados, assim se viu
Que assim como Tatiana
Vagam sem rumo e sem grana
Com a vida por um fio

Ao adentrar a cidade
Pra conhecer o lugar
Como era seu costume
Tatiana vai ao bar
Como sempre nessa vida
Não é tão bem recebida
Mas só finge não notar

Mas o sorriso sincero
Que ilumina esse momento
Deixa a dúvida no ar
Será que é só fingimento?
A sua simplicidade
Parece ingenuidade
Da filha do Sol com o Vento

Lá fora o bando chegado
Para evitar problema
Está na delegacia
Rendendo todo o sistema
Pois assim, ao ir roubar
Ninguém vai atrapalhar
E a vitória será plena

Logo partem para o banco
Cinco armados forasteiros
Anunciando o assalto
Pedindo todo o dinheiro
Os funcionários com medo
Obedecem, sem segredo
Pra tudo acabar ligeiro

No bar está Tatiana
O barman e mais ninguém
Entediada com isso
Resolve sair também
O povo se escafedeu!
Ela paga o que bebeu
Com o pouco que ela tem

No caminho de saída
Daquela cidade triste
A sorte muda de rumo
E uma confusão assiste
Vêm os cinco forasteiros
Trazendo todo o dinheiro
Do assalto que ora viste

Debaixo de seu chapéu
Sorri Tatiana de novo
Pára no meio da estrada
Quando vem aquele povo
O cavalo ela pára
E os cinco ela encara
Como quem fita um estorvo

- Saia já da minha frente
Cavaleiro desgraçado
Outra opção: eu te mato
Se isso for do seu agrado
Se quiser uma disputa
Você não terá ajuda
Já prendi o delegado

O vento corta o silêncio
Com sua harpa aparente
O sorriso de Tatiana
Diz que ela não sai da frente
Encara sem medo ou pranto
E para causar espanto
Responde ela prontamente

- Ninguém mandará em mim
Eu só vim beber um vinho
Vocês que voltem por lá
Eu estou no meu caminho
E estou no meu direito
Vocês é que dêem jeito
De sumirem rapidinho

Dois do cinco prontamente
Engolem a gargalhada
Ao avistarem o líder
Com a cara enfezada
Salta do cavalo ao chão
Com o revólver na mão
E a arma carregada

- Se você foi beber vinho
Bebeu mais do que devia
Somos cinco, você uma
E com tanta valentia!
Mas temos tempo, eu sinto
Vamos ver se encara os cinco
Na cama da hospedaria

Ela levanta o chapéu
Mostrando seus olhos pretos
Trazendo o mesmo sorriso
Frente à falta de respeito
Sem temer, ela somente
Desce e dá um passo à frente
E responde desse jeito

- Não vou mais perder meu tempo
Com gente da sua laia
Eu vou contar até três
Pra que todo o grupo saia
Da minha frente num giro
Ou senão eu mesma tiro
Sei que são fogo de palha

Terminando a discussão
Os cinco se aborreceram
Botaram armas nas mãos
De seus cavalos desceram
Apertaram o gatilho
Mas suas armas sem brilho
Nunca mais obedeceram

Os cinco com ela na mira
No gatilho, dedo e urgência
Mas os tiros que ouviram
Na cidade em decadência
Vieram do outro lado
Ela fez, como um tornado
Cinco tiros em sequência

Logo após o tal barulho
Perdem a força na mão
Sem disparar um só tiro
Um a um, despenca ao chão
Tatiana vê seu feito
Uma bala em cada peito
Cada uma, um coração

Ela volta ao seu cavalo
Sem fazer qualquer esforço
Guarda a arma e olha o céu
Alongando o pescoço
Passa pelos forasteiros
Com seus sacos de dinheiro
Bota umas notas no bolso

Tatiana vai embora
Da cidade onde lutara
Com um sorriso no rosto
E a lembrança das falas
Sobrevivera por pouco
Em seu revólver de ouro
Só cabiam cinco balas

O Sol ficando mais forte
Ela cavalga igual
Recoloca cinco balar
No tambor e limpa e tal
O revólver ajustando
E sorri cantarolando
Qualquer cantiga rural

Segue livre no deserto
Como quem paga promessa
Seguindo o próprio caminho
Sem nada que a impeça
Sozinha no seu cavalo
Viaja pra todo lado
Mas que viagem é essa?

Sorri Tatiana assim
Sob esse céu sem medida
Como quem está nem aí
Brincando co'a própria vida
Nessas terras não há mais forte
E ela sempre vence a Morte
Pois da Sorte é protegida

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