sétimas

Taverna 8 Bits - Outras Cores

No Reino do Cogumelo
Num bar, sem ter mais ninguém
Dois caras bebem, conversam
Sobre o passado também
Luigi, o encanador
E um galego lutador
De Street Fighter, o Ken

Luigi vira um copo
E reclama para o amigo
“É triste: tanto eu me esforço
Eu pulo, eu corro, eu brigo
Pra no fim Mario, meu irmão
Ser exaltado, e eu não
Você entende o que eu digo?”

“Sei que você também sofre
Nossa história é parecida
Também se mata em disputa
E sua luta é esquecida
Pode ser bom no kung-fu
Mas tu é sombra do Ryu
Como é triste a nossa vida”

O Ken balança a cabeça
Bebe e começa a falar
“Você não sabe de nada
Só sabe é reclamar
Sombra, aqui, só você
E o que eu luto é karatê
Mas vamos continuar”

“Você é uma criancinha
Chorando sem ter razão
Pode ser sombra do Mario
Mas ganhou jogo, eu não
Seja homem, pra que chorar?
Pois saiba que ouvi falar
Da sua imensa mansão”

Luigi diz: “É verdade
Tive jogos afinal
Mas o que mais me dói hoje
É que nasci tão banal
Lá no primeiro que teve
Eu era só o “Mario verde”
Isso me deixa tão mal”

Ken sorri e coça o queixo
E diz “Pior que é verdade
Era um tempo bem estranho
Na nossa realidade
Muitos jogos foram assim
Poucos recursos, no fim
A cor era a Identidade”

“E você lembra o Diablo?
Aquilo era bem pior!
Você enfrentava esqueletos
Brancos, sem qualquer valor
E ao descer mais, os perigos
Vinham novos inimigos
Iguais, só mudando a cor”

Luigi sorri e alisa
O se redondo bigode
E diz “Já vi esse jogo
Quem jogou muito foi o Toad
Lembro que as cores mudavam
Tinha até uns que brilhavam
Lá no escuro, vê se pode!”

“Essas mudanças de cores
Eu fui vítima, que eu sei
Por isso há muito tempo
Que isso também pesquisei
Chamam 'troca de palheta'
Mudavam fundo e planeta
Poupar memória era a lei”

“Mas o pior que já vi
A que era mais descarada
Não foi em jogo de luta
Foi Futebol, que jogada!
O boneco é repetido
Muda só o colorido
E os times vêm em enxurrada”

O Ken bebe outra dose
Depois gargalhando à beça
Diz: “O pior é que é mesmo!
O povo pregava peça
Com você foi bem igual
Ainda bem que, no final,
Por pouco eu escapei dessa!”

Luigi decepcionado
Responde: “Olha pra tu!
Só porque é americano
Galeguinho do óio azul
Acha que é diferente
Mas você é simplesmente
Uma cópia do Ryu”

“Pra ser cópia não precisa
Mudar só a cor, garanto!
Você tem os mesmos golpes
Que o tal de kimono branco
Você é muito parecido
Personagem repetido!
Desça já desse tamanco”

O Ken não gosta daquilo
Daquela provocação
E se levanta da mesa
Já fechando a sua mão
E diz: “Se tiver coragem
Eu te mostro minha mensagem
Numa surra, uma lição”

O Luigi diz que não
Com a cabeça a balançar
Se levanta e vai pra porta
E diz: “Não nesse lugar
Não acabou entre nós
Te vejo no Smash Bros
Se tem peito de ir pra lá.”

– Cárlisson Galdino

Special: 

Do Livre e do Grátis

Cordel Do Livre e do Grátis

No mundo tecnológico
A gente escuta falar
Sobre um monte de programas
Que se pode utilizar
Sem precisar muito esforço
Nem botar a mão no bolso
Isso costuma animar

São programas mais diversos
Que muitos chamam de "free"
Mas isso tem um problema
Que está na palavra em si
Pois esse "free" pode ser
Livre ou grátis, e você?
Você sabe diferir?

Pois é disso que se trata
Esse cordel na sua frente
Vou te mostrar com cuidado
Que é muito diferente
Livre e grátis, mesmo que
Em inglês chamem de "free"
Português é mais decente

Ao conseguir um programa
Sei que isso é bem confuso
Mesmo quando você compra
É o programa que é incluso
Pois saiba que o principal,
O que se compra afinal,
É a Licença de Uso

Isso é um documento
Que te diz em legalês
O que pode ou não fazer
Documento que alguém fez
São deveres e direitos
E assim não tem mais jeito
A não ser seguir as leis

Se o programa é colocado
Num site da internet
Pelo próprio fabricante
Pra que todo mundo pegue
"Estou livre", você pensa
Mas ainda tem licença
Que você se compromete

Quando se diz de um programa
Que é gratuito, quer dizer
Que não precisa dinheiro
Para aquilo a gente ter
Mas aquilo não é nosso
Não quer dizer que eu posso
Fazer tudo o que quiser

Grátis é sobre dinheiro
O que é livre é pra voar
O grátis é pessoal
Livre é pra compartilhar
Os dois têm o seu limite
Mas o do livre existe
Pro direito propagar

Para você ver melhor
A diferença tão viva
Entre o livre e o grátis
Vou parar a narrativa
Pra do jeito que eu puder
Te explicar quando é
Que um programa é livre

Para ser considerado
Sendo livre de verdade
Um programa tem que ser
Pela solidariedade
Quem recebe um desse jeito
Tem que ter certos direitos
São as quatro liberdades

A primeira liberdade
Fala da utilização
De usar esse programa
Sem ter qualquer excessão
Em qualquer necessidade
Pra qualquer finalidade
Em qualquer situação

A segunda liberdade
Tem a ver com o estudo
Entender como ele é feito
E se eu quiser eu mudo
Para ver no que é que dá
Também posso melhorar
Podemos bolir em tudo!

A terceira liberdade
É a de distribuir
Para quem você quiser
Quem quiser adquirir
Multiplicar, quem diria?
Não é mais pirataria
Pelo menos não aqui

A última liberdade
É para a evolução
Pra melhorar o programa
Aumentando sua função
E a sua utilidade
E no fim, a novidade
Espalhar com satisfação

Todo software livre
Vem também com uma licença
Mas como há muito programa
Seguindo a mesma sentença
Licenças são reusadas
Facilitando a jornada
De quem lê cada licença

Também ele dá acesso
À forma como foi feito
O tal de código-fonte
Pra usarmos os direitos
Pode ser inspecionado,
Espalhado, melhorado,
Socialmente ele é perfeito!

Para um programa ser grátis
Há mil modos, mil efeitos
Pra facilitar o estudo
Separamos em conceito
Porém, veja se não pensa
Que usam a mesma licença
Eles não são desse jeito

Existem uns limitados
São sharewares e demos
Existem na versão paga
E essa outra que nós vemos
É a versão mutilada
Que eles deixam limitada
Pra que nós experimentemos

Há quem limite os recursos
Escondendo alguns botões
Outros limitam no tempo
Ou contam execuções
Pro usuário acostumar
E depois ter que comprar
Pra não ter limitações

Há os que são freewares
São gratuitos pra usar
Alguns pedem doação
Ou um convite pro bar
Talvez um cartão postal
Mas é sempre opcional
Só se o usuário gostar

É legal por ser de graça
Mas cabe a preocupação
E se não for mais assim
Em uma nova versão?
E acontecer de a gente
Se tornar bem dependente
Como fica a situação?

Outra coisa a estar atento
Em programas desse tipo
É sobre a situação
Em que isso é garantido
Ele é grátis para quem?
Nisso limitam também
Esse povo é bem sabido

Tem grátis que só permite
Que a gente use em casa
Grátis só para os States
Grátis, mas não para a NASA
Grátis só pra educação
Só pra uma instalação
Que se leia e que se faça

E o programa, sendo assim
Quem garante que ele não
Captura os seus dados
E manda pro Uzbequistão?
O programa é fechado
E a gente tá lascado
Se ele for um espião

Assim a gente percebe
Que nessa situação
Esse grátis é problema
Não é para tudo não
Você não pagou, tá massa
Mas mesmo sendo de graça
Ainda há limitação

Programas têm que ser livres
Você nota facilmente
Mas isso não quer diz
Dar o código somente
Há casos, na realidade.
Meia e falsa liberdade
É um problema recente...

O primeiro desses casos
Que eu irei relatar
É quando o programa é livre
Mas para modificar
Muita coisa necessita
Muita coisa que é restrita
Para poder compilar

De que adianta o direito
De mudar todo o programa
Se pra gerá-lo de novo
E dar vida às mudanças
Usa um compilador
Que o seu fornecedor
Tornou fechado, sem drama?

O programa será livre
Mas será bem limitada
Essa liberdade aqui
Não como ela é desejada
Pois você pode mudar
Mas pra mudança aplicar
Depende da presepada

Para evitar o problema
Meu caro programador
Escolha bem sabiamente
Dentre o que tem a dispor
As melhores ferramentas
Também livres, bem isentas
Que assim será melhor

Outro caso acontece
Lá nos Estados Unidos
Querem eles que aconteça
Em todo canto e sentido
A nova praga é somente
O uso da tal patente
Protegendo o algoritmo

O programa é escrito
É livre, pode olhar
Mas a tarefa que faz
Alguém em outro lugar
Teve a ideia primeiro
E foi correndo ligeiro
Para ela patentear

Assim o programa, livre
Tudo certo e ajustado
Precisa de uma licença
Para poder ser usado
Uma  licença diferente
Autorizando a patente
Vê que triste resultado!

A tal patente de software
Essa praga que se fez
Por enquanto aqui não vale
Mas pra esse mal não ter vez
Foi criada uma licença
Livre e livre da doença
É a GPLv3

Meu caro programador
Para evitar dependência
No seu programa, que é livre
Dessa armadilha tão tensa
O programa que criar
Quando você for lançar
Pode usar essa licença

Uma coisa que ela faz
Contra esse mal que foi dito
O direito da patente
Quando o software é cedido
Se o fornecedor tiver
Patente que se requer
Pode usar, está subentendido

Vejam como é complicado
Temos um nobre conceito
Que tanta gente defende
Pra nos garantir direitos
Mas também sempre vai ter
Um que queira distorcer
Só para tirar proveito

Caro amigo, pois prefira
Ser alguém com liberdade
Nunca foi questão de preço
Mas poder à Sociedade
Segurança e independência
Compartilhar a ciência
Pela solidariedade

Esteja atento toda hora
Pro que pode acontecer
Liberdade é valiosa
Cuidado pra não perder
Atenção a todo instante
Todo detalhe é importante
Ou pode se desfazer

Cuidado com as armadilhas
Que encontrar pelo caminho
Seja livre e se preocupe
Também com o seu vizinho
Valorize a Liberdade
Tenha solidariedade
Não se é livre sozinho

Special: 

Briga de Ego

Pra edição deste mês da Revista Espírito Livre, bolei uma poesia estilo disputa de repentistas. É Briga de Ego. Espero que gostem (ou pelo menos entendam... :-P)

Você é cabra safado
Você não sabe de nada!
O seu código é tronxo
A classe é mal comentada
Você é um analfabeto
Nem português 'screve certo
Seu programa é uma piada

Você lá tenha cuidado
Com o que está a dizer
Eu escrevo bem direito
Python, C, PHP
C++, Lisp, Haskell
Cobol, Java, Ruby, Perl
Assembly, shell, e você?

Todas essas e ainda mais
Ken Tompson era pentelho
Pois fui eu quem fez o B
Em bytecode, fui o primeiro
Prestei suporte PRA Dell
E até hoje, sobre o Perl
Larry Wall me pede conselho

Michael Dell é meu cumpadre
E nunca disse seu nome
Quando o mundo era Window Maker
Eu escrevia o GNOME
Fiz mais da metade em casa
Quando o Miguel de Icaza
Ainda vivia com fome

Eu já vi o seu programa
Todo feito de remendo
Não se entende quase nada
Quando roda, ele é mais lento
Que jumento na campina
Isso quando não termina
Num completo travamento

Você me tenha respeito
Seu newbie desgraçado
Eu sempre sigo padrões
Comento bem comentado
Pago até mais do que devo
Todo programa que escrevo
É todo certificado

Se eu tivesse o seu dinheiro
Ganho enrolando o povo
Certificava até GIF
Isso pra mim é estorvo
Que importa é lá no fonte
O seu gambiarra tem um monte
E nisso ele me dá nojo

Ora, quem está falando!
Olho nas declarações!
Já disse que escrevo certo
Eu sempre sigo os padrões
Se não entende, paciência,
Mas é por incompetência
Falta de estudos, dos bons

Padrões, não me faça rir
Só se for o tal do POG
Você é cabra safado
Escreve torto e é esnobe
Cada arquivo que salva
Leva ao inferno uma alma
E o fedor logo cobre

Você gosta de agredir
Seu palerma, seu banana!
Nem sei o que quer aqui
Me deixe que eu tenho gana
Meu projeto é um mundão
Vou lançar nova versão
Ainda nesta semana

É disso que vim falar
Você não entende, pivete
Seu programa tem um bug
Um looping (e se repete)
Assim não tem quem aguente!
Pra corrigir, simplesmente,
Vim lhe trazer esse patch

Gênero: