redondilhas maiores

Briga de Ego

Pra edição deste mês da Revista Espírito Livre, bolei uma poesia estilo disputa de repentistas. É Briga de Ego. Espero que gostem (ou pelo menos entendam... :-P)

Você é cabra safado
Você não sabe de nada!
O seu código é tronxo
A classe é mal comentada
Você é um analfabeto
Nem português 'screve certo
Seu programa é uma piada

Você lá tenha cuidado
Com o que está a dizer
Eu escrevo bem direito
Python, C, PHP
C++, Lisp, Haskell
Cobol, Java, Ruby, Perl
Assembly, shell, e você?

Todas essas e ainda mais
Ken Tompson era pentelho
Pois fui eu quem fez o B
Em bytecode, fui o primeiro
Prestei suporte PRA Dell
E até hoje, sobre o Perl
Larry Wall me pede conselho

Michael Dell é meu cumpadre
E nunca disse seu nome
Quando o mundo era Window Maker
Eu escrevia o GNOME
Fiz mais da metade em casa
Quando o Miguel de Icaza
Ainda vivia com fome

Eu já vi o seu programa
Todo feito de remendo
Não se entende quase nada
Quando roda, ele é mais lento
Que jumento na campina
Isso quando não termina
Num completo travamento

Você me tenha respeito
Seu newbie desgraçado
Eu sempre sigo padrões
Comento bem comentado
Pago até mais do que devo
Todo programa que escrevo
É todo certificado

Se eu tivesse o seu dinheiro
Ganho enrolando o povo
Certificava até GIF
Isso pra mim é estorvo
Que importa é lá no fonte
O seu gambiarra tem um monte
E nisso ele me dá nojo

Ora, quem está falando!
Olho nas declarações!
Já disse que escrevo certo
Eu sempre sigo os padrões
Se não entende, paciência,
Mas é por incompetência
Falta de estudos, dos bons

Padrões, não me faça rir
Só se for o tal do POG
Você é cabra safado
Escreve torto e é esnobe
Cada arquivo que salva
Leva ao inferno uma alma
E o fedor logo cobre

Você gosta de agredir
Seu palerma, seu banana!
Nem sei o que quer aqui
Me deixe que eu tenho gana
Meu projeto é um mundão
Vou lançar nova versão
Ainda nesta semana

É disso que vim falar
Você não entende, pivete
Seu programa tem um bug
Um looping (e se repete)
Assim não tem quem aguente!
Pra corrigir, simplesmente,
Vim lhe trazer esse patch

Gênero: 

Cordel da Pirataria

Naquele tempo antigo
Dos grandes descobrimentos
Navios cruzavam mares
Levando dor e tormento
Às terras por toda a vida
Fossem novas ou antigas
Sem respeito e violentos

Iam à costa africana
Com suborno ou então bravos
Deixavam terra levando
Dezenas de homens, escravos
Outros levavam empregados
E muitos deles, coitados,
Eram mortos por centavos

Esses homens nesses barcos
Dominavam o mar selvagem
Subjugando outros povos
Mas tinham uma boa imagem
Pois nos livros de História
Ainda hoje levam glória
Por cada dessas viagens

Nesse mar, sem ter direito
A ter u'a vida de gente
Muitos se reagruparam
Num caminho diferente
Nessa realidade ingrata
Criaram as naus piratas
E enfrentaram o mar de frente

Piratas, os homens livres
Diferiam dos demais
Dentro da embarcação
Tinham direitos iguais
Cultivavam parceria
Contra toda a tirania
Confrontando as naus reais

Atacavam naus tiranas
Roubando o que foi roubado
Matavam os ocupantes
Escravos, são libertados
Onde gastar o obtido?
Tudo o que era conseguido
Mundo afora era trocado

Esses eram os piratas
Daquela época esquecida
Que se ergueram contra reis
Nessa tortuosa vida
De "crimes", mas foi assim
Pois em alto mar, no fim,
Não tinham outra saída

Mas vamos falar agora
De algo dos dias atuais
Que é estranho e nasceu
Já nem tanto tempo faz
Hoje o tema da poesia
Chamam de pirataria
E os direitos autorais


Para contar essa história
De leis, direito e valor
Temos que entender primeiro
Como a gente aqui chegou
Por isso, como esperado
Vamos voltar ao passado
Onde tudo começou

No ano de 62
Do século XVII
O país, a Inglaterra
E a censura, um canivete
Cortava a produção
De tudo que era impressão
Pois besta em tudo se mete

E os livreiros desse tempo
Cada editora antiga
Precisava de um aval
Para que imprimir consiga
O aval do Rei, do Estado
Que se não for do agrado
Deles, a impressão não siga

Um monopólio formado
Pra controlar a leitura
Terminou dando poderes
Além do que se procura
Dessa forma os livreiros
Cresceram muito ligeiro
Nessa forma de censura

Já no século XVIII
Bem lá no ano de 10
Naquela mesma Inglaterra
Uma nova lei se fez
Hoje ninguém lembra mais
De direitos autorais
Foi ela a primeira lei

Right em inglês é direito
E copy é copiar
O Estatuto de Anne
Só disso ia tratar
Direito direcionado
Aos livreiros, que afetados
Tinham que se acostumar

Pois copyright falava
De cópia em larga escala
E o direito é o monopólio
Sobre cada obra criada
E esse direito, notamos
Durava quatorze anos
E o monopólio acabava

Note que essa nova lei
Não veio favorecer
Os livreiros da Inglaterra
E o monopólio a nascer
Não era bem algo novo
E era o bem ao povo
Que essa lei veio fazer

Nasceu o Domínio Público
Nesta distante Idade
Os livreiros exploravam
Seus direitos à vontade
Mas terminado o prazo
Toda obra era, no caso
Doada à Humanidade

Os livreiros reclamaram
Pedindo ampliação
Para aquele monopólio
Mas não teve apelação
Pois se fosse concedida
Mais outra seria pedida
E o prazo seria em vão

Isso lá naquele tempo
Eles podiam prever
Que se o prazo aumentasse
De novo iam querer
Sempre após mais alguns anos
E o prazo se acumulando
No fim "pra sempre" ia ser

Mas o mais interessante
Pros livreiros e editores
É que o que eles previam
Houve com novos atores
E hoje o direito autoral
Vale tanto, que é anormal
Pra agradar exploradores

Por que, vê se faz sentido
A desculpa que eles dão
Pra monopólio de livros
É incentivo à criação
Se é assim, por que, ora pois
Ele dura anos depois
Da morte do cidadão?

Que eu saiba depois de morto
Eu garanto a você
Por grande artista que seja
Ele não vai escrever
Só se for, caso aconteça
Com um médium, mas esqueça
Não é o que a Lei quis dizer

O direito agora vale
Por toda a vida do autor
Depois mais setenta anos
Depois que a morte chegou
Pra incentivar o defunto
Mesmo estando de pé junto
Continuar a compor

Por que funciona assim
Não é difícil notar
"Incentivo" é só desculpa
Para o povo aceitar
Quem lucra são editores
Sendo atravessadores
É a Lei da Grana a mandar

As empresas mais gigantes
Que corrompem os governos
Que publicam propagandas
De produtos tão maneiros
Com um gigantesco ganho
Artistas são seu rebanho
E a Lei garante o dinheiro

Toda essa exploração
Funciona desse jeito
O pobre artista cria
O seu trabalho perfeito
Um trabalho bom e novo
Ele faz é para o povo
Poder ver o que foi feito

Para o povo ter acesso
Ao que ele produziu
Não é algo assim tão fácil
Atingir todo o Brasil
Pra isso que produtores,
Gravadoras, editores
Tudo isso se construiu

Porém esse monopólio
Garantido ao autor
É o preço que eles cobram
Pra fazer esse "favor"
Se a editora tem confiança
Facilmente a obra alcança
Além do que se sonhou

O autor perde o direito
Sobre a sua criação
Quem vende é atravessador
E lhe paga comissão
Alguns centavos pingados
E o maior lucro somado
É da empresa em questão

Vejam só que curioso
São "direitos autorais"
Mas pra chegar no mercado
Alguns contratos se faz
E os direitos de repente
A que tanto se defende
Do autor não serão mais

Como se vendesse a alma
Para uma empresa privada
Nem ele pode copiar
A obra por ele criada
Mesmo quando ele morrer
A empresa é que vai dizer
Como a obra é usada

Autores bem talentosos
Que se encontram no caixão
Sem obras suas à venda
Com fãs, uma legião
Mesmo a pedidos dos fãs
Toda essa força é vã
Pra ter republicação

Pois o direito estará
Numa empresa transferido
Que é quem dirá se é viável
Atender a esse pedido
E se ela não publicar
Nenhuma outra poderá
Pois o direito é exclusivo

Esse jogo de direitos
Ilude a maioria
Dos artistas existentes
Como uma loteria
Onde muita gente investe
Mas pra poucos acontece
Algum sucesso algum dia

E os artistas que investiram
Enriquecendo a empresa
Olham para os de sucesso
Não percebem serem presas
Sonhando chegarem lá
Seguem a financiar
Essa indústria com firmeza

Quem tem direito exclusivo
Cobra o quanto quiser
Esse é o mal do monopólio
Mas sempre é assim que é
Quando surge alternativa
A essa prática nociva
Reclamam, não saem do pé

Copiar é ilegal?
É, mas a Lei que hoje vale
Foi feita por essa gente
Que corromper tudo sabe
Alterando o Direito
Para funcionar do jeito
Que melhor a elas agrade

Desde os tempos mais antigos
Alguém canta uma cantiga
Outro aumenta um pouquinho
E ela cresce e toma vida
Na cultura popular
Logo ela se tornará
Bem melhor do que a antiga

Com cultura é desse jeito
Que se faz evolução
Sempre se inspira nos outros
Na imagem, prosa ou canção
Do Teatro à Literatura
Cultura gera cultura
Não queira fingir que não

Hoje com toda mudança
Que fizeram, quem diria?
Compartilhar e expandir
Chamam de Pirataria
E o direito à cultura?
Criou-se uma ditadura
Como há muito se temia

O que querem impedindo
O poder da interação
É tornar todos iguais
Seja massa a multidão
É uma questão de Poder
Pra mais lucro acontecer
Todos com o mesmo feijão

Deixo então esta pergunta
Que ainda não tem solução
Num país de tradições
Que futuro elas terão?
O que será da cultura
Vivendo na ditadura
Dos livreiros, da opressão?

Piratas no fim das contas
Apoiavam igualidade
Hoje chamam de pirata
Quem age contra a maldade
E compartilha o que tem
Dando cultura por bem
Quem tem solidariedade

P.S.: Arte de capa do meu xará Karlisson Bezerra.

Special: 

Peleja de Pelé contra Roberto Carlos

Meus amigos que acompanham
Esta rádio pela antena
Hoje temos dois gigantes
Duelando na arena
Rei do esporte e da cantiga
Atenção para essa briga
Ela não vai ser pequena

É o rei do futebol
Pelé, como é conhecido
Há muito aposentado
Um jogador bem vivido
Vindo aqui mostrar seu jeito
Está do lado direito
Pra provar que é mais sabido

No outro lado desta arena
Temos outro renomado
Disputando com Pelé
Para tentar derrotá-lo
De talento que agrada
É o rei da Jovem Guarda
É o rei Roberto Carlos

A disputa desses dois
Não será no futebol
Roberto jogar não pode
E o Pelé não joga só
A disputa desses dois
Será decidida, pois
Em repente sob o Sol

Pode parecer vantagem
Pro Roberto talvez seja
Pois ele é compositor
Mas Pelé vencer deseja
E é enfim chegada a hora
Vejam a arena agora
Que comece a peleja

Sou o Rei Roberto Carlos
Na disputa vou embora
Pelé não ganha de mim
Pois tenho uma longa história
Na música brasileira
Sou o Rei, não é brincadeira
Eu sou uma brasa, mora?

Quando eu estou aqui
Vivo um momento lindo
Muitos vêm torcer por mim
Todo mundo é bem-vindo
Vou ganhar, isso é normal
Pelé antes do final
Vai acabar desistindo

Você é o rei do futebol
O mais importante esporte
Mas nessa disputa hoje
Seu reinado pouco importe
Pois no canto e criação
O Pelé não tem vez não
Pois só no campo é forte

Nem sei porque falei tanto
Nem precisa tanto assim
Pois sou o rei da canção
A taça pertence a mim
Nem devia ter disputa
Mas se querem, a gente luta
Se você tá mesmo a fim

Já cantei de tanta coisa
Por protesto e por prazer
Por amor e por saudade
E o que tinha pra dizer
Hoje já está falado
Eu já falei um bocado
Fale um pouco de você

Roberto da Jovem Guarda
É o rei nesse reinado
Mas Pelé não é bagaço
Para ser ignorado
Além de ser jogador
Pelé já foi de cantor
Já teve disco gravado

Se você correu o mundo
Pelé já correu também
Sua voz viajou longe
Pelé foi mais longe além
E se há tanta gente boa
Sempre manteve a coroa
Nunca perdeu pra ninguém

O Pelé já foi ministro
Você nunca, que eu recorde
Se quiser ter uma chance
Deixa de moleza e acorde
E peleje de verdade
Pois todo mundo já sabe
Cão que ladra não me morde

O Pelé foi influência
Pra mais de uma geração
Muito mais do que ser rei
Foi a luz na escuridão
E num país em apuro
Foi uma luz no futuro
A esperança da nação

Por isso não se estufe
Não fale o que bem entende
Pois sei que o rei Roberto
Não é tudo o que ele vende
Nessa disputa acirrada
Não vai te sobrar é nada
Essa eu já ganhei, entende?

Meu caro Edson Arantes
Essa briga vai ser boa
Mas não fale do Pelé
Como fosse outra pessoa
Desse jeito colocado
pareces um retardado
Isso bonito não soa

Roberto, fique na sua
Pois Pelé é o Pelé
Como falo não te importa
Falo como eu quiser
Sem força pra chegar junto
Fica mudando de assunto
Bom isso não é, entende?

Se você prefere assim
Não tenho nada com isso
Vamos à disputa logo
Tenho outro compromisso
Pois meu trabalho afinal
É intelectual
Não é força bruta, bicho

Roberto, você ofende
Todos falando assim
Pega mal ofender todos
Querendo ofender a mim
Futebol é uma arte
O físico é só uma parte
Que você nem tem por fim

Se for pra ganhar milhões
Correndo atrás de uma bola
Queria ter a outra perna
Perfeita, não como agora
Vocês no topo da escada
Por fazerem quase nada
Recebem milhões em dólar

Como se você fizesse
Esforço, cê não precisa
Ganha milhões em dinheiro
Sem nem suar a camisa
Faz um show de fim de ano
E a vida vai levando
Na água de côco e brisa

Se faço show todo ano
É que o povo me adora
E eu me esforço compondo
Fazendo show mundo afora
Quando eu não apareço
Tou na vida que "mereço"
É de ensaios toda hora

Pois assim é com a gente
Com quem vive de um esporte
Quando não está na TV
Treina pra ficar mais forte
Futebol é uma arte
Exigente em toda a parte
Férias tem só quem tem sorte

Essa arte de que falas
É discurso, é isso só
Molecada deixa a escola
Tantos que até tenho dó
'mbora muita gente tente
Muitos viram é delinquentes
No sonho do futebol

Não fale tanta besteira
Dessa arte que é tão bela
Futebol joga o rico
E o pobre da favela
Quero ver a arte que é sua
Tirar crianças da rua
Dando esperança a elas

Tudo bem, é uma arte
Futebol que você vende
Mas a disputa desviou
A disputa é entre a gente
E você não é problema
Pra não desviar do tema
Só quem é inteligente

Quem desviou foi você
Mas isso nem vem ao caso
Pois Pelé é inteligente
Não foi ministro ao acaso
E você, Roberto irmão
Cheio de superstição
Você é um prato raso

Qual o prato que é melhor
Deixo ao povo da cozinha
Na canção eu me garanto
Se eu fosse você, nem vinha
Ficava no seu reinado
Com a fama de viado
Que eu soube que cê tinha

De onde foi que tirou isso
Essa fama nunca fiz
Você não tem argumento
Só besteira agora diz
A Xuxa já namorei
Com ela só não casei
Porque eu não quis, entende?

Duvido muito, mas deixa
A disputa é no argumento
Não quero levar um chute
De um homem violento
Na fama sua alcançada
Rasteira e cotovelada
Sem demonstrar sentimento

Tudo o que eu disputei
Desse jeito resolvido
Não foi por mal que ocorreu
Foi por um mal entendido
E você, grande que alega
Terminou cantando é brega
Não é sabido, entende?

Não fale do romantismo
Se tiver pouca cultura
É preciso inteligência
Pra entender a candura
Do que escrevo hoje em dia
Você não entenderia
Se forçar, terá loucura

Pelé não é ignorante
Você não compreendeu
Preferiu parar o jogo
Sabe que a idade venceu
Não insiste na carreira
Senão vai fazer besteira
Igual contigo aconteceu

Se continuo cantando
É que ainda há talento
Diferente de outro rei
Que parou lá num momento
Com medo da decadência
Pois a sua inteligência
Era um frágil instrumento

É melhor ser recordado
Como rei de eterno brilho
Parei de jogar faz tempo
Mas na história fiz meu trilho
Uma carreira perfeita
Reinado que o mundo aceita
Não sou um rei só pro filho

Pelo que vejo, Pelé
Cada um tem seu orgulho
Seus defeitos e virtudes
Seu jeito de ver o futuro
Somos reis de dois reinados
Distintos e separados
Não dá pra quebrar um muro

É, Roberto, essa guerra
Já não tem nenhum sentido
Eu respeito a sua voz
E o sucesso conseguido
Você transmite emoção
Marcou uma geração
E ainda é ouvido

E você, caro Pelé
Bicho, você é o cara
No futebol, que é uma arte
Se ao fazer mil gols, cê pára
Seu reinado é soberano
Ainda vão fazer mil anos
Pra surgir quem te encara

Roberto, você é o rei
E humilde, eu agradeço
Esta é a sua praia,
A vitória não mereço
Você grande amigo é
Quisesse matar Pelé
Eu nem tinha endereço

Qual é, Pelé, camarada
Você lutou um bocado
E o duelo dessa vez
Está agora acabado
Saibam todos sem enganos
Somos dois reis soberanos
Somos reis de dois reinados

-- Cárlisson Galdino

O Castelo de Zumbis

Lá no meio de Alagoas
Num povoado distante
Morava um certo sujeito
Conhecido como Rand
Era o nome mais ligeiro
Pois seu nome verdadeiro
Era Ronaldo Alexandre

Rand vivia tranqüilo
Longe de qualquer estrada
Fazia tudo na terra
Mexia com boi e enxada
Mas a sua vaidade
Tava na realidade
De não ter medo de nada

Rand ainda costumava
Quando já no fim da tarde
De ler um livro qualquer
Quando ia pra cidade
Debatia com o irmão
Tinha sempre opinião
Essa era outra vaidade

Acontece que o Rand
Gostava de caminhar
De noite pra todo lado
Para a mente descansar
Já que ele não tem medo
Nem precisa voltar cedo
Tenha Lua ou sem luar

Numa dessas caminhadas
Foi que teve um caso estranho
Ele andava lá no sítio
Onde dormia o rebanho
E andando nessa terra
Foi que viu formar na serra
Um castelo bem tamanho

Um castelo tão gigante
Apareceu de repente
Que coisa mais sem sentido!
Que coisa mais diferente!
Sendo Rand curioso
Logo partiu ansiovo
Pro castelo à sua frente

Cada pedra do castelo
Era cinza e rocha nua
Havia um clima estranho
Nuvens tapando a Lua
Sem ter vento e a noite fria
E aos poucos se sentia
Um cheiro de carne crua

Rand achou curioso
Quando chegou no portão
Um barulho que se ouvia
Parecia assombração
E ele quis ver de perto
O portão estava aberto
E ele empurrou com a mão

Nem dava para ver nada
Naquele escuro de fossa
O salão era enorme
Tão escuro, minha nossa!
Ele triste "Pois danou-se
Que nem lanterna eu trouxe
Pra poder ver qualquer jossa"

Foi então que se lembrou
Do que estava bem ali
Bem no bolso da camisa
O que teima em possuir
Um isqueiro bem bonito
Aquele vício maldito
Pruma coisa ia servir...

Feliz por ter encontrado
Algo bom pra clarear
Acionou o tal isqueiro
Pra poder se orientar
E um barulho sem sentido
Lhe chegou no pé do ouvido
Como a morte a sussurrar

"Mas que barulho sinistro
Tou ouvindo lá de dentro
Se não for a Cinderela
Sorrindo e se escondendo
Coçando a unha do pé
Tenho certeza que é
Assombração se movendo"

Eram pés desengonçados
E uma barulheira brava
Enquanto gemia estranho
Alguém os pés arrastava
Ao invés de se mandar
Rand foi é investigar
Que coragem não faltava

Isqueiro pouco ilumina
Nesse escuro tão danado
Rand foi se aproximando
Curioso e sossegado
Quando viu uns dedos sujos
Esticados, de rabujos
Apontando pro seu lado

Era qualquer coisa estranha
Parecida com humano
Que queria lhe alcançar
E estava se esticando
Rand esticou o isqueiro
E assim pôde ver ligeiro
Quem estava ali chegando

Era uma criatura
Conhecida por zumbi
Mas não era um guerreiro
Qual no passado daqui
Que na Serra da Barriga
Conduzia uma briga
Não era ele aquele ali

Era um bicho que de morto
Já nem tinha mais assunto
E que mesmo sem ser vivo
Não queria ser defunto
Ao ouvir barulho ou fala
Se arrastava pela sala
Querendo lhe chegar junto

Com a cara deformada
Babando muita nojeira
Com as roupas aos pedaços
Fazendo uma barulheira
Vinha se aproximando
Rand encarou e foi quando
Reagiu dessa maneira

Deu um chute no zumbi
Com toda a força no pé
Que ele tombou pra trás
Como um saco de café
Gritando talvez de dor
No chão o zumbi rolou
"Vai-te embora, seu mané!"

"Onde foi que já se viu
Esse tipo de figura
Que vem querendo abraçar
Ou morder, mas que secura!
Vai-te embora com seu trapo
Que com gente assim nem trato
Pra não perder a postura"

E seguiu por essa sala
Prosseguindo na jornada
Foi então que encontrou
Uma porta escancarada
E pra ver o que é que tinha
Foi que entrou na cozinha
Tão escura e esticada

Ao entrar naquele canto
Uma alegria daquelas
Em cima de uma mesa
Tinha um monte de velas
E Rand tratou ligeiro
De usar o seu isqueiro
Para botar fogo nelas

Logo assim que terminou
Nem pôde aproveitar
Uma desordem danada
Começou a escutar
Passos e um barulho horrendo
Bando de gente gemendo
Naquele estranho lugar

Tudo estava iluminado
Quando aquele povo entrou
Na cozinha se arrastando
Na gemedeira de dor
Zumbi que n'acaba mais
E outros tantos vinh'm atrás
Foi quando Rand falou

"Acho que estou numa fria
Como vim pra esse inferno?
Que castelo tenebroso!
Me pareceu tão fraterno...
Quando cheguei pelo vento
Nem sonhei que aqui dentro
Vive esse horror eterno"

Mas enquanto ele falava
Não ficaram ali parados
Só prestando atenção
Com os seus braços cruzados
Nada! Vinha a trupe morta
Mais e mais cruzavam a porta
Com seus corpos estragados

Logo eles chegaram perto
Como o lobo e sua presa
Rand tratou bem depressa
De saltar logo pra mesa
E correu rapidamente
Pro longe de tanta gente
E no fim, uma surpresa

A cozinha nem tem porta
Para onde ele caminha
Atrás os zumbis vêm vindo
Já tomam toda a cozinha
Rand decidi ir em frente
E corre bem calmamente
Voltando por onde vinha

Correndo em cima da mesa
Mas sem tropeçar em nada
Nenhuma vela derruma
Longe da gente afobada
Todo zumbi tá lá dentro
Rand sai, num movimento
Tranca a porta de entrada

Logo Rand se encontrava
Naquela sala no escuro
Os zumbis tão na cozinha
Aqui deve estar seguro
E ele vai bem calmamente
Continua indo em frente
Sem medo de outro apuro

Parece ter outra porta
Logo mais ali na frente
E ele vai de curioso
Ver se lá é diferente
Pensando encontrar alguém
"Será que por cá só tem
Daquele tipo de gente?"

Nessa porta um corredor
De tamanho tão gigante
Que Rand quis percorrer
Para ver mais adiante
Quinze portas de um lado
Estava tudo trancado
Foi o que viu o andante

Com isqueiro pôde ver
Pois sobrava combustível
A sugeira dessa estrada
Que de imunda estava horrível
Muito grude pelo chão
Marcas de pé e de mão
Um mau cheiro indescritível

E no fim do corredor
Algo dava para ouvir
Não dava pra ver o que era
Mas Rand quis descobrir
Mesmo sabendo que o som
Não deve ser algo bom
Num lugar como esse aqui

E abriu a última porta
Que mostrou sem resistência
O interior da sala
Com toda sua presença
E o que viu à sua frente
De tudo era diferente
Foi estranha a experiência

Mas Rand soube escapar
Do Castelo dos zumbis
E tudo o que aconteceu
É assim como ele diz
Foi uma estranha viagem
Mas mesmo com sua coragem
Só escapou por um tris

Nunca mais teve notícia
Desse castelo depois
Vez ou outra some um
Nessas bandas, até dois
Ninguém sabe o que acontece
Com quem vai, desaparece
Perto do monte de bois

E o que viu naquela sala
Naquela estranha visão
Era a origem dos zumbis
E causou uma confusão
Na sua sabedoria
Era que o zumbi nascia
É de ver televisão

Por isso, caro leitor
Seja logo alguém astuto
Aprenda por conta própria
A deduzir sobre tudo
Pensamento e decisão
É o que dá distinção
Do homem pro bicho bruto

Não acredite de pronto
Em tudo o que você vê
Estude e queira pensar
Pois isso é bom pra você
E leia o que conseguir
Pra não virar um zumbi
Criado pela TV

Special: 

Um Conto no Oeste

Do cano de seu revólver
Ainda foge a fumaça
Ainda reflete no ouro
O céu e parte da praça
E o silêncio do momento
Só se quebra quando o vento
Diz: nem todo dia é da caça

E a fumaça do revólver
Como o sangue num punhal
Denuncia aquele tiro
Para bem ou para mal
Na fumaça o sangue arde
E se eleva ao fim da tarde
E avermelha o céu total

Como fosse por acaso
Jaz um corpo na calçada
Olhos negros como a noite
Como se não fosse nada
Vermelhos o chão e o céu
Sob a sombra do chapéu
Vêem a cena alcançada

Mas a noite vem chegando
No cavalo mais ligeiro
E aquelas botas de couro
Do par de olhos forasteiro
Se vão firmes ao cavalo
Sobem e partem no embalo
Pois a noite é seu terreiro

Uma Lua e as estrelas
Tímidas, da escuridão
Vão surgindo pouco a pouco
Vendo a estrela do chão
Está morto o xerife
Era um herói? Um patife?
Já foi vivo, hoje já não

Naquele cavalo branco
Galopando a noite insana
Sorri sob seu chapéu
Sob a Lua soberana
Se afastando da cidade
Sob vento e liberdade
Sorri leve Tatiana

Do alto de um penhasco
Alto como um arranhacéu
Procurando seus iguais
A fumaça busca o céu
E às nuvens se mistura
Para enfeitar a pintura
Do lugar, que é um painel

Dali de cima, Tatiana
Que já trocou sua roupa
Sentada olha pro mundo
Tomando um prato de sopa
Há tanto vivendo assim
Mas o Destino, por fim
Sua vida sempre poupa

No alto desse penhasco
Só uma árvore há
Nela um cavalo amarrado
Pra não fugir do lugar
É só um cuidado dela
Numa paisagem tão bela
Quem ia querer escapar?

E ela sorri para o mundo
Sorri pra Lua, pra Vida
Apaga a fogueira feita
Se deita ao chão estendida
Muitos dela iam ter pena
Mas, grata, ela ainda acena
À Natureza servida

Como cantigas de banjo
Raios dourados do Sol
Lhe vêm dourando o deserto
Dizendo: não estás só
E ela sorri lá por onde
Com olhos negros, responde,
Herdados de sua avó

Ainda era muito cedo
E a fogueira, no canto
Apagada, abandonada
Pra trás ela foi deixando
Some o dourado do dia
E o ouro permanecia
Em seu revólver brilhando

Corria como selvagem
O seu cavalo sem nome
Pelo deserto parece
Ser de vento a sua fome
De alma tão livre e ufana
Que se não fosse Tatiana
Não havia quem lhe dome

Ela nunca leva mapas
Nada lhe pode guiar
Sem Sol, estrelas ou setas
Livre como águia no ar
Atravessando o deserto
Sem ter um destino certo
Indo pra qualquer lugar

Por baixo do seu chapéu
Tão poucos anos de idade
Entre menina e mulher
Pára e a alegria invade
Sorri e some de vista
Tão logo ao longe ela avista
Parte pra nova cidade

A cidade é bem pequena
Como tantas por aqui
Com gente desconfiada
Com prédios por construir
E ela, uma forasteira
Vê a cidade inteira
Estranhando ela surgir

Enquanto ela entrava
Por um lado da cidade
E o povo fechava a cara
Com temor e ansiedade
Por outro, vinha ligeiro
Um bando de forasteiros
Perigosos de verdade

Cinco filhos do deserto
A poeira os pariu
Rudes, fortes e perversos
Armados, assim se viu
Que assim como Tatiana
Vagam sem rumo e sem grana
Com a vida por um fio

Ao adentrar a cidade
Pra conhecer o lugar
Como era seu costume
Tatiana vai ao bar
Como sempre nessa vida
Não é tão bem recebida
Mas só finge não notar

Mas o sorriso sincero
Que ilumina esse momento
Deixa a dúvida no ar
Será que é só fingimento?
A sua simplicidade
Parece ingenuidade
Da filha do Sol com o Vento

Lá fora o bando chegado
Para evitar problema
Está na delegacia
Rendendo todo o sistema
Pois assim, ao ir roubar
Ninguém vai atrapalhar
E a vitória será plena

Logo partem para o banco
Cinco armados forasteiros
Anunciando o assalto
Pedindo todo o dinheiro
Os funcionários com medo
Obedecem, sem segredo
Pra tudo acabar ligeiro

No bar está Tatiana
O barman e mais ninguém
Entediada com isso
Resolve sair também
O povo se escafedeu!
Ela paga o que bebeu
Com o pouco que ela tem

No caminho de saída
Daquela cidade triste
A sorte muda de rumo
E uma confusão assiste
Vêm os cinco forasteiros
Trazendo todo o dinheiro
Do assalto que ora viste

Debaixo de seu chapéu
Sorri Tatiana de novo
Pára no meio da estrada
Quando vem aquele povo
O cavalo ela pára
E os cinco ela encara
Como quem fita um estorvo

- Saia já da minha frente
Cavaleiro desgraçado
Outra opção: eu te mato
Se isso for do seu agrado
Se quiser uma disputa
Você não terá ajuda
Já prendi o delegado

O vento corta o silêncio
Com sua harpa aparente
O sorriso de Tatiana
Diz que ela não sai da frente
Encara sem medo ou pranto
E para causar espanto
Responde ela prontamente

- Ninguém mandará em mim
Eu só vim beber um vinho
Vocês que voltem por lá
Eu estou no meu caminho
E estou no meu direito
Vocês é que dêem jeito
De sumirem rapidinho

Dois do cinco prontamente
Engolem a gargalhada
Ao avistarem o líder
Com a cara enfezada
Salta do cavalo ao chão
Com o revólver na mão
E a arma carregada

- Se você foi beber vinho
Bebeu mais do que devia
Somos cinco, você uma
E com tanta valentia!
Mas temos tempo, eu sinto
Vamos ver se encara os cinco
Na cama da hospedaria

Ela levanta o chapéu
Mostrando seus olhos pretos
Trazendo o mesmo sorriso
Frente à falta de respeito
Sem temer, ela somente
Desce e dá um passo à frente
E responde desse jeito

- Não vou mais perder meu tempo
Com gente da sua laia
Eu vou contar até três
Pra que todo o grupo saia
Da minha frente num giro
Ou senão eu mesma tiro
Sei que são fogo de palha

Terminando a discussão
Os cinco se aborreceram
Botaram armas nas mãos
De seus cavalos desceram
Apertaram o gatilho
Mas suas armas sem brilho
Nunca mais obedeceram

Os cinco com ela na mira
No gatilho, dedo e urgência
Mas os tiros que ouviram
Na cidade em decadência
Vieram do outro lado
Ela fez, como um tornado
Cinco tiros em sequência

Logo após o tal barulho
Perdem a força na mão
Sem disparar um só tiro
Um a um, despenca ao chão
Tatiana vê seu feito
Uma bala em cada peito
Cada uma, um coração

Ela volta ao seu cavalo
Sem fazer qualquer esforço
Guarda a arma e olha o céu
Alongando o pescoço
Passa pelos forasteiros
Com seus sacos de dinheiro
Bota umas notas no bolso

Tatiana vai embora
Da cidade onde lutara
Com um sorriso no rosto
E a lembrança das falas
Sobrevivera por pouco
Em seu revólver de ouro
Só cabiam cinco balas

O Sol ficando mais forte
Ela cavalga igual
Recoloca cinco balar
No tambor e limpa e tal
O revólver ajustando
E sorri cantarolando
Qualquer cantiga rural

Segue livre no deserto
Como quem paga promessa
Seguindo o próprio caminho
Sem nada que a impeça
Sozinha no seu cavalo
Viaja pra todo lado
Mas que viagem é essa?

Sorri Tatiana assim
Sob esse céu sem medida
Como quem está nem aí
Brincando co'a própria vida
Nessas terras não há mais forte
E ela sempre vence a Morte
Pois da Sorte é protegida

Special: 

Não adianta galopar se o cavalo já morreu

A gente planeja a vida
Mas a vida faz seus planos
E nos arma desenganos
E nos deixa sem saída
Sem saber o que ocoreu
Temos que recomeçar
Não adianta galopar
Se o cavalo já morreu

Quando a queda vem ligeiro
Nos sentimos idiotas
Mas aceitar a derrota
Faz parte de ser guerreiro
Aceitar que já perdeu
Pra nova guerra ganhar
Não adianta galopar
Se o cavalo já morreu

O cavalo vem correndo
E tem medo de parar
Teme a morte lhe alcançar
Pois sabe que está morrendo
Mas a morte já venceu
Não tem jeito de enrolar
Não adianta galopar
Se o cavalo já morreu

Peixe-Boi no Deserto

Já fui ao fundo do abismo
E quase sobrevivi
Já estive junto aos deuses
Lá era como é aqui
Já vi futuro e passado
Só no meu quarto sentado
Quase de tudo já vi

Já me perdi numa reta
Desentortei a estrada
Já fui senhor de um reinado
Já lutei só e sem nada
Já aplaquei dois rivais
Já ganhei Nobel da Paz
Já forjei mi'a própria espada

Já enfrentei pesadelos
Já tive noites tão boas
Já criei mundos imensos
Criei seres e pessoas
Já protegi navegantes
Com raiva, noutros instantes
Já destruí mil canoas

Já forjei versos sublimes
Fiz do comum, diferente
Já expliquei pra transeuntes
O que quase não se entende
Fiz dormir feras astrais
Já acalmei vendavais
Fiz revidar quem se rende

Mas de que vale o poder
De com uma simples canção
O Sol ao dia trazer
[O] que posso ou fiz é em vão
Sou peixe-boi no deserto
Se no mundo de concreto
Não estou no teu coração

Special: 

Espelho

Vá pra frente do seu espelho
Para o seu querido mundo
O que você sempre quis
O que sempre te orgulhou
Ao olhar para este vidro
Não era apenas você
Tua imagem sempre fui eu

Vá pra frente do seu espelho
Do outro lado eu também vi
Os meus sonhos mais perfeitos
O que sempre procurei
Meus castelos colossais
Pensando ser eu, mas sei
Que o que eu via era você

Vá pra frente do seu espelho
Onde dois mundos se juntam
Nele há um novo rosto
Não o mesmo de quem olha
Nas diferenças, tão poucas
Somos de mundos iguais
Somos a imagem um do outro

Special: 

Fator X

Já quis que fosse o perfume
Que vem tão doce de ti
Que o vento ao te ver assume
Cores que nunca antes vi

Desejei fosse o olhar
Seu que me mete em apuros
Mas se é capaz de pasar
Os óculos mais escuros

Não é somente beleza,
Os gestos, cores da veste
Teu cheiro, esse rosto lindo

Minha única certeza
É que em você resplandece
O que não vejo, mas sinto

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