quadras

Papel Picado

Idéias espalhadas
Por ondas inconstantes
Rabiscos picotados
Lançados ao acaso

Um mundo revirado
Vai um pra cada lado
Sem nada, já que o todo
Faz parte da outra parte

Mas vagam os pedaços
Ainda esperançosos
Não perdem a vontade
De achar a identidade

-- Cárlisson Galdino

Mister Chip

Mr. Chip era um cara solitário
Que ficava horas lá com seu PC
Conhecia o mundo só pela web
Talvez nem conhecesse a própria face

Era um gênio ele na programação
E sozinho danou-se a crescer
Programava pra China e pro Japão
O melhor no que sabia fazer

E criou padrões e deixou patrões
Era um ídolo, um underground VIP
Lançamentos que arrastam multidões
Já um mito, até virou videoclip

Porém mesmo com todo esse sucesso
Ele andava inquieto noite e dia
Como se esse seu gênio fosse tanto
Que não baste o que o mundo oferecia

Procurando uma coisa que motive
Se isolou numa terra de água fria
Com um tablet, vendo o mundo branco
Escrevia a testar a maestria

Mais uns meses, a tese concluída
Sobre por as almas noutro lugar
Na internet, num mundo virtual
E o governo já quis experimentar

O processo migrava a alma viva
Pra um banco e era como matar
Não havia ainda volta conhecida
E isso o povo não iria aceitar

Procurou-se doentes terminais
E o projeto foi capa de jornal
E as pessoas ficando curiosas
É melhor que uma injeção letal?

Mais um tempo e já tinha os instrumentos
Feitos por cientistas num mesmo teto
Mr. Chip nesse tempo viajava
Palestrando, explicando seu projeto

Com o tempo, veio a preocupação
"Ainda não tenho nada de concreto!?"
Nas cobranças, o gênio retornou
Como antes, ser rápido e discreto

Os cientistas fizeram tudo errado
"Por que diabo eu deixei tudo isso aqui?"
Das palestras, ele não tirou proveito
Eram sempre tão poucos para ouvir...

Retomou então o tempo perdido
Tão veloz que até o cronograma antigo
Já estourado por outros cientistas
Antes do Dia D foi corrigido

No dia D, na exata hora marcada
A impressa filmou o prometido
A experiência foi feita finalmente
Enfim vinha o teste definitivo

Muitos olhos acompanhando atentos
Todo o mundo curioso co'aquilo
E depois do teste a grande baderna
E a cobaia, ninguém podia ouví-lo

Joaquim, um paciente terminal
Um sorriso num terminal mostrava
Transformado em programa, em VR
Do outro mundo ele se comunicava

"Cá é bom, mas me sinto meio estranho
Mas já foi a dor que me incomodava
Estou leve e pensando mais veloz
Eu, doutor, nem sabia o que era Java!"

A conquista virou a sensação
Discutida por todos pelas ruas
Na Internet, entraram dessa forma
Uns milhares, numa semana ou duas

Anos passam, e o gênio acompanha
Nova lei sendo vista no Senado
Pois com tempo, essa tecnologia
Já era algo bastante mais barato

Desse jeito, essa lei em andamento
Garantia o direito pelo Estado
Contra a Morte, a vitória finalmente
Ninguém morre: só é digitalizado

O projeto de lei foi aprovado
Transformando o mundo naquela hora
Numa década, creia se quiser
Tinha mais gente n'web do que fora

Entre livros e muitas homenagens
Prêmio Nobel, canções, cinema e tal
Mr. Chip ia ficando mais velho
Como no ser humano é natural

Finalmente, sentiu chegada a hora
De dar tchau para toda essa gente
Para que sua grande criação
Fosse útil ao criador finalmente

Empolgado, ele já esperava
Toda a vida esperou esse momento
Finalmente havia chegada a hora
E o doutor aciona o equipamento

"Mr. Chip, cara, cadê você?"
Ele ouve e não sabe o que dizer
Sem saber onde está, como chegou
Mas já pode ver bem o monitor

A falar tudo o que ele não diz
Vê a imagem como num sonho mal
Quem diria, o processo grandioso
Deu ao gênio um clone digital!

-- Cárlisson Galdino

Special: 

Quem és?

Quem és, tão bela donzelaLágrima Lunar
Que delira ao canto de minha lira
E entra em transe tropical
E dança sob a luz lunar

Quem és, menina lupina
Que em brasa sobre as águas rasas
Dança a dança de Diana
Pelas nuvens se balança

Quem és, princesa da Lua
Que dança com seus passos nua
E me concede a luz desse momento
E faz girar mais forte o forte vento

-- Cárlisson Galdino

Engenho: 
Special: 

Barroca

Cuidado com esse frio da outra cidade
Que vontade de fugir pra te ver...
Por que não volta logo, ah que saudade
Nem sei o quanto gosto de você...

A vida é mesmo estranha em mar aberto
Toda a vida escolhi por onde ir
E quando me perdi, sem rumo certo
Foi que me vi bem diante de ti

A vida é mesmo estranha e acontece
Toda uma vida longe de você
E em tão pouco que a gente se conhece
Quanta necessidade de se ver

Ah, mas nos conhecemos já faz anos!
A vida é mesmo estranha, a vida é louca
Nos brinda, nos confunde, nos gostamos
Repleta de contradição barroca

-- Cárlisson Galdino

A Menina das Estrelas

Sempre que ela adormeciaLágrima Lunar
Ela buscava as estrelas
Nos sonhos, na fantasia
É onde queria estar

E a vida era poesia
Olhos fechados, sorriso
Mas enfim amanhecia
Não tinha como evitar

E a vida de correria
De olhos abertos que era
Problemas do dia a dia
Tão ruins de solucionar

Na lembrança ela só via
Estrelas, Lua e cometas
Do momento em que dormia
Saudades desse lugar!

O mundo só contraria
Quis lhe tirar a esperança
Mas ela não desistia
De sonho, estrela e luar

Acordada ou se dormia
Gostava tanto de estrelas
Eram a sua alegria
As estrelas a brilhar

Tanto ir ao espaço queria
Visitá-las acordada
E já que ir não podia
Quem sabe venham pra cá

Quem sabe num belo dia
Chegando perto do espaço
Sorrindo estrelas colhia
Para fazer um colar

-- Cárlisson Galdino

Special: 

Rio sem Crimes

Traficantes vem com armas da polícia
Com seus crimes limpando toda a cidade
E o escândalo é desfeito na notícia
E fingimos todos que isso é novidade

No final, não há certeza da verdade
Se pararmos pra pensar por um segundo
A "notícia" era uma necessidade
O dever de casa da Copa do Mundo

Todos sabem que esse crime é só sintoma
De um gigante esquema de corrupção
Que há décadas pinota e ninguém doma
O sintoma sumiu da televisão

Pode até ser esta mesmo a situação
Dos poderosos que estão por traz de tudo
Se essa copa dá mais lucro pro ladrão
Por 5 anos o tráfico esteja mudo!

-- Cárlisson Galdino

A Palavra do Bardo

Quem espera a poesia
Como feia e vazia
Co'uma cara de fastio
Os meus versos nunca viu

Em meus versos trago estrelas
Flutuando livres pelas
Estradas belas do espaço
Dançam sem errar um passo

Nelas trago o pergaminho
E a magia abre caminho
Pros meus versos, de três bases
Que são versos, não são frases

-- Cárlisson Galdino

Special: 

O Melhor do Mundo

Conheci um cordelista
Que lançou só dez cordéis
Se gabando ele de ter
O melhor cordel do mundo

Mas espere um segundo!
Naquela mesma cidade
Na rodoviária vende
Obras bem mais grandiosas

E pensando nesse mundo
Me pergunto: quem julgou?
Se é um ou outro melhor?
O mundo já analisou?

Para o mundo decidir
O melhor, tem que escolher
Será que ele analisou
Todo e qualquer concorrente?

Que critérios que ele usa
Para essa avaliação?
Qual com escolas de samba
Separam e pontuam à mão?

Foi assim que de pensar
Concluí com meus botões:
Pra ser o melhor do mundo
Basta alguém acreditar

-- Carlisson Galdino

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