Produzindo Podcast com Software Livre

Podcastelo

Se você não conhece ainda o conceito de Software Livre ou de Open Source (sendo os dois diferentes um do outro), recomendo que ouça o Politicast 51, 52 e 53 e que leia os artigos do Anahuac. Pra resumir, Software Livre é uma linha ideológica dentro da Tecnologia que prega que os programas de computador são ciência e devem ser compartilhados, que a apropriação do conhecimento em torno deles seria antiética. É um resumo bem por alto pra adiantar a discussão, mas recomendo que veja os links que passei.

Podcast espero que você já saiba o que é. É o que chamam de “um programa de rádio na Internet”, mas que é melhor definido, como diz o Leo Lopes, como “Personal on-demand”. Como eu gosto de dizer, é “um blog cujo principal conteúdo não está nas postagens, mas nos anexos, que são em arquivos de audio”.

A produção de um podcast passa por alguns estágios. Desde a concepção do programa, convite aos participantes e construção da pauta até a publicação do arquivo já pronto,, o que deve ocorrer em um blog ou, ao menos, em alguma solução web que ofereça um arquivo feed RSS com os episódios. E entre pauta e publicação temos, claro, gravação e edição. O bom é que dá pra fazer tudo isso sem necessidade de instalar softwares proprietários (como chamamos os programas não-livres, sejam gratuitos ou pagos, o que torna essa história de proprietários X livres ainda mais confusa pra resumir: veja aqueles links…).

Preparação

O planejamento do episódio é a coisa mais simples de se fazer, tecnologicamente falando. Você pode utilizar até mesmo um arquivo de texto plano no seu computador ou smartphone. As pautas do Politicast eu tenho montado como tópicos simples. Você pode preferir algo mais elaborado, como mapas mentais. Em todo caso, há soluções livres que ajudam, com vantagens e desvantagens próprias a cada uma delas.

Owncloud: esta é uma solução de nuvem pessoal (é, tipo “um Dropbox”), mas oferece editor de texto. Como se trata de uma solução e não de um serviço necessariamente, você tem duas opções para usá-lo: pode procurar um serviço existente (pago ou gratuito) ou pode instalar em um servidor seu (caso tenha essa condição tecnológica). Assim, você pode criar as pautas e compartilhar com usuários que estejam cadastrados no mesmo servidor que você, o que é especialmente útil para compartilhar pauta entre participantes fixos.

Etherpad: este é outro software livre também muito bom, mas com outra finalidade: é um gerenciador de documentos compartilhados. Você cria um “pad” (que funciona como um arquivo de texto disponível na rede e editável no navegador) e qualquer pessoa que tenha o link para esse “pad” poderá editá-lo também, inclusive ao mesmo tempo que você. Também oferece um chat entre os editores. Assim como acontece com o Owncloud, você pode tanto procurar um serviço de Etherpad gratuito quanto instalar seu próprio servidor.

FreeMind ou FreePlane: são softwares para construção de mapas conceituais. Eles podem ser bem úteis para a criação de pautas por permitirem agrupar visualmente tópicos, citações, imagens (incluindo memes) em uma tela que dá visão geral. Os dois softwares são para desktop e em Java, ou seja, seu uso envolve gerar uma imagem com a pauta-mapa final para ser compartilhada entre os participantes (a menos que você prefira controlar toda a pauta sozinho, o que podcasters fazem também).

Gravação

Este é o ponto mais sensível da produção de podcast se você pretende se ver livre de soluções proprietárias. Para isso, vamos considerar 3 forrmas de gravar um episódio, ok? Você pode gravar de forma presencial, de forma remota e assíncrona ou de forma remota e síncrona (ao mesmo tempo). Para a forma presencial é simples: você talvez tenha um notebook já com programa de gravação instalado, ou um celular com aplicativo de gravação. Se quiser uma gravação mais sofisticada, precisará de equipamento caro devidamente instalado e configurado. Uma vez feito isso, pronto, já pode gravar. Não há muito o que dizer sobre gravação presencial (ao menos para propósito deste artigo). Em último caso, você pode comprar um gravador digital e utilizá-lo.

Para gravação assíncrona, cada participante pode gravar um segmento de audio e mandar por e-mail, mas isso torna tudo muito chato, trabalhoso e difícil, de modo geral. Uma boa solução é utilizar uma ferramenta de comunicação como o Telegram. O Telegram vai organizar os arquivos de audio na sequência em que foram enviados. Cada um ouve os audios anteriores antes de gravar o seu, o que pode ser feito utilizando o próprio Telegram, sem necessidade de aplicativo adicional. Para esse tipo de gravação, é interessante que os participantes estejam em um grupo específico para essa finalidade, pra facilitar a “colheita” dos audios depois. Ah, sim, o Telegram é controverso porque o servidor não é livre. O aplicativo cliente, porém, é livre e, ao menos por enquanto, Telegram é a melhor opção que nós temos para comunicação dessa forma.

Para gravação síncrona costumam utilizar por aí o Skype com uma “gambiarra gravadora” pra poder funcionar. O mundo do Software Livre nos dá uma opção mais interessante, menos falha e muito mais elegante que esta. Trata-se do Mumble. Mumble é um software para conversação em voz baseada em sala. É um tipo de software bastante utilizado por gamers que jogam em rede. O Mumble em particular oferece excelente qualidade de audio e compressão, além da maravilhosa funcionalidade de gravar a partir do próprio software, inclusive com opção de gravar multifaixa, onde para cada participante da conversa haverá um arquivo de audio próprio separado, e todos estarão sincronizados quando importados no editor. A desvantagem é que se trata de um software cliente/servidor e você precisa de um servidor para poder utilizá-lo. Existem serviços gratuitos disponíveis e você pode contratar um servidor pagando mensalmente caso tenha dificuldade de implementar um servidor exclusivo.

Edição

Software livre para edição de audio é o quesito mais conhecido deste artigo. Mesmo que não saiba que se trata de um software livre, quase todo produtor de podcast já conhece ou pelo menos ouviu falar do Audacity. Editor multifaixa, com vários efeitos disponíveis (fades, normalização e remoção de cliques, por exemplo, são essenciais). Pode ir com Audacity, que ele é utilizado até por alguns podcasters tradicionais.

Finalização

Tudo bem, você já tem o arquivo de audio (provavelmente um mp3 ou ogg vorbis). E agora? Bom, você precisa criar a capa do episódio. Para isso recomendo o Gimp ou Inkscape. Considero o Inkscape mais bacana para esta tarefa já que se trata de um editor de imagens vetoriais, mas o Gimp é mais organizado se você não tiver muita experiência com edição de imagens.

Um truque realmente bacana e amplamente desconhecido é o uso de capítulos no episódio. É um recurso que permite dizer em que momento do audio inicia a conversa sobre cada tema. Bons aplicativos de gerenciamento de podcast suportam capítulos e facilitam nossa vida, principalmente quando precisamos encontrar uma parte de um programa que já ouvimos e queremos mostrar pra alguém. A solução que utilizo para esta finalidade (e que o @aurium me ajudou a dominar) é o ffmpeg. Anexo a esta postagem segue o arquivo que utilizei como base para definir os capítulos do Politicast #69 /News. O comando para aplicá-lo foi:

ffmpeg -i politicast-69-news.mp3 -i politicast-69-news.txt -map_metadata 1 -c:a copy -id3v2_version 3 -write_id3v1 1 politicast-69-news-c.mp3

Com isso eu criei o arquivo com capítulos (que costumo salvar com sufixo ‘-c.mp3’). Utilize o comando e o arquivo em anexo para entender como funciona, para brincar e tentar aplicar capítulos no seu podcast também! :-D

Para aplicar a imagem de capa diretamente no arquivo de audio eu uso o EasyTag.

Publicação

Publicar não é complicado, pelo menos o blog. O problema principal é a publicação dos arquivos de audio, que por serem um tanto grandes podem estourar sua banda fácil, fácil. Uma boa solução para isto é o Archive.org, que permite armazenar os arquivos por lá.

Para o blog você pode escolher a opção que mais te agrade. Dependendo da solução, você pode ter mais ou menos trabalho para adequar o feed ao iTunes, por exemplo. O Wordpress tem plugins próprios para podcast e facilita boa parte deste trabalho.

Podcastelo

Se você gostou do que leu até aqui e se já produz um podcast só com software livre - ou pretente produzir um – talvez você queira participar do grupo @podcastelo no Telegram. É um grupo criado justamente para podermos trocar ideia sobre técnicas e ferramentas para a criação de podcast desta forma, com liberdade. Apareça por lá! :-)

Parasita

- Como é isso de parasita alienígena?

Os médicos trocam um olhar como quem jogam jokenpô mental para decidir quem fala. Um deles se prontifica.

- Identificamos esse espécime em seu cérebro.

- Ai meu Deus! No meu cérebro!? Eu vou morrer!?

Após outra troca de olhares o outro médico é que responde.

- Na verdade... Acreditamos que o parasita seja você.

Alan, um dos médicos, mais precisamente o mais jovem, de cabelo quase raspado, o que falara anteriormente, se arrependeria para o resto da vida por não ter fotografado o momento. Por anos se lembraria da expressão do paciente Maciel como uma das expressões faciais mais engraçadas que já viu na vida.

- Vocês... Estão de sacanagem, né? - Maciel pega o celular rapidamente e aciona a tela. Olha pensativo e nem chega a colocar a senha de desbloqueio. - Como é que... Parasita!? Quer dizer agora que eu sou alienígena, é isso?

- É complicado... - Peres, o médico gordinho de cabelo branco deixa escapar num suspiro.

O tempo passa lentamente enquanto os três passeiam os olhos pela sala do consultório, como quem procura alguma coisa para dizer. A estante com duas prateleiras cheias de livros não ajuda muito nessa procura, talvez pela distância...

- Isso não faz nenhum sentido. - Maciel passa a mão nos cabelos angustiado. - Primeiro, eu tenho um parasita dentro de mim.

- Alienígena.

- Depois, eu que sou o parasita!?

- Alienígena.


- E eu estou parasitando o quê!? Nunca ouvi falar de parasita-pessoa.

- Pessoa não, ali...

- Tá! Caramba! Já entendi! Que porra de parasita é esse!?

- Precisamos que você se acalme.

-Tudo bem! Tudo bem. Estou calmo.

- Olha. - Peres tira uma folha da gaveta e coloca sobre o birô.

- O que é isso?

- Seu cérebro.

Maciel olha atentamente. Coça o queixo e olha mais um pouco. Ergue os olhos para ver se Peres e Alan estão rindo da cara dele. Baixa o olhar novamente para aquela imagem de um cérebro dentro de um crânio.

- Tá, e o que é que tem?

- Use isso. - Peres estende uma lupa.

Relutante, Maciel aceita o desafio e coloca a lupa para aumentar seu próprio cérebro.

- Eita!

- Consegue ver?

- Tem uma parte aqui que tem um emaranhado meio diferente. É isso!?

- Sim.

- Tá, e como sabe que isso é um alienígena? Pode ser uma mutação, uma cristalização ou...

- Você é filho de Luísa, não é? Luísa Sóira...

- Sou, você a conheceu?

- Sim, você sabe o que ela fazia?

- Trabalhava num laboratório, no Polo Sul eu acho. Olha, nem conheci minha mãe direito. O que isso tem a ver?

- Ela estudava espécimes alienígenas.

- Tá, vamos parar com essa história. O que você está chamando de alienígena exatamente?

- Formas de vida não pertencentes à Terra.

- E como porra se encontrava alienígena nos anos noventa, cacete!?

- Você faz ideia de como se encontra hoje? - Alan finalmente volta à conversa.

- Não! Como?

- Do mesmo jeito que em 80 ou 90: asteroides, meteoritos...

- OVNIs... - Peres completa.

- É, OVNIS também. Mas são poucos os relatos acompanhados de amostra. De qualquer forma, não importa. Você sabe que sua mãe morreu pouco antes de você nascer.

- Sim, ela teve câncer de... Espera um pouco! Vocês querem dizer que o que matou minha mãe...

- Suspeitamos que o parasita tenha entrado no feto e se mesclado a ele.

- Então eu guardo esse bagulho desde que nasci!?

- Desde um pouco antes, se estivermos corretos.

- E não tem como tirar isso de mim?

- Acho que você não entendeu. É possível que esse parasita alienígena tenha se mesclado de tal forma com seu cérebro que hoje viva em simbiose e, na verdade, a parte central, a que define quem você realmente é, não seja humana. Se você fosse um computador, é como se o processador fosse alienígena.

- Na verdade, seria o HD. - Alan corrige o outro médico. - O HD é onde ficam armazenados todos os dados e o Sistema Operacional.

- Sim, mas antes de ser guardado, tudo existe na memória, não?

- É, mas...

- Gente! Será que dá pra parar de discutir tecnologia!? O que é que faço agora!?

Os dois médicos se olham mais uma vez e é Alan quem responde esta:

- Tem um bar a dois quarteirões daqui...

P. S.: Publicado no Wattpad.

Wattpad e Podcasts e Contos de Natal

Se você não sabe, tenho um podcast tratando de política, o Politicast! Ele tem tido publicações mais ou menos em dia. Se você também não sabe, existe um projeto de financiamento social estilo patronato chamado Padrim. O Politicast está lá no Padrim, para quem quiser e puder contribuir financeiramente com o projeto. O que vir a receber dessa forma será investido em equipamentos simples (headsets e gravadores digitais, por exemplo) e publicidade (não apenas do podcast, mas reforçando a importância da boa política). De qualquer forma, embora esperemos ter alguns patronos no futuro, uma das razões de colocar o Politicast no Padrim foi que funciona também como uma forma adicional de divulgação do projeto. Tanto é que foi assim que eu conheci o Wattcast.

O Wattpad é um serviço de "rede social para escritores" que permite escrita e publicação dos livros através da própria ferramenta. É bem provável que haja uma descrição melhor que esta para o serviço, caso sinta falta procure mais a respeito no site do do Wattpad. Pois bem, o Wattcast é um podcast que trata do micromundo do Wattpad. Como um podcast literário, seu conteúdo varia entre dicas gerais para escritores (independente da ferramenta utilizada) e dicas mais específicas ao mundo do Wattpad. Venho acompanhando o podcast e recomendo.

Pois bem, agora vamos ao que eu gostaria de falar. A equipe do Wattcast lançou um concurso de conto de Natal. Escrevi especificamente para este concurso o conto Pesquisa Espacial, que terminou ganhando por pouco. :-) Então, é isso. Feliz Ano Novo! Que tenhamos um 2017 tão bom quanto possível nessa conjuntura do cão. E vejam lá o Politicast, o Wattcast, o Wattpad e a Pesquisa Espacial, se ainda não viram. Até ano que vem!

-- Cárlisson Galdino

P. S.: Imagem do post é do Wattcast (mas acho que nem precisava dizer).

Anti-Política

Você pode estar sofrendo com a crise econômica atual. Pode estar indignado com o que certos políticos fazem com o dinheiro público. Pode até querer botar a culpa no PT (embora deva ser informado que ele tem parte da culpa). Mas por favor não venha com essa de todo político é corrupto ou nenhum político presta.

Primeiro porque existem sim políticos que não entram nesses esquemas de corrupção. No mínimo, aqueles de partido ideológico que raramente chegam ao poder, mas acredito que haja mais do que esses. Políticos assim enfrentam dificuldades para se elegerem, dificuldades para exercerem suas atividades em um ambiente de corrupção institucionalizada. Quando você os iguala com os corruptos, além de ser injusto, você arruina a vida de quem já enfrenta dificuldades demais no dia a dia.

Segundo porque a Política é a conversa, a busca pelo meio termo, a negociação, a mediação. Em uma Democracia é saudável termos grupos com visões diferentes debatendo para chegar a uma posição comum. O debate em busca de soluções é a essência da Democracia. Quando se retira a Política de cena o que sobra é o Autoritarismo. O Fascismo e o Nazismo nasceram em ambientes assim, de anti-política.

Não existe fórmula mágica ou solução milagrosa. O cenário político brasileiro só ficará mais saudável com envolvimento e estudo da população sobre o que é Política e sobre como os poderes funcionam, com acompanhamento do que seus representantes estão fazendo e com cobrança constante. Sim, isso leva tempo. Muito tempo, mas buscar atalho nesses assuntos é garantir a enorme chance de chegar onde você nunca quis.

Imagem da postagem: Otpor!, de Calvin Webster;

Special: 

Os 4 Pilares da Consciência


 

Quando Michel Temer assumiu, ainda interinamente, a Presidência da República, várias coisas me chamaram a atenção. Além da falta de mulheres entre os novos ministros, da nomeação de Alexandre de Moraes (que mandou a polícia de São Paulo bater em professores) como Ministro da Justiça, o fim da Controladoria Geral… Me chamou a atenção como ele tentou atacar, de uma só vez, os que poderiam ser considerados os quatro pilares da formação da consciência.

A educação: a simples nomeação de Mendonça Filho, aquele que entrou no STF (e perdeu, ainda bem) contra a política de cotas nas universidades. Que é do Democratas, partido que se coloca contra muito do avanço que a Educação teve no país.

A cultura: não precisa nem falar. Temer extinguiu o Ministério da Cultura e só voltou a recriá-lo porque “deu ruim” pra ele.

A informação: de cara, Temer trocou (ilegalmente) o presidente da Empresa Brasil de Comunicação, quem mantém, entre vários veículos, a TV Brasil. No espectro de TV aberta, a TV Brasil era a única que tentava mostrar os dois lados da disputa contra/a-favor do impeachment/golpe. Com cientistas políticos comentando as manifestações e posicionamentos, bons programas de entrevista. Pois bem, os cientistas políticos foram mandados embora e os programas de entrevistas acabaram em poucas semanas.

A comunicação: alguns comentários de sua equipe se colocavam “contra a Internet”. Incluindo comentários sobre a necessidade de cadastro com CPF para poder comentar em qualquer site.

Esses quatro ataques, em conjunto, desde o início, não vêm por coincidência. De lá pra cá já aconteceu muita coisa. O MEC está tentando alterar a grade curricular do Ensino Médio, cortando matérias como Sociologia, Filosofia e História. A EBC teve seu Conselho Curador desfeito e trocado por um Conselho Administrativo. Leia-se: “sai fora sociedade civil. Quem manda agora é o Governo”. Assim a TV Brasil deixou de ser Pública e se tornou Estatal, caminhando para se tornar mais ou menos o que é hoje a TV Cultura, aparelhada em São Paulo com a Folha e Veja mandando lá dentro.

Agora querem congelar os “gastos” com serviços públicos por 20 anos, sem colocar impostos no andar de cima e sem questionar a Dívida Pública.

Fiquemos atentos aos próximos capítulos. Governos ilegítimos não costumam ter paciência com pensamento discordante. “Escola Sem Partido” (leia-se: de partido único, sem espaço para contestação dos conservadorismos) parece ser a próxima jogada.

-- Cárlisson Galdino

O Elixir

Um pingo de luz desliza
Por seu corpo indescritível
Ao som de divina banda
Tocando um metal-canção

Sabes que em meu coração
Teu olhar manda e desmanda
Com comandos de alto nível
Nem mesmo falar precisa

Desse Sol nos vem a brisa
Faz seu corpo transparente
Mas no toque sei te ver

Deixa o tempo transcorrer
Se entregue a mim totalmente
Que o Amor imortaliza

-- Cárlisson Galdino

Regime Temeroso #01

Semana passada o Brasil iniciou uma nova era, a Era da Temeridade, segundo Bemvindo Siqueira em seu canal do YouTube (vale a pena ver). Também criei uma nova categoria aqui no site: Golpe de 16. Nela, você encontrará tudo o que escrevi e publiquei (por enquanto, muito pouco) por aqui sobre o golpe ocorrido este ano.

Pois bem, o Regime Temeroso é uma nova série de Cordéis.com. Desta vez, uma série em cordel! Não tem periodicidade certa (por enquanto), mas confira aí! Espero que goste!


No dia 12 de maio
Em 2016
De repente, como um raio
A madrugada se fez
E não se sabe dizer
Quando é que o Sol vai nascer
Para haver dia outra vez

Foi uma conspiração
De elite, banco e revista
Rancor da oposição
Um congresso oportunista
Ambição, ódio e dinheiro
Daqui e do estrangeiro
Um sentimento fascista

Pra não ter corrupção
Pois era esse seu lema
Surgiu uma multidão
Sem entender o sistema
Gritando e fazendo pose
Sob efeito de hipnose
Pra "resolver o problema"

Terminaram conseguindo
O que essa corja queria
Após cada estágio findo
Se aproximava esse dia
"Combater corrupção
Dando o poder a ladrão"?
Piada, golpe, enfim, fria

Foi pela força da imprensa
Manipulando inocente
Que veio a triste sentença
Botando assim, de repente
Na Câmara e no Senado
O vice autovazado
Traidor pra presidente

-- Cárlisson Galdino

Para o Bem da nossa Educação

Era uma vez, numa terra distante, de maus governantes, preconceito e opressão, um conjunto de deputados que elaborou e votou uma lei para impor “tradição”. Desde aquele dia, professores não poderiam mais falar sobre temas polêmicos em sala de aula. Nada que desagrade certos grupos políticos, certos preconceituosos e certas religiões. E assim era aula a partir de então...

Na aula de hoje
De Biologia
Veremos que um dia
Muito tempo atrás

Homens naturais
Nenhum existia
Na terra se via
Só seus ancestrais

Quaisquer animais
(Pois nada igual fica
Genética explica)
Sofrem evolução

- Não pode não! Isso é doutrinação!
- Cale o professor pro bem da nação!
- Os deputados já disseram: não!
- Tudo pro bem da nossa educação!

O aluno Odair
Não gostou do tema
Mas não tem problema
Vamos pra outra agora

Na aula de História
Vamos ver de fato
Em 64
Como foi o enredo

O mundo com medo
Do tal Comunismo
Assim num abismo
Saltou o Brasil

O exército, vil
Resolveu bater
Tomando o poder
Num golpe de estado

- Não pode não! Isso é doutrinação!
- Cale o professor pro bem da nação!
- Os deputados já disseram: não!
- Tudo pro bem da nossa educação!

Desculpa, Sofia
Que besteira, gente
Seu pai é tenente
Esqueça isso, então

Vai ter revisão
Pra não ter intriga
Lá pra Grécia antiga
Da Filosofia

Cês sabem que havia
Em Atenas o ensino
Com mestre e menino
Sendo o aprendiz

Mas o que se diz
Do ensino informal
É que era normal
A pederastia

E mesmo se havia
Devemos aos gregos
Cultura e segredos
Escola e ciência

- Não pode não! Isso é doutrinação!
- Cale o professor pro bem da nação!
- Os deputados já disseram: não!
- Tudo pro bem da nossa educação!

Kássia, sua família
É do culto e prega
Que a vida gay leva
Sempre à perdição?

Desculpe-me então
Avanço a História
E vamos pra hora
Das grandes cruzadas

A Igreja em jornadas
Pelo exterior
Depois foi pior
Com a Inquisição

Com morte, opressão
Parece loucura
Ter tanta tortura
Em nome de Deus

- Não pode não! Isso é doutrinação!
- Cale o professor pro bem da nação!
- Os deputados já disseram: não!
- Tudo pro bem da nossa educação!

Wando, isso é mentira?
Tortura não teve?
E paga quem deve?
Morreu quem devia?

Vou pra Geografia
História mais não
Abram na sessão
Sobre a Inglaterra

Um tanto de terra
No mar recolhido
Forma o Reino Unido...
Oi, Riko? Pois não!

Bacana a questão!
Ainda hoje em dia
Há a Monarquia
Que hoje tem lá

E é parlamentar
Vejam na tabela
Pois mostra bem nela
O gasto e progresso

Cada país, peço
Pra comparar bem
Dizendo se tem
República ou rei

Trabalho que eu dei
Deem opinião
Qual melhor gestão
Pra nos governar

- Não pode não! Isso é doutrinação!
- Cale o professor pro bem da nação!
- Os deputados já disseram: não!
- Tudo pro bem da nossa educação!

Esqueça o trabalho
De Geografia
Pra Biologia
Volto com certeza

Pois na Natureza
Existe harmonia
Em tudo… Sofia?
Cê quer perguntar?

Se entre bichos há
Gays como os humanos?
Pois então, vejamos
Você e os demais

Entre os animais
Tem poucos, mas tem
Entre eles também
Sei que é natural

- Não pode não! Isso é doutrinação!
- Cale o professor pro bem da nação!
- Os deputados já disseram: não!
- Tudo pro bem da nossa educação!

Ô Kássia, de novo
Eu falei “besteira”
Por favor não queira
Ter raiva hoje não

Mudando de mão
Vamos pra cultura
Pra Literatura
Que mal eu não fico

Olha só! O Chico!
Vamos ler então
O “Chama Ladrão”
E interpretar

- Não pode não! Isso é doutrinação!
- Cale o professor pro bem da nação!
- Os deputados já disseram: não!
- Tudo pro bem da nossa educação!

Sofia, está bem
Foi só dessa vez
Vou pro Português
Não falo mais disso

Hoje o compromisso
Para este momento
É de tratamento
Que gênero usar

Uriel, quer falar?
Se é masculino
Ou se é feminino
Que se deve usar

Quando precisar
Falar com José
Que virou mulher
Como proceder?

O que sei dizer
Questão de respeito
É chamar do jeito
Que o outro quiser!

- Não pode não! Isso é doutrinação!
- Cale o professor pro bem da nação!
- Os deputados já disseram: não!
- Tudo pro bem da nossa educação!

Turma, me perdoe
Não dá pra ensinar
Eu vou me mandar
Vou ser camelô

A lei que chegou
Não dá mais espaço
Não sei o que faço
Pra ensinar direito

Já vou, não tem jeito
Desejo boa sorte
A quem se comporte
Qual fosse um robô

Sei que assim não sou
Mas no nosso estado
Quer um deputado
Uma escola plena

Que é grande e pequena
Um sonho divino
De terem ensino
Sem ter professor

-- Cárlisson Galdino

Gênero: 

Do Golpe de 16 ao Autoritarismo

O golpe se concretizou. Utilizando argumentos forçados (ouça o Lexcast e a fala mais recente do desembargador Tutmés Airan no Agreste à Esquerda – spinoff do Politicast – se ainda tiver dúvidas quanto a isso), defesas que fugiam do assunto tanto na Câmara (pela família, por Deus e pelos criminosos do outro golpe) quanto no Senado (contra o desemprego, pela mudança…), o golpe aconteceu.

A princípio não me parecia um golpe tão semelhante ao militar de 64, mesmo porque militares não foram utilizados. Era um golpe branco, como anunciava/denunciava ainda em 2014 o neto de João Goulart. Quase dois anos depois, terminou acontecendo. Alguns sinais de intenção autoritária já começam a preocupar.

Primeiro, a opressão de revoltosos. Ainda não aconteceu, mas será inevitável. As medidas ultraneoliberais do presidente interino e seus amigos vão levar vários setores da sociedade às ruas, é inevitável. Acontece que quem for às ruas encontrará a Lei Anti-terrorismo (aprovada pela Dilma) e o Ministério da Justiça nas mãos de Alexandre de Moraes. Para quem não lembra, era até poucos dias atrás o Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Aquele que botou a polícia para bater nos estudantes, que protestavam contra o fechamento de suas escolas (e ainda bota). O mesmo que bota a polícia para bater em manifestantes e jornalistas que cobrem uma manifestação. O mesmo que, depois da ação truculenta da polícia sob seu comando, não se constrangeu com as críticas e disse que a população apoiava seus atos. Pois é, junte esse Alexandre com a referida lei e bingo! Você reinventou a pólvora!

E o outro aspecto marcante de autoritarismos: a censura sobre a informação. Os maiores veículos de comunicação do país, como é sabido, pertencem a poucas famílias, que são também algumas das mais ricas. Como também é sabido, esse golpe branco já nasceu com amplo apoio desses grupos midiáticos. Eram poucos os que contrariavam a narrativa deles, baseada em um só lado da história, calando o debate e cultivando o ódio. Na TV comercial, não soube de alguém que quebrasse esse discurso. Quem são as emissoras comerciais afinal? Aquelas pertencentes às tais famílias mais ricas, com programação diversificada, e aquelas várias que vendem sua programação quase inteira para publicidade e programas religiosos. Quem sobra para fazer contraponto? A TV pública! Temos dois grandes veículos neste sentido: a TV Cultura e a TV Brasil. A primeira está totalmente sob controle do Governo de São Paulo, chegando a ter até mesmo programa conduzido pela Folha, sem contar que o famoso Roda Viva hoje está nas mãos de um colunista da Veja. Resta só uma. Somente a TV Brasil (e a rede a ela afiliada) têm coberto protestos dos dois lados, tem discutido com analistas políticos todo o processo de impeachment, inclusive com falas esclarecedoras, abrindo espaço para petistas, medebistas e tucanos. Nos últimos lances, inclusive, denunciando claramente os sinais de golpe (sem discurso único, com convidados discordando deste ponto de vista, outros concordando).

A TV Brasil, para quem não sabe, é mantida pela Empresa Brasil de Comunicação, que se pretende independente de interesses comerciais, político-partidários… (a favor da Sociedade, enfim, uma TV pública) tem um presidente de mandato fixo e um conselho curador com representantes da sociedade participando ativamente das decisões. Pois bem, começaram a veicular na imprensa suposições sobre um novo nome para a presidência da EBC. Pasmem! Mal se concretizou o golpe, querem tornar a TV pública em TV governamental! E assim, acabar com esta ameaça à narrativa global sobre o impeachment. O tema foi tratado ontem à noite no programa Ver TV (será reprisado de quarta para quinta).

Dias sombrios virão. Precisamos de muita força e posicionamentos claros, muita luta, para que esse golpe não se consolide ao cabo dos 180 dias.

Imagem do post: Wikipédia.

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